Atlas da Saúde Mental

OMS altas saúde mental 2014

A Organização Mundial da Saúde (OMS / WHO) publicou este ano o apanhado geral de políticas e gastos internacionais com saúde mental no ano passado. O documento se chama Mental Health Atlas 2014, e está disponível gratuitamente na página da OMS, aqui.

Alguns dados mostram o descaso em relação à saúde mental, principalmente em países considerados de média e baixa renda (middle/low-income), com gastos inferiores a 2 dólares per capita (veja gráfico acima).

Além disso, não mais que 68% dos 194 países-membro da OMS têm políticas de saúde mental; e apenas a metade têm leis específicas para a área.

Vale a pena ver o documento com calma para entender a quantas anda o investimento em saúde mental no mundo.

:: Leia também aqui no blog  Epidemiologia psiquiátricaOs custos da psicoseEsquizofrenia e desintegração

Leave a Comment

Na pele do paciente

psicose alucinações emergência BMJ

O British Medical Journal (BMJ, para os íntimos) tem uma sessão escrita pelos próprios pacientes. Inaugurando os casos psiquiátricos, um doente anônimo descreve em primeira pessoa a experiência da psicose aguda na emergência: Psychiatric assessments: how much is too much?

You find my thinking jumbled and confused, the quantity and register of my speech is fluctuating wildly. But I’m also hyper-attentive to language, as anyone would be in a high stakes situation (was that “talk to” or “torture”?). In an idle moment a nurse at the foot of my bed has concluded an anecdote with a hearty “I could have killed him,” and perhaps she thought that was boring or inaudible, but I heard it. And I thought you wanted me to hear it, that it was in the script.

O texto foca nas sensações despertadas no paciente pelo entrevistador, e em como atitudes e expressões do examinador podem afastar ou aproximá-lo do paciente.

Não deixe de notar no final (bottom line), as dicas valiosas para a avaliação de pacientes psicóticos na emergência. O texto tem valor tanto pro residente iniciante quanto pro profissional mais experiente.

:: Leia também aqui no blog  Ouvindo vozesControle remotoProcurando sinais

Leave a Comment

Hypnos e Thanatos

hypnos e thanatos sono morte psicologia

A relação entre sono e morte na cultura é bem estreita. Aqui e em outros países, por exemplo, diz o costume que não se deve despertar pessoas sonâmbulas, pois isso provocaria sua morte imediata. Igualmente, em contos de fada como A Bela Adormecida, o dormir representa um estado mágico similar ao repouso eterno, iniciado ou quebrado por feitiço.

Os paralelos entre o dormir e o morrer são muitos na arte e na ficção, da Bíblia a Shakespeare. Encontrei um bom texto sobre o assunto: From Hypnos to Hamlet to Zombies, a Look at Our Obsession with Sleep and Death

Even though most of us sleep under decidedly less doomed roofs these days, we still can’t shake the association between death and sleep. We talk of both waking the dead and sleeping like the dead. To die is to go to your “eternal rest” or to be told to “rest in peace.” To die in one’s sleep is presented as the gentlest and most aspirational way to pass on.

O texto fala, além das referências que citei, de nosso fascínio por zumbis e vampiros. Boa leitura.

(A imagem que ilustra o post, acima, é uma daquelas clássicas fotografias do século XIX onde mortos eram posicionados como se estivessem dormindo.)

:: Leia também aqui no blog A bela morteCiência dos sonhosZumbis, Vodu e neurotoxinas

Leave a Comment

O luto do terapeuta

luto terapia psicanálise

Todo mundo que está na estrada psi há algum tempo atendendo gente já deve ter passado pela experiência da perda de pacientes para a “Indesejada das gentes”. E tão certo quanto a chegada morte, é o pesar – velado – de nós, terapeutas, quando isso acontece.

Encontrei no New York Times um ensaio recente do terapeuta Robin Weiss sobre como a morte de pacientes pode afetar o terapeuta: How Therapists Mourn

Don’t misunderstand me; I’m not asking for sympathy. There is no comparing my loss to that of a patient’s family and friends. Yet this is an aspect of my profession that is seldom discussed: Just as what takes place in therapy occurs behind closed doors, so too does the therapist’s grieving after a patient dies.

O texto faz parte de uma excelente série de ensaios de terapeutas publicados regularmente no blog de opinião do NYT. O nome da coluna não podia ser mais direto: Couch (“divã”em inglês)

Laia aqui o que já foi publicado na sessão.

:: Leia também aqui no blog  Cura pela falaDoutor no GoogleInteriores

Leave a Comment

A arte da recuperação

No ano passado, a Long Gallery do hospital psiquiátrico Maudsley em Londres, organizou uma exposição com obras produzidas pelos pacientes da enfermaria de adolescentes.

Intitulada The Art of Recovery, a mostra reunia material produzido pelas oficinas de arte-terapia em uma unidade de internação para quadros agudos, que acolhe jovens entre 12 e 18 anos.

The exhibition includes art works created in art psychotherapy sessions, and poetry, photography and artwork from projects facilitated by internal and external collaborators, including Clive Niall, teacher, Jared Louche, poet, Fritha Jenkins, artist, and work done in partnership with Dulwich Picture Gallery and Artmongers.

Acima, um vídeo sobre a exposição que vale ser visto.

Mais informações, no site da instituição.

:: Leia mais aqui no blog   Arteterapia na terra da RainhaBethlem GalleryImagens do inconsciente

Cartum #87

- Essas pílulas vão curar seu TOC, mas antes será que você podia organizar minha estante?

– Essas pílulas vão curar seu TOC, mas será que antes você podia organizar minha estante?

 

(Via The New Yorker)

Leave a Comment

Uma história das ideias

A BBC Radio 4 (sempre e, genialmente, ela) criou uma série de pequenos vídeos animados feitos para explicar grandes ideias da humanidade. O projeto é tão simples quanto sublime: A History of Ideas.

São vídeos curtos que introduzem quem assiste a temas complexos que nos acompanham desde as cavernas: o livre-arbítrio, a conceito de humanidade, a linguagem, a moral, o princípio de tudo, entre outros.

Acima, a questão do que nos torna humanos, abordada por John Locke. (Spoiler: o que nos torna humanos é a memória).

Recomendo outros: Edmund Burke sobre o sublime, o problema do Mal e Sarte sobre as escolhas existenciais. Mas não deixe de ver TODOS.

:: Leia também aqui no blog Lições de filosofia no cinemaO valor da melancoliaO mito decisivo

Lítio na vida

Uma salina boliviana de petalita, mineral do qual se extrai o lítio

Uma salina boliviana de petalita, mineral do qual se extrai o lítio

 

Uma boa matéria em The New York Times‘I Don’t Believe in God, but I Believe in Lithium’

Jamie Lowe escreve sobre sua experiência como portadora de transtorno bipolar desde a adolescência e sobre a substância mais eficaz no tratamento do problema, o lítio.

The use of lithium as a therapy for mental illness goes back to at least Greek and Roman times, when people soaked in alkali-rich mineral springs to soothe both ‘‘melancholia’’ and ‘‘mania.’’ In the mid-1800s, lithium was thought to cure gout and sometimes ‘‘brain gout,’’ a lovely description for mania, extending the notion of swollen joints to a swollen brain. 

Quem acompanha o blog leu o que já escrevi sobre o lítio aqui.

Outro relato comovente da experiência com o transtorno bipolar: Fratura na alma

:: Leia também aqui no blog  Transtorno bipolar: um pouco mais alémA marca da bipolaridadeCarrossel de emoções

Leave a Comment

Delírios místicos

 

Já falei aqui sobre um livro muito curioso com o relato de três pacientes psicóticos internados em uma mesma instituição com o mesmo delírio: de que seriam ninguém menos que Jesus Cristo. The Three Christs of Ypsilanti foi publicado em 1964 e fez um relativo sucesso na época.

Dessa vez encontrei um documentário de 2001 mais ou menos sobre a mesma coisa. “Those who are Jesus [em inglês, sem legenda] acompanha três pessoas com o delírios religiosos de grandeza.

The result is an examination of conflicting and convergent discourses surrounding what psychiatrists term “delusions of grandeur”.

O doc é um prato cheio pra quem se interessa pela psicopatologia clássica, sobretudo das psicoses.

Mais informações sobre o filme, aqui.

(Via BoingBoing)

:: Leia também aqui no blog outros posts sobre delírios e psicose:

Suicídio assistido

suicídio eutanásia bélgica

The New Yorker publicou uma matéria interessante sobre um tema mais que espinhoso: a eutanásia para paciente com transtornos mentais.

O texto fala sobre a experiência da Bélgica, segundo país depois da Holanda a descriminalizar a eutanásia, e começa com o relato de um caso comovente de uma paciente com transtorno depressivo recorrente.

Last year, thirteen per cent of the Belgians who were euthanized did not have a terminal condition, and roughly three per cent suffered from psychiatric disorders.

A leitura é longa mas vale a pena: The Death Treatment

Não vou entrar aqui nos meandros e complexidade do fenômeno, mas é importante deixar claro – principalmente para leigos que me lêem – que a eutanásia só pode ser considerada um ato de humanidade e respeito se quem a deseja tenha total capacidade de decidir sobre o ato. Em grande parte dos transtornos mentais, sobretudo os graves, a capacidade de decidir sobre a existência está francamente prejudicada nas fases críticas ou sintomáticas.

:: Leia também aqui no blog  Suicídio em The LancetA esperança além do suicídioSuicídio: o impacto em quem fica

Leave a Comment

Cartum #86

Cartum New Yorker sabedoria

(Via The New Yorker)

Leave a Comment

Correlação e causalidade

Correlação não é causalidade“, essa é a frase que todo mundo que pesquisa – ou que lê e interpreta pesquisas – deve ter em mente, quase como um mantra.

Acima, a primeira parte de um vídeo muito educativo [em inglês, sem legendas] que explica, com exemplos práticos, a diferença entre os dois conceitos. O exemplo de partida é a correlação encontrada em alguns estudos que mostram que horas gastas em videogames violentos relacionam-se a comportamentos agressivos em crianças.

A segunda parte do vídeo pode ser vista aqui.

:: Leia também aqui no blog  Desenhos animados e violênciaHistória e evidênciaEpidemiologia psiquiátrica

Viagem ao inferno

Já postei aqui dois games que exploram a novíssima fronteira entre a tecnologia e a psiquiatria: um para controlar sintomas ansiosos e outro que simula a experiência do Alzheimer.

Dessa vez, o tema é a psicose.  Hellblade (programado pra ser lançado em 2016) promete aproximar o jogador da experiência psicótica.

Ninja Theory wants players to understand what it’s like for people suffering mental health issues. Given how immersive and interactive gaming is, they believe that players will be drawn into Senua’s experience, and able to empathise more with what she and other sufferers go through.

No trailer do game (que pode ser visto acima) dá pra notar que em alguns momentos a personagem Senua tem alucinações auditivas de cunho depreciativo (por volta de 1:12).

Leia mais sobre o jogo aqui: This Game Shows What It’s Like to Suffer From Psychosis

:: Leia também aqui no blog GameterapiaJogo da memóriaOuvindo vozes

Sanidade encarcerada

transtorno mental prisão psiquiatria forense

O título da matéria já diz muito: America’s largest mental hospital is a jail.

O texto publicado em The Atlantic faz uma radiografia da Cook County Jailuma penitenciária que mais parece um hospital de custódia: um em cada três dos seus presos sofre de transtorno mental. Esse percentual é uma representação algo amplificada da realidade carcerária americana, onde estima-se que 400.000 detentos sejam portadores de doenças psiquiátricas.

A reportagem faz a gente refletir sobre nossa realidade. Não temos dados precisos de amplitude nacional, mas um estudo realizado com quase 500 presos na Bahia encontrou índices altos de dependência química e -surpreendentes – baixos índices de transtorno de humor quando comparados a estudos internacionais.

Outra pesquisa, uma revisão internacional, avaliou populações carcerárias em 24 países e encontrou índices altos de psicose atrás das grades, sobretudo em países mais pobres como México, Nigéria e Brasil.

Acredito mesmo que nossos presídios abriguem uma grande quantidade de pessoas não tratadas e que cometeram crimes por causa de sintomas de graves transtornos psiquiátricos. Triste realidade.

(A dica da matéria foi de @GVale)

ResearchBlogging.org

Pondé, M., Freire, A., & Mendonça, M. (2011). The Prevalence of Mental Disorders in Prisoners in the City of Salvador, Bahia, Brazil* Journal of Forensic Sciences, 56 (3), 679-682 DOI: 10.1111/j.1556-4029.2010.01691.x

Fazel, S., & Seewald, K. (2012). Severe mental illness in 33 588 prisoners worldwide: systematic review and meta-regression analysis The British Journal of Psychiatry, 200 (5), 364-373 DOI: 10.1192/bjp.bp.111.096370

:: Leia também aqui no blog  EncarceradosPsicopata brasileiroAnatomia do mal

Leave a Comment

Estigma no Twitter

TOC estigma twitter psicofobia

Uma pesquisa recente tentou avaliar o impacto do estigma dirigido ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC) na rede social Twitter.

Os autores consideraram o conceito de trivialização do diagnóstico e fizeram mais ou menos assim: criaram algumas contas fictícias no Twitter com algumas características. Algumas contas eram de portadores de TOC e outras não. Além disso, parte das contas dos dois grupos faziam comentários depreciativos ou jocosos usando a hashtag #OCD (TOC, em inglês); enquanto a outra parte citava o diagnóstico num contexto mais respeitoso ou educativo, dizendo, por exemplo, que a psicoterapia ajuda muito no tratamento.

Os tweets foram avaliados por 600 voluntários. O resultado é que as supostas pessoas das contas que trivializavam o diagnóstico com piadas ou sarcasmo foram vistas de forma negativa pelos avaliados. Outro achado é que as contas de pessoas com TOC, independente dos seus comentários, foram mais apreciadas pelos participantes da pesquisa.

Por último, apesar de expostas aos comentários depreciativos sobre a doença, os voluntários não desenvolveram nenhum sentimento negativo ou estigma dirigidos ao transtorno.

Leia aqui um artigo que comenta a pesquisa, ou o paper original – That’s so OCD: The effects of disease trivialization via social media on user perceptions and impression formation

:: Leia também aqui no blog  Gentle on my mindNomes e estigmasEstigma na tela

Leave a Comment