A esquizofrenia chega ao Brasil

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Estou desenvolvendo com colaboradores uma pesquisa histórica do uso da palavra esquizofrenia no Brasil. Quando o artigo sair, posto no blog.

Vou adiantando aqui alguns dados interessantes sobre o surgimento da palavra no nosso país.

As primeiras classificações das doenças mentais no Brasil datam do começo do século XIX e eram uma mistura da literatura especializada européia (principalmente francesa e germânica) com elementos culturais nossos. Nesse período encontramos transtornos então clássicos como “melancolia histérica” e “monomania” lado a lado com os peculiares “abuso de cachaça” e “vida debochada”. Classificações mais sistemáticas só surgiram aqui depois da virada do século.

No início do século XX, inspirados pelo organicismo alemão que ofuscou momentaneamente o caráter mais filosófico da abordagem francesa diante do problema,  nosso psiquiatras, capitaneados pelo célebre e pioneiro Juliano Moreira, adotaram a classificação dos transtornos mentais de Kraepelin. Nosso eminente médico chegou a trocar correspondência com o mestre alemão entre 1905 e 1906. É provável que o termo ‘demência precoce’ (dementia præcox) tenha entrado em nosso país na primeira década de 1900. O acervo do jornal O Estado de São Paulo, que contém edições de 1875 até os dias atuais,  acusa a primeira o ocorrência do diagnóstico em 1902.

Em edições subsequentes de seu Lehrbuch der Psychiatrie na segunda década do XX, Kraepelin admite e utiliza a palavra “esquizofrenia” como sinônimo para sua demência precoce. O termo havia sido criado pelo suíço Eugen Bleuler em 1908 e foi consagrado em 1911 no clássico livro “Dementia praecox ou o grupo das Esquizofrenias“.

Muito precocemente, a nova denominação foi adotada no meio científico brasileiro – antes mesmo do lançamento do livro seminal de Bleuler -, provavelmente por influência intelectual e tradução de Juliano Moreira. Isto está documentado na primeira grande lista dos transtornos mentais no Brasil, de 1910: a “Classificação da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal“.

O psiquiatra baiano Hermelino Lopes Rodrigues foi um dos responsáveis pela disseminação do termo a partir de 1929. Alega-se que ele tenha feito o primeiro trabalho científico sobre a esquizofrenia em terras tupiniquins, em 1926

Apesar da introdução da palavra no meio acadêmico na primeira década do séc. XX, o acervo do Estadão identifica a primeira ocorrência do termo “esquizofrenia” em 1936, em um anúncio de serviços de um psiquiatra. Presume-se que o uso leigo dessa palavra tenha demorado décadas para acontecer (nosso levantamento mostra que a palavra só foi usada fora do âmbito estritamente científico no final da década de 1940).

Em algumas campos importantes do conhecimento, a apropriação dos termos técnicos precisos nunca chegou a acontecer. Até 2002 nosso Código Civil lançava mão de um larguíssimo “loucos de todo o gênero” para abarcar as doenças mentais graves como a esquizofrenia.

O destino da palavra nos próximos anos ainda é incerto. O que há de certo é que o esforço de conhecer e reconstruir a história da psiquiatria deve partir do resgate da história dos seus conceitos. E somente a partir do entendimento do passado é que podemos planejar o futuro.

REFERÊNCIAS

1. Berrios, G.E. (2008) Historia de los síntomas de los transtornos mentales, La psicopatologia descritiva desde el siglo XIX. México: Fondo de Cultura Econômica.
2. De Oliveira, C.F.A (2002) Evolucão das classificações psiquiátricas no Brasil: um esboço histórico. Dissertação (mestrado), Universidade Estadual de Campinas.

3. Miranda-Sá Jr, L.S. (2010) O diagnóstico psiquiátrico ontem e hoje. E amanhã?. Rio de Janeiro: ABP editora.
4. Silveira, R.D. (2009) Psicanálise e psiquiatria nos inícios do século XX: a apropriação do conceito de esquizofrenia no trabalho de Hermelino Lopes Rodrigues. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 12, n. 3, p. 582-596. São Paulo

:: Leia também aqui no blog  A loucura e seus nomesBleuler ipsis litterisHistória conceitual da esquizofrenia

2 Responses to “A esquizofrenia chega ao Brasil”

  1. Cintia
    09/06/2014 at 3:48 pm #

    Olá, S. Albuquerque.
    Muito interessante o seu blog, estou lendo todas as postagens na sequência.
    Queria ver o seu artigo quando ele estiver pronto. Estou desenvolvendo minha dissertação de mestrado sobre as características morfossintáticas do discurso esquizofrênico e a fase de pesquisa está intensa… rs.
    Cadastrei seu blog nos meus feeds.
    Obrigada.

    • S. Albuquerque
      09/06/2014 at 10:41 pm #

      Oi Cíntia. Obrigado pela audiência :)

      Se quiser ler só os artigos sobre esquizofrenia, filtre pela tag: http://fluxodopensamento.com/tag/esquizofrenia/

      Fiquei curioso. Você acha que há UM discurso esquizofrênico?

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