A força do inconsciente

hulk freud quadrinhos psicanálise humor

O Incrível Freud, mais bruto que o Analista de Bagé.

(Peguei daqui.)

:: Leia também aqui no blog: Sete homens e um destinoO louco da turmaArte das especialidades

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Criptomnésia

Nada está realmente perdido para nós enquanto pudermos lembrar.

– L.M. Montgomery

Criptomnésia é o fenômeno na qual uma memória ressurge na consciência e é vivida como algo inteiramente novo. É lembrar de algo que estava de alguma forma encoberto e não reconhecer a lembrança como um dado do passado, mas como uma idéia totalmente nova .

Não é  incomum de acontecer. Alguns escritores já foram acusados de plágio por inserir sem perceber trechos de outras obras ou ideias de outros escritores em suas produções sem se dar conta da repetição. O tema rende até bons experimentos científicos como este e este.

Na música há também casos interessantes. Um deles é conhecido por todo fã dos Beatles: em 1971 George Harrison foi acusado de plágio com a música My Sweet Lord. Segundo o processo movido contra o ex-beatle, o hino espiritualista  seria a cópia de uma música dos anos 60, She’s so fine, gravada pelo grupo The Chiffons e de autoria de Ronnie Mack (clique para ouvir e comparar).

De fato, a semelhança das melodias é inegável. No entanto, é mais plausível achar que o profílico compositor George Harrison tenha sido vítima de uma criptomnésia do que considerar que tenha roubado uma canção, tendo em vista seu reconhecimento e sucesso – com os Beatles e em carreira solo.

O fato é que Harrison, traído pela própria cabeça, perdeu o processo de plágio e alguns milhões de dólares. A memória tem dessas.

ResearchBlogging.org

TAYLOR, F. (1965). Cryptomnesia and Plagiarism The British Journal of Psychiatry, 111 (480), 1111-1118 DOI: 10.1192/bjp.111.480.1111

Macrae, C., Bodenhausen, G., & Calvini, G. (1999). Contexts of Cryptomnesia: May the Source Be with You Social Cognition, 17 (3), 273-297 DOI: 10.1521/soco.1999.17.3.273


::Leia também aqui no blog
 Beatles e a neurociênciaMúsica na cabeçaConfabulações de Chico Buarque

Rindo da desgraça alheia

lobo mau três porquinhos schadenfreude psiquiatria

Não são só os brasileiros e portugueses que podem ser gabar de ter no dicionário uma palavra exclusiva para descrever um sentimento peculiar. Como “saudade” há palavras em outros idiomas que significam algo especial, uma emoção ou sentimento restritos à cultura de seus falantes. Uma delas é Schadenfreude.

Schadenfreude (pronuncia-se assim) é uma palavra de origem alemã, tomada emprestada também por falantes da lingua inglesa, que designa o prazer malicioso obtido às custas do infortúnio de alguém. É aquele sentimento que a gente tem quando assiste a uma pegadinha, por exemplo. O brasileiro é craque em sentir isso. O cearense especialmente. Existe até um verbo aqui pra isso: mangar.

Regionalismos à parte, um estudo recente sugere que o sentimento é universal e que aparece na tenra infância. No estudo, crianças de quatro anos apresentam sentimento de Schadenfreude diante de personagens de historinhas infantis que, ao tentar alguma peraltice, acabam se dando mal.

Reparando como as histórias infantis clássicas foram escritas, dá para perceber que intuitivamente seus autores reconheciam o Schadenfreude nas criança. Não é à toa que muitos personagens de histórias infantis clássicas  - como o lobo mau dos Três Porquinhos ou o sapo da Festa no Céu – têm destinos trágicos. Para o deleite de meninada.

ResearchBlogging.org

Schulz, K., Rudolph, A., Tscharaktschiew, N., & Rudolph, U. (2013). Daniel has fallen into a muddy puddle – Schadenfreude or sympathy? British Journal of Developmental Psychology DOI: 10.1111/bjdp.12013

 

:: Leia também aqui no blog  Com cara de melancia ou de elefanteO útero erranteA Loucura e seus nomes

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Chances de morrer

causas de morte EUA suicídio psiquiatria

Um gráfico ilustrando as chances de morrer nos Estados Unidos por causas comuns e raras. Chama a atenção que a terceira mais provável seja a morte auto-infligida (intentional self-harm).

Clique para ver o gráfico completo em tamanho maior.

(Via Explore)

:: Leia também aqui no blog Cores do bem e do malTranstorno bipolar: um pouco mais alémAsterix no centro cirúrgico

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Encarcerados

Trapped fotografia psiquiatria prisão

A fotógrafa Jenn Ackerman passou meses na unidade psiquiátrica do presídio Kentucky State Reformatory fotografando presos e funcionários. O resultado é o impressionante projeto fotográfico Trapped.

As fotos são atestam de maneira comovente o sofrimento de pessoas com transtorno mental grave que cumprem pena por algum crime violento.

Clique aqui para ver a galeria.

:: Leia também aqui no blog: Um fotógrafo na enfermaria psiquiátricaEstranhos à razãoAs faces da dependência

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Cartum #55

psicoterapia cartum humor psicologia terapia

(por Frank Modell)

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Onde você pára?

Transtorno de personalidade

Encontrei pela rede e traduzi. Clique para ver maior.

:: Leia também aqui no blog: Cachorrinho borderlineCartum #34Barbas & gravatas borboleta

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O que vem primeiro

ovo terapia winnicott crônica

Meu vizinho de cima, um garoto entre sete e oito anos, é o demônio.

Não tenho contato com Gabriel – assim se chama o anjinho decaído -, mas a julgar pela forma como arrasta as cadeiras do apartamento, o jeito que joga seus brinquedos no chão, que corre de um lado para o outro sem parar e, principalmente, pelos gritos que recebe da mãe, posso dizer que habita sobre o meu teto um exemplar daquela espécie que chamamos carinhosamente de capeta.

Às cinco e quarenta da manhã escuto sobre minha cama, vindo de onde deve ser o quarto do mini-tinhoso, gritos horríveis. O menino – e eu –  somos acordados nos dias de escola pelo som estridente da voz da mãe. A jovem senhora grita como se não houvesse amanhã. E assim vai o dia todo através dos trinta centímetros de concreto que nos separam: “Gabriel, isso! Gabriel, aquilo!”; ou simplesmente: “Gabrieeeeel!”.

Despertar ao som da histeria dessa mulher é suficiente para estragar parte do meu dia. Minha vontade ao sair de casa para trabalhar nessas manhãs é fazer  pelo caminho alguma traquinagem do tipo buzinar pelo simples prazer de atazanar os outros motoristas ou soltar os cachorros em cima de minha atendente. Não faço isso porque entendo que sou uma vítima. Na verdade, eu e o pobre Gabriel somos vítimas. Ambos sofremos com a proximidade de uma mãe adoecida.

Se ouvir os gritos da mãe do garoto por vinte minutos é suficiente para me encher de raiva, posso calcular o efeito devastador de um convívio de vinte e quatro horas, por sete ou oito anos. Gabriel tem todos os motivos pra ser danado.

Tenho uma quase-certeza quase-terapêutica que, numa avaliação da relação causa-e-efeito, o que vem primeiro não é danação do menino, mas a destemperança da mãe. Admito, claro, que existem crianças atavicamente endemoniadas, mas essas são a minoria. E mesmo nesses casos, se pensarmos geneticamente, a fonte do atavismo provavelmente é o caráter dos pais.

Ainda na triste circunstância em que um Bebê de Rosemary vem ao mundo, é possível atenuar o comportamento agressivo infantil com uma boa dose de tolerância por parte dos pais. É possível, bem entendido. Mesmo com uma mãe perfeita (ou suficientemente boa, diriam os psicanalistas winnicottianos), há às vezes aqueles que escapam da influência positiva e viram verdadeiros discípulos mirins do coisa-ruim.

Tenho a impressão que esse não é o caso do meu vizinho Gabriel. Não acho que o garoto que me acorda precocemente todos os dias seja naturalmente ruim. Mas jamais saberei de verdade – além da distância vertical e do concreto que nos separam, há a vívida desconfiança de que uma pessoa capaz de gerar em mim e em minha esposa tanto desconforto com seus gritos esteja longe de ser uma mãe suficientemente boa.

Sempre que penso na visão da figura materna imaginada por Winnicott, me vêm à cabeça a imagem de uma galinha. O animal atavicamente inquieto e barulhento é capaz de chocar zelosamente seus ovos e abrigar sob as asas cuidadosas suas crias.

Pensando nessa imagem e no meu vizinho Gabriel, sinto que é possível finalmente resolver a clássica questão e afirmar que a galinha vem sempre antes do ovo.

:: Leia também aqui no blog: Eu e a burocraciaPornografia: não é o que você pensaMovidos a fantasia

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Sete homens e um destino

psicanálise behaviorismo freud skinner humor

(Não consegui determinar a origem da imagem, mas gostei)

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Asilados no tempo

manicômio abandonado psiquiatria história

Aparentemente, virou um hobby para certas pessoas visitar e fotografar lugares abandonados. Nas últimas décadas, com a ajuda da internet e da fotografia digital, surgiu o interesse por documentar de parques de diversão a hospitais entregues à força destruidora do tempo. E há quem se interesse só por instituições psiquiátricas. Já postei sobre isso, aqui.

Nessa onda, encontrei um interessante “guia” de hospícios abandonados no Reino Unido e nos Estados Unidos, com muitas fotografia. Veja aqui: ESSENTIAL GUIDE: ABANDONED INSANE ASYLUMS

A história dos asilos se confunde com a história da própria psiquiatria, e é inegável o poder que essas construções têm de mexer com nossa imaginação. Os manicômios são uma metonímia da loucura, com seu todo seu apelo encantatório e misterioso.

(Além disso há o encanto gerado pela própria visão de algo decadente. Os japoneses chamam Wabi-sabi a estética centrada em elementos naturais e artificiais imperfeitos ou desgastados pelo tempo. A admiração do belo, nesse caso, deriva da percepção da transitoriedade do mundo.)

:: Leia também aqui no blog: 10 fotógrafos, 10 hospíciosFlores para o fim de uma eraO mundo fechado dos asilos

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Intermezzo

Since you took it right on the chin
You have lost that bright toothpaste grin
My mental state is all a-jumble
I sit around and sadly mumble

Frank Sinatra consegue expressar genialmente a natureza agridoce da música de Rodgers & Hart. “It’s a pleasure to be sad“- a frase fala diretamente a quem, pelo menos uma vez na vida, sentiu prazer curtindo uma bela dor de cotovelo.

Cartum #54

cartum terapia psiquiatria humor

“Eu gosto de terapia de casal, mas não consigo deixar de fantasiar com terapia de grupo.”

 

(via The New Yorker)

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O que é o DSM-5?

DSM-5 psiquiatria CID-10 diagnóstico crítica

Nos próximos meses vamos ouvir falar muito nas mudanças no DSM-5 (ou DSM V), principalmente através de críticas e investidas contra a classificação proposta pela American Psychiatric Association (APA).

Mas o que é o DSM-5, afinal?

O DSM é o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da academia americana. É manual dianóstico porque propõe uma maneira de dar os diagnósticos em psiquiatria através de um conjunto de sintomas-chave de cada doença, além de classificar, agrupar e codificar cada patologia. Estatístico porque fundamenta suas normas em critérios baseados em dados colhidos de amostras da população e também apresenta esses dados de maneira sucinta na definição de cada transtorno. A última edição, finalizada em maio de 2013, é a quinta, por isso o “5″.

A primeira edição do DSM é de 1952. Embora tenha nascido depois da Classificação Internacional das Doenças (CID) proposta pela Organização Mundial da Saúdeo DSM tornou-se, a partir dos anos 80, o modelo hegemônico de diagnósticos psiquiátricos nos países de língua inglesa.

Nas últimas décadas esse modelo também tem ganhado força em todos os continentes por conta da influência do modelo americano no universo acadêmico, sobretudo na pesquisa clínica.

Desde a quarta edição (DSM-IV), de 1994, o sistema classificatório recebe fortes críticas da comunidade acadêmica. O DSM-5 têm sido alvo de críticas da sociedade e dos profissionais de saúde desde muito antes do seu lançamento, principalmente por ser demasiadamente abrangente e transformar em doenças comportamentos até então tidos como normais. Além disso, com as novas mudanças no DSM-5, especula-se que a elaboração dos critérios de diagnóstico tenha sofrido influência da indústria farmacêutica.

A discussão sobre o DSM-5 só está começando. Novos pontos de conflito certamente surgirão após o uso disseminado do manual. É esperar pra ver as cenas dos próximos capítulos.

:: Leia também aqui no blog: O DSM-V vem aíO que é mesmo doença mental?Linha do tempo da esquizofrenia

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Retrato de um terapeuta

© Sebastian Zimmerman

© Sebastian Zimmerman

 

Otto Kernberg é um gigante. Para quem não o conhece, basta dizer que é a maior referência viva na psicoterapia de pacientes com transtorno de personalidade graves, incluindo os limítrofes. Ele praticamente inventou o conceito de borderline – não aquela checklist dos manuais DSM e CID, mas a verdadeira estrutura teórica e profunda que baseia o diagnóstico.

É também um dos inventores da moderna Psiquiatria Psicodinâmica, junto com Glen Gabbard.

Kernberg nasceu em Viena e naturalizou-se americano. Hoje, aos 84 anos ainda atende, escreve e dá aulas e palestras ao redor do mundo.

Encontrei um belo e recente testemunho na série Intimate Portrait da revista Psychiatric Times.

I like to work on the limits of our knowledge. I treat mostly patients with personality disorders—those with particularly severe cases. In recent years, I have developed a technique of formal psychoanalytic therapy for those with severe personality disorders, transference-focused psychotherapy.

Leia na íntegra: Intimate Portrait: Otto Kernberg, MD

:: Leia também aqui no blog: A Era do InsightMusas da histeriaA voz atrás do divã

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A marca da bipolaridade

transtorno bipolar televisão bipolaridade

Programa da Márcia. Lembra dela? E da síndrome do pânico?

 

Tenho observado nos últimos três anos o transtorno afetivo bipolar se tornar algo, uma ‘coisa’ que se tem, não uma doença. Até surgiu um termo novo, ‘bipolaridade’,  que sugere que essa coisa é mais soft, positiva e moderna, como uma marca que muda de nome para atingir consumidores de classes sociais mais altas. Sofrer de  psicose maníaco-depressiva é demodê, negativo; é careta. A onda agora é ter bipolaridade.

Tudo tem sua época áurea nas oscilações, não do humor, mas da moda. Aconteceu com o transtorno do pânico, então chamado síndrome do pânico pelas apresentadoras de programas de variedade – tipo Márcia – no começo dos anos 90. Todo mundo tinha, mas todo mundo vivia muito bem, obrigado. Essa mudança na maneira de ver as doenças mentais se deu principalmente nos últimos vinte anos e tem muito a ver com a televisão. Isso acontece, basicamente, por duas razões.

Primeiro, é importante simplificar a informação para que ela seja massificada. Seria muito difícil que conceitos como transtorno afetivo bipolar ou psicose maníaco-depressiva (esse último envolve três idéias complexas, a de psicose e das duas principais síndromes do humor) colassem na cabeça de um espectador comum de TV. Já bipolaridade, não: é mais curto, ágil, facílimo de ser lembrado. Para usar um jargão da publicidade, pode-se dizer que tem um recall mais poderoso.

O outro ponto é que, nas últimas décadas, mais e mais celebridades têm admitido ser portadoras de doenças psiquiátricas. Infelizmente, a minoria admite isso pelos motivos certos. Uma grande parte usa o próprio diagnóstico como uma insígnia: às vezes como algo charmoso e misterioso inerente à sua complexa personalidade de artista, às vezes como desculpa para atos reprováveis. Outros usam simplesmente para conseguir mais audiência.

(Recentemente, uma certa atriz que supostamente sofre de transtorno bipolar, encheu de curiosos um auditório inteiro no Congresso Brasileiro de Psiquiatria. O intuito era oferecer um testemunho pessoal sobre o padecimento. No lugar disso, a platéia de profissionais foi contemplada com meia hora de abobrinhas e egotrip sem sentido. Só para mostrar que nem os psiquiatras estão imunes ao charme das celebridades.)

Bem entendido, não estou aqui defendendo que os conceitos psiquiátricos continuem obscuros ou pouco acessíveis ao público leigo. Muito menos, que pessoas públicas deixem de compartilhar suas experiências particulares com doenças que são parte de uma grave problema de saúde pública. Gostaria só que o assunto fosse tratado com mais seriedade e responsabilidade. Que o sofrimento fosse tratado com a gravidade que merece, como sinal de respeito também a quem sofre. A doença mental é normalmente devastadora e não dignifica ou eleva quem tem de conviver com ela, pacientes ou familiares.

Quanto ao transtorno de pânico, continua sendo tão comum como na década de 90, mas ninguém parece falar mais sobre ele. É como se tivesse, junto com o programa da Márcia, saído de moda.

(Em tempo, o colega Daniel Franco me mandou a dica de um ótimo texto na Carta Capital sobre o assunto: A depressão severa é o inferno, até para os famosos.)

:: Leia também aqui no blog: Transtorno bipolar: um pouco mais alémLinha do tempo da esquizofreniaOndas de diagnóstico

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