Intermezzo

 

He said my bronchial tubes were entrancing,
My epiglottis filled him with glee,
He simply loved my larynx
And went wild about my pharynx,
But he never said he loved me.

Suicídio do terapeuta

terapia morte suicídio

A escritora Julia Pierpont escreveu recentemente na sessão de psicologia do Guardian uma crônica interessante sobre o suicídio de um psiquiatra que a acompanhava. Apesar de concluir que o atendimento estava longe do ideal, ela faz uma boa reflexão sobre a natureza da relação terapêutica, pela ótica do paciente.

I would never have advised a friend to follow such a path, but when you’re depressed you cease to be your own friend. And isn’t that a central problem to beginning therapy? By the time things are dire enough to acknowledge a need for outside help, one is rarely in the position to weed out the right kind of help from the wrong. 

Leia na íntegra: The day my therapist killed himself: shock, tears and then came a revelation

:: Leia também aqui no blog O luto do terapeutaDoutor no GoogleCura pela fala

Leave a Comment

Histeria em perspectiva

Descrição das fases de um ataque histérico. Richer, 1885 (BIU Santé, Paris)

Descrição das fases de um ataque histérico. Richer, 1885 (BIU Santé, Paris)

 

A revista Frontiers of neurology and neuroscience publicou em 2014 uma edição especial toda dedicada à histeria – Hysteria: The Rise of an Enigma

A publicação, que está mais pra livro que revista, tem capítulos que vão desde a epidemiologia do quadro no final do século XIX, até um sobre traços de histeria na literatura.

Chamo atenção para um artigo em especial: Clinical Manifestations of Hysteria: An Epistemological Perspective or How Historical Dynamics Illuminate Current Practice

The diversity of the symptoms of hysteria and its changing clinical presentation calls into question the same hysterical attacks and the same symptoms, which have had only a few differences for over 2,000 years. A new definition of hysteria should be proposed, in that it is a phenomenon that is not pathological, but physiological and expressional.

Vale a pena salvar nos favoritos e ler aos poucos.

:: Leia também aqui no blog Imagens da histeriaMusas da histeriaArco histérico

Leave a Comment

Cartum #96

ciência, cartum

(Só pra atestar que não morri. Volto a seguir)

Leave a Comment

Viés cognitivo

vies cognitivo psicologia

Você escolhe um produto por ele ser o mais vendido, ou você tende a se opor sempre ao que é imposto ou recomendado?

Em ambos os casos você pode estar sendo vítima de um viés cognitivo. Esses vieses são as maneiras tortas, ‘contraintuitivas’ e, praticamente automáticas, que nossa mente usa para tomar decisões.

Se não ficou claro, encontrei um resumo com vários exemplos das principais armadilhas desse tipo aqui: This Graphic Reveals 10 Cognitive Biases That Shape Our Thinking, With Examples

Veja o link e pense duas vezes antes de achar que é livre. Ou não.

:: Leia também aqui no blog  Às escurasEureka!Massacre, memória e fotografia

Leave a Comment

Alzheimer por dentro

 

O jornalista Greg O’Brien foi diagnosticado com doença de Alzheimer em 2009. Desde então, tem lutado para manter suas memórias vivas e espalhar conhecimento sobre o problema.

A última edição da revista Nautilus traz uma matéria com um curto vídeo (acima) sobre a saga de O’Brien.

Today, 60 percent of my short-term memory can be gone in 30 seconds. I often don’t recognize friends, including, on two occasions, my wife. I get lost in familiar places, fly into inexorable rages, put my keys and cellphone in the refrigerator, my laptop in the microwave, and wash business cards in the dishwasher simply because they are dirty.

Vale a leitura: What Alzheimer’s Feels Like from the Inside

:: Leia o que já postei aqui sobre a doença de Alzheimer

Crise e estigma

estigma transtorno mental Lancet

Uma recente edição da prestigiada revista Lancet teve como capa e editorial o tema do estigma em saúde mental: The health crisis of mental health stigma

Stigma becomes even more problematic for individuals with multiple, complex needs, already pushed to the margins of their communities; society is particularly cruel to those with personality disorders, homelessness, addiction, or criminal convictions.

Também na edição, um artigo alinha evidências sobre a efetividade de intervenções para reduzir o estigma relacionado ao transtorno mental. Leia aqui.

:: Leia também aqui no blog O fim da esquizofrenia?Estigma no TwitterNomes e estigmas

Leave a Comment

Intermezzo

 

Durante um breve período de 1976, Gilberto Gil foi condenado a uma internação psiquiátrica. A música Sandra, gravada depois da estadia no hospício, fala do ocorrido e cita várias mulheres – algumas delas enfermeiras do hospital – e a então esposa do artista.

A internação aconteceu depois de uma prisão por porte de maconha em Florianópolis.

Cartum #95

last smoker cartoon fumante humor

(Via The New Yorker)

Leave a Comment

Psychosis blues

HOAX psychosis blues esquizofrenia HQ

Ravi Thornton escolheu os quadrinhos para falar da esquizofrenia. A graphic novel HOAX  – Psychosis Blues, conta a história de um portador da doença e é uma ode ao irmão da artista.

O projeto idealizado por Thornton inclui ainda um musical, que visa a trazer à tona os problemas de uma doença mental grave e estigmatizante.

Aqui, uma entrevista como a autora: This graphic novel on schizophrenia is a rare and artistic biography

Quem acompanha o blog deve lembrar que já falei aqui da excelente HQ Epilépticoque também é o relato pessoal de um autor sobre seu irmão, portador de outra doença grave e estigmatizante.

Precisamos de mais quadrinhos assim.

:: Leia mais aqui no blog  Carrossel de emoçõesA estranha aura de “Epiléptico”TEPT: ferida aberta

Leave a Comment

O coração da loucura e a metonímia

psiquiatria lados

Em abril deste ano deve estrear uma cinebiografia sobre a psiquiatra brasileira Nise da Silveira. Já escrevi sobre o trabalho dela aqui.

Intitulado Nise – O coração da loucura, o filme mostra a trajetória da doutora durante o período de criação do famoso serviço de terapia ocupacional da Casa das Palmeiras no Rio de Janeiro.

Pelo trailer dá pra intuir que o filme lança mão do velho tropo cinematográfico do herói incompreendido contra o Mal institucional; no caso, o batido drama da maléfica psiquiatria biológica sendo desmoralizada pela subjetividade triunfante de uns poucos rebeldes (vide Um estranho no ninho).

Lendo uma crítica recente feita ao documentário In the Mind, feito pelo ator e autor britânico Stephen Fry sobre a doença mental (Fry é portador de transtorno bipolar e ativista), fica evidente que esse tipo de visão distorcida do que é a psiquiatria ainda persiste. Na crítica, o autor acusa Fry de se render a um modelo simplista – e fatalista – de explicação das doenças mentais, que vem a ser o mesmo modelo imposto pela psiquiatria vigente.

Esse modelo, pelos olhos de seus detratores, retrata a especialidade como ingênua, reducionista e à mercê da indústria farmacêutica e de manuais diagnósticos. Em suma, incapaz de compreender as sutis manifestações da natureza humana que habitam por entre os fatos científicos. Nada mais equivocado.

Não há anjos nem demônios nesse campo. E esse campo não deve ser um campo de batalha. Considerar que todo psiquiatra é (ou foi) o vilão na história de alguém é o mesmo que considerar que todo alemão é (ou foi) nazista.  A verdadeira simplificação mora na crença de que a vida é como o cinema, onde há heróis e vilões absolutos, polarizados – psiquiatras e anti-psiquiatras; psiquiatras biológicos e psiquiatras subjetivistas; Nise da Silveira e os outros psiquiatras. É aí quando se cai na armadilha da generalização. A metonímia – tomar a parte pelo todo – nesse caso, além de planificar a realidade complexa da saúde mental, atrapalha o avanço da compreensão das doenças mentais e a redução do estigma a elas associado.

:: Leia também aqui no blog Imagens do inconscienteA psiquiatria respondeAlém do preconceito

Leave a Comment

Atividade paranormal

paranormalidad poderes da mente psicologia

Segundo uma pesquisa da Gallup, 75% dos americanos acredita em paranormalidade. Alguns estudos psicológicos já tentaram entender o perfil dessas pessoas.

Encontrei no Research Digest da British Psychological Society a análise de um paper com a maior e mais extensa avaliação do assunto até então: Why do so many people believe in psychic powers?

It might be tempting for sceptics to put this down to a lack of general intelligence or education on the part of the believers, but in fact past research has failed to support this interpretation.

Avaliados crentes e céticos, os resultados apontam que baixos escolaridade e QI não tem relação com a crença em poderes sobrenaturais. A variável mais envolvida com acreditar no sobrenatural foi baixa capacidade analítica.

Leia o paper original aqui.

:: Leia também aqui no blog  Ateus são imorais?Um mundo assombrado por demôniosReligião e cognição

Leave a Comment

Conectados

Connected is a portrait of a woman grappling with aging, self-perception, and transformation in a technologically optimized world.

Achei esse curta genial. Connected sintetiza em poucos minutos um sentimento geral, difícil de ilustrar, sobre a natureza das ligações humanas hoje em dia: cada vez mais conectados, nunca estivemos tão distantes de nós mesmos, e do outro de verdade.

Reserve um tempinho, entre uma mensagem e outra de facebook,  para ver o curta (e se surpreender com a ótima interpretação de Pamela Anderson, numa excelente escolha de casting) e refletir sobre o futuro das relações interpessoais.

:: Leia também aqui no blog  Jardim das delíciasDoutor no GoogleEgos de plásticoEsquecendo o telefone

Às escuras

Deviance in the dark McMillen

O colega psiquiatra Luís Fernando Tófoli me passou uma ótima dica. Stuart McMillen é um artista de quadrinhos que escreve e desenha sobre temas engajados como política de drogas, ecologia e sustentabilidade. Outros interesses são os experimentos psicológicos e sociais.

Em 2013, publicou Rat Park, sobre testes feitos com ratos para investigar a natureza da dependência química. (A versão traduzida para o português pode ser lida aqui). Mais recentemente, McMillen disponibilizou online outra HQ sobre um famoso experimento psicológico da década de 70 batizado de Deviance in the dark.

No experimento, oito pessoas eram postas juntas em uma sala completamente escura e suas reações gravadas e analisadas. Um dos objetivos do estudo era entender como pessoas se comportam no anonimato. O resultado foi surpreendente, mas não vou dar spoiler; leia você mesmo nos quadrinhos de McMillen: Deviance in the Dark

Deve interessar principalmente a quem gosta de psicologia social e de grupos.

(A propósito, o autor procura voluntários para traduzir seus quadrinhos. Meu colega Tófoli ajudou a revisar a versão em português de Rat Park, que virou Ratolândia. Se tiver interesse em ajudar, você pode entrar em contato com Stuart McMillen aqui)

:: Leia também o que já postei sobre quadrinhos aqui no blog 

Leave a Comment

O fim da esquizofrenia?

Muitos pesquisadores duvidam fortemente da existência de uma entidade homogênea, única e distinta que possamos chamar de esquizofrenia. German Berrios, o maior pesquisador vivo da história da psiquiatria, desconstrói historicamente a unidade do conceito. Robin Murray, outro eminente autor, acredita que é possível a recuperação em muitos casos, e desmente a evolução clínica ruim classicamente associada à doença.

Outro nome importante lançou recentemente uma grande campanha contra o nome esquizofrenia. O holandês Jim van Os publicou esses dias sua opinião no editorial do prestigiado British Medical Journal. O texto é parte de um projeto maior, com manifesto e tudo, publicado no site schizofreniebestaatniet.nl (“esquizofrenianãoexiste.nl”). Clique aqui para ver o que há disponível em inglês.

O projeto propõe, entre outras coisas, a substituição do nome por Psychosis Susceptibility Syndrome ou Psychosis Spectrum Syndrome (‘Síndrome de susceptibilidade à psicose’ ou ‘Síndrome do espectro psicótico’). Mudança que, segundo o autor, serviria para diminuir o estigma relacionado a uma doença classicamente considerada crônica e incapacitante, além de desvincular o conceito de uma manifestação puramente biológica.

(Já postei antes aqui que simples mudanças de nome não diminuem o estigma sobre as doenças.)

No site há vídeos interessantes e educativos como o que ilustra este post, sobre as fases da psicose.

Acredito que a intenção do movimento seja boa, mas não consigo deixar de entrever nele um censo aguçado de oportunidade (ou, melhor dizendo, oportunismo), e de desejo de reinventar a roda. Todo mundo que estuda seriamente esquizofrenia tem sérias críticas ao conceito, mas é preciso admitir que ainda não há um paradigma novo suficientemente bom para substituir imediatamente a atual compreensão do problema.

O conceito moderno ainda está em franco processo de construção e remodelamento – como quase toda a psiquiatria. É preciso, contudo, ficar atento a soluções milagrosas e imediatas para velhos problemas. Qualquer um que se detenha um pouco mais na história da psicopatologia vai perceber que crenças e modelos explicativos vêm e vão em ondas, às vezes, ciclicamente.

Pessoalmente, aposto – dentro das próximas décadas – na dissolução do conceito de esquizofrenia, e na diferenciação de muitos outras estados patológicos, antes vistos sob o mesmo grande guarda-chuva; mas não em seu afastamento das bases biológicas, nem em uma tentativa de “normalização” do fenômeno. O oposto disso. Creio que cada vez mais nos aproximamos de um modelo neurocientífico consistente que explica um estado anormal não apenas do cérebro, mas do corpo. Essa talvez seja a chave do enigma antevisto em 1908 por Bleuler, quando batizou o problema, baseado em sua multiplicidade, de ‘O Grupo das Esquizofrenias.’

ResearchBlogging.orgLuque RL, Berrios GE, Villagrán Moreno JM (2003). Schizophrenia: a conceptual history International journal of psychology and psychological therapy, 3 (2)

Zipursky RB, Reilly TJ, & Murray RM (2013). The myth of schizophrenia as a progressive brain disease. Schizophrenia bulletin, 39 (6), 1363-72 PMID: 23172002

Van Os, J (2016). “Schizophrenia” does not exist BMJ (352) DOI: 10.1136/bmj.i375

:: Leia o que já postei aqui no blog sobre esquizofrenia