Cartum #81

"Muu!"

“Muuu!”

 

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Psychedemia

Em 2012, 70 anos após a primeira viagem com LSD, a University of Pennsylvania organizou um grande evento com especialistas, filósofos, historiadores e jornalistas para discutir em um ambiente interdisciplinar o uso de drogas psicodélicas. O foco foi a possibilidade de utilização desses agentes com fins terapêuticos, religiosos e de produção de conhecimento.

O documentário acima faz um apanhado geral do que foi discutido no evento.

Muito legal para quem se interessa por psicodelia e enteógenos.

(via disinformation)

:: Leia também aqui no blog  A mente como laboratórioRobert Crumb sobre o LSDHistória secreta da psiquiatria

Aura na literatura

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Já escrevi sobre aura epiléptica aqui:

A pintura [Vision, de Alphonse Osbert] me remete imediatamente os estados pré-ictais da epilepsia, isto é, as crises parciais que podem preceder comumente as crises tônico-clônicas generalizadas. Em português, chamamos isso de aura. Há quem defenda que muitas e importantes visões religiosas, de Maomé no islamismo a Paulo de Tarso no catolicismo, pasando por Joseph Smith na religião Mórmon, podem ser explicadas por esse fenômenoque é frequentemente associado a alucinações visuais, desrealização, despersonalização ou sentimentos oceânicos de êxtase.

Achei um interessante artigo no periódico internacional Epilepsia sobre a descrição de estados desse tipo na literatura: The epileptic aura in literature: Aesthetic and philosophical dimensions. An essay

O artigo fala do clássico caso de Dostoiévski (sobre quem já postei aqui), mas cita também nosso Machado de Assis (em Memórias Póstumas de Brás Cubas).

(pegue a dica de @VaughanBell)

* Encontrei também, por acaso, uma matéria em português sobre a epilepsia do escritor de O idiotaO mal sagrado de Dostoiévski

:: Leia também aqui no blog Aura santaA estranha aura de “Epiléptico”Aura poética

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Psiquiatras precisam ir ao cinema?

cinema psiquiatria psicologia

A resposta é: sim, por favor!

(Aliás, todo médico precisa.)

Apesar de raramente ser apresentado como algo positivo, a psiquiatria aparece no cinema desde praticamente seu nascimento. Encontrei um artigo muito interessante sobre o assunto: Why psychiatrists should watch films (or What has cinema ever done for psychiatry?)

Nele, os autores abordam uma porção de facetas, focando em como a psiquiatria termina sendo representada de um jeito pouco preciso. Destaque para os motivos das caricaturas nos filmes, segundo os 5 argumentos do psicólogo e cineasta Franklin Fearing (tradução minha):

1. Siga o dinheiro: fazer filmes é uma empreitada comercial e produtores podem incluir representações pouco fiéis nos filmes para “dar ao público o que ele quer”;

2. Filme puxa filme: todo filme novo termina se inspirando nos anteriores do mesmo gênero;

3. Vieses de distribuição escondem mais filmes do que qualquer censura;

4. Não há filmes sobre saúde mental, só sobre doença mental;

5. O que sangra causa demanda: violência, agressão e morte sempre destacam histórias, seja no noticiário ou nos filmes.

Mas nem tudo é pichação no muro da psiquiatria. Segundo o estudo, os retratos mais fiéis pintado nos filmes são quando o assunto é dependência química, perdas e transtornos de personalidade.

Vale a pena ler o artigo todo (gratuito, e em inglês)

:: Veja também o que já escrevi sobre cinema aqui no blog

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Bethlem Gallery

George Harding Lancet Bethlem

A capa da última edição do Lancet Psychiatry  (janeiro de 2015) é uma pintura do artista George Harding .

O artista britânico faz parte da interessantíssima galeria de arte do hospital psiquiátrico Bethlem, na Inglaterra.

Recomendo uma visita ao site do artista e à galeria do hospício mais antigo do Reino Unido.

:: Leia também aqui no blog BedlamImagens do inconsciente,  Arteterapia na terra da Rainha

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Hospícios na Inglaterra

 

Acima, um ótimo documentário da BBC [em inglês, sem legendas] que conta a história dos hospitais psiquiátricos na terra da Rainha: A History of the Madhouse.

Da explosão numérica na Era Vitoriana, ao fechamento massivo de instituições no pós-guerra, é um documento de como o mundo ocidental trata seus doentes psiquiátricos.

Reserve uma hora para ver, vale muito a pena.

:: Leia também aqui no blog  Controle remotoFotógrafo de almasBroadmoorBedlam

Por que somos Charlie?

charlie hebdo je suis charlie

Os fiéis leitores do blog vão me perdoar a intromissão no habitual fluxo de posts sobre psiquiatria, psicologia e arte. Mas é inescapável para mim, posto que urgente, tocar no assunto.

A seguir um texto de outro autor que sintetiza boa parte do que penso sobre o anômico atentado ao semanal francês Charlie Hebdo. Quem é escreve é Juliana Diniz (professora de Direito na UFC, doutora em Direito do Estado pela USP):

«Gostaria de propor um debate sobre liberdade de expressão, intolerância religiosa e ódio racial. É um convite aos amigos que, como eu, devem estar sentindo essa inquietação profunda e persistente sempre que deparam com o nome Charlie Hebdo ou com a hashtag #jesuischarlie. Por que, afinal, somos todos Charlie? Por que o atentado ao periódico francês representa, em termos simbólicos, uma ofensa tão mais poderosa e inquietante que o próprio desaparecimento das torres gêmeas, na sua extravagância de cataclisma? 

Tenho uma hipótese e, com ela, inicio a conversa. A nossa estupefação vem, sobretudo, de uma certeza que cada um de nós, ignorantes ou letrados em política, intui: o ataque não é apenas uma violência contra Cabu, Charb ou Wolinski, o ataque é a própria negação – pela força bruta – de um modelo de sociedade, de estado e de um sentido de indivíduo (com todos os elementos que o constituem, como privacidade, autonomia, liberdade, autodeterminação, etc). A negação simbólica a um dos direitos individuais mais básicos e primordiais do mundo ocidental: a liberdade de pensamento e de expressão. Um direito que constitui o sentido de eu, de sujeito: a manifestação do meu pensamento como extensão do ser-aí-no-mundo, a minha corporificação como linguagem. Ao não tolerar a divergência, o fundamentalismo islâmico busca a exclusão completa do outro, na forma de seu extermínio. Uma guerra que, por ostentar o símbolo de sagrada, tem o poder irresistível da atração dos fracos pelo medo, uma guerra que vai além das armas, uma guerra cultural, de costumes. 

É a própria modernidade ocidental que está em jogo, sob a mira, numa polarização [ocidente vs. Islã] que provoca, como muitos analistas já fizeram questão de enfatizar, um ambiente muito mais propício à xenofobia que ao combate efetivo ao terrorismo. O que leva as centenas de milhares de franceses às ruas não é unicamente o luto dos cartunistas, mártires do republicanismo, mas a defesa enérgica de um ideal de organização social e política que vem sendo construído desde o movimento revolucionário, ainda no século XVIII: a república de homens livres, iguais e autônomos. O estado de direito. A laicidade da vida pública. 

É provável que estejamos vivendo um momento histórico muito propício ao aprofundamento de uma questão não tão nova, mas sempre problemática: os limites existentes entre público e privado. Essa dicotomia tão tipicamente nossa, ocidentais libertos. O burguês oitocentista precisou lutar com corpo e ideias para preservar a inviolabilidade da sua casa a fim de poder conversar em paz com a sua divindade. O sentido de privado foi construído, na Modernidade, como condição de possibilidade do público. A que custo a religião tem ultrapassado os altares e as salas privadas e invadido nossa esfera pública?

Que postura nós, ocidentais conscientes de nosso status de cidadãos livres do desejo cruel de qualquer divindade, podemos tomar nestes tempos difíceis, de ódio, desrazão e terror? Seremos levados a concordar com Bertrand Russel quando afirma ser a religião a maior responsável pelo atraso moral da humanidade? Fica a pergunta e o convite à reflexão.»

 :: Leia também aqui no blog A mente de dois mil e quinhentosEsquizofrenia e desintegraçãoA pós-modernidade

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Adicção

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Tenho acompanhado faz um tempo a excelente revista digital Aeon. Os ensaios realmente tocam a parte essencial dos temas sem superficialidade, mas também sem grandes aspirações de tratado.

Sugiro uma seleção interessante de ensaios/artigos sobre dependência química que vão desde uma crítica ao famoso programa de 12 passos a experiências individuais de adictos. Veja lá: Addiction

:: Leia também aqui no blog  A mente como laboratórioMaconha no século XIXHistória da embriaguez

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Eureka!

arquimedes eureka epifania pensamento psicologia

Encontrei um texto bacana no Open Culture sobre o processo mental que nos leva, como o filósofo Arquimedes, a ter epifanias durante o banho.

É claro que por “banho” deve-se entender qualquer atividade mais ou menos automática e corriqueira que nos faz desligar um pouco dos pensamentos habituais.

Há várias teorias. Uma delas sugere que esse modo “piloto automático” propicia o aparecimento de livres-associações, o que é sinônimo de novas ideias. Outra hipótese e que o relaxamento provocado por atividades simples, levam ao aumento da atividade das vias dopaminérgicas, o que aumentaria a criatividade.

The intuitive revelations we have while showering or performing other mindless tasks are what psychologists call “incubation.”(…) what all of this research suggests is that peak creativity happens when we’re pleasantly absent-minded. Or, as psychologist Allen Braun writes, “We think what we see is a relaxation of ‘executive functions’ to allow more natural de-focused attention and uncensored processes to occur that might be the hallmark of creativity.”

Vale a pena ler: Why You Do Your Best Thinking In The Shower: Creativity & the “Incubation Period”

:: Leia também aqui no blog  Vontade de pularCriptomnésiaPensamento divergente e criatividade

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Banzo

'Mercado de escravos', Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

‘Mercado de escravos’, Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

 

Já escrevi sobre o banzo no blog:

banzo, afecção grave que acometia escravos no nosso período colonial. O termo tem origem banta e designa um estado de profunda tristeza sentida pelos negros arrancados de sua terra natal, que levava ao definhamento e, normalmente, morte.

Recebi a ótima indicação da professora e pesquisadora Ana Maria Oda (Unicamp), de seu artigo – na minha opinião, definitivo – sobre a doença melancólica dos nossos negros: Escravidão e nostalgia no Brasil: o banzo

Nas palavras de Oliveira Mendes, o banzo era uma das principais moléstias de que sofriam os escravos, uma “paixão da alma” a que se entregavam e que só se extinguia com a morte, um entranhado ressentimento causado por tudo o que os poderia melancolizar: “a saudade dos seus, e da sua pátria; o amor devido a alguém; a ingratidão e aleivosia que outro lhe fizera; a cogitação profunda sobre a perda da liberdade” (Oliveira Mendes, 2007, p. 370 [1812]) e o pesar pelos maustratos recebidos.

Além desse, a autora escreveu outro que resgata relatos da moléstia escritos no séc. XIX por dois pesquisadores, um francês e um bávaro: Da enfermidade chamada banzo: excertos de Sigaud e de von Martius (1844)

Leitura indispensável para quem gosta de história da psiquiatria e psicopatologia.

:: Leia também aqui no blog  A tristeza que veio pelo marUma história da NostalgiaOnde foi parar o colapso nervoso?

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Hipnose e Shell Shock

hipnose shell shock tratamento neurose de guerra

Ao longo do século XX, os traumas de guerra tomaram várias formas clínicas. Hoje a mais conhecida, e culturalmente mais difundida é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Mas nem sempre foi assim.

Notadamente a partir da Primeira Guerra, uma forma de doença adquirida nos campos de batalha foi denominada (pelos países falantes do inglês) Shell Shock. O nome é uma referência ao impacto (shock) de morteiros e obuses (shell) sobre túneis e trincheiras que abrigavam os soldados. (Já escrevi sobre isso aqui e aqui)

O quadro comumente se apresentava com alguns sintomas do TEPT (esquiva, distanciamento emocional), mas era marcado mesmo por sintomas motores, como tremores, estados catatônicos e conversivos/dissociativos, sem origem física detectável.

Encontrei uma referência muito interessante sobre uma das modalidades de tratamento para o problema: um vídeo alemão de 1917 demonstrando o poder da hipnose em soldados doentes: Shell Shock Hypnosis

A remarkable film was made of Max Nonne’s practice of curing patients through hypnosis, in Hamburg Eppendorf Hospital in 1916/17. It shows Nonne’s assistant stroking and manipulating the limbs of a series of hypnotized patients, re-enacting their earlier war neurosis symptoms. The film, ‘Funktionell-motorische Reiz- und Lähmungs-zustände und deren Heilung durch Suggestion in Hypnose,’ is approximately eleven minutes long, and shows a series of fourteen patients, both before and after treatment (the inter-titles inform the viewer), beginning with a patient suffering from severe stutter, through paralyses, to more spectacular walking disorders, in the case of the final patient, complete with full-body tremors and erratic head-jerking motions.

O filme original é mudo, com textos em alemão, mas vale a pena ser visto pela força das imagens.

:: Leia também aqui no blog Neuroses de guerraDo trauma à luzUm transtorno moderno

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Cartum #80

cartum internet selfie humor

(Via Prospect)

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Intermezzo

 

Há exatos 100 anos, houve uma trégua nos campos de batalha da Primeira Guerra. Como no clipe de Paul McCartney, soldados inimigos – judeus, cristãos, ateus -,  se juntaram para comemorar o natal de 1914.

Por um breve momento, uma luz levantou a sombra anômica do terror. Foi como se a razão elevasse sua cabeça sobre as trincheiras para enxergar o inegável motivo da existência de cada um: o outro.

Fratura na alma

transtorno bipolar relato

Tinha desistido da revista Piauí, mas ela sempre acaba me pegando aqui e acolá.

Encontrei um interessante – porque trágico, realista e brutal – relato de uma mulher com transtorno bipolar. Vale muito a pena ler.

Em busca de alguém que me resgate daquele pesadelo, me atiro no acostamento. Os carros passam e eu espero imóvel, a poucos centímetros da pista, como se estivesse desacordada, mas no fundo rezo, rezo muito. Um carro para, alguém se aproxima e vai embora. Continuo rezando. Um tempo depois chega outro carro e estaciona. A polícia, de novo. O guarda me toma em seus braços.

Finalmente alguém me liberta daquele ciclo de insensatez. Não conseguiria sair sozinha. Outra vez estou no posto de saúde, onde alguns parentes já procuravam por mim. Vou de ambulância para um hospital geral. Passo por um raio X para detectar algum traumatismo no crânio.

Nada. Minha fratura é na alma.

Quem assina é Helena Gayer, que conta uma história sem papas na língua e sem auto-piedade. É um relato de coragem, que pode ensinar muito.

Leia lá: Velocidade máxima - Os surtos e as sucessivas internações de uma jovem bipolar

:: Leia também aqui no blog  Carrossel de emoçõesA esperança além do suicídioTranstorno bipolar: um pouco mais além

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Maconha no século XIX

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Um texto interessante sobre os usos medicinais da cannabis no século XIX: PROVING CANNABIS – A HISTORY OF NINETEENTH CENTURY MEDICAL MARIJUANA

A matéria fala de experimentos pessoais feitos por médicos do período, eles mesmo utilizando a planta. Os relatos vão desde os, hoje revisitados, efeitos sobre dor crônica e espasmos até os efeitos psicoativos como alucinações, delírios e outras sensações esquisitas:

Distortions of space and time, illusions and hallucinations, erosion of the will, anxiety and racing thoughts, a profound sense of twoness and out of body experiences, and fear of impending death were all symptoms regularly recorded by medical doctors. 

A dica eu peguei de Vaughan Bell.

:: Leia também aqui no blog  História da embriaguezLícito a ilícitoAs viagens de Oliver Sacks

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