Sonhos perdidos

Freud Cajal neurônio sonhos Nautilus

Segundo o neurologista, historiador e Prêmio Nobel de medicina, Eric Kandel – em seu excelente livro The Age of Insight, Sigmund Freud por pouco não descobriu o neurônio.

O pai da psicanálise abandonou os estudos sobre sistema nervoso de enguias para se dedicar a um modelo explicativo, teórico e não-anatômico do funcionamento do cérebro. Mais ou menos na mesma época, o trabalho do patologista espanhol Ramón y Cajal culminou com a identificação das principais células do sistema nervoso e das sinapses, que o fez arrematar o Nobel de medicina de 1906.

A excelente revista Nautilus resgatou recentemente o elo perdido entre Freud e Cajal: trechos de um diário do médico espanhol com descrições de seus sonhos. O objetivo dos escritos era provar que Freud estava errado em sua teoria sobre a vida onírica descrita em A Interpretração dos Sonhos, de 1899. Vale muito a leitura: Read the Lost Dream Journal of the Man Who Discovered Neurons

To disprove the theory that every dream is the result of a repressed desire, Cajal began keeping a dream journal and collecting the dreams of others, analyzing them with logic and rigor. (…) Before his death, he gave it to José Rallo, a Spanish psychiatrist and dream researcher. To the delight of scholars and enthusiasts, Los sueños de Santiago Ramón y Cajal was published in Spanish in 2014, containing 103 of Cajal’s dreams, recorded between 1918 and his death in 1934.

As ilustrações do artigo são uma graça à parte.

:: Leia também aqui no blog  A Era do InsightMusas da histeriaArte dos sonhos

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Saúde mental na Nature

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Uma seleção especial da Nature reúne material sobre saúde mental e neurociência publicado pela revista nos últimos anos. Vale a pena conferir: Mental Health

This collection brings together different facets of mental-health coverage, from original research to reviews of the latest science to in-depth journalism on public-health issues and first-hand accounts of the experience of mental illness.

Merecem atenção especial um podcast de Oliver Sacks sobre alucinações e uma matéria sobre a importância da prevenção do suicídio.

Boa leitura.

:: Leia também aqui no blog  Teoria unificada das terapiasEsquizofrenia em destaqueNovas idéias sobre uma velha doença

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Salada de palavras

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AS TRÊS GRAÇAS

Um doutor em estética do corpo, ao visitar o Museu do Prado, em Madri, achou que as Três Graças, de Rubens, sofriam de celulite, mais acentuada na Graça do centro.

Procurou o diretor do museu e sugeriu-lhe que o quadro fosse submetido a um tratamento especial, de modo a ajustar os nus femininos aos cânones de beleza e higidez que hoje cultuamos.

O diretor ouviu-o polidamente e responder que nada havia a fazer, pois as obras-primas do passado são intocáveis, salvo quando acidente ou atentado tornam imperativa a restauração. Além do mais, pode ser que no século XVII o que hoje chamamos de celulite fosse uma graça suplementar.

À noite, o esteta inconformado tentou penetrar no museu, foi impedido e preso. Interrogado, explicou que queria raptar o quadro e confiá-lo a um famoso especialista em cirurgia plástica, pois o caso não era de restauração nem de regime alimentar. Seria a primeira vez que uma obra de arte receberia tratamento especializado, feito o qual tornaria o museu famoso.

O homem foi mandado embora com a advertência de que sua presença não mais seria tolerada em museus espanhóis. E aconselhado a frequentar assiduamente as praias, para se aperfeiçoar às imperfeições do corpo humano, que formam a perfeição relativa.

— Carlos Drummond de Andrade em Contos Plausíveis.

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Cartum #88

(por Odyr)

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Ópera no centro cirúrgico

Em alguns casos de neurocirurgia é importante deixar o paciente acordado. Não é por sadismo ou por pura curiosidade científica, mas quando se opera em partes importantes do córtex, é necessário mapear as funções e deixar intactas áreas nobres, como a da linguagem.

No vídeo acima, um caso muito peculiar. Um cantor profissional de ópera é submetido a cirurgia para retirada de um tumor cerebral (GBM). Durante o procedimento, o artista é solicitado a conversar e a cantar. Tudo faz parte do esforço de não prejudicar o talento do jovem com um movimento errado.

O vídeo foi postado pelo próprio cantor no Youtube. Ele fala da experiência:

I sing two (first and last) couplets of Schubert’s lied “Gute Nacht”: the minor – major transition in order to see if I can still recognise the key change. All is fine until min. 2:40 when things start to get very interesting…

Em alguns momentos do vídeo ele desenvolve curtos lapsos de afasia, mas o mais interessante é o momento em que ele desenvolve uma breve amusia.

:: Leia também aqui no blog Pintando músicaCérebro compositorO cérebro como instrumento

Depressão para leigos


depressão estigma humor

Não costumo levar muito em conta o que aparece no BuzzFeed, mas qualquer coisa que ajude a diminuir o estigma dos transtornos mentais, vale a pena ser repassado.

Engana-se quem acha que só pessoas com doenças mentais graves como a esquizofrenia são vítimas de preconceito.

Com uma dose certa de humor e o sentimento de quem, de fato, convive com a depressão criaram pequenos gráficos para ilustrar como se sente o deprimido: 13 Graphs Anyone Who’s Ever Been Depressed Will Understand

(Eu sempre recorro à idéia do 06 para explicar aos meus pacientes como acontece a melhora da depressão)

:: Leia aqui o que já escrevi sobre estigma e preconceito no blog

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Atlas da Saúde Mental

OMS altas saúde mental 2014

A Organização Mundial da Saúde (OMS / WHO) publicou este ano o apanhado geral de políticas e gastos internacionais com saúde mental no ano passado. O documento se chama Mental Health Atlas 2014, e está disponível gratuitamente na página da OMS, aqui.

Alguns dados mostram o descaso em relação à saúde mental, principalmente em países considerados de média e baixa renda (middle/low-income), com gastos inferiores a 2 dólares per capita (veja gráfico acima).

Além disso, não mais que 68% dos 194 países-membro da OMS têm políticas de saúde mental; e apenas a metade têm leis específicas para a área.

Vale a pena ver o documento com calma para entender a quantas anda o investimento em saúde mental no mundo.

:: Leia também aqui no blog  Epidemiologia psiquiátricaOs custos da psicoseEsquizofrenia e desintegração

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Na pele do paciente

psicose alucinações emergência BMJ

O British Medical Journal (BMJ, para os íntimos) tem uma sessão escrita pelos próprios pacientes. Inaugurando os casos psiquiátricos, um doente anônimo descreve em primeira pessoa a experiência da psicose aguda na emergência: Psychiatric assessments: how much is too much?

You find my thinking jumbled and confused, the quantity and register of my speech is fluctuating wildly. But I’m also hyper-attentive to language, as anyone would be in a high stakes situation (was that “talk to” or “torture”?). In an idle moment a nurse at the foot of my bed has concluded an anecdote with a hearty “I could have killed him,” and perhaps she thought that was boring or inaudible, but I heard it. And I thought you wanted me to hear it, that it was in the script.

O texto foca nas sensações despertadas no paciente pelo entrevistador, e em como atitudes e expressões do examinador podem afastar ou aproximá-lo do paciente.

Não deixe de notar no final (bottom line), as dicas valiosas para a avaliação de pacientes psicóticos na emergência. O texto tem valor tanto pro residente iniciante quanto pro profissional mais experiente.

:: Leia também aqui no blog  Ouvindo vozesControle remotoProcurando sinais

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Hypnos e Thanatos

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A relação entre sono e morte na cultura é bem estreita. Aqui e em outros países, por exemplo, diz o costume que não se deve despertar pessoas sonâmbulas, pois isso provocaria sua morte imediata. Igualmente, em contos de fada como A Bela Adormecida, o dormir representa um estado mágico similar ao repouso eterno, iniciado ou quebrado por feitiço.

Os paralelos entre o dormir e o morrer são muitos na arte e na ficção, da Bíblia a Shakespeare. Encontrei um bom texto sobre o assunto: From Hypnos to Hamlet to Zombies, a Look at Our Obsession with Sleep and Death

Even though most of us sleep under decidedly less doomed roofs these days, we still can’t shake the association between death and sleep. We talk of both waking the dead and sleeping like the dead. To die is to go to your “eternal rest” or to be told to “rest in peace.” To die in one’s sleep is presented as the gentlest and most aspirational way to pass on.

O texto fala, além das referências que citei, de nosso fascínio por zumbis e vampiros. Boa leitura.

(A imagem que ilustra o post, acima, é uma daquelas clássicas fotografias do século XIX onde mortos eram posicionados como se estivessem dormindo.)

:: Leia também aqui no blog A bela morteCiência dos sonhosZumbis, Vodu e neurotoxinas

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O luto do terapeuta

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Todo mundo que está na estrada psi há algum tempo atendendo gente já deve ter passado pela experiência da perda de pacientes para a “Indesejada das gentes”. E tão certo quanto a chegada morte, é o pesar – velado – de nós, terapeutas, quando isso acontece.

Encontrei no New York Times um ensaio recente do terapeuta Robin Weiss sobre como a morte de pacientes pode afetar o terapeuta: How Therapists Mourn

Don’t misunderstand me; I’m not asking for sympathy. There is no comparing my loss to that of a patient’s family and friends. Yet this is an aspect of my profession that is seldom discussed: Just as what takes place in therapy occurs behind closed doors, so too does the therapist’s grieving after a patient dies.

O texto faz parte de uma excelente série de ensaios de terapeutas publicados regularmente no blog de opinião do NYT. O nome da coluna não podia ser mais direto: Couch (“divã”em inglês)

Laia aqui o que já foi publicado na sessão.

:: Leia também aqui no blog  Cura pela falaDoutor no GoogleInteriores

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A arte da recuperação

No ano passado, a Long Gallery do hospital psiquiátrico Maudsley em Londres, organizou uma exposição com obras produzidas pelos pacientes da enfermaria de adolescentes.

Intitulada The Art of Recovery, a mostra reunia material produzido pelas oficinas de arte-terapia em uma unidade de internação para quadros agudos, que acolhe jovens entre 12 e 18 anos.

The exhibition includes art works created in art psychotherapy sessions, and poetry, photography and artwork from projects facilitated by internal and external collaborators, including Clive Niall, teacher, Jared Louche, poet, Fritha Jenkins, artist, and work done in partnership with Dulwich Picture Gallery and Artmongers.

Acima, um vídeo sobre a exposição que vale ser visto.

Mais informações, no site da instituição.

:: Leia mais aqui no blog   Arteterapia na terra da RainhaBethlem GalleryImagens do inconsciente

Cartum #87

- Essas pílulas vão curar seu TOC, mas antes será que você podia organizar minha estante?

– Essas pílulas vão curar seu TOC, mas será que antes você podia organizar minha estante?

 

(Via The New Yorker)

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Uma história das ideias

A BBC Radio 4 (sempre e, genialmente, ela) criou uma série de pequenos vídeos animados feitos para explicar grandes ideias da humanidade. O projeto é tão simples quanto sublime: A History of Ideas.

São vídeos curtos que introduzem quem assiste a temas complexos que nos acompanham desde as cavernas: o livre-arbítrio, a conceito de humanidade, a linguagem, a moral, o princípio de tudo, entre outros.

Acima, a questão do que nos torna humanos, abordada por John Locke. (Spoiler: o que nos torna humanos é a memória).

Recomendo outros: Edmund Burke sobre o sublime, o problema do Mal e Sarte sobre as escolhas existenciais. Mas não deixe de ver TODOS.

:: Leia também aqui no blog Lições de filosofia no cinemaO valor da melancoliaO mito decisivo

Lítio na vida

Uma salina boliviana de petalita, mineral do qual se extrai o lítio

Uma salina boliviana de petalita, mineral do qual se extrai o lítio

 

Uma boa matéria em The New York Times‘I Don’t Believe in God, but I Believe in Lithium’

Jamie Lowe escreve sobre sua experiência como portadora de transtorno bipolar desde a adolescência e sobre a substância mais eficaz no tratamento do problema, o lítio.

The use of lithium as a therapy for mental illness goes back to at least Greek and Roman times, when people soaked in alkali-rich mineral springs to soothe both ‘‘melancholia’’ and ‘‘mania.’’ In the mid-1800s, lithium was thought to cure gout and sometimes ‘‘brain gout,’’ a lovely description for mania, extending the notion of swollen joints to a swollen brain. 

Quem acompanha o blog leu o que já escrevi sobre o lítio aqui.

Outro relato comovente da experiência com o transtorno bipolar: Fratura na alma

:: Leia também aqui no blog  Transtorno bipolar: um pouco mais alémA marca da bipolaridadeCarrossel de emoções

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Delírios místicos

 

Já falei aqui sobre um livro muito curioso com o relato de três pacientes psicóticos internados em uma mesma instituição com o mesmo delírio: de que seriam ninguém menos que Jesus Cristo. The Three Christs of Ypsilanti foi publicado em 1964 e fez um relativo sucesso na época.

Dessa vez encontrei um documentário de 2001 mais ou menos sobre a mesma coisa. “Those who are Jesus [em inglês, sem legenda] acompanha três pessoas com o delírios religiosos de grandeza.

The result is an examination of conflicting and convergent discourses surrounding what psychiatrists term “delusions of grandeur”.

O doc é um prato cheio pra quem se interessa pela psicopatologia clássica, sobretudo das psicoses.

Mais informações sobre o filme, aqui.

(Via BoingBoing)

:: Leia também aqui no blog outros posts sobre delírios e psicose: