Archive | May, 2012

Ondas de diagnóstico

Li no ótimo blog Psiquiatria e Sociedade um texto interessante sobre a prevalência de certos diagnósticos na mídia ao longo dos anos.

Uma análise feita no acervo do jornal Estadão nas últimas quatro décadas mostra as tendências de se falar mais desse ou daquele diagnóstico psiquiátrico em cada período de dez anos. O termo “psicopata”, por exemplo, triplicou suas aparições entre os anos 80 e 90.

O conhecimento científico normalmente caminha dos periódicos técnicos para os veículos de divulgação de ciência, desses para a mídia leiga e finalmente ganham a massa. Mas essa é uma via de mão dupla, como fica claro quando lidamos com o comportamento humano: a psicologia do senso comum é influenciada pela ciência e ao mesmo tempo em que a influencia (antes de serem cientistas, os pesquisadores são pessoas).

É difícil encontrar em português textos como esse, que falam da psiquiatria e da cultura de maneira cuidadosa. Leia mais: As doenças da moda

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Turista patológico

Encontrei no Guardian (depois de uma indicação de @deumilcoses) um artigo sobre o primeiro caso descrito de um fugitivo patológico (ou fugueur).

Albert Dadas, francês de Bordeaux, foi examinado no final do século XIX , aos 26 anos, por Charcot e Gilles de la Tourette em um dos seus vários internamentos. Dadas foi encontrado em várias cidades da Europa após ter percorrido vários quilômetros a pé ou de trem, sem lembrar como havia chegado ali. Por não ter passaporte, frequentemente era enviado a hospitais ou deportado de volta à França.

Em 1887, Philippe Tissié,  então um jovem médico aspirante a psiquiatra, entrou em contato com Dadas e descreveu seu caso. O diagnóstico de Dadas foi de dromomania, ou fuga histérica, já que o paciente só conseguia lembrar de suas viagens através da hipnose.

Leia o artigo aqui: Le Premier Fugueur by Johan Furaker

Em 2011 o artista Johan Furaker fez uma exposição de pinturas inspiradas no caso Albert Dadas. Veja aqui.

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A micróglia por Alzheimer

Acima, um desenho das células da micróglia feito pelo neuropatologista Alois Alzheimer, publicado originalmente em 1911. Tirei a ilustração daqui: Physiology of Microglia

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

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10 filmes sobre memória e esquecimento

Uma lista de 10 filmes nos quais a memória – ou a perda dela – tem um papel importante na trama. Interessante perceber como em muitos filmes a perda de memória acontece após um traumatismo craniano e quase sempre de maneira global, coisa rara de acontecer de verdade.

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A grande noite umbrosa* de Poe

Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Assisti ao filme O Corvo (EUA, 2012), livremente baseado na vida e obra de Edgar Allan Poe. A trama, que transforma os dias finais do escritor americano em uma história policial, não é boa, mas serviu para reavivar no meu córtex – ultimamente tão desmemoriado – algumas coisas interessantes sobre o autor de The Raven.

Lembrei de um panfleto distribuído na casa de Edgar Allan Poe, transformada em museu na Filadélfia, que apresenta fatos históricos que desmentem os supostos alcoolismo e adicção a ópio imputados ao escritor. Segundo o texto (leia aqui) a má fama foi arquitetada por um crítico e rival literário de Poe chamado Rufus Griswold.

Veio à memória também um artigo médico que postei no blog há quase dois anos sobre as circunstâncias misteriosas da morte de Edgar Allan Poe. Releia aqui: O mistério final de Poe

Por último, lembrei do belíssimo poema A Dream Within a Dream, que empresta algumas linhas para o fechamento do filme, antes dos créditos finais.

* “A grande noite umbrosa” é a tradução do nosso Machado de Assis para “the Night’s Plutonian shore“, frase magistral de The Raven. Veja aqui a tradução completa do Bruxo do Cosme Velho para um dos maiores poemas da língua inglesa.

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A estranha aura de “Epiléptico”

Chamamos de aura a crise parcial simples que pode anteceder os ataques de epilepsia. Na aura pode haver percepções sensoriais esquisitas, desrealização ou sensação de estranhamento. É bem assim que o leitor se sente ao ler a surpreendente graphic novel Epiléptico (Conrad, 2007), do quadrinista francês David B.

O livro, editado no Brasil em dois volumes, narra a história da família Beauchard, contada pelos filho do meio, Pierre-François. É um relato autobiográfico do autor sobre o impacto que a epilepsia do seu irmão mais velho causou em si e nos seus familiares. E que relato.

A história e os desenhos ilustram o imaginário povoado por monstros e conflitos de Pierre-François e do seu irmão doente Jean-Cristophe. A epilepsia é simbolicamente retratada como uma espécie de fera incontrolável e dominadora, que resiste aos ataques da medicina tradicional e de práticas alternativas e que termina por invadir completamente a vida dos Beauchard.

Recomendo. Não é todo dia que a gente vê algo tão bem executado sobre uma doença neurológica/psiquiátrica.

Se quiser ler mais sobre Epiléptico, clique aqui.

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Gênio instantâneo

2012 © Clive Barker

 

Já falei sobre o savantismo aqui. Só não falei que o quadro pode ocorrer não apenas no autismo ou em condições inatas, mas que também pode ser adquirido.

Antes de sair batendo a cabeça por aí tentando ficar mais inteligente, saiba que o savant adquirido é extremamente raro.  Um bom artigo do The Atlantic fala sobre o tema e cita alguns casos, entre eles o do fotógrafo Eadweard Muybridge e o do músico Derek Amato.

Amato sofreu um traumatismo craniano ao mergulhar numa piscina aos 40 anos de idade. Após se recuperar do trauma descobriu que conseguia tocar piano habilmente e compor com facilidade, apesar de nunca ter tido treinamento musical antes do acidente. Veja aqui um vídeo com o depoimento do músico tardio.

Em alguns casos muito raros de demência fronto-temporal pode ocorrer um fenômeno parecido. Na doença, partes do córtex até então sub-utilizadas podem ser recrutadas após o dano neurológico em áreas afetadas. É como se, ao utilizar a “reserva” funcional por meio da neuroplasticidade, o cérebro ativasse funções adormecidas surpreendentes.

Leia aqui o artigo: Eureka! When a Blow to the Head Creates a Sudden Genius

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Cartum #38

(por Daniel Lafayette)

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Poe e os lobos frontais

O extraordinário caso do americano Phineas Gage, um operário das estradas de ferro que sobreviveu após ter o crânio atravessado por uma barra de ferro em 1848, virou uma história clínica paradigmática da neurologia e psiquiatria. Após recuperar-se do trauma inicial, Gage apresentou uma profunda mudança na personalidade provocada pelas lesões no lobo frontal.

Mais extraordinário do que o caso é o fato de Edgar Allan Poe ter descrito uma síndrome idêntica, oito anos antes. No conto The Business Man (não achei a versão em português) o personagem principal apresenta boa parte das mudanças de personalidade de uma síndrome do lobo frontal, provocadas por um traumatismo craniano na infância.

Leia um ótimo artigo sobre o assunto: The medical prescience of Edgar Allan Poe

That incident defines the man’s life; he develops a slavish adherence to exactness and obsession with methods that are characteristic of a modern diagnosis of frontal lobe syndrome. After losing his job over a matter of two pennies, Poe’s hero becomes an increasingly violent sociopath, going into the “Assault and Battery trade” and is eventually thrown into prison.

*Bônus: Um recente estudo de neuroimagem avalia o caso Phineas gage

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O prontuário de Hitler

Em 1918, no hospital militar de Pasewalk, o psiquiatra professor Edmund Forster trata, por meio da hipnose, o cabo Adolf Hitler de uma “neurose de guerra” (cegueira histérica). Em 1933, Hitler assume o poder sobre a Alemanha nazista. Pouco tempo depois, Forster entra em contato com um grupo de escritores que viviam em exílio em Paris e passa sigilosamente a eles os seus conhecimentos sobre o caso.

A Revista de Psiquiatria Clínica publicou em 2006 um artigo interessante sobre o prontuário médico do Fürer. O boletim médico original desapareceu e a trágica história que o envolve termina com três assassinatos e dois suicídios.

Pelas atuais classificações o jovem Adolf Hitler – com 29 anos à época do internamento  -  receberia hoje o diagnóstico de anestesia e perda sensorial dissociativa.

Leia aqui o artigo completo- A cegueira histérica de Adolf Hitler: histórico de um boletim médico

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Mente iluminada

 

O vídeo acima foi o vencedor do concurso Art of Neuroscience de 2012. A sequência mostra o mapeamento de estruturas e vias neuronais no cérebro humano. A trilha sonora acompanha bem as imagens.

Saiba mais sobre o vídeo aqui: Mentes que brilham, douradas

(via @cienciahoje)

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Cartum #37

"- Você alguma vez pensou em expressar essa raiva fisicamente?"

 

(Via The New Yorker)

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Ulysses em quadrinhos

Encontrei uma versão online de Ulysses de James Joyce, em quadrinhos. Robert Berry, autor da proeza, desenhou todos os capítulos do livro, além de criar uma guia de leitura para cada um deles.

Pode interessar tanto a quem já leu o livro quanto a quem tem preguiça de se aventurar por suas numerosas folhas.

(Os lacanianos adoram  obra de Joyce e, no dia 16 de junho, costumam comemorar o Bloomsday, uma homenagem ao livro Ulysses celebrada nas vinte e quatro horas em que se passa a saga do personagem Leopold Bloom.)

Clique para ler: Ulysses Seen.

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Na cabeça de Hitler

Quem curte ler sobre a Segunda Guerra vai gostar desse texto publicado no Research News da Universidade de Cambridge sobre um perfil psicológico de Hitler feito em 1942.

O documento, até então mantido sob sigilo, foi elaborado pelo cientista social Mark Abrams a pedido da Inteligência Britânica. No relatório, feito a partir da análise de discursos do ditador alemão, Abrams especula sobre a gestação de idéias paranóides e messiânicas na mente de Hitler frente à possibilidade da derrota alemã, que apontava no horizonte três anos após o início dos combates.

“Hitler is caught up in a web of religious delusions,” MacCurdy concluded. “The Jews are the incarnation of Evil, while he is the incarnation of the Spirit of Good. He is a god by whose sacrifice victory over Evil may be achieved. He does not say this in so many words, but such a system of ideas would rationalise what he does say that is otherwise obscure.”

Leia aqui a matéria: Inside Hitler’s mind

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Intermezzo

 

A idéia que os Ramones tinham de ‘psicoterapia’ certamente não era a mais adequada. Se bem que prefiro acreditar que o título da música acima seja mais um jogo de palavras entre psychotherapy (‘psicoterapia’) e psycho therapy (‘terapia psicopata’).

I am a teenage schizoid
The one your parents despise

Como quase tudo dos Ramones o clipe é bem naïve e cheio de humor negro. Repare nos clichés sobre a psiquiatria institucional americana.

Eu gosto.

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