Além do preconceito

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No reino Unido estima-se que 4,000 pessoas por ano sejam tratadas para transtornos mentais com correntes elétricas aplicadas na cabeça. Nos Estados Unidos, são 10.000 por ano. Sim, estou falando do famigerado “eletrochoque”.

No Brasil é difícil estimar quantas pessoas são tratadas com eletroconvulsoterapia (ECT) – esse é o nome técnico do tratamento -, mas um estudo informa que entre 2009 e 2010, 331 pessoas foram tratadas no Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, um dos maiores serviços do país.  O IPq também é um dos últimos serviços públicos que oferece a ECT, pois as políticas públicas de saúde deste Brasil varonil são contra o tratamento.

Mas é  óbvio ser contra o tratamento, certo?

Errado. E qualquer pessoa que tenha tido um contato realista com a psiquiatria nos últimos vinte anos consegue enxergar além do óbvio aparente.

A eletroconvulsoterapia é atualmente o tratamento mais eficaz para a depressão refratária – aquela que não responde às medicações convencionais. É, ainda hoje, o método que tem mais chance de reverter um quadro depressivo de maneira rápida, e isso importa muito quando se trata de quadros graves com risco alto de suicídio. A maioria dos pacientes submetidos à ECT nos dias de hoje o faz de maneira voluntária (nos demais casos, a família dá o consentimento). Muitos pacientes, inclusive, preferem este tratamento.

São muitos os fatos  sobre a eletroconvulsoterapia desconhecidos do grande público. A maioria das pessoas têm em mente as cenas do filme Um Estranho no Ninho na cabeça quando o assunto vem à tona. Muitos sequer sabem que o tratamento ainda existe.

Uma ótima e recente matéria da BBC News tenta responder por que um tratamento tão controverso, antigo e descrito pelos seus críticos como ‘desumano’, sobrevive sendo utilizado em centros de referência no mundo todo. A matéria é bem ilustrada e mostra opiniões divergentes. (É uma pena que esteja em inglês)

Leia lá: Why are we still using electroconvulsive therapy?

Para os curiosos, um vídeo de uma aplicação real filmada por familiares do paciente aqui.

ResearchBlogging.org

Ribeiro, Rafael Bernardon; Melzer-Ribeiro, Débora Luciana; Rigonatti, Sérgio Paulo; Cordeiro, Quirino (2012). Electroconvulsive Therapy in Brazil After the “Psychiatric Reform”: A Public Health Problem—Example From a University Service Journal of ECT, 28 (3), 170-173 : 10.1097/YCT.0b013e31824d2889

Jennifer S. Perrina, Susanne Merzb, Daniel M. Bennetta, James Curriea, Douglas J. Steelec, Ian C. Reida, and Christian Schwarzbauerb (2012). Electroconvulsive therapy reduces frontal cortical connectivity in severe depressive disorder Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 109 (14) DOI: 10.1073/pnas.1117206109

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