Archive | July, 2012

Confabulações de Chico Buarque


Daniel Martins de Barros
lembra bem (trocadilho intencional) da presença do sintoma confabulação no livro “Leite Derramado” de Chico Buarque, no artigo Traiçoeira Memória

Confabulação (ou fabulação) é a inserção de memórias “falsas” em lacunas de memória, frequentemente apresentadas por pessoas com quadros demenciais. Em geral, o doente confabula sem perceber, e o conteúdo das memórias implantadas é feito de retalhos de fatos reais ou verossímeis vividos pela pessoa.

Num exemplo, quando perguntado a um portador da doença de Alzheimer sobre o que fez no último final de semana – do qual se sabe que permaneceu no hospital -, este responde com convicção que foi pescar com o filho depois de jogar sinuca com alguns amigos. Em algum momento de sua história – digamos, há trinta anos – ele de fato foi pescar com o filho. Sobre a sinuca, pode-se descobrir, por exemplo, que nunca a praticou, mas que seu pai era um exímio jogador num passado também distante.

No livro de Chico Buarque quem confabula é Eulálio, o personagem-narrador, que contrói uma narrativa com fatos de sua vida costurados por eventos fantasiosos.

Leia o artigo e entenda um pouco mais com um ótimo exemplo na literatura.

:: Posts relacionados: Um teste para alucinações10 filmes sobre memória e esquecimentoOmnia Vincit Cantus

Leave a Comment

O que é psicanálise?

 

Um vídeo que pode confundir mais que educar, mas eu gostei.

Trata-se de um curta animado feito pelo Instituto de Psicanálise da British Psychoanalytic Society. A animação aborda o que acontece durante as sessões de terapia de uma maneira um tanto abstrata e com muita licença poética.

A trilha é muito boa, com destaque para a ótima música do final: It must be something psychological.

:: Posts relacionados: Barbas & gravatas borboletaHistória da neurociênciaThe Big Bang Therapy,

 

Robert Crumb sobre o LSD

Achei muito ilustrativo o relato do quadrinista norte-americano Robert Crumb sobre suas experiências com o LSD.

O texto abaixo foi extraído do livro Minha Vida. Nele, Crumb  conta como foi a primeira vez que usou a droga além de outras histórias interessantes sobre a cultura hippie na década de 1960. Entre elas, o fato de que o LSD era permitido em 1965 (só foi proibido dois anos depois) e que era produzido pela Sandoz.

“O LSD era permitido em 1965, quando tomei pela primeira vez!”

Dana conseguiu nosso primeiro ácido com um psiquiatra. Era um líquido azulado em pequenas ampolas de vidro,fabricado na empresa farmacêutica Sandoz, na Suíça. O melhor. A primeira viagem foi uma experiência totalmente mística – impactante, assustadora e visionária. Queria repetir. Dana ouviu dizer que tinha gente distribuindo LSD, então certa noite fomos a uma grande mansão antiga em Cleveland Heights. Não havia mobília, mas deduzi automaticamente que tinham dinheiro à beça. Pareciam crianças ricas. Era uma cena estranha. Disse a eles que queria uma dose bem potente. O que deram para mim e para Dana era coisa boa, muito pura, mas assim que a droga bateu fiquei com muito medo daquela gente. Se transformarem em demônios para mim… diabos. Achei que estava no inferno! Acreditava nisso! Lembro de, a certa altura, ter saído das profundezas do terror e me forçado a esquecer algo que tinha visto, porque era horrível e insuportável demais. A única maneira de escapar desse delírio era esquecer o que estava vendo, e vomitei no chão!

Aquelas pessoas ficaram completamente enojadas comigo. Não sabia quem eram, podiam ser agentes do governo ou somente rapazes antipáticos de uma república se divertindo com as namoradas.

(more…)

Leave a Comment

Antes e depois da esquizofrenia

"Gatos com guarda-chuvas" - Louis Wain antes da esquizofrenia...

 

Muito diferente da percepção leiga da doença mental, a esquizofrenia não é um transtorno caracterizado pela personalidade m[ultipla. Parte desse mito provém da própria etimologia do termo - em grego skízein quer dizer cisão, divisão, e phren, siginifica sopro ou diafragma e, por extensão, espírito (no sentido de "mente").

O que acontece na esquizofrenia é uma cisão entre as funções mentais, seja entre o pensamento e a expressão afetiva deste (marca sublinhada por Eugen Bleuler, que deu fama ao termo), seja entre a percepção da vida psíquica interior em oposição à realidade objetiva. Na doença, normalmente o mundo externo é vivido como hostil ou persecutório e há um apagamento da fronteira entre o mente e o mundo.

A percepção de mundo do artista britânico Louis Wain (1860 – 1939) mudou assustadoramente após o primeiro surto psicótico, no início da década de 20. O desenhista, conhecido pelos seus desenhos de gatos e filhotes com atitudes e feições humanas, foi admitido pela primeira vez em um hospital psiquiátrico em 1924, com o diagnóstico de esquizofrenia e terminou seus dias sem voltar ao convívio social, desenhando apenas por prazer.

.. e depois da esquizofrenia.

A doença provocou uma mudança significativa no estilo de Wain. Apesar de manter o mesmo tema na maioria dos desenhos, sua obra após o adoencimento se caracteriza por padrões intricados e abstratos como fundo de expressões perturbadoras. As feições outrora familiares do seus gatos passaram a comunicar um quê de perplexidade ou de uma jocosidade difícil de ressoar emocionalmente no observador.

Clique na segunda imagem para ver uma galeria do artista. Ou assista a um vídeo mostrando alguns de seus desenhos, antes e depois da esquizofrenia.

:: Posts relacionados: Lições de um cérebro danificadoDesenhando o insondávelDiário borderline

Leave a Comment

A internet pode te deixar louco?

A resposta é não. Ou, pelo menos, não há dados sérios que mostrem isso.

Quando li há algumas semanas na Folha uma matéria sugerindo que a internet e o uso de gadgets poderia gerar doenças psiquiátricas, pensei em escrever aqui um texto de crítica a esse tipo de avaliação superficial. Não precisei, já que achei no Mind Hacks um ótimo artigo sobre o assunto: No, the web is not driving us mad

No texto, Vaughan Bell usa como exemplo uma matéria de capa recentemente publicada pela Newsweek sobre os supostos males psíquicos causados pela internet. Na matéria da revista, pode-se ler que a web chega a ser responsável até por quadros de psicose.

Bell chama atenção para a precariedade da sustentação científica de afirmações desse tipo, geralmente baseadas – quando baseadas – em evidências fracas ou em casos isolados. Não há, por exemplo, dados em décadas de pesquisa  sobre o assunto que indiquem que a internet esteja entre os fatores ambientais de risco para a esquizofrenia. A própria tentativa – tão citada ultimamente nos meios de comunicação – de catalogar um suposto vício de internet é um erro do ponto de vista científico, como o mesmo autor sugere em outro texto.

The article also manages the usual neuroscience misunderstandings. The internet ‘rewires the brain’ – which I should hope it does, as every experience ‘rewires the brain’ and if your brain ever stops re-wiring you’ll be dead. Dopamine is described as a reward, which is like mistaking your bank statement for the money.

Para os interessados no assunto:  leiam o texto com calma, junto com as referências.

* Acima, uma ilustração do artista James Jean.

:: Posts relacionados: A mente do internautaLendo o presenteInternet versus Inteligência

Leave a Comment

Salada de palavras

“A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, durar, seguir vivos nas gerações futuras, enquanto que os produtos deste são fabricados para ser consumidos no instante e desaparecer, como os biscoitos ou a pipoca. Tolstói, Thomas Mann, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver aos seus autores, seguir atraindo e fascinando leitores nos tempos futuros. As novelas brasileiras e os filmes de Bolywood, como os shows da Shakira, não pretendem durar mais que o tempo de sua apresentação e desaparecer para deixar espaço a outros produtos igualmente exitosos e efêmeros. A cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura”. 

Mario Vargas Llosa em La Civilización del espectáculo.

(Via Ler para contar)

Leave a Comment

A voz atrás do divã

Já postei aqui um dos poucos registros filmográficos do pai da psicanálise. Acima, você escuta o único registro conhecido da voz de Sigmund Freud.

A gravação é de 7 de dezembro de 1938 e foi feita por uma equipe da BBC. Apesar da dificuldade de fala por causa de fortes dores devido ao câncer de boca, é possível entender trechos do breve discurso em inglês.

I started my professional activity as a neurologist trying to bring relief to my neurotic patients. Under the influence of an older friend and by my own efforts, I discovered some important new facts about the unconscious in psychic life, the role of instinctual urges, and so on. Out of these findings grew a new science, psychoanalysis, a part of psychology, and a new method of treatment of the neuroses. I had to pay heavily for this bit of good luck. People did not believe in my facts and thought my theories unsavory. Resistance was strong and unrelenting. In the end I succeeded in acquiring pupils and building up an International Psychoanalytic Association. But the struggle is not yet over.

Essa é a voz que Anna O. , Dora e Elizabeth von R. escutaram falando diretamente aos seus inconscientes.

:: Posts relacionados: Freud à vontadeMusas da histeriaA Era do Insight

Planeta particular

Hiba, Campo de refugiados palestino Shatila, Beirut 2010 © Rania Matar

 

Gostei muito do projeto da fotógrafa libanesa Rania Matar. De maneira honesta e delicada ela se pôs a fotografar dentro dos seus quartos meninas adolescente de diferentes países e realidades sociais. O resultado é o belo livro A Girl and Her Room (Umbrage, 2012).

Sem mais palavras, veja algumas fotos no site da artista, aqui.

:: Posts relacionados: O mundo fechado dos asilosVidas deixadas para trásFotografias do mundo interior

Leave a Comment

Amok

Há uma peculiar síndrome psiquiátrica encontrada entre os habitantes do Arquipélago Malaio. O amok é descrito como uma explosão súbita e inesperada de agressividade que acomete indivíduos considerados pacíficos e sem histórico de comportamento violento. Muitos casos de amok terminam tragicamente, seja com a morte dos alvos do ataque de fúria, seja com uma ação fatal para tentar deter o indivíduo agressor.

Segundo as atuais classificaçõeso amok é considerado uma síndrome ligada à cultura, entretanto, tem todas as características de um transe dissociativo. Os sintomas clássicos de amok incluem:

  • Um período inicial de isolamento que dura de horas a dias;
  • Ataques violentos, súbitos e imotivados dirigidos a pessoas que estejam próximas, sejam parentes, amigos ou desconhecidos;
  • Os ataques duram de minutos a dias até que o indivíduo seja contido ou morto;
  • Caso a pessoa acometida sobreviva, após o surto, tipicamente, entra em um estado de estupor ou sono que pode durar dias;
  • Após despertar, geralmente o indivíduo permanece isolado ou em mutismo e é incapaz de recordar o que aconteceu.

Aparentemente, uma das primeiras descrições feitas por um ocidental do amok foi a do capitão James Cook em seus relatos de viagem, na segunda metade do século XVIII.

Apesar de haver outras síndromes semelhantes ao redor do globo (cafard na Polinésia, mal de pelea em Porto Rico e iich’aa entre os Navajo) o amok tornou-se especialmente conhecido, principalmente entre os falantes da língua inglesa, que utilizam a expressão ‘to run amok’ de maneira corrente para designar surtos de fúria inexplicados.

Leia no Providentia um bom artigo sobre o assunto, com breves relatos de caso: When People Run Amok.

:: Posts relacionados: Zumbis, Vodu e neurotoxinasDanse macabreSurtos de dança

Leave a Comment

O que a mente vê

 

Eu sei que está um pouco cansado falar bem ou indicar as palestras da TED, mas essa apresentação de 2009 do neurologista e escritor Oliver Sacks vale a recomendação.

Sacks fala da síndrome de Charles Bonnet, que é a ocorrência de alucinações visuais em pacientes com algum grau de déficit visual. Alucinose seria o termo psicopatológico mais preciso, já que o doente percebe a alteração sensoperceptiva como algo estranho à vida psíquica ou, como se diz em psiquiatria, faz crítica ao fenômeno. Oliver Sacks chama a atenção para este fato ressaltando que, nas psicoses, o doente interage ou “acredita” nas alucinações auditivas ou visuais produzidas pelo cérebro.

Charles Bonnet descreveu a síndrome em 1760 a partir do relato das alucinações (ou alucinose) que seu avô experimentava. Depois de 250 anos ainda tentamos entender como o cérebro funciona nessa condição particular.

Dê play e assista ao vídeo, que tem legendas em português.

:: Posts relacionados: Mapas do cérebroCébrebro divididoOmnia Vincit CantusAssim é se lhe parece

Sindrome de Paris

Há alguns anos aparecem relatos na mídia de uma estranha patologia psiquiátrica que acomete os turistas japoneses na capital francesa. Os sintomas agudos da chamada síndrome de Paris incluem delírios, alucinações, sensação de estar sofrendo preconceito ou de ser alvo de hostilidade, ansiedade, desrealização e despersonalização.

Aparentemente, a síndrome acomete por volta de doze turistas japoneses de um milhão que visitam Paris anualmente. Do ponto de vista estatístico, esse número não seria maior do que a incidência de, digamos, esquizofrenia na população geral. A existência e validade diagnóstica da síndrome, portanto, permanecem uma incógnita até o momento, apesar do alarde dos meios de comunicação.

Encontrei no Neurbonkers uma boa matéria sobre o assunto que levanta como hipótese etiológica o choque cultural, além de discutir outros aspectos: Paris Syndrome: Peculiar Madness or Urban Legend? 

Acima um documentário (em inglês) sobre o suposto fenômeno. (Repare que o filme começa citando o caso de Albert Dadas – o turista patológico -, de quem já falei aqui).

Já falei também aqui de uma outra síndrome que acomete particularmente os ocidentais, a Jiko-shisen-kyofu.

:: Posts relacionados: Síndrome de Stendhal, Turista patológico, Olhando torto

Cão de olhos negros

Vi no Mental Elf uma matéria sobre a ineficácia na prevenção de sintomas depressivos das chamadas low-intensity interventions – em português, algo como intervenções leves, ou seja, aquelas que não se baseiam em medicações ou atuação direta do terapeuta. É o caso de atividades físicas de grupo e terapia cognitiva computadorizada.

Pois é, parece que isso não funciona bem para evitar que pacientes com depressão voltem a adoecer, como você pode ler aqui. Mas não foi isso que me chamou a atenção.

O que gostei mesmo foi da menção à canção de Nick Drake chamada Black Eyed Dog (escute no vídeo acima). Aparentemente, a letra é sobre a inevitável instalação da melancolia no espírito das pessoas que sofrem de depressão. Sabidamente, o compositor e músico britânico Nick Drake era portador da doença e suicidou-se poucos meses após gravar a música, depois de tomar uma overdose do antidepressivo imipramina.

A black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog.

I’m growing old and I wanna go home
I’m growing old and I don’t wanna know.

A black eyed dog he called at my door
A black eyed dog he called for more.

Já havia falado sobre Nick Drake aqui. E sobre outras músicas cujo tema é a depressão, aqui.

P.S.: Ainda sofro com problemas no computador. Devo voltar a postar com mais frequência a partir da próxima semana. Té.

:: Posts relacionados: Paint it black, Melanolia em doze compassos, Stormy Weather

 

Paranóia na tela

O pessoal da psicanálise vai gostar desse.

Em breve deve estrear um filme sobre a vida  (e delírio) de um dos casos mais famosos trazidos à luz pelo pai da psicanálise. Shock Head Soul (Reino Unido/Holanda, 2011) projeta na tela a história de Daniel Paul Schreber,  juiz alemão acometido por um transtorno mental grave na virada do século XX. O filme é baseado no livro “Memórias de um doente dos nervos”  publicado em 1903, que narra a formação do exuberante delírio do autor.

Em 1911 a obra foi analisada por Freud como paradigma de um caso de paranóia.

Veja aqui o site oficial do filme.

Leia aqui a entrevista com Helen Taylor-Robinson (psicanalista) e Clive Robinson (psiquiatra) que participaram da realização do filme.

:: Posts relacionados: Cinema e psiquiatria, Os perigos do método, Divã de celulóide