Archive | November, 2012

Cartum #47

– Você tem uma série de problemas de saúde maçantes, então vou prescrever maconha terapêutica pra mim mesmo.

 

(via The New Yorker)

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Beatles e a neurociência

Você já escutou tanto um disco a ponto de ter a sequência de músicas incrustada na memória? Você sabe que isso aconteceu quando, mesmo muitos anos depois, ao por o disco pra tocar, no final de uma música você sabe exatamente qual é a próxima, ou chega a ouvir dentro da cabeça os acordes iniciais da seguinte.

O pesquisador Josef Rauschecker da Universidade de  Georgetown estuda o papel do sistema motor do cérebro relacionado à memória. Aparentemente, o sistema motor é capaz de gravar sequências de notas musicais, palavras e eventos.  Estudos de neuroimagem funcional conduzidos por Rauschecker mostram que, ao contrário do que se pode imaginar, quando voluntários são solicitados a memorizar sequências musicais, as principais áreas cerebrais envolvidas não são aquelas relacionadas à audição, mas certas áreas motoras.

Segundo o pesquisador, o que o motivou a investigar o assunto foi a curiosidade com a fixação das suas próprias memórias relacionadas a músicas dos Beatles. Talvez, se não fosse pelo Rubber Soul, o Revolver e o White Album, esses estudos sobre o funcionamento da memória não estivessem sendo conduzidos.

Leia mais na matéria: The Beatles’ Surprising Contribution To Brain Science

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Eu e a burocracia

No filme O palhaço, de Selton Mello, o personagem principal se vê às voltas com as dificuldades de não ter uma identidade. Na história, a ‘identidade’ adquire os dois sentidos: o de documento de papel que serve como identificação oficial, e o da certeza oficiosa de quem se é, da sua íntima natureza.

Experimente, caro leito, perder a identidade. Falo do documento de papel plastificado. Para tê-la de volta você se meterá numa aventura maior do que a de Ulisses na Odisséia. Terá de enfrentar, pra começar, uma homérica fila numa fria madrugada na frente de um órgão público. A seguir, prepare-se para encarar as terríveis górgonas por trás do balcão do guichê, onde provavelmente tombará petrificado pelo olhares gélidos de indiferença frente à sua pressa. E não adianta virar as costas para o problema: sem a identidade, você não é ninguém. Cruel destino!

(Mas no quesito crueldade, nada bate a ardilosa Certidão Negativa. Esse trâmite diabólico, que seria capaz de fazer Kafka estremecer, consiste em mandar a vítima buscar em uma repartição onde nunca trabalhou ou sequer conhece, uma comprovação oficial de que ninguém lá tem a menor idéia de quem ela é.  Em suma, a certidão deve provar, para todos os efeitos e em duas vias, quem você não é.)

A identidade para a burocracia é algo difuso, espalhado. Esquizofrênico, diria Bleuler. É uma coisa que se encontra repartida entre cédulas, documentos, declarações, carteiras, fichas e cadastros. E o que é pior, nenhuma dessas facetas, para a burocracia, se equivalem. Eu, no meu primeiro RG de 1992, sou um. Aquele garoto cabeludo de catorze anos não é o mesmo jovem universitário, feliz da vida por ser apto a guiar – mal – um carro, da carteira de habilitação. E, no entanto, lá estão o mesmo sujeito, sob os mesmos número de registro geral, filiação, naturalidade e data de nascimento.

Outro dia fui tentar renovar minha carteira de motorista. Como estivesse vencida (e como eu a iria renovar se não estivesse?), não tinha para o DETRAN valor de identidade. Descobri surpreso que, oficialmente, desde junho deste ano, data do vencimento da habilitação, eu não era mais eu. Era preciso buscar em alguma gaveta esquecida o jovem cabeludo de catorze anos do RG para que ele viesse em meu socorro; para o DETRAN, ele é mais eu do que o outro eu, o que guia – mal – automóveis.

E assim vai. Para o conselho de medicina é preciso pagar todo ano uma taxa para que considerem o eu médico apto a praticar os ensinamentos de Hipócrates (que  na época não devia precisar nem da carteira de identidade  para exercer a profissão). Felizmente, há um de mim que viaja. Esse, mais maduro, não se preocupou com a foto do passaporte e leva um tempo na fila de imigração até ser identificado com o outro, que usa óculos e tem a barba por fazer.

Acredito que para burocracia, no fundo, somos todos um só: o palhaço que fazem andar de um lado pro outro, esbaforido e atabalhoado a se perder pelos corredores e dar mancadas, com as mãos cheias de cédulas, documentos, declarações, carteiras, fichas e cadastros. E as cópias carimbadas, assinadas e autenticadas. Em duas vias.

***

Caros leitores, inicio aqui a tentativa de publicação eventual de texto mais opinativos e crônicas. Vamos ver no que dá.

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Emaranhado de memórias

 

O belo curta animado em stop-motion Undone captura de maneira abstrata a progressão da doença de Alzheimer.

Hayley Morris, realizadora do filme, diz que se inspirou no seu avô para fazê-lo.

Bonito.

(via Brain Pickings)

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Aura santa

O quadro “Vision” do pintor francês Alphonse Osbert (1857-1939) ocupa hoje, com seus 2,35m de altura, uma das paredes do Museu de Orsay em Paris. A obra não está exposta nas salas mais frequentadas – a dos impressionistas, por exemplo -, mas certamente não passa despercebida do visitante mais sensível.

A tela ilustra o êxtase religioso de Santa Genoveva (Sainte Geneviève), padroeira de Paris. Segundo os relatos históricos, a jovem santa impediu o ataque dos hunos à cidade no ano de 512, convocando os cidadãos da capital francesa a rezar e a jejuar.

No quadro de Osbert, vemos uma jovem de pé, em rígida posição, braços extendidos para baixo e mãos entrelaçadas, num gesto de prece. A expressão do olhar é difícil de determinar: há algo entre a angústia e a perplexidade. A dúvida é acentuada pela sombra que preenche as órbitas e pela mímica estatuesca do resto da face. Ao redor da cabeça há uma auréola brilhante (também chamada classicamente de aurahalo ou  nimbo).

Aparentemente, a obra despetou interesse nos primeiros estudiosos da histeria na França. Visto à luz dos estudos de Charcot em Salpetrière, a personagem da cena podia muito bem representar um estado de estupor dissociativo. A impressão que o quadro me causou, contudo, é mais neurológica do que psiquiátrica.

A pintura me remete imediatamente aos estados pré-ictais da epilepsia, isto é, as crises parciais que podem preceder comumente as crises tônico-clônicas generalizadas. Em português, chamamos isso de aura. Há quem defenda que muitas e importantes visões religiosas, de Maomé no islamismo a Paulo de Tarso no catolicismo, pasando por Joseph Smith na religião Mórmon, podem ser explicadas por esse fenômeno [1], que é frequentemente associado a alucinações visuais, desrealização, despersonalização ou sentimentos oceânicos de êxtase [2].

(Crises assim eram experimentadas pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski tanto que, as auras desse tipo foram apelidadas de Epilepsia de Dostoiévski. [3])

Etimologicamente, há uma interessante coincidência entre as palavras aura e auréola. Já expliquei aqui que orat – derivada de aura/auratus, no latim  ’vento, sopro’ - provém do catalão e associa-se no espanhol e no português a “orate”, isto é, louco. No caso das palavras auréola ou aura, significando o contorno luminoso que simboliza santidade em pinturas sacras, a origem remonta a “ouro” (o dourado é cor convencional do símbolo) em grego e latim. Não é impossível que a palavra aura utilizada para o fenómeno epiléptico possua, a um só tempo, os dois sentidos: o que se refere à santidade e o que se refere à loucura.

Aí voltamos ao quadro de Alphonse Osbert. A representação da Santa Genoveva intriga e atrai pelo mistério oculto da santidade vivida intimamente. A arte tem dessas coisas. Intuitivamente, através dos seus ramificados caminhos simbólicos, aponta para a face mais verdadeira e bela dos fenômenos humanos.

ResearchBlogging.org

1.DEWHURST, K., & BEARD, A. (1970). Sudden Religious Conversions in Temporal Lobe Epilepsy The British Journal of Psychiatry, 117 (540), 497-507 DOI: 10.1192/bjp.117.540.497

2.Amâncio, E., Zymberg, S., & Pires, M. (1994). Epilepsia do lobo temporal e aura com alegria e prazer: relato de dois casos e revisão de literatura Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 52 (2), 252-259 DOI: 10.1590/S0004-282X1994000200018

3.Cirignotta, F., Todesco, C., & Lugaresi, E. (1980). Temporal Lobe Epilepsy with Ecstatic Seizures (So-Called Dostoevsky Epilepsy) Epilepsia, 21 (6), 705-710 DOI: 10.1111/j.1528-1157.1980.tb04324.x

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