Gameterapia

realidade virtual ansiedade game jogo

O uso de realidade virtual e realidade aumentada têm sido cada vez frequente no desenvolvimento de novos tratamentos para transtornos mentais. Já é relativamente consolidada a utilidade de realidade virtual no tratamento de exposição para fobias, por exemplo.

Recentemente foi lançado em uma feira de videogames um jogo para ser usado com óculos especiais de realidade virtual, cujo objetivo é o controle de sintomas de ansiedade. O nome do jogo é DEEP. Nele, o usuário deve controlar sua respiração para explorar um mundo subaquático colorido e relaxante.

It’s based on the same sort of deep breathing exercises that many anxiety sufferers—and meditation/yoga enthusiasts—are already familiar with, coupled with immersive visuals and audio that make you feel like you’re suspended in a dreamy, underwater world. A belt secured around your body senses when you inhale and exhale, causing you to “rise” and “fall” rhythmically within the water as you explore a “zen garden” of coral and colored lights.

A ideia parece ser ótima. Resta saber o valor terapêutico disso em estudos controlados.

Encontrei aqui: Virtual reality creator hopes to treat anxiety attacks

(Esse ano espero divulgar um projeto pessoal com realidade virtual/aumentada que deve chamar a atenção. Mas são cenas dos próximos capítulos.)

:: Leia também aqui no blog Ataques de pânicoCowboyterapiaSexo com robôs

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Intermezzo

You’ve lost your tongue
When you fall from the pendulum
Your heart is a drum
Keeping time with everyone

Acima, um clipe muito bonito do Beck sobre memória, passado e presente. A música é Heart is a drum.

Para servir de acompanhamento musical de um livro que indiquei aqui.

Esquizofrenia em animais

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Um amigo certa vez me perguntou se cachorros podiam desenvolver esquizofrenia. Na época, pensei nos modelos animais que temos atualmente – aqueles, por exemplo, de indução de sintomas psicóticos em ratos com substâncias reconhecidamente indutoras tipo cetamina e anfetaminas – e respondi que sim, que seria possível. Resposta que não convenceu nem a mim mesmo.

Só recentemente achei uma base mais sólida para responder o questionamento, dessa vez negativamente. De acordo com a recente compreensão genética e evolutiva do fenômeno, a esquizofrenia (e o autismo) parecem estar ligados a uma complexa característica desenvolvida apenas pelo bicho homem: a linguagem.

Uma matéria da Scientific American faz um apanhado da teoria que sugere que, entre todos os animais, só o homem pode sofrer de esquizofrenia.

Leia lá: Why Don’t Animals Get Schizophrenia (and How Come We Do)?

Though psychotic animals may exist, psychosis has never been observed outside of our own species; whereas depression, OCD, and anxiety traits have been reported in many non-human species. This begs the question of why such a potentially devastating, often lethal disease—which we now know is heavily genetic, thanks to some genomically homogenous Icelandics and plenty of other recent research—is still hanging around when it would seem that genes predisposing to psychosis would have been strongly selected against.

Ao contrário do que possa parecer leviano ou superficial nesse tipo de pesquisa, entender o que acontece com animais é fundamental para elucidar um fenômeno humano tão complexo como a esquizofrenia.

:: Leia mais aqui no blog  Genética da esquizofreniaEsquizofrenia e desintegraçãoEsquizofrenia em destaque

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Ponto de vista original

No vídeo acima o genial Ariano Suassuna fala de seu interesse pela loucura e pelos loucos.

Entre uma história e outra, revela que seu pai, enquanto governador da Paraíba na década de 1920, construiu o primeiro hospital psiquiátrico do estado, que levou o nome de Juliano Moreira.

Dê o play e se prepare para rir com as histórias de um dos gigantes de nossa literatura.

:: Leia mais aqui no blog Louco de pedraA Loucura e seus nomesA esquizofrenia chega ao Brasil

Lá vem o sol

 

Dia 19 de março marca o equinócio. Aqui no hemisfério sul, mais precisamente no Ceará, a data assinala o início do período chuvoso e, a depender das precipitações nesse dia, os profetas sertanejos são capazes de dizer se o ano será de estio ou se será um ano bom. Chuva no sertão sempre é bom. Bom e bonito, aprendi.

Quando trabalhei como médico rural em uma das regiões mais secas do estado, meu fiel escudeiro e confidente nas horas difíceis do métier de Hipócrates foi Seu João, o motorista do carro oficial que nos fazia cruzar a longa piçarra de posto em posto. Simpático e natural – daquela naturalidade curtida que só o velho sertanejo tem – ele era o interlocutor perfeito para conversar sobre as coisas da natureza (e tudo mais no mundo). Um dia, na estrada com ele, o horizonte apareceu diante de nós carregado e escuro, ainda que fosse plena manhã. Era final de março, e o céu oferecia pra a gente um daqueles espetáculos de força, difíceis de ignorar.

Diante da paisagem eu, então jovem médico com a cabeça plantada nas coisas da capital, não contive a exclamação que antecederia o natural rosário de reclamações que nós, pobres moradores da grande cidade, tiramos do bolso para maldizer a chuva que alaga, engarrafa, faz abrir goteiras e gripar as crianças. Eu ia começar:

- Putz, Seu João, olha ali! – disse, apontando pro horizonte e tomando fôlego pra começar meu queixume.

O doutor aqui ia abrir a ladainha comentando como o tempo estava feio, mas foi – feliz e oportunamente – interrompido pela empolgação verdadeira da sabedoria sertaneja. Era meu motorista entoando a voz da razão:

- Eu vi, doutor! Tá bonito, hein?

Diz o clichê que feio ou bonito só dependem do ponto de vista. Ou de como o sol incide sobre as coisas. O equinócio acontece quando nosso astro-rei tem sua luz distribuída igualmente pelo globo. Isso marca lá em cima, no hemisfério norte, o fim do inverno. Ou, dito de um jeito mais bonito, o desabrochar da primavera.

Essa semana li no jornal que o movimento humano começava a voltar aos parques da Inglaterra.  Vi fotos de espaços ao ar livre ainda cobertos por uma fina camada de gelo que se enchiam de meninos e adultos à toa, simplesmente tomando luz com a sede de quem espera um ano de sol.

Dependendo de onde vocês está no globo, o equinócio pode levantar até a sombra da tristeza mais profunda, patológica. Pessoas que sofrem de depressão sazonal, moléstia que tende a atacar inclemente no inverno dos países mais frios, começam a melhorar tão logo passem a receber mais luz natural. A do sol, claro.

Tenho certeza que uma das músicas mais bonitas do mundo é menos sobre o sol que sobre o equinócio. Here comes the sun, do inglês George Harrison (de uns tais de The Beatles) não diz só do começo da primavera. A linda canção assinala – com a mesma alegria esperançosa de Seu João ao ver o tempo fechado no sertão -, o final da tristeza.

Ou, dito de um jeito mais bonito, o raiar da luz afastando o negrume das incertezas.

:: Leia também aqui no blog  Sofrimento sazonalIntermezzoO valor da melancolia

Cartum #84

- O que você quer dizer com 'esta é nossa última sessão'?

– O que você quer dizer com ‘esta é nossa última sessão’?

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Enxaqueca

migraine art enxaqueca arte

Peguei no Dangerous Minds a dica de um livro com ilustrações sobre a enxaqueca, feitas por artistas que sofrem desse tipo malvado de dor: Migraine Art: The Migraine Experience from Within

(Ja tinha postado sobre músicas e migrânea aqui).

Nunca tive, mas a experiência de alguns pacientes e conhecidos é o bastante para não desejar uma crise forte a ninguém.

Vai também aqui a dica para as tirinhas do Migraine Boy (“Garoto Enxaqueca” aqui no Brasil) , com as desventuras de um menino com dor de cabeça crônica.

:: Leia também aqui no blog País das MaravilhasIntermezzoA estranha aura de “Epiléptico”

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A memória de Alice

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O filme Para Sempre Alice (Still Alice, 2014) chamou a atenção das pessoas não só para o fato de Julianne Moore ser uma das maiores atrizes de sua geração (veja Boogie Nights e Magnolia), mas para o impacto afetivo da doença de Alzheimer.

Encotrei um texto interessante escrito por um especialista no transtorno que considera que o filme pode não ser tão bom para levar ao grande público uma impressão acurada da doença: Still Alice is far from a good thing for dementia awareness

You’d need more context, an additional film perhaps about the much more common and familiar population that doesn’t get affected until at least 20 years later than Moore’s character. Dementia is a disease of older people. Old women may not be so photogenic, but at 90 they have more than a 45% chance of having dementia, and a film about that might not be so easy to sell.

Já escrevi aqui sobre a problemática psiquiatria/cinema. Vale a pena ler esse outro texto para entender como o cinema poderia ajudar mais a diminuir estigmas e preconceitos.

:: Leia também aqui no blog Psiquiatras precisam ir ao cinema?Estigma na telaUma estranha psiquiatria

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Intermezzo

Este ano, um disco do Coltrane – provavelmente sua maior obra – faz 50 anos.

A Love Supreme” é o resultado da convergência das obsessões do saxofonista: a busca espiritual e a música. Os 30 minutos do disco são um monumento grandioso à beleza e à espiritualidade.

Vale muito a pena baixar em qualidade alta e ouvir nos fones uma das maiores obras de arte do século XX. Faça esse favor a você mesmo: desligue o computador, baixe a luz, se estique no sofá e esqueça por meia hora do mundo banal.

Café e filosofia

café filósofos voltaire cafeinismo

O que Kant, Voltaire e Kierkegaard tinham em comum? Eram grandes filósofos, ok. E, além disso, eram doidos por café.

A última classificação americana dos transtornos mentais, o famigerado DSM-5, reafirmou a cafeína como substância de abuso, incluindo até uma síndrome de abstinência (que aparecia tímida no DSM-IV). Não que isso seja corriqueiramente tratado pois, como dizia Voltaire, “se café é um veneno, é um lento veneno”.

A Open Culture faz uma menção aos hábitos cafeínicos de três grandes pensadores: Philosophers Drinking Coffee: The Excessive Habits of Kant, Voltaire & Kierkegaard

Voltaire “reportedly consumed somewhere between 40 and 50 cups of joe a day, apparently of a chocolate-coffee mixture. He lived into his eighties, though his doctor warned him that his beloved coffee would kill him.”

Recomendo para ler o texto o som de um belo standard em homenagem aos grãos torrados mais cheirosos do mundo – The Java Jive – e, claro, um bom expresso.

:: Leia também aqui no blog  Samba e amor até mais tardeEscritores e manicômiosO mito do absinto

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País das Maravilhas

alice lewis carroll alucinações

Uma matéria interessante na sessão Future do site da BBC: Five things Alice in Wonderland reveals about the brain.

O autor aborda questões dos funcionamentos normal e alterado do cérebro que aparecem na obra Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.

Dreams often contain objects morphing into new identities, and this characteristic is one of the cleverest ways that Alice’s adventures evoke the sleeping mind – along with her strange sense that time is playing tricks on her. Neuroscientists think that the phenomenon arises from the way the sleeping brain consolidates memories.

Como exemplo, há a sensação de alteração do tamanho que Alice experimenta quando toma uma poção misteriosa ou come o bolo especial. Aparentemente, Carroll sofria de enxaqueca cuja aura, em algumas pessoas, pode propiciar ilusões de tamanho.

Já escrevi aqui sobre outra peculiaridade do autor, a hipergrafia.

:: Leia também aqui no blog Alice curiosaTorrente de palavrasBibliofilia 6

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Cartum #83

cartum psicoterapia psicanálise psiquiatra

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Lança-perfume

lança-perfume loló vice brasil

Tá certo que o reporter é brasileiro, mas o loló ganhou esses dias as páginas internacionais.

Uma matéria da Vice fala da “nova” onda de drogas inalantes no Brasil. É preciso dizer que o loló e o lança-perfume nunca saíram totalmente de cena nos últimos trinta anos mas, aparentemente, as misturas de clorofórmio e éter migraram dos salões de carnaval e dos cordões de micareta para outros públicos nos últimos anos.

In case there was a manual on how to use the drug, it’d say shake before using. Shaking cans or bottles, kids can stay up a whole night inhaling ether vapors. It is no accident that some of the reports talk about deaths occurring early in the morning.

O autor da matéria chega a falar de “epidemia”. Será? Gostaria de ver mais estatísticas.

Leia lá e tire suas conclusões: A Blend of Ether and Chloroform Is Fueling a Silent Drug Epidemic in Brazil

:: Leia também aqui no blog  AdicçãoLícito a ilícitoDrogas, anos 60

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Canção do cisne

Oliver Sacks neurologia neurociência

Essa semana o grande Oliver Sacks, 81, escreveu uma tocante carta de despedida no New York Times: My Own Life

Over the last few days, I have been able to see my life as from a great altitude, as a sort of landscape, and with a deepening sense of the connection of all its parts. This does not mean I am finished with life.

O famoso neurologista-escritor (ou escritor-neurologista, já que as duas combinações nomeiam igualmente o gênio de Sacks) descobriu-se com câncer em estado terminal . Pra quem não conhece a obra do culto médico inglês, recomendo começar pelo filme Tempo de Despertar (1990), baseado no livro Awakenings de 1973

(O livro é biográfico e conta a saga de Oliver Sacks quando passou a tratar experimentalmente pacientes catatônicos com L-dopa, com resultados surpreendentes.)

Aliás, os livros de Sacks são justamente sobre isso: o lado surpreendente da medicina, que se esconde entre anamneses e histórias cotidianas de pacientes da clínica neurológica. Veja os ótimos O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um Antropólogo em Marte e O olhar da mente

Costumo recomendar esses livros do neurologista britânico para os estudantes de medicina que, em algum momento, são tomados pela descrença em relação ao curso (da faculdade e de suas vidas). Os escritos de Sacks têm a medida certa de humor, humanidade e esperança. Além disso, são recheadas de citações à literatura, artes plásticas e história.

Num mundo de informações vasto como um oceano, mas com a profundidade de dois dedos, gente como ele costuma fazer falta.

:: Leia o que escrevi no blog sobre Oliver Sacks

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Nomes e estigmas

estigma esquizofrenia transtorno bipolar

Um estudo interessante no British Journal of Psychiatry sobre o efeito estigmatizante dos nomes de diagnósticos psiquiátricos: Renaming schizophrenia to reduce stigma: comparison with the case of bipolar disorder

O paper mostra como a coisa é complexa. Mais de mil e seiscentos participantes foram solicitados a avaliar o peso dos termos (em inglês) ‘transtorno bipolar’ e ‘transtorno de integração’, em comparação com  ‘maníaco depressivo’ e ‘esquizofrenia’, respectivamente.

O resultado mostrou que ‘transtorno bipolar’ é menos estigmatizante que o seu correlato mais antigo. No entanto, ‘transtorno de integração’, apesar de validar aspectos mais neurobiológicos da doença que hoje conhecemos como esquizofrenia, parece aumentar o distanciamento social.

(Dá pra tentar ler o artigo completo aqui)

:: Leia também aqui no blog  Estigma na telaLinha do tempo da esquizofreniaPsiquiatras precisam ir ao cinema?

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