Archive | March, 2011

Girassóis e orelhas cortadas

É bem provável que o pintor holandes Vincent Van Gogh (1853 – 1890) sofresse do que chamamos hoje de transtorno afetivo bipolar. Este diagnóstico patográfico pode ser feito com algum grau de certeza a partir de suas correspondências e das descrições feitas por familiares e amigos, entre eles o pintor Paul Gauguin.

O blog Arte da Medicina publicou ano passado um ótimo texto sobre o assunto: Vincent van Gogh – Os Dois Pólos do Artista . Excelente referência em português sobre o assunto.

A maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele “a tristeza não tem fim” carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

Bônus: Um clássico artigo (abstract) do British Journal of Psychiatry para os intessados pelo tema “doença mental e criatividade”, um dos preferidos deste blog:  Creativity and psychopathology. A study of 291 world-famous men

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Fluxo no Twitter

A partir de hoje o Fluxo do Pensamento está também no twitter.

(Leia/acompanhe na barra ao lado).

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Infelicidade previsível

O quê, em nossas mentes, nos previne da infelicidade? E o que nos leva invariavelmente a ela? O jornalista Hélio Schwartsman escreve sobre o assunto e aborda questões relacionadas à seletividade da memória e ao otimismo/pessimismo. Gostei.

Nós a utilizamos [a imaginação] para tentar estimar como nos comportaremos em situações hipotéticas que ainda não aconteceram. Mas, a exemplo da memória, nossa imaginação também carrega uma série de falhas de engenharia e vieses que a tornam presa fácil de todo gênero de armadilhas.

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Intermezzo

Do you realize we’re floating in space?

Wayne Coyne da banda The Flaming Lips põe as idéias em ordem e escreve uma linda canção memento mori. A música Do You Realize?? é do disco “Yoshimi Battles The Pink Robots” de 2002.

A letra pode ser vista aqui.

O espírito do tempo

O documentário Zeitgeist – Moving Foward (2011), dirigido por Peter Joseph, é um esforço bem-executado de tentar desconstruir noções universalmente aceitas sobre a natureza humana, a economia, o mercado, as relações sociais – enfim, as bases culturais mantenedoras da chamada “sociedade globalizada”.

Os interessados em psiquiatria e psicologia vão gostar especialmente da primeira parte, sobre a natureza humana, que apresenta de maneira bem didática as linhas gerais de como se compreende hoje a complexa interação entre genes, ambiente e comportamento.

O filme completo (divulgado gratuita e oficialmente) com legendas em 20 idiomas está disponível no youtube.

Aqui, o site oficial do documentário.

Em tempo: não concordo com o que acreditam alguns dos que defendem este movimento, que teimam em entender a doença mental como algo artificialmente criado pelos grupos no poder como forma de controle social.

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Gershwin e os movimentos do humor

George Gershwin (1898 – 1937) foi um dos maiores – se não o maior – compositores populares dos Estados Unidos. Dono de uma obra que se popularizou através de vários musicais no teatro e cinema, aventurou-se com igual genialidade na música erudita. Deixou peças musicais como Rhapsody in Blue e canções como Summertime e Fascinating Rhythm que compõem uma obra inigualável. Morreu prematuramente, vítima de um tumor cerebral aos 39 anos.

Escutando recentemente algums versões de suas músicas, deparei com a curiosa polarização sugerida por duas composições. A primeira é o terceiro movimento, “alegro agitato”, de seu Concert for Piano in F, que me traz à mente o movimento revoltoso e frenético dos pensamentos de um paciente com transtorno bipolar na fase maníaca. A música sugere algo alegre e, ao mesmo tempo, tenso e inquietante e poderia muito bem ser a trilha sonora de uma elação maníaca:

A segunda música chama-se Blues e faz parte do musical An American in Paris. Esta composição – com sua melodia principal modorrenta e triste que lembra a depressão – é um contraponto perfeito à anterior. Durante a evolução, algo mais vigoroso tenta se impor momentaneamente para logo dar lugar à melancolia original; como nas breves melhoras relatadas por algumas pessoas com depressão. (Preste atenção à bela referência feita à forma de doze compassos do blues tradicional, a partir de 5:17):

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Loucura compartilhada

A Folha publicou uma matéria interessante esses dias: Machado de Assis “descobre” doença psiquiátrica em conto.

A reportagem é sobre o artigo escrito por Daniel Martins de Barros (autor do ótimo blog Psiquiatria e Sociedade) e publicado no British Journal of Psychiatry sobre a descrição avant la lettre de um caso de folie a deux feito num conto do gigante Machado de Assis.

‘A narrativa de Assis combina todos os elementos que depois seriam descritos por Lasegue e Falret [os descobridores "científicos" da folie a deux]. Ele vai além e descreve o efeito terapêutico de separar os indivíduos’, escrevem os psiquiatras da USP

Aqui, o autor do artigo comenta seu trabalho e fala sobre a folie a deux.

Aqui, link para o conto “O Anjo Rafael” de Machado de Assis.

Aqui, o artigo original publicado no periódico britânico (disponível apenas para assinantes ou via portal de periódicos da CAPES)

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Cientologia vs. Psiquiatria

Este mês o inventor da Cientologia estaria completando 100 anos. L. Ron Hubbard, um escritor norte-americano de pulp fiction (c0mo eles chamam a literatura barata voltada ao grande público) que se declarava entre outras coisas, físico nuclear, criou a Scientology Church na década de 1950.  A base de tudo foi a descoberta do que chamou de “Dianética”, técnica do tipo Panacéia que pretendia curar de transtornos mentais à miopia.

A cientologia agrega várias estrelas do cinema e da música no país onde foi criada e, vez por outra, gera notícias como esta, esta e esta.

Até aí tudo bem – cada um acredita no que quiser. O que incomoda, no entanto, é o fato que L. R. Hubbard e seus seguidores vêm em guerra declarada à psicologia e à psiquiatria desde a metade do século passado. Eles acreditam que as ciências psi são potenciais métodos de controle e violência contra o ser humano e estariam por trás de atos como o extermínio da população nativa americana – em curso desde o século XVI (!!) –  e do Apartheid. Tudo está descrito no dramático documentário de propaganda Psychiatry: An Industry of Death.

Achei alguns textos sobre o assunto:

Scientology’s war on psychiatry

Scientology vs. Psychiatry

* Na imagem que ilustra o post, um “E-meter“, o medidor de energia mental utilizado na cientologia

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“It ain’t me, babe”

Bob Dylan psicologia

Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands
With all memory and fate driven deep beneath the waves
Let me forget about today until tomorrow

Três links sobre Bob Dylan:

Aqui, um artigo (em inglês) de 2008 que analisa o uso de palavras e idéias junto com a temática das letras de Bob Dylan ao longo da carreira.  (via Mind Hacks).

Aqui, a letra de Mr. Tambourine Man, de 1965. Na minha humilde opinião alguns dos mais belos versos em língua inglesa estão nessa música.

E aqui, a curiosa galeria (The Drawn Blank Series) de pinturas feitas pelo músico.

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Cartum #13

"Posturas ocidentais de Yoga"

(Via The New Yorker)

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Salada de Palavras

“O que seria de nós sem a memória? Esqueceríamos nossas amizades, nossos amores, nossos prazeres, nosso trabalho; o gênio seria incapaz de guardar suas idéias; o mais apaixonado amante perderia sua doçura se não pudesse recordar. Nossa existência estaria reduzida a momentos sucessivos de um presente perpetuamente fugidio; não haveria mais passado. Pobres criaturas que somos, nossa vida é tão vã que não passa de um reflexo de nossa memória.”

Trecho selecionado de Mémoires d’outre-tombe, de François-René de Chateaubriand. O texto foi traduzido livremente por mim a partir da citação no excelente livro Memory: an Anthology (Vintage, 2009). Editado por A.S. Byatt  e Harriet Harvey Wood, a antologia reúne textos sobre memória colhidos da literatura ocidental, de Platão a Shakespeare, de John Locke a Oliver Sacks.

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Pelada filosófica

Mais um do Monty Python. Nem Jaspers escapou da escalação.

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Cérebro colorido (2)

Encontrei no (sempre) ótimo Mind Hacks a dica para uma galeria no tumblr chamada Neuro Images, só com imagens interessantes do cérebro.

Na imagem em destaque, células da glia captadas por fluorescência.

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Cartum #12


(Por André Dahmer)

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