Rorschach em Nuremberg

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O Neuroskeptic chama a atenção para um artigo interessante publicado recentemente sobre o uso do teste de Rorschach nos réus nazistas no Tribunal de Nuremberg.

O responsável pela avaliação dos alemães presos aguardando julgamento foi o tenente-coronel Douglas Kelley, psiquiatra do exército americano. Além de tentar traçar um perfil psicológico, seu aval era necessário para determinar se o réu tinha condições de ser responsabilizado por seus crimes.

Entre outras técnicas, Kelley utilizou o teste de Rorschach. Os resultados, que descrevem traços de personalidades dos oficiais nazistas são interessantes como documento histórico, no entanto, as conclusões diagnósticas foram fortemente influenciadas pela situação, como mostrou um estudo de 1976.

Leia aqui o texto do Neuroskeptic sobre o assunto: Rorschach Tests at the Nuremberg Trials

E, aqui, o paper original.

:: Leia também aqui no blog  O prontuário de HitlerO nascimento da psicologia científicaNa cabeça de Hitler

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Pintando música

sinestesia pintura  Melissa S. McCracken

Sinestesia é a aglutinação de sensações e percepções que frequentemente resulta numa “troca” entre inputs sensoriais. Dito de outra forma, é sentir um estímulo através de outro órgão que não aquele primariamente ativado pelo estimulo em questão. É, por exemplo, ouvir cores ou ver cheiros.

Os poetas simbolistas adoravam utilizar a sinestesia como figura de linguagem. Veja o exemplo de Baudelaire:

Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
doces como os oboés, verdes como as campinas,
e outros, corrompidos, ricos e triunfantes

Aparentemente, nossos cérebros funcionam às vezes e naturalmente de forma sinestésica (escrevi sobre isso aqui e aqui), mas algumas condições podem amplificar isso. É o caso da intoxicação por algumas substâncias como LSD e ayahuasca, ou de certos tipos de alucinações.

Algumas pessoas, no entanto, vivem intensamente a sinestesia no cotidiano. É o caso da artista Melissa S. McCracken que enxerga música.  Na imagem acima, de sua autoria, está representada a música Imagine, de John Lennon.

Uma outra experiência interessante – e oposta à de Melissa McCracken – é a do artista Neil Harbisson que nasceu com uma incapacidade de enxergar qualquer cor. Há alguns anos Harbisson desenvolveu um aparelho que transforma cor em sons, transmitidos por ressonância em sua caixa craniana. O artista desenvolveu então a capacidade de ouvir as cores que ele é incapaz de ver.

Veja aqui uma galeria de Melissa McCracken. E, aqui, a TEDtalk de Neil Harbisson.

:: Leia também aqui no blog  Ouvindo coresUm pouco de sinestesia em cada um de nósAs viagens de Oliver Sacks

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TEPT: ferida aberta

TEPT quadrinhos trauma psicologia psiquiatria

A artista Leela Corman ilustra com uma crueza cirúrgica sua experiência como portadora de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em PTSD: The Wound That Never Heals

Publicados na excelente revista eletrônica Nautilus, os quadrinhos contam o sofrimento vivido após a perda de sua filha, com todo o peso dos sintomas e o périplo pelas modalidades de tratamento.

(Clique no link ou na imagem para ler na íntegra).

:: Leia também aqui no blog Carrossel de emoçõesViagem pela menteA estranha aura de “Epiléptico”

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Lições de filosofia no cinema

cinema filosofia psicologia psiquiatria

The Guardian publicou uma interessante lista de sete filmes que fazem refletir sobre questões filosóficas: I watch therefore I am: seven movies that teach us key philosophy lessons

Entre eles, o insuspeito (e mediano) Galaxy Quest e o instigante Amnésia. Citam também Gattaca, que antecipa descobertas só recentemente consolidadas pela epigenética: a superação do determinismo genético.

Vale a pena ler a lista e ver os filmes.

:: Leia também aqui no blog  Psiquiatras precisam ir ao cinema?Cinema e psiquiatria10 filmes sobre memória e esquecimento

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Ouvindo vozes

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Nem toda alucinação auditiva é sinal de doença mental. Num ponto não-patológico do espectro que vai da saúde ao transtorno mental, temos, por exemplo, alucinações hipnagógicas – aquelas relacionadas ao adormecer. Um exemplo é escutar vozes ou o telefone tocando quando se está prestes a dormir.

No outro oposto do espectro estariam as alucinações da esquizofrenia: vozes intrusivas de comando ou que comentam o comportamento do indivíduo.

O neurocientista Vaughan Bell (do ótimo blog Mind Hacks) recentemente falou sobre alucinações auditivas e a atual relativização do valor patológico desse sintoma que pode ocorrer, algumas vezes, fora do diagnóstico das psicoses.

The experience of ‘hearing voices’ has attracted a great deal of scientific interest, but considering they are fundamentally a social experience – in essence, a form of hallucinated communication – neuroscience has been curiously reluctant to address how our ability to relate to other people may be involved in generating hallucinated voices.

Ele começa a sua fala citando Brian Wilson dos Beach Boys (de quem já falei aqui) o que torna a apresentação ainda mais interessante.

Escute aqui o aúdio da apresentação: The Psychology and Neuroscience of Hearing Voices

:: Leia também aqui no blog AlucinaçõesAlucinações ao pianoCérebro compositor

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Doutor no Google

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Uma artigo interessante no New York Times aponta para a crescente preocupação de pacientes em ver informações sobre seus psiquiatras no Google. Uma preocupação agora compartilhada pelos próprios profissionais.

I knew my psychiatric practice was forever changed the day a patient arrived with a manila folder stuffed with printouts and announced that it contained the contents of a Google search that he had done on me.(…) I’d forgotten that many of these documents existed, and there were others I’d never seen or heard about. My patient knew things about me that I didn’t know.

A tendência tem crescido muito nos EUA e Inglaterra, e criado desconforto generalizado. Fica a pergunta, será que o paciente deve levar em consideração aspectos da vida íntima e familiar de seus profissionais? Até que ponto essas informações podem atrapalhar na relação terapêutica? Leia lá: Do You Google Your Shrink?

Ainda não há respostas firmes, já que o fenômeno é novo. Por via das dúvidas eu opto pelo caminho da discrição [possível].

:: Leia também aqui no blog  InterioresA internet pode te deixar louco?Eu tenho um terapeuta

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Grilo na cabeça

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Quem gosta de música brasileira como eu vive sempre procurando algo “novo” no passado: um artista esquecido, um disco genial que se perdeu por uma tiragem pequena, a fase escondida de um músico consagrado, essas coisas. Foi nesse espírito que cheguei à história do compositor e cantor Guilherme Lamounier.

A carreira do artista carioca foi da consagração à tragédia muito rápido.  E a tragédia no caso de Lamounier tem um nome: esquizofrenia.

O cantor (nossa versão de Syd Barrett, ou Brian Wilson)teve sua primeira crise, de um jeito quase cinematográfico, depois de defender uma canção no famoso Festival Internacional da Canção em sua edição de 1970. O resultado de sua apresentação foi o pior possível, segundo um ótimo texto que encontrei sobre o cantor: Havia um grilo na cabeça

“[Carlos] Imperial ficou enfiando na cabeça de Guilherme que ele ia ser a grande sensação do festival, mas a música não era grande coisa. Começou a cantar e começou a ser vaiado. Ficou desesperado, se esgoelou sem ouvir a própria voz”

Vale a pena ler o texto e ouvir um de seus belos discos, um album 1973 que leva seu nome.

:: Leia também aqui no blog Inumeráveis estados do serDiamante loucoPop ensandecido

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Loucura e civilização

andrew scull madness in civilization

Não li ainda, mas vai direto pra minha wishlist.

Esse livro deve interessar a quem gosta de história da psiquiatria: Madness in Civilization: A Cultural History of Insanity, from the Bible to Freud, from the Madhouse to Modern Medicine

Scull is impressively steeped in the cultures that produce and reflect both mental illness and responses to it. While he respects biological explanations, he is acutely alive to environmental input. He doesn’t restrict himself to what we would now call psychoses, but includes many shades of the irrational.

O autor Andrew Scull tem se destacado como historiador da psiquiatria e é autor de outros livros sérios sobre o tema. Aparentemente não há anda publicado em português pelo autor, então, vá direto na fonte.

(dica de @PsychEthics)

:: Leia também aqui no blog A Era do InsightMusas da histeriaA tristeza que veio pelo mar

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Gameterapia

realidade virtual ansiedade game jogo

O uso de realidade virtual e realidade aumentada têm sido cada mais vez frequente no desenvolvimento de novos tratamentos para transtornos mentais. Já é relativamente consolidada a utilidade de realidade virtual no tratamento de exposição para fobias, por exemplo.

Recentemente, foi lançado em uma feira de videogames um jogo para ser usado com óculos especiais de realidade virtual, cujo objetivo é o controle de sintomas de ansiedade. O nome do jogo é DEEP. Nele, o usuário deve controlar sua respiração para explorar um mundo subaquático colorido e relaxante.

It’s based on the same sort of deep breathing exercises that many anxiety sufferers—and meditation/yoga enthusiasts—are already familiar with, coupled with immersive visuals and audio that make you feel like you’re suspended in a dreamy, underwater world. A belt secured around your body senses when you inhale and exhale, causing you to “rise” and “fall” rhythmically within the water as you explore a “zen garden” of coral and colored lights.

A ideia parece ser ótima. Resta saber o valor terapêutico disso em estudos controlados.

Encontrei aqui: Virtual reality creator hopes to treat anxiety attacks

(Esse ano espero divulgar um projeto pessoal com realidade virtual/aumentada que deve chamar a atenção. Mas são cenas dos próximos capítulos.)

:: Leia também aqui no blog Ataques de pânicoCowboyterapiaSexo com robôs

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Intermezzo

You’ve lost your tongue
When you fall from the pendulum
Your heart is a drum
Keeping time with everyone

Acima, um clipe muito bonito do Beck sobre memória, passado e presente. A música é Heart is a drum.

Para servir de acompanhamento musical de um livro que indiquei aqui.

Esquizofrenia em animais

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Um amigo certa vez me perguntou se cachorros podiam desenvolver esquizofrenia. Na época, pensei nos modelos animais que temos atualmente – aqueles, por exemplo, de indução de sintomas psicóticos em ratos com substâncias reconhecidamente indutoras tipo cetamina e anfetaminas – e respondi que sim, que seria possível. Resposta que não convenceu nem a mim mesmo.

Só recentemente achei uma base mais sólida para responder o questionamento, dessa vez negativamente. De acordo com a recente compreensão genética e evolutiva do fenômeno, a esquizofrenia (e o autismo) parecem estar ligados a uma complexa característica desenvolvida apenas pelo bicho homem: a linguagem.

Uma matéria da Scientific American faz um apanhado da teoria que sugere que, entre todos os animais, só o homem pode sofrer de esquizofrenia.

Leia lá: Why Don’t Animals Get Schizophrenia (and How Come We Do)?

Though psychotic animals may exist, psychosis has never been observed outside of our own species; whereas depression, OCD, and anxiety traits have been reported in many non-human species. This begs the question of why such a potentially devastating, often lethal disease—which we now know is heavily genetic, thanks to some genomically homogenous Icelandics and plenty of other recent research—is still hanging around when it would seem that genes predisposing to psychosis would have been strongly selected against.

Ao contrário do que possa parecer leviano ou superficial nesse tipo de pesquisa, entender o que acontece com animais é fundamental para elucidar um fenômeno humano tão complexo como a esquizofrenia.

:: Leia mais aqui no blog  Genética da esquizofreniaEsquizofrenia e desintegraçãoEsquizofrenia em destaque

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Ponto de vista original

No vídeo acima o genial Ariano Suassuna fala de seu interesse pela loucura e pelos loucos.

Entre uma história e outra, revela que seu pai, enquanto governador da Paraíba na década de 1920, construiu o primeiro hospital psiquiátrico do estado, que levou o nome de Juliano Moreira.

Dê o play e se prepare para rir com as histórias de um dos gigantes de nossa literatura.

:: Leia mais aqui no blog Louco de pedraA Loucura e seus nomesA esquizofrenia chega ao Brasil

Lá vem o sol

 

Dia 19 de março marca o equinócio. Aqui no hemisfério sul, mais precisamente no Ceará, a data assinala o início do período chuvoso e, a depender das precipitações nesse dia, os profetas sertanejos são capazes de dizer se o ano será de estio ou se será um ano bom. Chuva no sertão sempre é bom. Bom e bonito, aprendi.

Quando trabalhei como médico rural em uma das regiões mais secas do estado, meu fiel escudeiro e confidente nas horas difíceis do métier de Hipócrates foi Seu João, o motorista do carro oficial que nos fazia cruzar a longa piçarra de posto em posto. Simpático e natural – daquela naturalidade curtida que só o velho sertanejo tem – ele era o interlocutor perfeito para conversar sobre as coisas da natureza (e tudo mais no mundo). Um dia, na estrada com ele, o horizonte apareceu diante de nós carregado e escuro, ainda que fosse plena manhã. Era final de março, e o céu oferecia pra a gente um daqueles espetáculos de força, difíceis de ignorar.

Diante da paisagem eu, então jovem médico com a cabeça plantada nas coisas da capital, não contive a exclamação que antecederia o natural rosário de reclamações que nós, pobres moradores da grande cidade, tiramos do bolso para maldizer a chuva que alaga, engarrafa, faz abrir goteiras e gripar as crianças. Eu ia começar:

- Putz, Seu João, olha ali! – disse, apontando pro horizonte e tomando fôlego pra começar meu queixume.

O doutor aqui ia abrir a ladainha comentando como o tempo estava feio, mas foi – feliz e oportunamente – interrompido pela empolgação verdadeira da sabedoria sertaneja. Era meu motorista entoando a voz da razão:

- Eu vi, doutor! Tá bonito, hein?

Diz o clichê que feio ou bonito só dependem do ponto de vista. Ou de como o sol incide sobre as coisas. O equinócio acontece quando nosso astro-rei tem sua luz distribuída igualmente pelo globo. Isso marca lá em cima, no hemisfério norte, o fim do inverno. Ou, dito de um jeito mais bonito, o desabrochar da primavera.

Essa semana li no jornal que o movimento humano começava a voltar aos parques da Inglaterra.  Vi fotos de espaços ao ar livre ainda cobertos por uma fina camada de gelo que se enchiam de meninos e adultos à toa, simplesmente tomando luz com a sede de quem espera um ano de sol.

Dependendo de onde vocês está no globo, o equinócio pode levantar até a sombra da tristeza mais profunda, patológica. Pessoas que sofrem de depressão sazonal, moléstia que tende a atacar inclemente no inverno dos países mais frios, começam a melhorar tão logo passem a receber mais luz natural. A do sol, claro.

Tenho certeza que uma das músicas mais bonitas do mundo é menos sobre o sol que sobre o equinócio. Here comes the sun, do inglês George Harrison (de uns tais de The Beatles) não diz só do começo da primavera. A linda canção assinala – com a mesma alegria esperançosa de Seu João ao ver o tempo fechado no sertão -, o final da tristeza.

Ou, dito de um jeito mais bonito, o raiar da luz afastando o negrume das incertezas.

:: Leia também aqui no blog  Sofrimento sazonalIntermezzoO valor da melancolia

Cartum #84

- O que você quer dizer com 'esta é nossa última sessão'?

– O que você quer dizer com ‘esta é nossa última sessão’?

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Enxaqueca

migraine art enxaqueca arte

Peguei no Dangerous Minds a dica de um livro com ilustrações sobre a enxaqueca, feitas por artistas que sofrem desse tipo malvado de dor: Migraine Art: The Migraine Experience from Within

(Ja tinha postado sobre músicas e migrânea aqui).

Nunca tive, mas a experiência de alguns pacientes e conhecidos é o bastante para não desejar uma crise forte a ninguém.

Vai também aqui a dica para as tirinhas do Migraine Boy (“Garoto Enxaqueca” aqui no Brasil) , com as desventuras de um menino com dor de cabeça crônica.

:: Leia também aqui no blog País das MaravilhasIntermezzoA estranha aura de “Epiléptico”

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