Cartum #83

cartum psicoterapia psicanálise psiquiatra

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Lança-perfume

lança-perfume loló vice brasil

Tá certo que o reporter é brasileiro, mas o loló ganhou esses dias as páginas internacionais.

Uma matéria da Vice fala da “nova” onda de drogas inalantes no Brasil. É preciso dizer que o loló e o lança-perfume nunca saíram totalmente de cena nos últimos trinta anos mas, aparentemente, as misturas de clorofórmio e éter migraram dos salões de carnaval e dos cordões de micareta para outros públicos nos últimos anos.

In case there was a manual on how to use the drug, it’d say shake before using. Shaking cans or bottles, kids can stay up a whole night inhaling ether vapors. It is no accident that some of the reports talk about deaths occurring early in the morning.

O autor da matéria chega a falar de “epidemia”. Será? Gostaria de ver mais estatísticas.

Leia lá e tire suas conclusões: A Blend of Ether and Chloroform Is Fueling a Silent Drug Epidemic in Brazil

:: Leia também aqui no blog  AdicçãoLícito a ilícitoDrogas, anos 60

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Canção do cisne

Oliver Sacks neurologia neurociência

Essa semana o grande Oliver Sacks, 81, escreveu uma tocante carta de despedida no New York Times: My Own Life

Over the last few days, I have been able to see my life as from a great altitude, as a sort of landscape, and with a deepening sense of the connection of all its parts. This does not mean I am finished with life.

O famoso neurologista-escritor (ou escritor-neurologista, já que as duas combinações nomeiam igualmente o gênio de Sacks) descobriu-se com câncer em estado terminal . Pra quem não conhece a obra do culto médico inglês, recomendo começar pelo filme Tempo de Despertar (1990), baseado no livro Awakenings de 1973

(O livro é biográfico e conta a saga de Oliver Sacks quando passou a tratar experimentalmente pacientes catatônicos com L-dopa, com resultados surpreendentes.)

Aliás, os livros de Sacks são justamente sobre isso: o lado surpreendente da medicina, que se esconde entre anamneses e histórias cotidianas de pacientes da clínica neurológica. Veja os ótimos O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um Antropólogo em Marte e O olhar da mente

Costumo recomendar esses livros do neurologista britânico para os estudantes de medicina que, em algum momento, são tomados pela descrença em relação ao curso (da faculdade e de suas vidas). Os escritos de Sacks têm a medida certa de humor, humanidade e esperança. Além disso, são recheadas de citações à literatura, artes plásticas e história.

Num mundo de informações vasto como um oceano, mas com a profundidade de dois dedos, gente como ele costuma fazer falta.

:: Leia o que escrevi no blog sobre Oliver Sacks

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Nomes e estigmas

estigma esquizofrenia transtorno bipolar

Um estudo interessante no British Journal of Psychiatry sobre o efeito estigmatizante dos nomes de diagnósticos psiquiátricos: Renaming schizophrenia to reduce stigma: comparison with the case of bipolar disorder

O paper mostra como a coisa é complexa. Mais de mil e seiscentos participantes foram solicitados a avaliar o peso dos termos (em inglês) ‘transtorno bipolar’ e ‘transtorno de integração’, em comparação com  ‘maníaco depressivo’ e ‘esquizofrenia’, respectivamente.

O resultado mostrou que ‘transtorno bipolar’ é menos estigmatizante que o seu correlato mais antigo. No entanto, ‘transtorno de integração’, apesar de validar aspectos mais neurobiológicos da doença que hoje conhecemos como esquizofrenia, parece aumentar o distanciamento social.

(Dá pra tentar ler o artigo completo aqui)

:: Leia também aqui no blog  Estigma na telaLinha do tempo da esquizofreniaPsiquiatras precisam ir ao cinema?

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Cérebro compositor

musica cerebro alucinações

The brain is a composer whose music orchestrates our lives. And right now the brain is working overtime.

The Necessity of Musical Hallucinations é uma ótima matéria da Nautilus sobre a natureza e o sentido das alucinações musicais.

O autor é Jonathan Berger, compositor e pesquisador em cognição e música, e o gancho da história é o caso de sua mãe com Alzheimer que passou a ter alucinações auditivas com músicas do passado.

Comovente e instrutivo. Vale a leitura.

:: Leia também aqui no blog  Omnia Vincit CantusAs vias musicais da emoçãoMúsica e dopamina

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Lobotomia na corte

Rosemary Kennedy lobotomia walter freeman

O ótimo blog Providentia traz um texto sobre a irmã mais velha de John F. Kennedy. Rosemary Kennedy morreu em 2005, e sua vida foi tão afastada dos holofotes quanto sua morte.

Nascida em 1918, desde criança apresentava sinais de retardo mental moderado. Por isso, viveu escondida pelo pai e irmãos, chefes de uma poderosa e rica família que aspirava aos altos escalões da política. No início da vida adulta passou a ter um comportamento errático, intolerável para os padrões dos Kennedy e, aos 23 anos, foi submetida a uma lobotomia pré-frontal, que a deixou permanentemente incapacitada.

Na época, relativamente poucas lobotomias haviam sido realizadas. O procedimento foi conduzido por James W. Watts e pelo ‘célebre’ dr. Walter Freeman (de quem já falei aqui). Após a cirurgia Rosemary seria capaz de articular apenas algumas palavras e se tornaria incapaz de andar ou cuidar de si.

Even today, biographers continue to question the motivation behind Rosemary’s lobotomy.  Despite her parents’ concerns about their daughter’s behavioural problems, there seems little doubt that her borderline intelligence would have allowed her to function well enough to have a chance at a regular life, if not to the high expectations of her family.

Leia na fonte: The Lobotomy of Rosemary Kennedy

:: Leia também aqui no blog Lobotomia: antes e depoisOperando a mente 2Operando a mente

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Intermezzo

 

A melhor música sobre dor de cabeça já feita é do gigante George Harrison. Escute acima.

Wah-wah é um trocadilho: significa tanto um clássico pedal de efeito para guitarra, quanto uma gíria de Liverpool para ‘enxaqueca’. A música é dirigida aos então colegas de banda, Lennon e Macca, em retribuição às aporrinhações na gravação do último disco.

A propósito, encontrei um site com uma lista músicas que descrevem a sensação da migrânea, aqui.

Cartum #82

filho do freud pacha urbano tirinha

As traumáticas aventuras do filho do Freud é uma série de tirinhas criadas por Pacha Urbano. (clique pra ver maior)

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Viagem terapêutica

psilocibina lsd tratamento psiquiatria

A última edição de The New Yorker traz uma boa matéria sobre o uso de drogas psicodélicas em pesquisas médicas: The Trip Treatment.

O texto aborda questões históricas e culturais e salienta novas perspectivas de uso terapêutico de substâncias como LSD e o enteógeno psilocibina.

Between 1953 and 1973, the federal government spent four million dollars to fund a hundred and sixteen studies of LSD, involving more than seventeen hundred subjects. (These figures don’t include classified research.) Through the mid-nineteen-sixties, psilocybin and LSD were legal and remarkably easy to obtain. (…). Psychedelics were tested on alcoholics, people struggling with obsessive-compulsive disorder, depressives, autistic children, schizophrenics, terminal cancer patients, and convicts, as well as on perfectly healthy artists and scientists (to study creativity) and divinity students (to study spirituality). The results reported were frequently positive. 

Vale a pena reservar um tempo para ler.

:: Leia também aqui no blog  PsychedemiaHistória secreta da psiquiatriaMK-ULTRA

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Em busca do amor

Aspie seeks love é um documentário que acompanha a saga de David Matthews em busca de uma namorada. Acima, o trailer.

Há vinte anos David cola pôsteres pelas ruas tentando encontrar o amor da sua vida. Mais recentemente, a caça passou à internet e suas ferramentas de namoro. Mas qual a dificuldade? – você pode perguntar.

David tem síndrome de Asperger (já falei sobre ela aqui), o que o torna um sujeito “esquisitão” para a maioria das pessoas. O interessante é que ele só recebeu esse diagnóstico aos 41 anos de idade.

Não vi ainda, mas acredito que deve interessar a quem gostou de Mary & Max.

:: Leia também aqui no blog Pequena notávelBobby Fischer contra o mundoDesenhando o insondável

Comédia e tristeza

Misery Loves Comedy documentário depressão humor

Na onda do impacto causado pelo suicídio do comediante Robin Williams, a figura do palhaço triste passou a ser exumada na mídia frequentemente nos últimos meses (escrevi sobre isso aqui).

Na semana passada, durante o festival de cinema independente Sundance, estreou um documentário com depoimentos de comediantes sobre o lado mais escuro e bilioso da profissão. O filme deve dar mais sobrevida pública à análise da depressão entre humoristas.

Você pode ver aqui um teaser com os nomes de alguns dos 60 comediantes entrevistados para o doc Misery Loves Comedy. Entre eles estão Tom Hanks, Jimmy Fallon, Woopy Goldberg e Larry David.

O projeto é do ator – e também comediante – Kevin Pollack. Segundo o diretor, a ideia inicial era entrevistar comediantes com depressão diagnosticada. Nas palavras dele:

Comedians don’t just want attention; they want laughter and a moment of glory. I think it’s something about salvation. It’s not just an occupation; it’s the greatest form of group therapy that’s ever been. I think this documentary, getting comedians to open up and talk about it all – it almost seemed like that they had been waiting for someone to ask.

Parece ser interessante. Vamos esperar sair por aqui.

Enquanto isso não acontece, você pode ler uma matéria sobre Misery Loves Comedy no Independent: Larry David, Steve Coogan and other comedians share stories of depression in new documentary

:: Leia mais aqui no blog  O palhaço tristeHumor psicóticoMau humor com bom humor

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Mar agitado

turner tempestade psicologia depressão

Este blog já tem três anos. Nesse tempo todo aprendi que é difícil encontrar textos sobre arte e psiquiatria em português. Mas a gente sempre se surpreende.

Um bom texto publicado online pela irregular Mente e Cérebro, compara o sentimento melancólico do depressivo às representações do pintor inglês William Turner, que tinha como preferência os temas marítimos, especialmente naufrágios. Leia lá: O Complexo de Turner

O “complexo de Turner” mostra como é possível, ao mesmo tempo, dissolver as formas e as cores tornando a luz o próprio objeto do olhar. Talvez essa seja a essência da experiência depressiva: inacabamento e antecipação, percepção demasiadamente perfeita e ilusão.

O texto, de Christian Dunker, contém algumas elipses, e poderia ser mais longo. Mesmo assim deve interessar a quem gosta da interface entre artes plásticas e saúde mental.

:: Leia também aqui no blog  Doença mental na pinturaO artista e o asiloAntes e depois da esquizofrenia

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Doença mental na pintura

The Temptations of Saint Anthony and the Conversation between Saint Anthony and Saint Paul the Hermit, detail from the Isenheim Altarpiece, ca 1515, by Mathias Grunewald (1475-1528), oil on panel. (Photo by DeAgostini/Getty Images)

Encontrei um breve – mas ótimo – artigo sobre os transtorno mentais e suas representações na pintura. Esse é um dos meus temas favoritos :)

A matéria do Guardian traz dez exemplos importantes, de Van Gogh a Grunewald (acima): A short history of mental illness in art

:: Leia também aqui no blog  Arte e imagens em psiquiatriaBelas artes, neurologia e neurociênciasO artista e o asilo

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Cartum #81

"Muu!"

“Muuu!”

 

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Psychedemia

Em 2012, 70 anos após a primeira viagem com LSD, a University of Pennsylvania organizou um grande evento com especialistas, filósofos, historiadores e jornalistas para discutir em um ambiente interdisciplinar o uso de drogas psicodélicas. O foco foi a possibilidade de utilização desses agentes com fins terapêuticos, religiosos e de produção de conhecimento.

O documentário acima faz um apanhado geral do que foi discutido no evento.

Muito legal para quem se interessa por psicodelia e enteógenos.

(via disinformation)

:: Leia também aqui no blog  A mente como laboratórioRobert Crumb sobre o LSDHistória secreta da psiquiatria