Cartum #94

cartum psicologia

(pelo indizível The Perry Bible Fellowship)

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Jardim das delícias

bosch jardim das delícias alta resolução

Pode parecer um tanto ingênuo e anacrônico hoje em dia postar uma obra de arte consagrada. A internet, com suas redes sociais, parece ter virado o palco supremo de um espetáculo só: a vida do outro. Seja o outro uma celebridade, o vizinho, o meme da vez, todos os olhos e ouvidos se voltam para a piada ou o desastre do dia.

Uma pesquisa recente descobriu que 55% dos brasileiros acham que o facebook É a internet. Mais da metade dos nossos não imagina que há museus, coleções inteiras de livros, pinturas e fotografias, textos sobre absolutamente qualquer assunto, entrevistas, documentos e arquivos históricos, enfim, um universo de coisas que pode facilmente ser explorado. E o melhor: tudo por um módico preço – seu tempo.

Dessas coisas, descobri recentemente o resultado de um projeto educativo holandês para popularizar a obra do pintor Hieronymus Bosch . A iniciativa disponibiliza online um incrível passeio pelo tríptico O jardim das delícias terrenas, em alta resolução, com texto e narração que guiam pelas centenas de cenas representadas na pintura.

Clique e se delicie: Jheronimus Bosch, the Garden of Earthly Delights

(Sugiro começar com a visita guiada por 15 pontos da obra e depois explorar livremente o painel)

:: Leia também aqui no blog  Arte dos sonhosDoença mental na pinturaArquivo do Met

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Complexidade emocional

japão emoções estudo psicologia

Segundo um estudo publicado recentemente no Journal of Personality and Social Psychology a capacidade de sentir coloridas e complexas emoções ao mesmo tempo, varia entre países.

Encontrei a dica em The AtlanticThe Countries Where People Are the Most Emotionally Complex

Overall, “cultural differences in emotional complexity are robust and often sizable,” the study reads. “These cultural effects unfolded on a continuum across countries differing in interdependent social orientation.” Feeling more emotionally tied to other people, it seems, is linked to a higher level of emotional complexity.

Entre outras coisas, o estudo mostrou que japoneses tendem a sentir emoções de forma mais complexa e diversa que americanos (isso eu já imaginava!).

Entendo que não é simples avaliar isso quantitativamente, mas esse tipo de estudo mostra uma maneira interessante de evidenciar diferenças culturais.

:: Leia também aqui no blog  O valor da ansiedade,Delicada tristezaAmok

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Salada de palavras

homem que queria eliminar a memória - ignácio de loyola brandão

O HOMEM QUE QUERIA ELIMINAR A MEMÓRIA

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.

Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?

O médico:

– Sim?

– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro. (more…)

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Evolução e suicídio

suicídio evolução psicologia

Um recente estudo lança luz sobre um aspecto controverso – mas que não deve ser descartado – do suicídio. Seria o auto-extermínio em humanos a expressão de um comportamento aprimorado durante a evolução, com objetivo de preservação do grupo social?

O paper Suicide as a Derangement of the Self-Sacrificial Aspect of Eusociality discute se o auto-sacrifício seria um tipo de comportamento eusocial extremo, realizado em prol da colônia, e observável em alguma espécies de animais gregários.

Encontrei a dica de leitura nesta matéria do site Science Beta que resume os achados do estudo.

However, when individuals mistakenly view their own deaths as being worth more than their lives, results can be needlessly lethal. Specifically, the researchers propose a framework in which suicide is viewed as a tragic variant of what typically serves as an adaptive tendency towards self-sacrifice among humans.

Como já escrevei aqui no blog, o suicídio não é um fenômeno fácil de ser compreendido, sobretudo quando são considerados os aspectos sociais, culturais e, agora, evolutivos em questão.

:: Leia o que já postei aqui sobre suicídio:

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Caça às bruxas

salem bruxas psiquiatria alucinações

Já escrevi aqui no blog sobre surtos de dança provocados por derivados do ergot na idade média. Aparentemente, a substância produzida por fungos em alimentos contaminados pode ter provocado outros desastrosos eventos na história da humanidade.

Nos anos de  1692 e 1693 em Salem, Massachusetts, dezenove pessoas foram executadas – a maioria mulheres – sob a acusação de bruxaria. O fato hoje é considerado o maior episódio de histeria em massa na história dos EUA. Um artigo de 1976, no entanto, levanta a possibilidade de uma psicose coletiva provocado por ergotismo.

A ótima revista eletrônica Vox, traz uma boa matéria sobre a hipótese: The hallucinogens that might have sparked the Salem witch trials

On an agricultural level, the growing conditions were right for ergot to flourish — a wet season in 1691 would have been perfect for ergot to spread on the rye. In addition, Salemites were unlikely to have known what ergot was, and Caporael found later letters that showed ergot was a significant problem in the area.

Hipóteses médicas alternativas foram levantadas, e o artigo é justo quando cita as outras possibilidades. Vale a leitura.

:: Leia também aqui no blog Mal de lua, Surtos de dançaLicantropia

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Filosofia vs. psicoterapia

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É difícil traçar uma linha onde começa a indagação ontológica – aquela sobre a própria existência – e onde terminam as matutações emocionais de um processo de psicoterapia tradicional. Talvez, no fundo, essa divisão não exista a não ser no mapa didático-curricular que separa a filosofia da psicologia.

A Aeon convidou dois especialistas para discutir sobre essa fronteira. O resultado tanto breve quanto esclarecedor: Is philosophy therapy, or is it simply a search for truth?

I approach philosophy as a sort of pragmatism – I have a set of values and an idea of how the world is, and I try it out and see if I can live by it, if it fits reality, if it leads to an expanded sense of flourishing. And reality (including other people) feeds back to me, lets me know if I’m living wisely or foolishly.

Da semelhança entre a teoria cognitivista e o estoicismo, às lições de Bertand Russell, o debate levanta questões fundamentais para entender essas interfaces entre as muitas facetas do conhecimento a propósito do eu.

:: Leia também aqui no blog  O valor da ansiedadeUma história das ideiasUma história da Nostalgia

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Cartum #93

Cartum humor psicologia

“- Me impede de ficar olhando o telefone a cada dois segundos”

 

(Via The New Yorker)

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Guerra das terapias

TCC PSICANALISE disputa psicologia

Um recente artigo publicado em The Guardian discute se, diante de evidências recentes que mostram a superioridade da psicanálise sobre a terapia cognitivo-comportamental (TCC), não seria o momento de voltarmos ao divã.  Leia lá – Therapy wars: the revenge of Freud

O texto provocou, obviamente, uma reação de acirramento da velha disputa entre Freud e Skinner/Beck. A briga não é nova e ainda deve durar muito tempo, mas um artigo publicado no ótimo blog Mind Hacks, joga uma luz mais equilibrada sobre o assunto.

Is your social anxiety caused by the projection of unacceptable feelings of hatred based in unresolved conflicts from your earliest childhood relationships – as psychoanalysis might claim? Or is your social anxiety caused by the continuation of a normal fear response to a difficult situation that has been maintained due to maladaptive coping – as CBT might posit?

Considero a réplica do Mind Hacks imparcial (dentro do que é possível) e bem educativa. Pode, inclusive, ajudar residentes e iniciantes em geral a entender as diferenças principais entre os dois modelos de compreensão da mente.

Leiam e deixem suas opiniões aqui: Psychotherapies and the space between us

** ATUALIZAÇÃO: o Guardian publicou a seguir uma série de cartas de leitores discutindo dos dois lados da questão. Também vale a leitura: Whether to pick sides in psychology today

:: Leia também aqui no blog  Psicanálise de conveniênciaO que é psicanálise?Teoria unificada das terapias

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Psicoterapia de Natal

dickens christmas carol psicoterapia

Acho que todo mundo conhece a história do velho Scrooge, visitado no natal pelos Fantasmas do Passado, Presente e Futuro. O livro de Charles Dickens,  “Um Conto de Natal” (A Christmas Carol) foi adaptado algumas vezes para o cinema.

(Lembro particularmente de uma versão que me parecia muito sombria, de 1938, que passava na TV na véspera de natal quando era criança.)

Um articulista do New Yorker fez uma excelente comparação da experiência de Scrooge, com o que acontece na psicoterapia – The Ghosts of Christmas: Was Scrooge the First Psychotherapy Patient?

How is the Ghost of Christmas Past able to change Scrooge’s mind—to make him feel affection and pity for the carolling urchin? What magic happens when they revisit his childhood? I avoided talk therapy for many years, largely because I didn’t see how talking to a stranger about my childhood could possibly change my experience of being alive as an adult. I was particularly repelled by the idea of feeling pity for my childhood self.

O autor encontra no clássico de Dickens o que chama de “a lógica da depressão” que aflige aqueles que sofrem do transtorno de humor, e os elementos essenciais de uma terapia que pode libertar o paciente desse processo. Vale a leitura nesse Natal.

(Dica de Denise Evangelista)

:: Leia também aqui no blog Sofrimento sazonalIntermezzoUma história da Nostalgia

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Cartum #92

mente cartum psicologia psiquiatria humor

(de Oleísmos)

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A ciência do aprendizado

caixa de skinner condicionamento operante

O Guardian traz uma ótima matéria sobre cinco estudos clássicos sobre o aprendizado: The science of learning: five classic studies

Acima, um deles: a famosa “Caixa de Skinner“, desenvolvida pelo pai do behaviourismo, BF Skinner, para condicionar animais em experimentos.

One of Skinner’s key claims was that with the right practice conditions – meaning that correct behaviour is appropriately rewarded – any task can be learned using simple associations. This means anything that can form simple associations, even a pigeon, can learn many complex tasks.

Uma boa conta pra seguir no twitter é @guardianscience.

:: Leia também aqui no blog  Massacre, memória e fotografiaCriptomnésiaConfabulações de Chico Buarque

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O valor da ansiedade

ansiedade cultura

Todos os dias a Aeon me surpreende. Pra quem não conhece, trata-se de uma revista de ensaios e ideias, que aborda temas variados de basicamente todos os campos do conhecimento: de matemática a sociologia. Melhor do que tentar explicar, sugiro que selecione um tempo e leia alguns textos. Não vai se arrepender.

Recentemente publicaram um ótimo ensaio sobre o valor cultural do sentimento ansiedade. Infelizmente, é fácil pra nós profissionais da saúde mental, nos perdermos da perspectiva da ansiedade como algo construtivo e indissociável da condição humana e, sem perceber, “patologizar” sentimentos dessa natureza.

O autor do texto é o professor de filosofia Charlie Kurth, que distingue alguns tipos de ansiedade, entre elas, a que chama de “ansiedade moral”

We’re beginning to see why moral anxiety is valuable. It’s an emotion that helps us better understand and negotiate the complexities of moral life. Moreover, we can also explain how it does this. It operates as a kind of disruptive signal: something that butts in to interrupt whatever we’re doing, prompting us to reassess what we’re up to.

Lei lá: Worried well

:: Leia também aqui no blog  Ataques de pânicoGameterapiaO valor da melancolia

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Sanatório feminista

Rockhaven sanitarium psiquiatria feminismo

A história da psiquiatria é cheia de curiosidades. Entre avanços incertos e retrocessos vergonhosos é possível encontrar histórias fascinantes. É o caso do Rockhaven Sanitarium.

Fundado na Califórnia em 1923 pela enfermeira Agnes Richards, o asilo tinha a intenção acolher com dignidade mulheres – nunca chamada ‘pacientes’ e sim, ladies – com transtorno mental. A instituição tinha, desde o início, propostas terapêuticas à frente de seu tempo.

In fact, the residents of Rockhaven often threw parties, dressing up in their best gowns. They attended picnics in the community and went out to dinner as a group. To the ignorant observer, it was often impossible to know that the women would end the evening by returning to their home at a mental hospital. Richards treated the residents as her friends and once traveled the world with one of them, bringing back rugs and gifts and decorations for the rooms.

Vale a pena ler a história: The Feminist Asylum That Redefined Women’s Mental-Health Treatment

:: Leia também aqui no blog  BroadmoorBedlamTrês hospícios

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Rompendo correntes

Na Indonésia é uma prática comum prender doentes mentais em casa com correntes por anos a fio; há até um nome pra isso: pasungNesses locais, pessoas com transtornos psiquiátricos são tratados pior que os animais, que pelo menos podem andar livres pelo quintal.

A estimativa em 2014 era que 26.000 pessoas sofriam pelo pasung na Indonésia.

Infelizmente, essa realidade não é estranha a outros países pouco desenvolvidos, como é o caso do Brasil. Em mais de dez anos de prática na psiquiatria, já ouvi vários relatos de pessoas sofrendo nas mesmas condições dos indonésios aqui mesmo, no Ceará.

Um documentário (trailer acima) pretende chamar a atenção do mundo das paupérrimas condições dos doentes mentais da Indonésia: Breaking the chain.

The practice of physically restraining people with a mental illness by members of family or the community, almost invariably with no adequate treatment and always against their will, contravenes basic human rights principles. As result of this practice, thousands of people are estimated to live in isolation, chained, and/or inside “animal cages”, naked, undernourished and often living in their own excrement.

Curiosamente, o uso de correntes assume o papel oposto, no tratamento de pacientes psiquiátricos num templo budista em Taiwan, como já postei aqui.

Mais sobre o documentário, aqui.

:: Leia também aqui no blog A correnteEsquizofrenia e desintegraçãoOs custos da psicose