Lícito a ilícito

bayer heroina dependência química drogas psiquiatria

Encontrei uma boa matéria ilustrada traçando a história da legalidade de nove drogas recreativas: Cocaine, LSD, And 8 Other Street Drugs That Used To Be Legal

Do uso da cocaína como anestésico local, passando pelo uso terapêutico do MDMA (ecstasy) nos anos 80, até a legalização recente da maconha em alguns países, a matéria faz um passeio pela história de outras drogas menos faladas hoje em dia, como o peyote e a psilocibina de cogumelos.

Deve interessar a quem faz tratamento de dependência química.

:: Leia também aqui no blog A mente como laboratórioDrogas, anos 60História secreta da psiquiatria

Leave a Comment

Psicoterapia milenar

Bhagavad Gita filosofia psiquiatria psicoterapia

Na última edição do American Journal of Psychiatry, destaque para o Bhagavad Gita, um dos principais textos filosófico-religiosos do Hinduísmo.

O texto descreve o diálogo entre o jovem príncipe Arjuna e Krishna – este último a encarnação, ou avatar, do deus Vishnu – que aconselha o monarca antes de uma guerra.

Estudiosos indianos modernos têm chamado a atenção para os aspectos psicoterápicos do texto, sobretudo aqueles existenciais, comportamentais, humanísticos e de gerenciamento de crises.

Psychotherapy in India often incorporates therapeutic pearls from the Gita. Contemporary Indian psychiatry also considers spirituality as a core ingredient of mental health

O texto da revista seleciona algumas passagens que sublinham o aspecto terapêutico das escrituras. Vale a pena ler: Psychotherapy in the Bhagavad Gita, the Hindu Scriptural Text

(Uma curiosidade, a música Gita de Raul Seixas é livremente inspirada no capítulo X do livro hindu)

:: Leia também aqui no blog  Loucura na Era ClássicaLições de filosofiaReligião e cognição

Leave a Comment

Rede de conhecimento

twitter ciência psiquiatria rede acadêmica

As pessoas aqui no Brasil tendem a achar que o twitter está “ultrapassado”. E está mesmo: como rede de compartilhamento de coisas pessoais, o facebook cumpre muito melhor o papel. Mas há um uso pouco lembrado, que tem crescido de maneira interessante: a utilização profissional – mais precisamente, acadêmica – da ferramenta.

Sou um usuário fiel do twitter há algum tempo. Lá conheci e troco informações com pessoas interessadas em psiquiatria, psicologia e neurociências do mundo todo. A rede social do passarinho torna possível trocar impressões com professores, autores de livro e sumidades em geral de maneira horizontalizada. Foi lá que conheci Vaughan Bell (um sujeito simpático que estuda português), Neuroskeptic, Mo Costadi e o blog The Neurocritic, só pra citar alguns.

Além disso encontro e leio diariamente papers novinhos em folha sobre os assuntos do meu interesse.

Um artigo recente da Nature explora o uso crescente das redes sociais por pesquisadores: Online collaboration: Scientists and the social network 

Nesse artigo conheci o ResearchGate, uma sólida plataforma estruturada como rede social que reúne pesquisadores do mundo todo (atualmente com 4,5 milhões, e contando).

Infelizmente tenho esbarrado com poucos profissionais brasileiros nessas redes. Alguém sabe onde esse pessoal está?

:: Leia também aqui no blog  CureusImposturas intelectuaisEsquizofrenia em destaque

Leave a Comment

Mergulho na consciência


Narcose
é um belíssimo curta quase documental que mostra o que acontece na cabeça d0 mergulhador Guillaume Néry durante os 5 minutos que permanece em apneia. Néry é campeão de freedive, uma prática de mergulho de grandes profundidades sem equipamentos para respiração.

O filme mostra segundo a segundo a experiência da narcose pelo dióxido de carbono que provoca um turbilhão de imagens na mente do mergulhador.

A fotografia é muito bonita. O curta é uma pequena obra de arte. Assista em tela cheia e com fones de ouvido para aumentar a sensação de imersão na experiência.

(Encontrei no Mind Hacks)

:: Leia também aqui no blog  Facetas da doença mentalBibliofilia 8Emaranhado de memórias

O palhaço triste

robin williams suicídio depressão humor

To truly laugh, you must be able to take your pain and play with it. — Charlie Chaplin

O comediante norte-americano Groucho Marx ficou conhecido por suas sacadas rápidas e azedas, disparadas para todos os lados nas telas do cinema em comédias clássicas dos anos trinta e quarenta. O apelido do humorista vinha da palavra inglesa para “resmungão” ou “mau-humorado”, grouchy. É dele a célebre frase: “Eu me recuso a fazer parte de um clube que me aceita como sócio“.

Charles Chaplin era reconhecido no meio profissional pelo talento e  perfeccionismo, que coabitavam o mesmo espírito do homem temperamental e atormentado, conhecido por mudar os rumos do cinema no século XX. Um jornalista certa vez escreveu sobre o diretor de O Grande Ditador: “nunca conheci homem que se aproximasse mais intelectual e emocionalmente do tipo ‘Hamlet‘ do que Charles Spencer Chaplin”.

Buster Keaton, Jerry Lewis, W.C. Fields, Stephen Fry, Jim Carrey, John Belushi. A lista de palhaços tristes é grande.

(Aqui no Brasil, um exemplo recente é Fausto Fanti, da dupla Hermes & Renato, morto recentemente)

A morte do ator Robin Williams por provável suicídio esta semana chamou a atenção para o lado – aparentemente indissociável – sombrio da grandes mentes da comédia. Essa face escura do bufão aparece  cristalizada na ópera do século XIX, Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo e em referências recentes, como na cinebiografia do comediante Andy Kauffman, O mundo de Andy

Aparentemente Williams lutava há alguns anos contra o transtorno bipolar e dependência química.O artista chegou a falar recentemente em entrevistas do peso de “fazer rir o tempo todo”, criado pela expectativa das pessoas.

Em janeiro deste ano, uma pesquisa publicada no British Journal of Psychiatry analisa os traços de personalidade prevalentes em um grupo de mais de 500 comediantes de sucesso (já falei sobre esse artigo aqui). Segundo os autores, parece haver uma estreita relação entre a habilidade de fazer rir e traços psicóticos. Quem já assistiu a algum sketch da trupe de comediantes inglesa Monty Python, sabe do que os pesquisadores estão falando.

A relação entre criatividade e transtorno mental, que parece mais bem estabelecida, também pode explicar um pouco o que acontece com essas pessoas. Para fazer humor é preciso agilidade mental e capacidade de improviso, além de uma penetrante capacidade de observação, características de um funcionamento mental criativo.

Resta saber se nesse seleto clube de ilustres sócios é possível prever e evitar tragédias como a que aconteceu a Robin Williams.

* Recomendo dois textos interessantes sobre o tema: Sad clown: No laughing matter e  Split Personalities

:: Leia também aqui no blog  Humor psicóticoGenialidade e sofrimentoMania criativa

Leave a Comment

Um mundo assombrado por demônios

exorcismo psiquiatria demônio esquizofrenia

O ser humano mal reconhece os demônios de sua criação. – Albert Schweitzer

Esbarrei com um paper publicado em 2012 num certo Journal of Religion and Health (para minha surpresa ranqueado A2 pelo Qualis) que sugere que alucinações na esquizofrenia seriam causadas por demônios. Leia lá: Schizophrenia or posession? (tente o artigo completo aqui)

Segundo o autor, a dolorosa experiência da pessoa com esquizofrenia é, na verdade, uma ilusão provocada pelo contato com imagens criadas por demônios. Ainda segundo o autor, todo paciente deve ser encaminhado ao curandeiro/feiticeiro local para tratamento.

We thought that many so-called hallucinations in schizophrenia are really illusions related to a real environmental stimulus. Illusions are transformations of perceptions, with a mixing of the reproduced perceptions of the subject’s fantasy with the real perceptions. One approach to this hallucination problem is to consider the possibility of a demonic world.

Como pesquisador da esquizofrenia, acho que preciso deixar claro meu ponto de vista. A “teoria” do autor – que não passa de uma opinião pessoal, na melhor das hipóteses, movida por uma ingenuidade infantil (melhor crer nisso, do que levantar logo a hipótese de puro charlatanismo) – insulta não só os pesquisadores e profissionais sérios da saúde mental, mas também – e principalmente – as pessoas que sofrem dessa doença.

Numa rápida pesquisa pelo autor, encontrei que ele tem publicados artigos sobre o efeito anti-oxidante de certas substâncias sobre lesões isquêmicas experimentais. Estariam os radicais livres que causam lesão tecidual pós-isquêmica associados de alguma forma a entidades infernais? Será que o doutor M. Kernal Irmak também acha que os mesmos demônios podem ter seus dedos maléficos metidos nesse processo?

Provavelmente, não. Essa divisão absurda e radical dentro da cabeça de um suposto “pesquisador” não me surpreende, todavia. Seu despreparo intelectual também não. A ignorância é audaz, eu sei, mas o que me surpreende é um periódico supostamente sério publicar uma baboseira dessas.

Bem entendido, considero a relação entre cultura, religião e psiquiatria interessantíssima. Sua compreensão sendo indispensável para a atuação de qualquer profissional que se aventure pela saúde mental. Mas precisa haver método na abordagem de um tema tão delicado quanto complexo.

Não duvide que é possível abordar cientificamente esse campo. Tome-se como exemplo este excelente relato de caso: Transtorno afetivo bipolar de difícil controle e “encosto”: um caso da interação entre medidas terapêuticas técnicas e religiosas (Tofoli, 2004)Na discussão o autor faz um paralelo entre os modelos explicativos do fenômeno (TAB de difícil controle) e tenta, no final, apontar para a interface entre a clínica, a cultura e a religião, tomando o cuidado de considerar o peso específico de cada um desses elementos para o paciente em questão.

Pode parecer que não, mas a validação de ideias infundadas e preconceituosas como a do artigo dos demônios contribui para o emperramento da abordagem efetiva dos transtornos mentais graves, que deve ser feita com toda a delicadeza e respeito pela pessoa que sofre.

:: Leia também aqui no blog  A psiquiatria respondeEsquizofrenia e desintegraçãoA esquizofrenia chega ao Brasil

Leave a Comment

O cérebro como instrumento

 

Encontrei no Open Culture um ótimo vídeo de animação que resume os achados científicos que nos levam a crer que tocar um instrumento musical faz o cérebro funcionar de forma diferente, melhor. (Até já comentei sobre isso, aqui)

How playing an instrument benefits your brain mostra as principais funções cerebrais envolvidas na atividade de criar música a partir de um instrumento, e de como isso pode beneficiar outras funções cognitivas como memória e planejamento.

É por essas e outras que eu não largo mais minha guitarra :)

:: Leia também aqui no blog  Gentle on my mindMúsica e dopaminaCérebro e criatividade musical

Genética da esquizofrenia

DNA esquizofrenia genética

Na semana passada foi publicado na Nature um artigo que deve firmar um marco na história da esquizofrenia. Um enorme consórcio internacional de centros de pesquisa encontrou significância estatística na relação entre 108 e genes e esquizofrenia. Leia o artigo na íntegra aqui: Biological insights from 108 schizophrenia-associated genetic loci

O esforço de 300 autores que pesquisaram mais de 36 mil pessoas com a doença e 113 mil controles resultou em um trabalho importantíssimo para o avanço da compreensão de um transtorno mental muito grave e complexo.

Encontrei um ótimo texto que explica os achado do artigo: Exciting findings in schizophrenia genetics – but what do they mean?

The idea of a GWAS is to look across the entire genome at over a million such variants for ones at higher frequency in disease cases than in controls. That difference in frequency might be very minor (say, the “A” version might be seen at a frequency of 30% in cases but 27% in controls), but with such a huge sample size, that kind of variation can be statistically significant. In epidemiological terms, the variant that is more common in cases is termed a “risk factor” – if you have it, you are statistically more likely to be in the case group than in the control group. 

Vale a pena ler com calma, tanto o artigo quanto o texto que o comenta.

:: Leia também aqui no blog  Esquizofrenia e desintegraçãoA esquizofrenia chega ao BrasilEsquizofrenia em destaque

Leave a Comment

Arquivo do Met

lucas van leyden metropolitan louco

O Metropolitan Museum of Art disponibiliza um imenso arquivo de 400.000 imagens digitalizadas em alta definição no seu site. O uso acadêmico não-comercial é livre.  Excelente para quem, como eu, gosta de ilustrar aulas com arte.

Espere encontrar o que há de melhor: Dürer, Picasso, Vermeer, Delacroix, Klimt e muitos outros.

Acima, uma gravura de Lucas Van Leyden de 1520 intitulada “Um louco e uma mulher”. (Clique pra ver em alta definição)

Vai lá: The Metropolitan Museum of Art – The Collection Online

:: Leia também aqui no blog  Arteterapia na terra da RainhaBelas artes, neurologia e neurociênciasArte e imagens em psiquiatria

Leave a Comment

Cartum #76

terapia psicanálise freud cartum tirinha

(via The Awkward Yeti)

Leave a Comment

Suicídio em The Lancet

werther goethe suicídio psiquiatria

A primeira edição do The Lancet Psychiatry, de junho deste ano, trouxe como tema o suicídio.

Até o momento, a maioria dos artigos está disponível gratuitamente aqui.

Recomendo especialmente dois artigos sobre facetas diferentes do tema: um sobre literatura, falando do famoso “contágio suicida” da obra Os Sofrimentos do jovem Werther de Goethe  - Goethe’s Werther and its effects – ; e outro sobre aspectos neurobiológicos do auto-extermínio - The neurobiology of suicide.

:: Leia também aqui no blog  A esperança além do suicídioO mito decisivoO negativo da vida

Leave a Comment

Teoria unificada das terapias

neurociência psicanálise terapia comportamental tratamento freud

Se a mente é uma só, por que há tantas teorias psicológicas para entendê-la? Como um cérebro conversando com outro pode gerar mudanças que podem amenizar ou curar transtornos mentais?

Essas, definitivamente, não são perguntas fáceis de serem respondidas. Encontrei no Mind Hacks a dica de um interessante artigo da Nature que aponta para a importância, à luz das atuais descobertas sobre o cérebro, de uma tentativa de unificar neurociência/neurofisiologia e teorias psicológicas: Psychological treatments: A call for mental-health science

Moreover, despite progress, we do not yet fully understand how psychological therapies work — or when they don’t. Neuroscience is shedding light on how to modulate emotion and memory, habit and fear learning. But psychological understanding and treatments have, as yet, profited much too little from such developments.

No final do século XIX, antes de falar de Complexo de Édipo e Inveja do Pênis, Sigmund Freud era um jovem e promissor neurocientista. Seus estudos sobre o sistema nervoso de lampreias quase o levaram a descobrir o neurônio. Transformando uma história longa em curta: não podendo avançar na compreensão anatomofisiológica do sistema nervoso central humano – por limitações metodológicas da época -, Freud resolveu seguir o sentido contrário, tentando adivinhar como os processos cerebrais funcionavam a partir de seu resultado último: as emoções.

(Um ótimo relato da saga de Freud pode ser lido no ótimo livro The Age of Insight, que já citei aqui.)

Que desmaiem os lacanianos, mas vivo dizendo que, vivo fosse em nossos tempos, Freud seria um neurocientista, provavelmente estudioso de neuroanatomia funcional.

:: Leia também aqui no blog  A psiquiatria respondePsicanálise em quadrinhosViagem pela mente

Leave a Comment

Pesadelos infantis

Artur Tress pesadelos fotografia crianças

O fotógrafo Arthur Tress conseguiu penetrar no mundo onírico de crianças e criou uma série de imagens que retratam pesadelos infantis.

Com ajuda de um psicanalista, entrou em contato com algumas crianças e criou as sombrias fotos baseando-se no relato de sonhos angustiantes dos pequenos.

Veja o resultado clicando aqui, ou na imagem acima.

:: Leia também aqui no blog  Gênero neutroPlaneta particularVastas emoções e pensamentos imperfeitos

Leave a Comment

Cartum #74

Psicanálise édipo cartum humor

Leave a Comment

Mitos sobre o cérebro

 

Você sabia que não usamos apenas 10% do cérebro e que temos 14 bilhões de neurônios a menos do que acreditávamos antes?

O vídeo acima desfaz sete ideias equivocadas sobre o funcionamento do cérebro. [Em inglês]

:: Leia também aqui no blog  Viagem pela menteMúsica e dopaminaUma olhada no cérebro