Archive | June, 2012

Intermezzo

Charlotte Gainsbourg fez uma canção chamada IRM, que é a sigla em francês para ressonância magnética (imagerie par résonance magnétique). A música agrega barulhos de ressonância e tem uma letra poeticamente neurocientífica:

Leave my head demagnetised
Tell me where the trauma lies
In the scan of pathogen
Or the shadow of my sin

>> Estou meio fora do ar esses dias por problemas no computador. Volto a seguir, não me abandonem.

Cartum #41

(Por Dinâmica de Bruto)

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Lições de um cérebro danificado

Depois de um dano cerebral é bem comum que pacientes com talento artístico apresentem um déficit cognitivo que comprometa suas habilidades criativas. Encontrei um artigo muito interessante que avalia justamente o oposto: imagens criadas por pessoas com dano neurológico que demonstram persistência ou mudança qualitativa da capacidade de criação artística.

Sim, algumas pessoas podem desenvolver habilidades artísticas depois de um dano cerebral, já falei sobre isso no post Gênio instantâneo. O artigo recente, publicado no períodico Brain, analisa casos de demência, Parkinson, acidente vascular, epilepsia enxaqueca e traumatismo craniano.

A ilustração acima mostra a evolução dos desenhos de um artista com demência com degeneração fronto-temporal. O desenho A foi feito anos antes da doença, os demais mostram representações cada vez mais bizarras e ameaçadoras à medida que a doença progride (o desenho D foi feito três anos após o diagnóstico).

A compreensão do que ocorre no cérebro danificado pode ajudar muito a entender o complexo mecanismo neural da criatividade.

Leia o artigo na íntegra aqui: Pictures as a neurological tool: lessons from enhanced and emergent artistry in brain disease

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Loucura e suicídio na Era Vitoriana

Encontrei um tese de doutorado sobre alguns aspectos do tratamento psiquiátrico no século XIX. Suicide, lunacy and the asylum in nineteenth-century England da pesquisadora Sarah York discute as caraxterísticas do tratamento dado aos pacientes suicidas em um período interessante da história da psiquiatria.

There is a distinct appreciation of the broader social and political context in which the asylum operated and how this affected suicide prevention and management. This thesis argues that suicidal behaviour, because of the danger associated with it, triggered admission to the asylum and, once admitted, dangerousness and risk continued to dictate the asylum’s handling of suicidal patients.

A tese pode ser lida na íntegra aqui.

(dica de @ChirurgeonsAppr)

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Desenhos animados e violência

 

O blog Psiquiatria e sociedade comenta um artigo de revisão interessante sobre a influência dos desenhos animados no comportamento violento de crianças (Leia aqui o artigo, pago ou via periodicos CAPES).

Interessante perceber que, ao contrário do que os radicais podem achar, a imitação do comportamento violento dos personagens dos desenhos não acontece sem a modulação de elementos como humor, contexto ou a presença dos pais.

O humor atenua a percepção da violência, e provavelmente é por causa disso que desenhos como Papa-léguas, Pica-Pau ou Pernalonga, mesmo com muitas cenas agressivas, não modifica o comportamento das crianças.

Leia o texto completo em: A culpa é da TV?

Acima, um episódio do Pica-Pau (quando ainda era O Pica-Pau Biruta na tradução brasileira)

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Cartum #40

(Por André Dahmer)

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Torrente de palavras

A hipergrafia, uma compulsão irresistível por escrever – em verso ou prosa – pode ser encontrada na epilepsia, notadamente naquelas com origem no lobo temporal. Também pacientes em episódio maníaco ou esquizofrenia podem apresentar essa necessidade de escrever abundantemente.

Há quem diga que o escritor russo Fiódor Dostoiévski apresentava o sintoma como parte da sua epilepsia. A mesma suspeita é levantada quando se fala de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas.

Em algumas condições não necessariamente patológicas, a hipergrafia também pode render a entrada no panteão da literatura. É o caso do escritor americano Arthur Crew Inman (1895-1963).

Entre 1919 e 1963 Inman escreveu um diário com nada menos que 17 milhões de palavras sobre eventos, pessoas e observações de um período de mais de quatro décadas do século XX. Em breve será lançado um filme com John Hurt sobre a vida do autor. Veja aqui o site oficial: Hypergraphia.

Acima, ilustrando o post, um poema comcreto de Lewis Carroll intitulado “The Mouse’s Tale” (um trocadilho entre tale e tail, respectivamente, conto e cauda)

(Peguei a dica do filme em The Neurocritic)

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O louco da turma

Conversando ontem com amigos lembrei do personagem Louco dos quadrinhos da Turma da Mônica.

O Louco costumava aparecer nas histórias do Cebolinha, onde deixava o personagem principal mais perplexo a cada quadrinho. Nas primeiras histórias, o Louco iniciava fugindo de um manicômio e terminava invariavelmente sendo recapturado e posto em uma camisa de força no final do enredo.

O que mais me chamava a atenção nos enredos eram as livres-associações feitas pelo personagem . Em outros momentos, o que surgia era franca concretude do pensamento. Não havia nenhum tipo de delírio sistemático, mas uma sucessão de idéias inusuais, geralmente representando oposição ou inversão de conceitos.

Normalmente a loucura é pensada pelo leigo em nossa cultura desse jeito, como um comportamento quase automático de oposição ao bom-senso e ao convencionalmente aceito. É dada pouca importância ao delírio, que frequentemente é representado pela perda da identidade ou da unidade do Eu – quando um louco crê que é Napoleão, por exemplo.

Se não lembra do Louco, veja aqui uma história animada do personagem: Coisa de Louco

(ou, se preferir, leia uma história aqui)

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Intermezzo

Acima, a cena antológica do filme “Amargo pesadelo” (Deliverance, EUA, 1972): o personagem de Ronny Cox duela ao violão com um menino com face sindrômica ao banjo.

A música Duelling banjos ficou no topo das paradas por algum tempo nos EUA e terminou ganhando um Grammy no ano de lançamento do filme.

Diamante louco

Syd Barrett fundou a banda Pink Floyd, mas teve de abandoná-la antes do que desejava, no auge do reconhecimento e do sucesso comercial.  O Pink Floyd, porém, nunca abandonou Syd Barret.

Depois da saída do músico, acometido por um quadro psicótico que viria a se tornar crônico, músicas da banda – e um disco inteiro, na verdade – passaram a fazer referência ao elemento perdido. A canção mais conhecida talvez seja Wish you were here, onde fica claro o vácuo deixado pelo principal letrista. Em Shine on you crazy diamond o elemento ‘loucura’ parece pairar como um fantasma sobre a cabeça dos integrantes remanescentes:

You reached for the secret too soon,
You cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.

A revista Mente e Cérebro traz uma matéria interessante sobre a “loucura produtiva” de Syd Barret, chegando a comparar o impacto da obra do músico inglês à ruptura que James Joyce provocou na literatura.

Leia: Eu queria que você estivesse aqui.

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História da frenologia

O blog Providentia traz um ótimo resumo da história da frenologia que menciona os principais nomes dessa ciência do século XVIII.

A frenologia admitia que cada faculdade mental tinha uma localização específica no cérebro. Alguns cientistas no período, notadamente Franz Gall, tentaram determinar como o cérebro funcionava a partir da premissa do mapeamento anatômico das funções. Com os dados empíricos obtidos, o ramo prático da frenologia passou a gerar interesse no meio científico a partir do início do século XIX.

A frenologia prática consistia em tirar medidas do crânio,  principalmente de suas calosidades e saliências, para determinar traços de personalidade do indivíduo. Segundo a teoria vigente, os acidentes da calota craniana refletiam a hipertrofia ou hipotrofia de certas regiões cerebrais. Os achados da frenologia ganharam alguns desdobramentos: Lombroso, por exemplo, utilizou alguns postulados para fundar sua antropologia criminal.

Although the idea that mental abilities were linked to specific locations in the brain dates back to Aristotle, true scientific work into the nature of brain functioning didn’t begin until the late 18th century. While early visionaries such as Emmanuel Swedenborg made some inspired guesses about how the brain worked, it was German neuroanatomist Franz Joseph Gall who can properly be considered the father of phrenology.

Leia aqui a matéria: Reading the bumps

Veja aqui um aparelho do período, o psicógrafo, que seria capaz de medir automaticamente as calosidades do crânio e determinar a personalidade de uma pessoa em poucos minutos.

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Cartum #39

(Overman, por Laerte)

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O Fazendeiro do Ar


Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Tirei uns dias de férias. Volto próxima semana.

Programei algumas postagens automáticas para esses dias; entre elas esse minidocumentário (que parece material do Ler Para Contar).

O Fazendeiro do Ar faz parte de uma série de filmes dirigidos pelo grande escritor Fernando Sabino sobre outros de igual magnitude. Esse é sobre Carlos Drummond de Andrade, que aparece muito descontraído e à vontade por conta da antiga amizade com o diretor.

Cinema e psiquiatria

Ai vai uma lista das 10 listas de filmes que tem a ver com psiquiatria que já postei aqui no blog.

Veja todos os posts sobre cinema do blog clicando aqui.

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Galeria das emoções

Em 1872 Darwin publicou A Expressão das Emoções no Homen e nos Animais. A obra continha ilustrações baseadas nas fotos do fisiologista francês Duchenne de Boulogne.

As famosas – e bizarras – fotos de um sujeito da Era Vitoriana tomando choques no rosto (acima) entraram para a história da medicina. Elas mostram um estudo da fisionomia humana a partir da estimulação elétrica de músculos da mímica facial. Darwin utilizou as imagens produzidas por Duchenne para tentar determinar se havia um núcleo de expressões humanas e se variações culturais poderiam modificar esse núcleo. Ele mostrou as imagens para alguns voluntários e perguntou que expressão cada uma representava.

Recentemente um grupo da Universidade de Cambridge retomou o estudo de Darwin de onde ele o havia deixado. A matéria da Wired Darwin’s Creepiest Experiment Brought Back to Life fala do estudo e traz uma galeria com algumas das fotos de Duchenne.

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