Archive | October, 2012

Álcool, o inimigo

 

Encontrei no interessante Virtual Absynthe Museum um pôster do final do século XIX que alerta sobre o perigo mortal do álcool. Interessante é notar que, por trás das campanhas anti-absinto e contra outros tipos de bebidas alcoólicas destilada, havia na época o poderoso lobby da indústria de vinho francesa. Apesar de condenado pelo movimento da temperança, o uso do álcool contido no vinho, sobretudo na França, não era visto como algo nocivo.

No pôster, essa idéia aparece como um experimento: à esquerda, a cobaia faz uso de álcool derivado de uva e sofre apenas um leve estado de embriaguez e sonolência. A pobre cobaia da direita, porém, tem uma sorte pior. Após ser inoculada com o tipo de álcool “ruim” (chamado de “álcool industrial”), agoniza com convulsões e eventualmente morre.

Veja detalhes do pôster em tamanho maior, clicando na imagem.

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Cartum #46

– Se sua vida fosse um reality show, você assistiria?

 

(via Desde el Manicómio)

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Intermezzo

Six o’clock – TV hour. Don’t get caught in foreign towers.
Slash and burn, return, listen to yourself churn.
Locking in, uniforming, book burning, blood letting.
Every motive escalate. Automotive incinerate

Atacando a psicose

A imagem acima não é o pôster de um filme de terror antigo. É o anúncio – um tanto bizarro – da medicação Thorazine (clorpromazina). Provavelmente da década de 1960, a propaganda indica o momento de se usar o remédio: “Quando o paciente parte para o ataque contra ‘eles’ – Thorazine rapidamente põe fim ao seu rompante violento.”  Clique aqui, para ler o texto do anúncio ampliado.

A clorpromazina foi o primeiro antipsicótico a ser sintetizado, no começo da década de 50 na França. O advento da substância marcou o início de uma era na psiquiatria. A partir dela e de drogas semelhantes, a psicofarmacologia passou a ganhar um espaço cada vez maior na prática médica.

(via Critical Psychiatry)

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Estranhos à razão

Em 1938 a revista LIFE publicou o ensaio do fotógrafo Alfred Eisenstaedt sobre o serviço psiquiátrico Pilgrim State Hospital. As imagens documentam o estado em que se encontrava as instituições manicomiais norte-americanas no final da década de 30.  Clique na imagem acima para ver as fotos.

Mentally balanced people shun and fear the insane. The general public refuses to face the terrific problem of what should be done for them. Today, though their condition has been much improved, they are still the most neglected, unfortunate group in the world. 

As fotos nos lançam a um período da história da psiquiatria em que a assistência se confundia com demandas econômicas de um país em crescimento, notadamente aquela de manter à margem da sociedade sadia o indivíduo incapaz de produzir.

(via Desde el manicómio)

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A loucura e seus nomes (II)

Bethlem Royal Hospital, o manicômio mais antigo da Europa. William Hogarth, 1763.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

Dando continuidade à pesquisa iniciada aqui, mais algumas palavras relacionadas ao adoecimento mental:

  • Alienado: literalmente, aquele que se mantém distanciado da realidade, alheado. Do latim alienatus, derivado de alienus, que pode significar muitas coisas: estranho, alheio, isento, livre, impróprio, contrário e inimigo [1]. Alienista é aquele que cuida dos alienados, antigo nome dado aos médicos que tratavam das doenças mentais; talvez o uso mais conhecido na língua portuguesa seja o do título de um conto de Machado de Assis, “O alienista“.
  • Orate: indivíduo sem juízo, tresloucado, louco. Deriva do catalão orat [2] que, por sua vez deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Não é possível determinar se a relação com a loucura se dá pelo significado “alma” (como phrén)  ou por “vento”. Acreditava-se no período medieval que ‘maus ventos’ ou miasmas, podiam afetar a mente. A palavra “orate” também foi tornada célebre em “O alienista“. No conto, o doutor Simão Bacamarte cria uma “casa de orates”, isto é, um asilo para doentes mentais.
  • Mania: no português coloquial significa excentricidade, esquisitice. Na psiquiatria o termo é utilizado para designar o estado de agitação psicomotora ou euforia característicos da fase não-melancólica do transtorno afetivo bipolar (antiga “psicose maníaco-depressiva”). A palavra manie – em francês - foi introduzida na psiquiatria do século XIX por E. Esquirol, e agregava característica a tipos de folie (loucura), como a lypémanie e a monomanie [3]. Deriva do grego manía: ‘loucura, demência’. Maníaco é o louco, geralmente agitado ou “furioso”. No Brasil, comumente a palavra é usada para designar criminosos cruéis e/ou com transtorno mental.
  • Manicômio: estabelecimento para internação e tratamento de loucos. Do italiano manicòmio, de manì(aco) +  -comio, do grego kómeo, ‘eu curo’ [4]. Atualmente as palavras “manicômio” e “manicomial” têm caráter derrogatório, sendo utilizadas quando se quer ressaltar os aspectos negativos associados a instituições de internação de doentes mentais.
  • Frenesi: antigamente utilizado para designar o delírio violento provocado por afecção cerebral aguda, hoje significa agitação, exaltação, atividade intensa. Vem do latim phrenesis ‘delírio frenético’ e provavelmente nos chegou pelo francês phrenesie, no século XIII [5]. A raiz comum é o grego phrén ‘razão, juízo, bom senso’. No Ceará e em outros estados do Nordeste, utiliza-se a corrutela farnesim para desingar uma sensação psíquica de inquietação, impaciência. [6]

 

REFERÊNCIAS

1. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.
2. Alcover, A.M. e Moll, F. de B. (2006) Diccionari català-valencià-balear. 10ª ed. Consultado em http:http://dcvb.iecat.net/
3. Esquirol, E. (1838) Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. 1ª ed. Paris: J.B. Baillière.
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon
5. Houaiss A., Villar M. de S., Franco FM de (2009) Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva.
6. Cabral, T. (1982) Dicionário de termos e expressões populares. Fortaleza: Edições UFC.

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Cartum #45

– Você tem que chegar mais perto da casca de banana pra eu acreditar que é sério.

 

(Via The New Yorker)

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A Loucura e seus nomes

O pássaro Dodô, extinto no século XVII.

 

As palavras têm poder, ninguém duvida. Ao longo do tempo, as palavras usadas para descrever o que hoje chamamos leiga ou tecnicamente de loucura, psicose, insanidade, maluquice, desrazão e mil outros nomes, entraram na moda ou desapareceram ao sabor do zeitgeist e dos costumes.

Vou tentar, ao longo de alguns posts, explorar as origens etimológicas de algumas palavras usadas correntemente para designar a Loucura. Segundo Berrios [1], o esforço de reconstruir a história da psiquiatria deve partir do resgate da história dos seus conceitos. E, na intenção de desvendar esses conceitos, devemos buscar a origem mesma das palavras utilizadas para expressá-los.

Então vamos a elas:

  • Louco: a palavra em portugês muito provavelmente deriva do espanhol loco. Os primeiros registros em português são do século XIX. No castelhano, significando “demente”, aparecia já no século XII [2]. Como o próprio mistério inerente ao estado da perda da razão, a origem da palavra é controversa. Locus em latim é “lugar” e, apesar de haver quem defenda a ligação desse  étimo com a palavra “louco”, é pouco provável a associação. Ver também louco de pedra.
  • Demência: do latim, dementia (derivada de demens). Demens é o demente, aquele que não está em seu juízo, insensato.  Se mens é intelecto, alma, espírito, antiteticamente, a-mens ou de-mens é aquele sem o atributo da razão [3]. Existe um verbo em português cada vez menos utilizado: “dementar”, que significa “enlouquecer”. Hoje o termo “demência” é utilizada no campo técnico para descrever o processo de deterioração cognitiva adquirida característica de algumas patologias cerebrais.
  • Mentecapto: do latim mente captus, literalmente, “privado da mente”. O primeiro uso parece ter sido feito por Cícero [4] como “Captus mente“. Na nossa literatura, o maior e mais famoso mentecapto é Geraldo Viramundo, o personagem principal do romance picaresco de Fernando Sabino.
  • Doido: como “louco”, seu sinônimo, de origem etimológica incerta. Aparece a primeira vez na língua portuguesa no século XVI, então como doudo. A palavra em sua forma original lusitana serviu no século XVII para dar nome ao pássaro Dodô (ou Dodo), um dos animais-símbolo da extinção provocadas pelo ser humano. Hoje a palavra também corre risco de extinção pelo caráter pejorativo e politicamente incorreto do seu uso.
E é só por esse post. Planejo ir escrevendo e lançando aqui aos poucos a origem e uso de outras palavras relacionadas aos transtornos psiquiátricos.

 

REFERÊNCIAS
1. Berrios, G.E. (2008) Historia de los síntomas de los transtornos mentales, La psicopatologia descritiva desde el siglo XIX. México: Fondo de Cultura Econômica. p. 37
2. Real Academia Española. (2001). Diccionario de la lengua española (22.aed.). Consultado em http://www.rae.es/rae.html

3. Saraiva, F.R. (2006) Novíssimo dicionário latino-português (edição fac-simile). 12ª ed. Belo Horizonte: Garnier
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.

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Pensamento divergente e criatividade

Gostei dessa matéria: Creativity and IQ, Part I: What Is Divergent Thinking? How Is It Helped by Sleep, Humor and Alcohol?

O autor analisa a função ‘criatividade’ sob a ótica de dois processos de pensamento: convergente e divergente. Segundo o texto, soluções criativas de problemas derivam da diversidade e profundidade da redes semânticas (semantic networks) na mente.

Divergent thinking tasks have been widely used because traditionally creativity has been understood in terms of the accessibility of concepts in in our long term memory systems. Concepts are connected in our brains in ‘semantic networks’.

O texto cita também alguns achados recentes interessantes. Uma boa quantidade de sono e bom-humor parecem influenciar positivamente nas funções ligadas à criatividade.

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Dia Mundial da Saúde Mental

Você sabia que era hoje?

Se fosse  o dia mundial do tratamento do câncer ou das doenças cardíacas, certamente estaria estampado na capa dos grandes jornais do Brasil. Os transtornos psiquiátricos estão entre as mais frequentes e incapacitantes doenças em todos os países. Geram sofrimento, separação, abandono, estigma, problemas econômicos e morte, mas o preconceito ainda impede que esse problema seja encarado como deve ser.

Só por hoje, ignore as notícias de capa dos jornais como a Folha, que teimam em nos bombardear com factoides sobre novelas, futebol, fofoca, política rasa, faits divers, moda e consumo, e reflita sobre um problema que atinge 30% da população mundial.

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A familia e o álcool

Quem acompanha este blog deve lembrar da ilustração “A evolução do bebarrão – do primeiro copo ao cemitério”, feita para reforçar a idéia de abstinência do “movimento da temperança” (teetotalism).

Na mesma linha, encontrei um libreto francês feito por volta de 1900 que sublinha os problemas relacionados ao uso de álcool. Clique na imagem acima para ver a sequência.

Gosto particularmente da imagem que ilustra “A loucura“(La folie).

(via The Retronaut)

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O útero errante

"Ducha pélvica" para o tratamento da histeria (c. 1860)

 

Para lembrar sempre que a palavra “histeria” deriva de útero (hystera em grego), recomendo um bom artigo no Chirurgeon’s Apprentice, sobre as ligações históricas entre a síndrome consagrada por Freud e o órgão feminino.

O conceito da histeria nasceu na Grécia Antiga e sugeria que as doenças emocionais que normalmente acometiam as mulheres se deviam a um “útero errante” que vagueva pelo corpo em busca do seu lugar anatômico. Os sintomas incluíam insônia, retenção de líquidos, desmaios, nervosismo, falta de ar e espasmos musculares.

Today, hysteria is regarded as a ‘physical expression of a mental conflict’ and can happen to anyone regardless of age or gender. In ancient times, however, it was attributed only to women, and believed to be physiological (not psychological) in nature.

No século XVII William Harvey, conhecido por todo estudante de medicina como o primeiro a descrever o sistema circulatório, acreditava que as mulheres eram “escravas de sua própria biologia”, e atribuía ao útero características de um ser independente: “insaciável, feroz, animalesco”.

O artigo e o blog devem interessar a quem gosta de história da medicina: O, Wandering Womb! Where Art Thou?

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Intermezzo

As I burned all the books I read
I recalled somethin’ someone somewhere said;
“There’s so much in us you don’t see.”
Don’t judge anyone because

everybody comes full circle. I’ve come full circle.

Triste nota azul

“Blue” em inglês não significa somente a cor azul. Principalmente nos Estados Unidos, blues quer dizer um tipo de sentimento melancólico semelhante à nossa saudade. A música de origem negra que leva o nome da cor não foi batizada em vão; ela foi forjada pela melancolia do povo africano transformado escravo na América do Norte. Algo como o banzo dos nossos escravos.

Do ponto de vista musical, há uma intrigante característica no lamento cantado do blues. A chamada “blue note” é uma nota musical que não se encontra na escala de tons e semi-tons do modelo ocidental. Ela é obtida na guitarra, por exemplo, através de uma técnica chamada bend, que consiste em esticar a corda tocada pela palheta com o dedo que a pressiona, para baixo ou para cima. Isso produz uma nota fora do intervalo tradicional que, usada em determinados pontos da construção melódica, dá a sensação de um choro ou lamento. O mesmo efeito pode ser conseguido com a voz.

Não entendeu? Ouça aqui uma das primeiras gravações do blues, do pioneiro Blind Lemon Jefferson. Escute como ele canta a canção “Long Lonesome Blues”.

I walked from Dallas, I walked to Wichita Falls
I say I walked from Dallas, I walked to Wichita Falls
Hadn’t a’ lost my sugar,  I wasn’t gonna walk at all.

Repare em como as notas das sílabas walked e Wichita são pronunciadas. Elas são blue notes na melodia. A música do vídeo que ilustra este post também  traz várias inflexões desse tipo na voz de Billie Holiday em “Gee baby, ain’t I good to you?”. Na mesma canção, perceba como a guitarra abusa da técnica.

Interessante notar como a música é capaz de sintonizar de maneira sutil em nós sentimentos e emoções. Já tinha se dado conta disso?

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