O nascimento da psicologia científica

alfred binet psicologia QI

Encontrei no Historiens de la Santé um ótimo web-documentário sobre Alfred Binet, considerado o pai da psicologia científica: Alfred Binet. Naissance de la psychologie scientifique [em francês]

Binet nasceu na frança e atuou no final no século XIX e começo do XX. Foi um dos discípulos de Charcot em Salpêtrière. Entre outros feitos, foi o idealizador do primeiro teste sistemático de avaliação da inteligência.

Curiosamente, também escreveu um tratado sobre a psicologia dos grandes jogadores de xadrez.

(Infelizmente o documentário só existe em francês, sem legendas).

:: Leia também aqui no blog  Fotógrafo de almasSobre epônimos (e o sobre um mestre dos disfarces)Musas da histeria

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Intermezzo

The lunatic is on the grass. 
Remembering games and daisy chains and laughs. 
Got to keep the loonies on the path.

(Lembrei de um artigo curioso sobre a origem do uso do termo “lunatic” na lingua inglesa para designar pessoas com transtornos mentais. Segundo os autores, a palavra estreou na língua dos bretões no século XIV. Aparentemente, o termo servia em sua acepção inicial para denominar pessoas com epilepsia e só depois foi utilizado para nomear os loucos.)

Crianças não são burras

Meu post em homenagem ao dia das crianças.

Outro dia ouvi uma amiga que tem filhos reclamar que a música O Leão – sucesso nos anos oitenta como hit do disco infantil Arca de Noé 2- era violenta demais. Verdade. Em alguns momentos o cantor fala das habilidades predatórias do rei dos felinos sem muito eufemismo:

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda

Mas leões, não os dos desenhos animados de hoje, são assim mesmo. Eu completaria minha amiga dizendo que o leão da música de Fagner e Vinícius de Moraes além de selvagem, ainda fala difícil. E perguntaria também: que criança pequena conhece as palavras “fornalha”, “labareda”e “navalha”? Provavelmente nenhuma. E isso é bom, pois aí está uma bela chance para elas aprenderem palavras novas, e o que é melhor: com os próprios pais – que um dia, há três décadas, ouviram a música e não sabiam o que elas queriam dizer.

Estudos mostram que repetições de fonemas de palavras, ainda que desconhecidas de crianças, aumentam o repertório vocabular. Isto é, cantarolar letras de qualquer tipo, com palavras familiares ou não, ajudam a médio prazo a melhorar a fala. Então não há razão para as crianças escutarem as pasmaceiras que alguns pais selecionam hoje em dia baseadas unicamente na simplicidade (estupefaciente) das letras. Além disso, crianças parecem ganhar confiança em informantes com melhor conhecimento vocabular e dispostas a ensinar. Um estudo sugere que pré-escolares preferem aprender com esses adultos. (Por isso, Fagner pode ser um professor mais adequado do que a Xuxa, por exemplo). Nosso Poetinha sabia intuitivamente disso.

Do mesmo jeito, por que não ensinar um pouco sobre como as coisas acontecem na natureza, lá no outro lado do mundo, num continente misterioso e selvagem? Leões caçam cabritinhos saltitantes, não porque são maus, mas porque é assim na natureza. Ainda segundo o fantástico disco infantil, porquinhos assados são deliciosos (‘do rabo ao focinho, são todo toicinho’), Galinhas d’Angola comem cocô e pessoas soltam pum. Não há mal nisso, senão uma boa dose de cotidiano, de uma vida natural que as crianças de apartamento hoje vêem cada vez mais por uma estreita janela.

Como pai de dois,  meu conselho é: arrisque. Não menospreze a capacidade intelectualdos meninos e meninas. Nossos bebês não são burros; muito mais do que descobrir assepticamente o que tem na sopa do nenem, eles querem – e podem – aprender novas palavras. É direito deles também conhecer aspectos do mundo natural sem grilos.

ResearchBlogging.org Gathercole, S., & Baddeley, A. (1989). Evaluation of the role of phonological STM in the development of vocabulary in children: A longitudinal study Journal of Memory and Language, 28 (2), 200-213 DOI: 10.1016/0749-596X(89)90044-2

Gathercole, S., & Baddeley, A. (1990). The role of phonological memory in vocabulary acquisition: A study of young children learning new names British Journal of Psychology, 81 (4), 439-454 DOI: 10.1111/j.2044-8295.1990.tb02371.x

Jaswal VK, & Neely LA (2006). Adults don’t always know best: preschoolers use past reliability over age when learning new words. Psychological science, 17 (9), 757-8 PMID: 16984291

:: Leia também aqui no blog  Pesadelos infantisRosa e azulDesenhos animados e violência

Estigma na tela

dia mundial da saúde mental

Hoje é o Dia Mundial da Saúde Mental.

Para celebrar, indico um artigo recente lança luz sobre o estigma envolvendo os transtornos psiquiátricos de maneira muito interessante. Foram avaliadas as reações de adolescentes a filmes e documentários sobre o tema exibidos em um festival alemão. O Ausnahme|zustand é todo voltado para películas sobre transtornos mentais.

O estudo encontrou que a temática do filme/documentário pode aproximar ou afastar os jovens do tema. Igualmente, pode interferir na vontade de buscar ajuda.

Two films improved attitudes – one both social distance and help-seeking, one only help-seeking. One film increased social distance, and two films did not affect either outcome. Age, gender, and knowing someone with mental health problems also turned out to be decisive factors influencing the development of social distance and help-seeking attitudes.

Nada de novo se a gente lembrar que um filme como Um estranho no ninho foi capaz de criar um estigma em cima da eletroconvulsoterapia (ECT) que ecoa já há décadas. O que surpreende nos resultados do artigo, é que os filmes do festival germânico foram selecionados para gerar uma resposta positiva do público diante das doenças psiquiátricas e diminuir o estigma.

Pra você ver como tudo tem uma maneira certa de ser feito.

Veja aqui o resumo do artigo (Ou tente acessar na íntegra, aqui)

:: Leia também aqui no blog  Cinema e psiquiatriaUma estranha psiquiatriaO Exorcista e a ‘Neurose cinemática’

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Fantasmas no asilo

Herbert Baglione 1000 shadows asilos hospital psiquiátrico

O artista brasileiro Herbert Baglione etá no meio de um projeto interessante: pintar (e fotografar) fantasmas em paredes de locais abandonados. Uma parte de suas imagens foi feitas em um hospital psiquiátrico desativado.

As imagens no Dangerous Minds, onde achei os links, foram feitas em um asilo em Parma, na Itália.

A idéia do artista é criar a impressão de fantasmas das pessoas que já habitaram os locais hoje desocupados.  Veja mais imagens aqui.

Ou acompanhe o projeto 1000 shadows no facebook do artista.

Veja aqui no blog mais posts  sobre hospícios abandonados:

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Pequena notável

iris grace autismo pintura savant

A pintura acima, que lembra muito o estilo dos quadros finais de Monet  é de uma artista inglesa. Seus quadros atualmente são vendidos por alguns milhares de libras. Muito cedo, a autora das obras foi diagnosticada com autismo.

Iris Grace tem  cinco anos de idade e só recentemente começou a falar. Ela pinta desde os três e é uma gracinha.

A few words to describe Iris
delightful, funny, serene, dainty, intelligent, crafty and utterly gorgeous !
Iris loves
nature, water, flowers, trees, wind, books, pictures and dancing on tip toes

Além de impressionantes, os trabalhos da menina têm sido usados para chamar atenção para o problema do autismo no mundo inteiro. O site da pequena vale uma visita. Lá você conhece um pouco mais de sua história e pode comprar até cartões postais de suas pinturas.

Vai lá: www.irisgracepainting.com

:: Leia também aqui no blog  A câmera clara da memóriaDesenhando o insondávelHans Asperger e o autismo

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Carrossel de emoções

Ellen Forney bipolar biografia ilustrada

A artista Ellen Forney é, como seis milhões de norte-americanos, portadora de transtorno bipolar. Ela se diz “oficially a crazy artist” em seu novo livro de memórias, ou  graphic memoir: Marbles – mania, depression, Michelangelo and me. 

Searching to make sense of the popular concept of the crazy artist, she finds inspiration from the lives and work of other artists and writers who suffered from mood disorders, including Vincent van Gogh, Georgia O’Keeffe, William Styron, and Sylvia Plath. She analyzes the clinical aspects of bipolar disorder as she struggles with the strengths and limitations of a parade of medications and treatments.

O livro ainda não saiu por aqui, mas pode ser adquirido pela Amazon. Uma prévia, você vê nesta matéria sobre a obra (ou clicando na imagem).

:: Leia também aqui no blog  A estranha aura de “Epiléptico”Genialidade e sofrimentoCartas de Van Gogh

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Tirania da perfeição

depressão suicídio médicos estudantes medicina

Entre todos os profissionais, médicos têm as mais altas taxas de suicídio.

Os dados são alarmantes desde o período de formação: segundo índices norteamericanos, até 10% dos estudantes de medicina contempla o suicídio durante a faculdade.

A ótima revista eletrônica Slate traz uma matéria sobre o assunto: Tyranny of Perfection – Why do doctors have such a high rate of suicide?

A matéria reflete sobre as razões por trás desse mórbido dado epidemiológico (e também para os altos índices de abuso de substância e de depressão na classe do jaleco branco).

So much of medicine is a tyranny of perfection. Medical students are asked to absorb an immense body of knowledge. Prima facie, this is a seemingly reasonable request of our doctors-to-be. But the number of facts is larger than any human being can realistically acquire, and is ever expanding. 

Vale muito a pena a leitura.

:: Leia também aqui no blog  O palhaço tristeSuicídio em The LancetA esperança além do suicídio

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Loco como el Quijote

quixote loucura idade média cervantes história

Peguei no Eletric Literature a dica de um livro que parece ser bem interessante: Don Quixote in the Archives: Madness and Literature in Early Modern Spain

Segundo a resenha no blog, a obra fala da loucura na Espanha de Cervantes (1547?-1616). Como Don Quixote, os doentes mentais eram frequentemente vítimas de zombaria no período, isso quando não eram confinados por toda a vida em asilos.

Just as those diagnosed with mental illness in our time are met with a mixture of sympathy and stigma, early modern Spaniards had ambivalent attitudes toward those they deemed mad. Locos were often excused for their deviant behavior; but they were also commonly targeted for open mockery, as happens constantly to Don Quixote.

Como nos dias de hoje, a locura era também utilizada nos tribunais – inclusive da Santa Inquisição – como forma de abrandar as penas. Algumas pessoas até conseguiram “pular a fogueira” da igreja com essa alegação.

O livro já foi pra minha wishlist.

:: Leia também aqui no blog  Loucura na Era ClássicaAnatomia da MelancoliaOnde foi parar o colapso nervoso?

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Um tapinha não dói?

barato maconha tapa

Amigos, terça dia 23/09 às 18:30 (Sala A3) participo de um debate sobre a maconha organizado pelo C.A. do Curso de Medicina da Unifor.

Vou falar um pouco sobre os efeitos psiquiátricos da maconha (THC, CBD, etc). Quem estiver em Fortaleza é meu convidado a participar da conversa.

(Tirinha por Overdose Homeopática)

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Epidemiologia psiquiátrica

epidemiologia psiquiatria história

Encontrei no blog  Historiens de la santé a indicação para o suplemento dedicado a história da epidemiologia psiquiátrica do International Journal of epidemiology .

Acesse aqui o conteúdo: History of Psychiatric Epidemiology

(Caso o link não funcione, procure no jornal o suplemento 1 do volume 43, agosto 2014.)

O conteúdo é pago, mas os artigos podem ser acessados pelo portal dos periódicos Capes.

:: Leia também aqui no blog  Genética da esquizofreniaSuicídio em The LancetEsquizofrenia em destaque

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Repetição

Achei no Open Culture esse ótimo vídeo que explica a neurociência por trás do fato de gostarmos de repetições em música.

Agora dá pra entender porque aquele refrão fica grudado na cabeça, rodando igual a um hamster na gaiola.

In a new TED-Ed video, Elizabeth Hellmuth Margulis, Professor and Director of the Music Cognition Lab at the University of Arkansas, “walks us through the basic principles of the ‘exposure effect,’ detailing how repetition invites us into music as active participants, rather than [as] passive listeners.”

No vídeo pode ser ativada a opção de legendas em inglês.

:: Leia também aqui no blog  O cérebro como instrumentoMúsica e dopaminaGentle on my mind

Ateus são imorais?

nomes de deus moral religião psicologia

“Os setenta e dois nomes de Deus”, Oedipus Aegyptiacus, séc XVII


Uma revisão recente
avaliou as diferenças entre teístas (pessoas que acreditam em um ou mais deuses) e ateus no que concerne à moral.

A pesquisa foi motivada por um relatório baseado em amostras de 40 países, que apontou que a maioria das pessoas crêem que o comportamento dentro de padrões morais depende da religiosidade. O interessante é que essa ideia é mais comum em países pobres, como Egito, Gana e  El Salvador. No Brasil (que está nesse grupo), 86% contra 13% acham que é preciso acreditar em Deus para ser ético.

Outro estudo interessante evidencia que, pelo menos nos EUA, teístas tendem a discriminar socialmente mais que ateus. O título do paper é instigante: “Por que não praticamos o que pregamos? Uma revisão meta-analítica do racismo religioso” (tradução minha). Pessoas religiosas tendem a ser mais caridosas e pró-sociais, no entanto parte desse altruísmo tende a ser dirigido somente a pessoas do mesmo grupo religioso.

Apesar disso, ateus são vistos negativamente em culturas onde há predomínio de pessoas religiosas (isto é, o mundo quase todo). Um estudo aponta que a desonfiança (distrust) é o principal motivo do preconceito contra ateus. Dito de outra forma: pessoas religiosas tendem a ver não-crentes como indivíduos nos quais não se pode confiar.

No que diz respeito à moral, teístas e ateus discordam sobretudo em questões relacionadas à sexualidade e à obediência à autoridade, no entanto há tendência ao consenso quando o assunto é injustiça ou dano ao próximo.

A revisão conclui:

Although the two groups may sometimes disagree about which groups or individuals deserve justice or their compassion, these core moral intuitions form the best basis for mutual understanding and intergroup conciliation.

Leia o artigo completo: Morality and the religious mind: why theists and nontheists differ

ResearchBlogging.orgAzim F. Shariff, Jared Piazza, & Stephanie R. Kramer (2014). Morality and the religious mind: why theists and nontheists differ Trends in Cognitive Sciences, 18 (9) : http://dx.doi.org/10.1016/j.tics.2014.05.003

Hall, D., Matz, D., & Wood, W. (2009). Why Don’t We Practice What We Preach? A Meta-Analytic Review of Religious Racism Personality and Social Psychology Review, 14 (1), 126-139 DOI: 10.1177/1088868309352179

Katie Simmons, James Bell, Richard Wike, & Alan Cooperman (2014). Worldwide, Many See Belief in God as Essential to Morality PewResearch Center (http://www.pewglobal.org/)

Gervais, W., Shariff, A., & Norenzayan, A. (2011). Do you believe in atheists? Distrust is central to anti-atheist prejudice. Journal of Personality and Social Psychology, 101 (6), 1189-1206 DOI: 10.1037/a0025882

:: Leia também aqui no blog  Psicoterapia milenarUm mundo assombrado por demôniosReligião e cognição

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Listen to your heart

cérebro coração gravura desenho olivia knapp

Encontrei no BoingBoing essa série de gravuras, retratando cérebros e outros órgãos ,da artista Olivia Knapp. Os desenhos são feitos à moda antiga, com papel e tinta, lembrndo muito as gravuras do século XVII, com seus intricados padrões de linhas nas partes sombreadas.

No site da artista dá pra ver os detalhes. Confira lá.

(Dá também pra comprar originais)

:: Leia também aqui no blog  Arquivo do MetArte e imagens em psiquiatriaBelas artes, neurologia e neurociências

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Compulsão poética

epilepsia rima alteração da linguagem

Algumas pessoas com epilepsia do lobo temporal podem apresentar uma curiosa síndrome relacionada à personalidade: religiosidade intensa, alterações da sexualidade (normalmente hipossexualidade), hipergrafia e  pensamento e discurso circunstanciais. Chamamos esse fenômeno de Síndrome de Gastaut-Geschwind.

Já escrevi sobre hipergrafia aqui no blog. Segundo um dos pesquisadores que nomeiam a síndrome, Geschwind,  haveria uma tendência nesses pacientes ao  ”extenso e, muitas vezes compulsivo, desenho ou escrita“, característica de uma atividade elétrica anormal interictal em foco temporal, detectada no eletroencefalograma.

O Mind Hacks e o Neuroskeptic chamam a atenção para o relato recente de um caso interessante de hipergrafia relacionada a epilepsia. Mas aparentemente não há outros sintomas da síndrome de Gastaut-Geschwind no caso publicado: Compulsive versifying after treatment of transient epileptic amnesia

O relato é de uma senhora de 76 anos que passou a escrever poesias compulsivamente após diagnóstico e tratamento de epilepsia, caracterizada por perda episódica da memória. Os versos tinham como característica aliterações e trocadilhos. Um exemplo, extraído do caso:

My poems roams,
They has no homes
Yours’, also, tours,
And never moors.

As associações por assonância são uma alteração do pensamento encontrado na mania ou na esquizofrenia mas, diferente da paciente do caso, o discurso resultante normalmente é incoerente. Segundo o relato, a compulsão poética da paciente durou aproximadamente seis meses, sendo substituída por poemas eventuais e um particular gosto por trocadilhos.

ResearchBlogging.org
Waxman, S. (1975). The Interictal Behavior Syndrome of Temporal Lobe Epilepsy Archives of General Psychiatry, 32 (12) DOI: 10.1001/archpsyc.1975.01760300118011

Trimble, M., & Freeman, A. (2006). An investigation of religiosity and the Gastaut–Geschwind syndrome in patients with temporal lobe epilepsy Epilepsy & Behavior, 9 (3), 407-414 DOI: 10.1016/j.yebeh.2006.05.006

Woollacott IO, Fletcher PD, Massey LA, Pasupathy A, Rossor MN, Caine D, Rohrer JD, & Warren JD (2014). Compulsive versifying after treatment of transient epileptic amnesia. Neurocase, 1-6 PMID: 25157425

:: Leia também aqui no blog  Torrente de palavrasGentle on my mindPoe e os lobos frontais

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