Maconha no século XIX

stamp-harrison

Um texto interessante sobre os usos medicinais da cannabis no século XIX: PROVING CANNABIS – A HISTORY OF NINETEENTH CENTURY MEDICAL MARIJUANA

A matéria fala de experimentos pessoais feitos por médicos do período, eles mesmo utilizando a planta. Os relatos vão desde os, hoje revisitados, efeitos sobre dor crônica e espasmos até os efeitos psicoativos como alucinações, delírios e outras sensações esquisitas:

Distortions of space and time, illusions and hallucinations, erosion of the will, anxiety and racing thoughts, a profound sense of twoness and out of body experiences, and fear of impending death were all symptoms regularly recorded by medical doctors. 

A dica eu peguei de Vaughan Bell.

:: Leia também aqui no blog  História da embriaguezLícito a ilícitoAs viagens de Oliver Sacks

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História da embriaguez

temperança álcool embriaguez história

Encontrei na revista eletrônica The Appendix uma ótima matéria sobre a história dos excessos relacionados ao uso de álcool: Blurred Forms: An Unsteady History of Drunkenness

O texto reconstrói a marcha cambaleante do abuso de etílicos nos últimos quatro séculos (com foco na cultura  inglesa; mesmo assim vale a pena ler).

(Eu já tinha escrito sobre o assunto e sobre o “movimento da temperança” aquiaqui e aqui.)

One aspect often featured in such anti-liquor declarations were the drunkards themselves–more specifically, the drunkard’s unsteady, untrustworthy body.

As imagens que acompanham o texto são fantásticas.

:: Leia também aqui no blog  Álcool, o inimigoBatido, não mexidoNunc est bibendum

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Cartum #79

leito cartum hospital medicina humor

(Não consegui encontrar a fonte)

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O valor da melancolia

Aquele que expande seu conhecimento expande igualmente sua tristeza — Robert Burton

Recentemente falei sobre a Melancolia aqui no blog.

O vídeo acima faz  um ótimo resumo da história do sentimento mais humano de todos. Vai dos gregos e sua teoria humoral, passa por – claro – Robert Burton e sua Anatomia da Melancolia, até as modernas teorias sobre o valor evolutivo da tristeza.

(No vídeo podem ser acionadas as legendas em português)

Em uma bela referência à empatia gerada pela melancolia, o vídeo cita Emily Dickinson (de quem também já falei aqui):

I measure every Grief I meet
With narrow, probing, eyes – 
I wonder if It weighs like Mine –
Or has an Easier size.

Encontrei o vídeo no Brain Pickings junto com uma indicação de um livro que me interessou:  Against Happiness: In Praise of Melancholy

Para quem  se interessa pelo tema, recomendo também o ótimo Uma História das Emoções, do jornalista Stuart Walton.

:: Leia também aqui no blog  A trsiteza que veio pelo marAnatomia da Melancolia, Uma história da Nostalgia

Ataques de pânico

ataque de pânico psiquiatria

“Meu corpo começa a pinicar e fico tonto. Parece que tem gelo correndo nas minhas veias. Quero fugir do meu corpo mas não consigo, claro. Respiração curta. Coração disparado. Pânico total.”

 

Estima-se que no Brasil, quase 20% da população sofra de algum tipo de transtorno de ansiedade. O problema mais comum é a fobia específica. O transtorno de pânico é o menos comum (1.1%) mas, dependendo da gravidade, pode ser devastador para quem sofre de ataques inesperados e muito intensos de medo e sensação de que vai morrer.

Os ataques podem ser diferentes de pessoa para pessoa, mas o resultado é sempre o mesmo: desamparo e insegurança.

Encontrei uma interessante a iniciativa de mobilização de um jornal norte-americano a propósito do tema. Foram selecionados relatos na internet de pessoas com transtorno de pânico. Um breve texto descreve a sensação do ataque, acompanhado de uma ilustração, para tentar dar a ideia de como é ter um ataque. 

Veja o resultado: This Is What A Panic Attack Physically Feels Like

:: Leia também aqui no blog  MegaproblemaCowboyterapiaPsiquiatria minimalista

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Programando para Deus

TempleOS terry david esquizofrenia

O pessoal da TI vai gostar desse.

Encontrei no site da Vice uma matéria sobre Terry David e seu extravagante projeto. O produto de uma década de programação é o sistema operacional Temple OS que, segundo o próprio autor, é o “Templo Oficial de Deus”.

Não, não se trata de um pastor falando de algo simbólico. Terry David é literal, quase concreto em sua proposta.

O programador americano de 44 anos foi diagnosticado em 1996 com esquizofrenia. No primeiro episódio psicótico, David achava que o rádio mandava mensagens para ele e que estava sendo perseguido por causa de uma grande ideia que havia tido. Foi internado e, após a alta, passou a desenvolver delírios messiânicos e acreditar que podia falar diretamente com Deus.

Aparentemente, as ideias delirantes nunca o abandonaram completamente e, em 2003 passou a trabalhar em seu sistema operacional, que hoje conta com vários programas enigmáticos e atalhos para mensagens oraculares. O programa é totalmente lowtech e utiliza técnicas de programação retro, similares às usadas nos computadores da década de 80.

Atualmente, o conteúdo do pensamento de Terry David parece bem afrouxado. Um exemplo tirado do site do Temple OS, explicando a razão da aparência simplória do programa:

God said 640×480 16 color graphics is a covenant like circumcision. Children will do offerings. Think of 16 colors like the Simpson’s cartoons.

Quem gosta de psicopatologia vai gostar de ler a matéria: God’s Lonely Programmer 

:: Leia também aqui no blog  Bobby Fischer contra o mundoSons de estimaçãoControle remoto

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História e evidência

peter d. kramer depressão psiquiatria

Ainda não li o livro Ouvindo o Prozac* (1999, Editora Record). Recentemente encontrei um artigo do autor, Peter D. Kramer, e gostei bastante.

O texto, intitulado Why Doctors Need Stories, fala da importância dos relatos de caso para a construção do saber médico. Em uma era dominada pela medicina baseada em evidência, em que a experiência individual é posicionada sempre à sombra de um mundo de dados quantitativos, o autor vê uma esperança de avanço, através do retorno à vinheta clínica – movimento resgatado recentemente por grandes referenciais como Oxford University Press e New England Journal of Medicine.

Consider my experience prescribing Prozac. When it was introduced, certain of my patients, as they recovered from their depression or obsessionality, made note of personality effects. These patients said that, in responding to treatment, they had become “myself at last” or “better than baseline” — often, less socially withdrawn. I presented these examples first in essays for psychiatrists and then in my book, where I surrounded the narrative material with accounts of research.

O autor utiliza narrativas individuais como exemplo em seus livros, ilustrando detalhes clínicos que ficam fora do escopo da análise quantitativa das atuais pesquisas em psicologia e psiquiatria, mas que fazem parte da clínica diária com pessoas reais.

Vai pra minha lista de leitura.

* O livro está esgotado na editora. É possível comprar na língua original, pela Amazon.

:: Leia também aqui no blog  Cão negroAlém do preconceitoGentle on my mind

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A tristeza que veio pelo mar

Moacyr Scliar melancolia Saturno nos Trópicos psiquiatria

Sempre que posso, recomendo Saturno nos Trópicos (Companhia das Letras, 2003) para os residentes ou colegas psiquiatras que não conhecem o excelente livro de Moacyr Scliar.

A obra é uma espécie de ensaio sobre a história do complexo conceito da Melancolia na cultura ocidental, partindo do seu nascimento na Antiguidade Clássica. Scliar conduz a narrativa com muitas ilustrações tiradas das artes, das religiões e de fatos históricos.

A narrativa se desdobra em três momentos: a Antiguidade clássica, a Renascença e o Brasil durante a transição para a modernidade. Scliar fala sobre o rei Saul, sobre anatomia, bruxaria e sífilis, sobre Dürer e Bruegel, Hamlet, Policarpo Quaresma e Jeca Tatu, Cervantes, Machado de Assis, Lima Barreto, Paulo Prado e Clarice Lispector.

O caminho histórico feito pelo autor termina no Brasil, em como o conceito se expressa em nossa cultura.

(Pra quem não sabe, o grande escritor Moacyr Scliar era médico sanitarista e tinha um vasto conhecimento de história da medicina).

:: Leia também aqui no blog  Anatomia da MelancoliaA doença de SaulLoucura na Era Clássica

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Controle remoto

james tilly matthews psicopatologia psicose tear de ar

Já escrevi sobre o James Tilly Matthews aqui no blog.  O célebre paciente do hospital Bethlem foi a primeira pessoa conhecida a ilustrar de forma detalhada o conteúdo do seu delírio.

O complexo delírio de Matthews envolvia entre outras coisas um aparelho denominado “Tear de Ar” (Air Loom), descrito em detalhes pelo paciente. A máquina tinha como principal função o controle externo dos seus pensamentos e operava segundo fundamentos recém-descobertos da química e do magnetismo animal.

Encontrei no Public Domain Review um ótimo texto ilustrado sobre o caso - Illustrations of Madness: James Tilly Matthews and the Air Loom

Interessante perceber que o conteúdo bizarro do delírio tem características do que chamamos Sintomas de Primeira Ordem, segundo a classificação de Kurt Schneider. Segundo o psiquiatra alemão, fenômenos psicóticos nos quais há apagamento da fronteira entre o eu e o mundo, vividos como alucinações ou delírios nos quais o paciente se sente controlado externamente, ou delírios que envolvem difusão ou materialização do pensamento (telepatia, capacidade de ouvir pensamento, etc); seriam característicos da esquizofrenia. A classificação foi criada para diferenciar esse tipo de alteração daquelas presentes em outras psicoses, como as relacionadas a doenças afetivas.

:: Leia também aqui no blog  Delírio ilustradoTrês vezes delírioBleuler ipsis litteris

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Pareidolia

 

Já escrevi sobre a pareidolia aqui no blog:

Pareidolia é a ilusão que ocorre quando o cérebro tenta encontrar imagens conhecidas em estímulos sem organização. Isso acontece quando olhamos para as nuvens, por exemplo, e identificamos o formato de um animal ou objeto, ou quando percebemos rostos humanos ou monstruosos em manifestações da natureza, como nesta imagem.

É comum que essa pegadinha do cérebro faça as pessoas verem figuras religiosas (Jesus e Virgem Maria são os campeões aqui no Brasil) nos lugares mais inesperados.

No vídeo acima, o humorístico Porta dos Fundos mostra como essa ilusão pode ser  convincente.   :)

:: Leia também aqui no blog  Assim é se lhe pareceUm teste para alucinaçõesIlusões na floresta

Uma história da Nostalgia

nostalgia psicologia psicopatologia psiquiatria

Chamam de nostalgia aquele sentimento melancólico decorrente do afastamento: da pátria, dos entes queridos, do passado. O termo foi cunhado em 1622 por Johannes Hofer, como uma tradução do grego para o nome alemão Heimweh. 

Inicialmente, o termo tinha o mesmo sentido do nosso banzo, afecção grave que acometia escravos no nosso período colonial. O termo tem origem banta e designa um estado de profunda tristeza sentida pelos negros arrancados de sua terra natal, que levava ao definhamento e, em muitos casos, morte. (Leia mais sobre o banzo, aqui).

Encontrei um ótimo artigo publicado recentemente no periódico History of Psychiatry, sobre o tema - Nostalgia: a conceptual history (o acesso ao artigo na íntegra é pago, mas você pode tentar ler aqui).

Alguns pontos interessantes:

  • O termo foi formado por adição de nosos (retorno à terra natal) e algia (dor, sofrimento). Outros nomes cogitados por Hofner para o sentimento foram pothopatridalgia, nostomania e philopatridomania;
  • Em francês, era chamada malade du pays, literalmente, “doença de país”. Em espanhol existia no começo do séc. XVII como mal de corazón.
  • Segundo o construto de Hofner, a doença acometia mais suíços e tinha origem anatômica em fibras nervosas cerebrais profundas, onde estariam entranhados os sentimentos relacionados à pátria.
  • No começo do séc. XIX passou a ser considerada um grava doença que acometia soldados, principalmente na França das Guerras Napoleônicas.
  • A tese de doutorado de Karl Jaspers intitulada Heimweh und Verbrechen (Nostalgia e Crime), avaliava casos de mulheres do séc. XIX que, motivadas por fortes sentimentos nostálgicos, haviam cometido assassinatos.

Encontrei também outro texto sobre o tema, na Harvard MagazineHypochondria of the Heart

:: Leia mais aqui no blog  O peso das horasOnde foi parar o colapso nervoso?Loucura na Era Clássica

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A pós-modernidade

pos-modernidade internet simulacro

Estávamos conversando sobre simulacros, quando  escutei essa do amigo professor José Nilton de Figueiredo, sobre as aulas na disciplina de filosofia da história, ministradas na URCA:

“Quando eu quero explicar o que é a pós-modernidade pros alunos eu conto a seguinte história: imagine que dona Chiquinha vem andando na rua, ali pela pracinha, perto do centro. Conduz uma criança pelo braço, sua netinha de sete anos. Eis que encontra uma amiga que há muito não vê.

Dona Chiquinha se apressa então em apresentar a garota, toda orgulhosa:

- Olha comadre, essa é minha neta, a Cleidinha!

A menina, de fato, é um mimo. O que gera o comentário sincero da amiga:

- Mas ela é uma gracinha!

Não se contendo de satisfação, dona Chiquinha emenda:

- Ah, você precisar ver é a foto dela, comadre!”

Concordo, professor Dedé. Assim é a pós-modernidade.

:: Leia mais aqui no blog  Espírito de manadaEsquecendo o telefoneA vida, fora da rede

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Antes de Cotard

desintegração cotard psiquiatria psicopatologia

Já escrevi sobre a síndrome de Cotard algumas vezes aqui no blog. Relembrando:

Chamamos Síndrome de Cotard (pronuncia-se “cô-tár“) o conjunto caracterizado por delírios ao redor da temática da degeneração ou putrefação do corpo ou de órgãos internos, associados geralmente a alucinações (visuais, olfativas, cenestésicas) referentes à idéia em questão. Então, por exemplo, um paciente pode crer de maneira delirante que seu fígado apodreceu e ter alucinações olfativas do cheiro desagradável vindo do seu interior. Em casos mais graves o paciente pode crer que está morto.

O quadro psicopatológico foi consagrado após descrição do neurologista Jules Cotard em 1880.

Encontrei no ótimo Mind Hacks a indicação de uma descrição de um quadro semelhante, muito anterior à do francês. Segundo o blog, há um relato do médico holandês Levinus Lemnius, feito em 1546, de um paciente com delírio de negação, que hoje levaria o nome de síndrome de Cotard.

Leia lá [em inglês]: An earlier illusory death

:: Leia mais aqui no blog  Funeral de mentiraLicantropiaMedo e delírio na rave

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PKD & Crumb

weirdo crumb phillip k. dick psicodelia

Robert Crumb já apareceu outras vezes aqui no blog.

Dessa vez indico, desenhada por ele, a psicodelíssima viagem alucinatória do autor Philip K. Dick (ou PKD para os entendidos), outro que dispensa apresentações, em busca do sentido da realidade.

A história apareceu em 1986 na revista Weirdo, fundada pelo próprio Crumb. Você pode ler o relato ilustrado, online, no BrainpickingsR. Crumb Illustrates Philip K. Dick’s Hallucinatory Spiritual Experience

(Interessante perceber logo no primeiro painel que Crumb interroga se a experiência mística de PKD não seria a manifestação de uma “esquizofrenia aguda”)

Falando em psicodelia, aproveite e veja aqui no blog outros posts sobre o assunto:

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Uma história da trepanação

trepanação loucura história psiquiatria

Há evidências que trepanações era realizadas em 6500 A.C. Achados arqueológicos de várias culturas antigas, de gregos a egípcios, evidenciam o que provavelmente foi a primeira intervenção cirúrgica.

O verbo ‘trepanar’ deriva do grego trypanon, que significa ‘broca’. O procedimento consiste de fazer buracos na calota craniana e expor a dura-máter com o objetivo de tratar enfermidades ligadas direta ou indiretamente ao cérebro.

Especula-se que o homem pré-histórico utilizasse a técnica para uma variedade de condições, de traumatismos crânio-encefálicos (com o mesmíssimo objetivo das atuais craniotomias descompressivas) a epilepsia, passando por transtornos mentais.

Sim, os pacientes sobreviviam a isso. Análises arqueológicas mostram que havia chances de sucesso relativamente altas.

Encontrei uma ótima coleção de imagens e informações sobre a trepanação aqui: The True Story Of Ancient Brain Surgeries

Apesar das evidências e hipóteses científicas, ainda há muito sobre o que entender sobre o fenômeno.

:: Leia mais aqui no blog   Louco de pedraCharlatanismoTratando o amor

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