Robert Crumb sobre o LSD

Achei muito ilustrativo o relato do quadrinista norte-americano Robert Crumb sobre suas experiências com o LSD.

O texto abaixo foi extraído do livro Minha Vida. Nele, Crumb  conta como foi a primeira vez que usou a droga além de outras histórias interessantes sobre a cultura hippie na década de 1960. Entre elas, o fato de que o LSD era permitido em 1965 (só foi proibido dois anos depois) e que era produzido pela Sandoz.

“O LSD era permitido em 1965, quando tomei pela primeira vez!”

Dana conseguiu nosso primeiro ácido com um psiquiatra. Era um líquido azulado em pequenas ampolas de vidro,fabricado na empresa farmacêutica Sandoz, na Suíça. O melhor. A primeira viagem foi uma experiência totalmente mística – impactante, assustadora e visionária. Queria repetir. Dana ouviu dizer que tinha gente distribuindo LSD, então certa noite fomos a uma grande mansão antiga em Cleveland Heights. Não havia mobília, mas deduzi automaticamente que tinham dinheiro à beça. Pareciam crianças ricas. Era uma cena estranha. Disse a eles que queria uma dose bem potente. O que deram para mim e para Dana era coisa boa, muito pura, mas assim que a droga bateu fiquei com muito medo daquela gente. Se transformarem em demônios para mim… diabos. Achei que estava no inferno! Acreditava nisso! Lembro de, a certa altura, ter saído das profundezas do terror e me forçado a esquecer algo que tinha visto, porque era horrível e insuportável demais. A única maneira de escapar desse delírio era esquecer o que estava vendo, e vomitei no chão!

Aquelas pessoas ficaram completamente enojadas comigo. Não sabia quem eram, podiam ser agentes do governo ou somente rapazes antipáticos de uma república se divertindo com as namoradas.

Algumas semanas depois, queria ver aquelas pessoas sóbrio, sacar qual era a deles. Liguei e nos convidaram a voltar. Nos sentamos fumando maconha e assistindo a um espetáculo de luzes de cristal inventado por um cientista. Ele tinha inventado um modo de projetar os cristais numa tela, e o calor no projetor fazia os cristais mudarem de forma. Era bizarro. Tinha outro jovem lá que havia tomado LSD e ele foi conduzido a outra sala por um cara com jeitão de líder, como tinham feito comigo. Quando tomei o ácido deles, esse cara tentou ser meu guia ou alguma merda assim. Não sei se ele era inepto ou o que, mas me aterrorizou! Então ele levou aquele rapaz pra outra sala, pra ser o guia de LSD dele, e de repente ouvimos um grito de gelar o sangue! Corremos pra lá, e o rapaz tava encolhido em posição fetal sobre um colchão. O paspalho do “guia” cretino que estava sentado ao lado tentando acalmar o rapaz se virou pra gente e disse: “Vocês precisam ir embora agora! Preciso lidar com uma situação grave aqui! É melhor saírem!” Então fomos. Eu não sabia mesmo o que pensar… Será que estavam testando LSD nas pessoas? O cara não parecia um “hippie”. Tinha pinta de elite, classe dominante. Foi estranho, muito estranho.

Depois, quando eu e Dana morávamos em San Francisco, recebemos a visita do tal cientista e sua namorada. Eles eram esquisitos. Naquela viagem de ácido em Cleveland, eu tinha visto a garota, que era muito atraente, como um demônio feminino! Tinha desenhado ela com sobrancelhas demoníacas no meu caderno, com a legenda “Isso é o Inferno!”. Ela era sexy e tudo mais, mas tinha algo de agressivo e assustador. Eles queriam ir ai Avalon Ballroom. Ela disse: “Quero me produzir para ficar bem bizarra e estranha quando formos para lá! Por que não me ajudam?” Aí ela sentou numa cadeira, me acomodei por cima e pintei seu rosto como o demônio que tinha visto louco de LSD! Ela deu uma boa risada quando se olhou no espelho.

O LSD nunca foi fácil para mim. Sempre alternei experiências horríveis e apavorantes com experiências cósmicas e maravilhosas, como subidas e descidas de uma montanha-russa. Não entendia pessoas que tomavam ácido pra sentir prazer ou fazer sexo. Era inimaginável! Eu me tornava uma massa trêmula, me contorcendo e girando num colchão suado, fora de órbita. Me lembro de ter tomado ácido com meu amigo Joel Deutsch. Foi em São Francisco, e pegamos o ônibus até a praia… o final da linha. Caminhamos um tempo pelo parque de diversões e depois fomos pro oceano e sentamos na areia, olhando a água. Me tornei parte daquele ciclo infinito das ondas, aquela eternidade de ondas batendo na praia há milhões de anos. Ali sentado, me senti totalmente desvinculado do tempo. De repente o Joel disse: “Acho melhor irmos agora”. Hã? Ir? Onde? Eu tinha que sair da eternidade e retornar ao tempo. Nos viramos para ir embora, e vi a cidade! Tinha esquecido dela! Ali estava a civilização! E me pareceu uma ilusão e uma besteira tão grande, um conceito tão absurdo: esses prédios, ruas, carros, placas… que loucura!

Foi assim que os hippies entraram em sintonia com os ciclos da natureza, que existem fora dos conceitos humanos. Viemos disso tudo – parte de nós ainda se sente mais confortável com a mão natureza. Nossa civilização é algo que criamos, mas também nos é estranha de uma certa forma.

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