Archive | August, 2012

Intermezzo

“Adiós Nonino” do maestro Astor Piazzolla. Nada como ver e ouvir o próprio autor ao  bandoneón.

Delicada tristeza

Noh é uma forma de teatro tradicional japonês no qual o protagonista usa uma máscara. Esse adereço tem um papel fundamental: é através dele que o ator expressa as emoções do personagem. As máscaras são habilmente feitas de modo a mostrar expressões faciais ambíguas. Dependendo da inclinação da face e dos gestos e postura do ator, a máscara pode representar emoções distintas.

Abaixo três fotos de uma mesma máscara feitas mudando a posição da câmera:

Alguns estudos recentes têm tentado compreender as funções cognitivas e seus correlatos anatômicos no cérebro responsáveis pela apreciação estética. O novo campo tem até nome: neuroestética.

Veja esse  estudo que avalia a ativação da amígdala diante das máscaras do Noh: Neural correlates of delicate sadness: an fMRI study based on the neuroaesthetics of Noh masks.

O ótimo blog The Neurocritic (onde encontrei essas referências) pondera que as percepções mais sutis de expressões humanas – inclusive aquelas ambíguas – não podem ser localizadas em áreas específicas ou únicas do cérebro, como demonstra uma recente meta-análise sobre o assunto: The brain basis of emotion: a meta-analytic review

Em linhas gerais, a meta-análise confronta duas propostas antagônicas que tentam explicar as emoções humanas à luz da neurociência. A corrente “localizacionista” busca evidências de áreas específicas responsáveis pelo processamento das emoções – como no estudo das máscaras do Noh. Do outro lado, os “construcionistas” sugerem que as discrete emotions (algo como “emoções sutis”) são resultado de interações em rede de múltiplas áreas/funções cerebrais.

Leia mais aqui: The Art of Delicate Sadness

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Mal de lua

Madness and the moon: the lunar cycle and psychopathology é um curioso artigo alemão publicado no German Journal of Psychiatry que analisa seriamente as possíveis evidências de efeitos da lua sobre o psiquismo. A conclusão é que os estudos que sugerem o chamado “Transilvanian effect” têm falhas metodológicas graves. Os céticos vão gostar.

A high proportion of health professionals continue to hold  the belief that the moon can in some way influence human behaviour. In an unpublished MSc dissertation Angus (1995) reports that 43% of healthcare respondents believed lunar phenomena altered human behaviour.

(Sim, já postei isso aqui antes, quando o blog quase não recebia visitas. Estou tentando preparar material novo e original, aguardem)

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A vida, fora da rede

Você já pensou em ficar offline por tempo indeterminado? Você já parou para pensar seriamente em quanto a sua vida depende da internet? Já avaliou quanto tempo desperdiça na rede? E se deu conta de quanto suas relações pessoais dependem dela?

Eu já.

O jornalista Paul Miller está vivendo offline – e escrevendo a respeito. Você pode ler sobre a experiência aqui, e se inspirar (ou não). Há três meses ele não utiliza a internet, e está sendo pago pela revista The Verge para mandar seus arquivos escritos para que sejam publicados online.

Paul diz que está lendo mais e passando mais tempo real com os amigos. Seu sono está, inclusive, melhor.

Coloquei a idéia para alguns amigos. Alguns deles pensaram em me internar. Decidi que vou fazer a experiência e tentar usar a internet só para as coisas realmente necessárias. A quem interessar possa, vou continuar escrevendo – offline a maior parte do tempo – para o blog e programando posts com a mesma regularidade. Vou tentar responder emails apenas em dias específicos da semana.

Se tudo isso fizer algum sentido e valer a pena, quem sabe eu escreva a respeito.

Ps.1: Para acompanhar o post e a idéia recomendo o ótimo livro “Como ficar sozinho” de Jonathan Franzen, uma compilação de textos sobre uma vida mais rica e verdadeira.

Ps.2: Este post foi escrito há alguns dias e está sendo postado automaticamente. No momento de sua publicação estou numa bela praia do litoral cearense, provavelmente lendo um livro.

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Sob efeito da arte

 

O artista Bryan Lewis Saunders conduziu uma experiência artística curiosa: durante agumas semanas usou diariamente uma droga ou medicação diferente e, sob o efeito da substância, desenhou um auto-retrato.

O resultado pode ser visto aqui. Os desenho são muito interessantes, mas é importante ter em mente que em alguns dos ‘experimentos’, o resultado é mais influenciado pela licença artística do que pela substância em si. Fármacos como sertralina (um antidepressivo), cefalexina (um antibiótico) e ziprasidona (um antipsicótico) nas doses tomadas pelo artista não têm nenhum efeito significativo sobre a sensopercepção.

Mesmo assim, vale a pena ver a galeria (clique na imagem)

Quem acompanha o blog deve lembrar que escrevi sobre uma experiência semelhante aqui.

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Um transtorno moderno

Quem ensina psiquiatria normalmente gosta de ilustrar suas aulas com dados históricos sobre o assunto em questão. É assim quando vamos falar, por exemplo, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e citamos a síndrome de Da Costa ou o Shell Shock. O problema é que essas entidades não são equivalentes ao TEPT.

(Do mesmo jeito que  a melancolia do século XVIII não é o atual transtorno depressivo, mas sobre isso eu escrevo em outro post).

Dois estudos recentes apontam para o TEPT como uma doença de nossa era. O primeiro, publicado no Journal of Anxiety Disorders, avalia uma extensa lista de dados médicos de combatentes na guerra civil americana e demonstra que não há relatos de flashbacks ou pensamentos intrusivos – que constituem o que chamamos de ‘revivescências traumáticas’, um ponto-chave no diagnóstico de TEPT – em soldados do período.

Outro estudo, publicado na Stress and Health avalia relatos de experiências traumáticas desde o período do Renascimento. Não há dados históricos que levem a crer que existiu no passado uma entidade com características clínicas semelhantes ao transtorno de estresse pós-traumático.

O blog Mind Hacks traz um ótimo texto sobre o assunto: A very modern trauma

Various symptoms would be mentioned at various times, some now associated with the modern diagnosis, some not, but it was simply not possible to find ‘historical accounts of PTSD’.

O assunto deve interessar a quem gosta de história da psiquiatria.

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007 e a paranóia de cada época

Saiu o trailer do novo filme de James Bond. Skyfall (EUA, GRB 2012) traz Javier Barden (no papel de “Silva” – seria brasileño?) contra o agente 007 da última década, intepretado por Daniel Craig. Quem viu os filmes do agente britânico com permissão para matar desde a década de 60 sempre espera um vilão que incorpore os temores da época de lançamento do filme.

É assim desde O Satânico dr. No de 1967, o primeiro da franquia milionária. O doutor que dá nome ao título tinha planos de sabotar o lançamento de mísseis nucleares dos EUA. A temática da era atômica seguiu adiante até a década de 70, tomando ares desbragadamente anticomunistas durante o auge da Guerra Fria (vide O Espião que Me Amava, de 1977). O trailer do filme atual, se não estou muito enganado, dá a entender que a ameaça ao equilíbrio global está nas mãos de uma espécie de Julien Assange que sabe atirar.

O Guardian traz uma boa coluna sobre como o vilão dos filme de James Bond incorpora e traduz os medos de cada período da história recente: How James Bond villains reflect the fears and paranoia of their era.

O medo dos americanos e britânicos, bem entendido.

Penso que um bom bandido para nossa época poderia ser o dono de uma megacorporação da indústria farmacêutica disposto a administrar psicotópicos a toda a população do planeta, com o objetivo de dominar o mundo por meio da perversa psicofarmacologia. Entre outras coisas, o super-vilão estaria envolvido na criação de critérios que enquadrariam todo ser humano em um transtorno mental; um tipo de Simão Bacamarte do mundo globalizado. Que tal?

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As faces da dependência

O fotógrafo Chris Arnade diz que seu assunto fotográfico favorito é aquele que merece atenção mas que não está procurando por ela. Com isso em mente, fotografou e colheu informações de pessoas com dependência química nas ruas de Hunts Point em Nova Iorque. O resultado é o comovente ensaio Faces of Addiction.

Muitas vezes é difícil definir a linha entre o fotojornalismo austero  e a estetização da miséria. Na minha opinião, Arnade conseguiu caminhar no lado honesto da linha com sutileza, evitando cair na armadilha do sensacionalismo.

Clique na imagem para ver a galeria.

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Cartum #42

EMPREGO DE VERÃO DO TERAPEUTA

- Eu posso ajudar, mas primeiro admita o problema!

 

(Via The New Yorker)

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