Archive | September, 2012

Adelaide

 

Adelaide” (EUA, 2011 – em inglês, sem legendas ) é um curta-metragem que conta a história de uma garota com transtorno factício. A personagem principal, que dá nome ao filme, cria sintomas e doenças na tentativa de se aproximar das pessoas e receber cuidados.

O transtorno factício recebe também o nome de síndrome de Münchausen. O epônimo deriva do Barão de Münchhausen, um nobre alemão que viveu no século XVIII, famoso por contar histórias mirabolantes e improváveis nas quais figurava como personagem. Em 1951, o médico britânico Richard Asher batizou a síndrome com o nome do barão teutônico em um artigo publicado no The Lancet.

Reserve 12 minutos para assistir ao curta, vale a pena.

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Intermezzo

 

“Mélancolique” é uma bonita música do compositor/arranjador/cantor francês Benjamin Biolay.

Transatlantique est mon coeur 
Plein de bateaux à vapeur 
J’ai des vues sur le bonheur 
Mais de vous à moi 
Vous n’le verrez plus 
Vous n’le verrez pas 

Níobe e a distimia

Fui convidado na semana passada a fazer uma apresentação sobre distimia na jornada estadual de psiquiatria. Os transtornos do humor me interessam muito e considero que a distimia, em especial, tem recebido pouca atenção dos modernos – e pretensamente hegemônicos – manuais de psiquiatria.

Enquanto preparava a conferência, lembrei a história da personagem mitológica Níobe, que pode ser usada como uma bela alegoria para a melancolia incessante da distimia.

Níobe era então rainha de Tebas e considerada um exemplo de fertilidade. Tinha 14 filhos, sete homens e sete mulheres. Por conta de uma atitude demasiadamente orgulhosa diante de sua capacidade de gerar filhos, provoca a ira da deusa Leto, que possuía apenas dois descendentes. A deusa enfurecida ordena que seus dois filhos arqueiros, Artêmis e Apolo, matem a prole de Níobe. O trecho a seguir, extraído do Livro de Ouro da Mitologia de Thomas Bulfinch, conta o que acontece à rainha de Tebas após o assassinato dos filhos: Zeus, compadecido do seu choro, transforma-a em pedra:

Desolada, ela sentou-se entre os filhos, filhas e marido, todos mortos, apática com o sofrimento. A brisa não lhe agitava os cabelos, suas faces estavam inteiramente descoloridas, o olhar fixo e imóvel (…) O pescoço não se curvou, os braços não fizeram gesto algum, os pés não deram um só passo. Ela se transformara em pedra, por fora e por dentro.

A lenda conta que, mesmo depois de virar uma estátua (ou formação rochosa, dependendo da versão), Níobe não cessa de prantear os filhos. O pesar contínuo e a imobilidade eterna dão uma boa dimensão simbólica ao sofrimento na distimia.

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Valium vintage

Encontrei essa propaganda americana da medicação Valium (diazepam) da década de 70. Involuntariamente engraçada.

The patient finds it easier to feel hopeful about the future. Valium: for the response you know, want and trust.

Parecida com essa dos nossos dias.

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Cartum #44

(Via The New Yorker)

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Cada cabeça, uma sentença

Gostei dessa coleção de modelos frenológicos de 1831. As cabeças em miniatura foram esculpidas por William Bally, que foi aluno de Spurzheim, o mais distinto discípulo de Franz Gall.

Os frenologistas acreditavam que o formato e tamanho do cérebro – e, por extensão, suas projeções no crânio – determinavam a personalidade.  Essas cabecinhas devem ter sido usadas para ensinar frenologia ou talvez para servir como referência no estudo.

Leia o que já postei sobre frenologia e correlatos aqui, aqui e aqui.

Clique na imagem para ver mais da coleção, no Science Museum.

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Neurociência da estética

Qualquer usuário da internet diante de um :-) enxerga um pequeno rosto sorrindo, apesar de estar vendo apenas três sinais de pontuação. Nosso cébrebro é construído para funcionar assim, reconhecendo imagens familiares – como rostos – em linhas ou desenhos não pictóricos. Já falei um pouco sobre isso, aqui.

O que torna o cérebro apto a apreciar esteticamente uma pintura ou uma foto está diretamente conectado a esse tipo de funcionamento inato. Os grandes artistas intuíram, concluíram de maneira empírica ou apenderam com seus mestres as bases do funcionamento perceptivo.

Há razões evolutivas para nossa cabeça funcionar assim: era muito importante para os nossos ancestrais, por exemplo, perceber potenciais predadores no seu meio. Os mais capazes de avaliar visualmente e interpretar o ambiente, tinham mais chance de sobrevivência.

What the brain draws from: Art and neuroscience é uma ótima matéria da CNN Health que analisa essas e outras questões a propósito de como o cérebro opera diante das artes visuais.

And while individual tastes are varied and have cultural influences, the brain also seems to respond especially strongly to certain artistic conventions that mimic what we see in nature.

Para os interessados no assunto, há uma outra matéria bem interessante sobre como o cérebro reconhece o belo, aqui.

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Cartas de Van Gogh

Já fiz alguns posts sobre o pintor Van Gogh (aqui e aqui). Sempre dou o exemplo do artista quando quero falar sobre a relação entre transtorno mental e criatividade. Estudos patográficos apontam para a possibilidade de o pintor ter sofrido da doença que hoje chamamos de transtorno bipolar.

Estudos dessa natureza geralmente se baseiam em escritos e relatos de contemporâneos. Encontrei um belo arquivo de cartas de Van Gogh ao colega artista Émile Bernard (1868 – 1941). A correspondência se dava em missivas ricamente ilustradas e escritas em francês.

Clique na imagem para ver o arquivo de cartas. (No menu à esquerda de cada imagem há a opção de traduzir o texto para o inglês)

:: Posts relacionados: Girassóis e orelhas cortadas“O gênio é mais carne do que fábula”. Mais um sobre criatividade

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Do trauma à luz

 

O documentário Let there be light (USA, 1946) demorou trinta e cinco anos para sair das gavetas da censura americana. Sua primeira exibição, no Festival de Cannes em 1981, trouxe à luz o filme esquecido do grande cineasta americano John Huston, feito sob encomenda pelo deparatmento de propaganda do exército dos EUA.

O filme mostra o tratamento dado a ex-combatentes da Segunda Guerra incapacitados pelos traumas psíquicos do combate. O motivo da censura foi meramente político: no período, o trauma de guerra – principalmente no âmbito militar – era visto como algo que acometia somente pessoas “fracas”. Como o filme mostra soldados humanizados, bem diferentes dos heróis de guerra imbatíveis imaginados pela população americana, as forças armadas consideraram o documentário um potencial material de anti-propaganda.

Assista acima ao documentário completo (sem legendas) disponível no YouTube.

Clique aqui para ver mais material sobre transtorno de estresse pós-traumático e neuroses de guerra.

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O enigma de Kafka

No ano passado a psiquiatria cearense perdeu um dos seus principais nomes, o professor Gerardo da Frota Pinto.

O dr. Frota Pinto, versado que era em muitos assuntos, escreveu sobre psiquiatria clínica, psicopatologia e psicologia, sem esquecer das outras ciências humanas e da arte.

Há pouco na internet sobre sua obra e sua vida. Um amigo encontrou um  texto publicado em 2003 sobre o imaginário do escritor Franz Kafka. O ensaio, intitulado O enigma de Kafka (uma abordagem psicopatológica), pode ser lido na íntegra aqui.

Kafka, que viveu mais ou menos na mesma época e no mesmo país que Freud, mas que não se conheciam, emprega em suas produções literárias, técnicas de psicodinâmica como a fusão onírica, com o real e de catarse, ou seja, a ab-reação ou descarga de idéias ou emoções em sua forma original que se libertam do inconsciente para o consciente, técnicas essas que Freud havia desenvolvido na terapia psicanalítica.

Há alguns erros sintáticos e na ortografia de nomes e termos médicos que acredito serem resultado da transcrição de material oral, sem revisão posterior. O leitor mais atento deve escusar essas falhas em nome do valor didático do texto.

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Cartum #43

O blog recebe muitas visitas por causa das tirinhas dos Peanuts que já postei aqui no passado.

Charlie Brown (‘Minduim’, aqui no Brasil), seu fiel cão Snoopy e sua turma foram criados pelo americano Charles Schultz em 1950 e publicados em vários países do mundo até 2000. Apesar do fim, as tirinha seguem ganhando fãs globo afora por causa delicadeza do conteúdo e do carisma dos personagens.

Gosto especialmente das tirinhas que mostram a fragilidade e melancolia de Charlie Brown, um menino que está sempre preocupado com o lado mais complicado da vida. Como nem sempre é compreendido, ele costuma procurar auxílio na banquinha de “ajuda psiquiátrica” de Lucy. Por cinco centavos de dólar, é possível ouvir conselhos cínicos e excessivamente pragmáticos (como nesta tira).

Se você caiu aqui no blog procurando tirinhas ou cartuns sobre terapia, psicanálise e psiquiatria, veja a coleção de cartuns já publicados clicando aqui.

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Salada de palavras

“É longo o caso de amor entre a literatura e o mercado. A economia de consumo adora um produto que vende com boa margem de lucro, fica logo obsoleto ou é suscetível de melhoras constantes, e oferece a cada melhora um ganho marginal em utilidade. Para uma economia assim, a novidade que permanece não é apenas um produto inferior; é um produto antitético. Uma obra clássica de literatura é barata, infinitamente reutilizável e, o pior de tudo, não pode ser melhorada”

Jonathan Franzen em Como ficar sozinho

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