Jogo da memória

forget me knot demência alzheimer jogo game

Uma nova linha de games terapêuticos/educativos surpreende pelas temáticas e abordagens originais. Já mostrei um aqui para controle de sintomas ansiosos.

Forget-me-knot (um trocadilho com “forget-me-not”) propõe a simulação, em primeira pessoa, da vivência dos sintomas da doença de Alzheimer.

Segundo o autor do software, Alexander Tarvet:

Computer games are one of the greatest ways to let people safely explore a situation they’ve never experienced, as you’re creating a whole new world to explore. Many games deal with fantasy and fiction, but I wanted to look at something much more serious.

No jogo, você acompanha o personagem Harry, com demência, por uma jornada em sua sala de estar repleta de memórias e esquecimentos.

Iniciativas desse tipo podem ajudar muito na sensibilização quanto ao problema, na medida em que aumentam a empatia de pessoas não esclarecidas.

:: Leia também aqui no blog GameterapiaA memória de AliceEmaranhado de memórias

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Intermezzo

 

Já se deu conta que a música Overkill do Men at work é sobre sintomas ansiosos?

Especially at night
I worry over situation
I know will be alright
It’s just overkill

Mais especificamente, a letra fala sobre as preocupações excessivas que atacam o ansioso “especialmente à noite”, antes de pegar no sono.

Oldie but goldie :)

Psicadeiro

 

Quem é psiquiatra no Brasil e se interessa pela interface entre a saúde mental e a arte, certamente já ouviu falar de José Paulo Fiks e Andres Santos Jr. A dupla de psiquiatras está sempre escrevendo sobre o universo artístico e sua relação com o sofrimento psíquico.

Descobri quase por acaso que eles mantêm um canal no youtube onde discutem assuntos dentro do universo inesgotável da cultura vista através da lente da psiquiatria.

Assista lá: Psicadeiro.

(Acima, um dos ‘episódios’, em que eles discutem o Mal em Frozen e Malévola da Disney)

:: Leia também aqui no blog Do divã para a redeDivã de celulóideLoucura e significado

Cachorros azuis

rodrigo de souza leão escritor esquizofrenia

Tudo é uma criação da mente
Um poema ou um poente

Essa semana tomei conhecimento de Rodrigo Souza Leão. Morto prematuramente, aos 43, o jornalista deixou uma razoável obra escrita e muitas pinturas. Fundou também várias revistas voltadas à literatura independente.

Entre os livros está o romance Todos os cachorros são azuisa narrativa de um personagem “louco de hospício“. Rodrigo tinha esquizofrenia, e a perda da razão era tema frequente de suas obras. Pelo que li até agora, sua poesia tem aquela concretude típica da psicose, mas entregue de maneira meticulosa e deliberada, sem maneirismo. O humor e as associações incomuns são frequentes, o que transforma algo despojado em uma mina encrustada de pequena e estranhas jóias.

Há ainda online um blog que foi mantido por ele até pouco antes de sua morte: lowcura. Apesar do abandono do lugar, é possível pescar trechos de seu talento literário em meio à confusão.

(a dica foi do dr. Andrés Santos Jr.)

:: Leia também aqui no blog  Salada de palavrasGrilo na cabeça Inumeráveis estados do ser

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Münchausen pela internet

Barão de Münchausen, por Gustave Doré (1870)

Barão de Münchausen, por Gustave Doré (1870)

 

A síndrome de Münchausen (ou transtorno factício) é a doença daqueles que produzem, voluntaria e conscientemente, sintomas de moléstias, físicas ou mentais, no intuito de receber atenção e cuidados médicos. Diferente da simulação, onde os ganhos que o paciente pode obter são objetivos: aposentar-se, receber auxílio monetário, evitar a prisão, etc; o que o paciente com transtorno factício deseja é simplesmente estar no papel de doente.

“Estar no papel de doente”  inclui todo o possível em termos de abordagens terapêuticas e diagnósticas: cirurgias desnecessárias, exames invasivos, tratamentos complexos e mutilantes ou internações prolongadas. O transtorno é grave e não são incomuns as mortes decorrentes de iatrogenia ou de ações do próprio paciente.

Por que o nome? Já escrevi sobre isso aqui no blog:

O epônimo deriva do Barão de Münchhausen, um nobre alemão que viveu no século XVIII, famoso por contar histórias mirabolantes e improváveis nas quais figurava como protagonista. O nobre inspirou um personagem caricato da literatura.  Em 1951, o médico britânico Richard Asher batizou a síndrome com o nome do barão teutônico em um artigo publicado no The Lancet.

Me chamou a atenção recentemente um artigo publicado no Guardian sobre casos de síndrome de Münchausen pela internet. O mote é a recente história de uma blogueira (Belle Gibson) que fingiu por um bom período estar com câncer, angariando dinheiro e compaixão por toda a internet.

Leia lá o caso: Münchausen by internet: the sickness bloggers who fake it online

(Muito embora, pelos detalhes da história, é possível haver um elemento de simulação, já que a blogueira parece ter lucrado muito com a mentira).

Aqui também, outra matéria interessante sobre o assunto: Munchausen by internet can be bad for your health forum

:: Leia também aqui no blog AdelaideSíndrome de StendhalOs nomes do mundo, pronunciados

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Arte dos sonhos

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Em nossos sonhos somos conduzidos a um mundo primitivo. Trata-se de um mundo mais parecido com o do selvagem, da criança, do criminoso, do louco do que com o mundo desperto do respeitável cidadão.
– Havelock Ellis

The Public Domain Review (se você não conhece o arquivo deles, sugiro que dê uma explorada no site para se encantar) fez uma ótima seleção de ilustrações cujo tema é a vida onírica.

No doubt, also, artists have been attracted to the challenge of giving form to something so visually intangible as a dream, a challenge taken up in many ways through the centuries. More often than not there appears the sleeping body itself, with the dream element incorporated in a variety of ways.

Veja lá e se impressione: The Art of Dreams

:: Leia também aqui no blog Vastas emoções e pensamentos imperfeitosPesadelos infantisCinema enfeitiçado

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Loucura e significado

The Paris Review publicou uma ótima matéria sobre os significados da loucura ao longo da história.

The asylum era had been launched amidst utopian expectations of cure. Its failure to deliver on its early promises brought about a rapid deterioration in its reputation, and increasingly, a portrait of the inmates of asylumdom as a biologically degenerate lot.

É um resumo da história da psiquiatria, basicamente, com ótimas ilustrações.

Leia lá: Madness and Meaning

(via @vaughanbell)

:: Leia também aqui no blog  Loucura na Era ClássicaA tristeza que veio pelo marA Loucura e seus nomes

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Rorschach em Nuremberg

rorscharch teste nuremberg nazistas

O Neuroskeptic chama a atenção para um artigo interessante publicado recentemente sobre o uso do teste de Rorschach nos réus nazistas no Tribunal de Nuremberg.

O responsável pela avaliação dos alemães presos aguardando julgamento foi o tenente-coronel Douglas Kelley, psiquiatra do exército americano. Além de tentar traçar um perfil psicológico, seu aval era necessário para determinar se o réu tinha condições de ser responsabilizado por seus crimes.

Entre outras técnicas, Kelley utilizou o teste de Rorschach. Os resultados, que descrevem traços de personalidades dos oficiais nazistas são interessantes como documento histórico, no entanto, as conclusões diagnósticas foram fortemente influenciadas pela situação, como mostrou um estudo de 1976.

Leia aqui o texto do Neuroskeptic sobre o assunto: Rorschach Tests at the Nuremberg Trials

E, aqui, o paper original.

:: Leia também aqui no blog  O prontuário de HitlerO nascimento da psicologia científicaNa cabeça de Hitler

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Pintando música

sinestesia pintura  Melissa S. McCracken

Sinestesia é a aglutinação de sensações e percepções que frequentemente resulta numa “troca” entre inputs sensoriais. Dito de outra forma, é sentir um estímulo através de outro órgão que não aquele primariamente ativado pelo estimulo em questão. É, por exemplo, ouvir cores ou ver cheiros.

Os poetas simbolistas adoravam utilizar a sinestesia como figura de linguagem. Veja o exemplo de Baudelaire:

Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
doces como os oboés, verdes como as campinas,
e outros, corrompidos, ricos e triunfantes

Aparentemente, nossos cérebros funcionam às vezes e naturalmente de forma sinestésica (escrevi sobre isso aqui e aqui), mas algumas condições podem amplificar isso. É o caso da intoxicação por algumas substâncias como LSD e ayahuasca, ou de certos tipos de alucinações.

Algumas pessoas, no entanto, vivem intensamente a sinestesia no cotidiano. É o caso da artista Melissa S. McCracken que enxerga música.  Na imagem acima, de sua autoria, está representada a música Imagine, de John Lennon.

Uma outra experiência interessante – e oposta à de Melissa McCracken – é a do artista Neil Harbisson que nasceu com uma incapacidade de enxergar qualquer cor. Há alguns anos Harbisson desenvolveu um aparelho que transforma cor em sons, transmitidos por ressonância em sua caixa craniana. O artista desenvolveu então a capacidade de ouvir as cores que ele é incapaz de ver.

Veja aqui uma galeria de Melissa McCracken. E, aqui, a TEDtalk de Neil Harbisson.

:: Leia também aqui no blog  Ouvindo coresUm pouco de sinestesia em cada um de nósAs viagens de Oliver Sacks

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TEPT: ferida aberta

TEPT quadrinhos trauma psicologia psiquiatria

A artista Leela Corman ilustra com uma crueza cirúrgica sua experiência como portadora de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em PTSD: The Wound That Never Heals

Publicados na excelente revista eletrônica Nautilus, os quadrinhos contam o sofrimento vivido após a perda de sua filha, com todo o peso dos sintomas e o périplo pelas modalidades de tratamento.

(Clique no link ou na imagem para ler na íntegra).

:: Leia também aqui no blog Carrossel de emoçõesViagem pela menteA estranha aura de “Epiléptico”

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Lições de filosofia no cinema

cinema filosofia psicologia psiquiatria

The Guardian publicou uma interessante lista de sete filmes que fazem refletir sobre questões filosóficas: I watch therefore I am: seven movies that teach us key philosophy lessons

Entre eles, o insuspeito (e mediano) Galaxy Quest e o instigante Amnésia. Citam também Gattaca, que antecipa descobertas só recentemente consolidadas pela epigenética: a superação do determinismo genético.

Vale a pena ler a lista e ver os filmes.

:: Leia também aqui no blog  Psiquiatras precisam ir ao cinema?Cinema e psiquiatria10 filmes sobre memória e esquecimento

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Ouvindo vozes

alucinações auditivas esquizofrenia vozes

Nem toda alucinação auditiva é sinal de doença mental. Num ponto não-patológico do espectro que vai da saúde ao transtorno mental, temos, por exemplo, alucinações hipnagógicas – aquelas relacionadas ao adormecer. Um exemplo é escutar vozes ou o telefone tocando quando se está prestes a dormir.

No outro oposto do espectro estariam as alucinações da esquizofrenia: vozes intrusivas de comando ou que comentam o comportamento do indivíduo.

O neurocientista Vaughan Bell (do ótimo blog Mind Hacks) recentemente falou sobre alucinações auditivas e a atual relativização do valor patológico desse sintoma que pode ocorrer, algumas vezes, fora do diagnóstico das psicoses.

The experience of ‘hearing voices’ has attracted a great deal of scientific interest, but considering they are fundamentally a social experience – in essence, a form of hallucinated communication – neuroscience has been curiously reluctant to address how our ability to relate to other people may be involved in generating hallucinated voices.

Ele começa a sua fala citando Brian Wilson dos Beach Boys (de quem já falei aqui) o que torna a apresentação ainda mais interessante.

Escute aqui o aúdio da apresentação: The Psychology and Neuroscience of Hearing Voices

:: Leia também aqui no blog AlucinaçõesAlucinações ao pianoCérebro compositor

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Doutor no Google

google psiquiatria médico

Uma artigo interessante no New York Times aponta para a crescente preocupação de pacientes em ver informações sobre seus psiquiatras no Google. Uma preocupação agora compartilhada pelos próprios profissionais.

I knew my psychiatric practice was forever changed the day a patient arrived with a manila folder stuffed with printouts and announced that it contained the contents of a Google search that he had done on me.(…) I’d forgotten that many of these documents existed, and there were others I’d never seen or heard about. My patient knew things about me that I didn’t know.

A tendência tem crescido muito nos EUA e Inglaterra, e criado desconforto generalizado. Fica a pergunta, será que o paciente deve levar em consideração aspectos da vida íntima e familiar de seus profissionais? Até que ponto essas informações podem atrapalhar na relação terapêutica? Leia lá: Do You Google Your Shrink?

Ainda não há respostas firmes, já que o fenômeno é novo. Por via das dúvidas eu opto pelo caminho da discrição [possível].

:: Leia também aqui no blog  InterioresA internet pode te deixar louco?Eu tenho um terapeuta

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Grilo na cabeça

guilherme lamounier grilo 1973 psiquiatria esquizofrenia

Quem gosta de música brasileira como eu, vive sempre procurando algo “novo” no passado: um artista esquecido, um disco genial que se perdeu por uma tiragem pequena, a fase escondida de um músico consagrado, essas bossas. Foi nesse espírito que cheguei à história do compositor e cantor Guilherme Lamounier.

A carreira do artista carioca foi da consagração à tragédia muito rápido.  E a tragédia no caso de Lamounier tem um nome: esquizofrenia.

O cantor (nossa versão de Syd Barrett, ou Brian Wilson)teve sua primeira crise, de um jeito quase cinematográfico, depois de defender uma canção no famoso Festival Internacional da Canção em sua edição de 1970. O resultado de sua apresentação foi o pior possível, segundo um ótimo texto que encontrei sobre o cantor: Havia um grilo na cabeça

“[Carlos] Imperial ficou enfiando na cabeça de Guilherme que ele ia ser a grande sensação do festival, mas a música não era grande coisa. Começou a cantar e começou a ser vaiado. Ficou desesperado, se esgoelou sem ouvir a própria voz”

Vale a pena ler o texto e ouvir um de seus belos discos, um album 1973 que leva seu nome.

:: Leia também aqui no blog Inumeráveis estados do serDiamante loucoPop ensandecido

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Loucura e civilização

andrew scull madness in civilization

Não li ainda, mas vai direto pra minha wishlist.

Esse livro deve interessar a quem gosta de história da psiquiatria: Madness in Civilization: A Cultural History of Insanity, from the Bible to Freud, from the Madhouse to Modern Medicine

Scull is impressively steeped in the cultures that produce and reflect both mental illness and responses to it. While he respects biological explanations, he is acutely alive to environmental input. He doesn’t restrict himself to what we would now call psychoses, but includes many shades of the irrational.

O autor Andrew Scull tem se destacado como historiador da psiquiatria e é autor de outros livros sérios sobre o tema. Aparentemente não há anda publicado em português pelo autor, então, vá direto na fonte.

(dica de @PsychEthics)

:: Leia também aqui no blog A Era do InsightMusas da histeriaA tristeza que veio pelo mar

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