Esquizofrenia e desintegração

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Gráfico do prejuízo funcional na esquizofrenia ao longo do tempo

 

Há alguns dias dei uma conferência na jornada anual do Núcleo de Psiquiatria do Ceará. O tema era manejo da esquizofrenia.

Não é fácil falar sobre o que há de cutting edge, ou o que está na “crista da onda” do tratamento da esquizofrenia, como solicitado pela organização da jornada. Mas engana-se quem acha que a dificuldade tenha a ver com complexos modelos farmacológicos ou neurofisiológicos. A dificuldade em falar sobre isso aqui no Brasil deriva do fato de estarmos ainda muito distantes de um modelo de tratamento humano integrado, montado sobre uma rede de assistência eficaz. Explico melhor.

As medicações atuais para a esquizofrenia funcionam mais ou menos sob os mesmos princípios há quarenta anos. Para se ter idéia, o único fármaco que pode ser considerado melhor que as demais, aquela que reservamos para tratamento de casos mais difíceis, a clozapina, foi sintetizado em 1971. Nas últimas décadas avançamos apenas no quesito “conforto”, isto é criamos medicações com relativamente menos efeitos colaterais. É preciso dizer que todas as medicações , inclusive a clozapina, estão disponíveis gratuitamente no Brasil e fazem parte de uma programa especial de dispensação no SUS.

O que falta então?

Antes de tudo, acesso. Um estudo feito em São Paulo mostra que mais de 70% dos pacientes que precisam tomar clozapina – portanto, os mais graves – não fazem uso da medicação. Aqui na capital do Ceará, por exemplo, há praticamente só dois grandes pólos de dispensação de remédios mais novos para a esquizofrenia – os chamados antipsicóticos atípicos –  que devem dar conta de aproximadamente 25.000 pessoas com esquizofrenia. O cálculo é uma estimativa baseada na incidência da esquizofrenia, que é de 1% na população. Segundo pacientes que procuram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), consultas de rotina podem demorar até 3 meses, desde o dia da marcação, para acontecer.

Nos CAPS também não são atendidas adequadamente as necessidades de terapia ocupacional, psicoterapia e assistência social. Não há tempo para visitas domicilares para pacientes que, por uma ou outra razão, não podem sair de casa – o que não é incomum em psiquiatria. A falta de atendimento decorre de um profundo desequilíbrio numérico expresso em uma equação simples: há muito mais pessoas precisando de atendimento do que há profissionais e estrutura física disponíveis. Acredito que o caso de Fortaleza reflita boa parte da situação do país.

Além disso, não há integração entre o atendimento primário (postos de saúde, unidades de saúde da família, unidades de pronto-atendimento) e os serviços especializados. Normalmente, profissionais da atenção primária oferecem muita resistência ao atendimento de pessoas com transtornos mentais graves como a esquizofrenia. Isso faz com que o paciente com esquizofrenia fique no limbo, flutuando entre uma atenção primária despreparada para o atendimento e CAPS e hospitais psiquiátricos inchados e atravancados pela burocracia.

Prestar atendimento de ponta aos nossos pacientes com esquizofrenia é impossível no momento, não por falta de tecnologia, mas por falta de organização e do bom e velho interesse político. O que há na crista da onda do tratamento dessa doença devastadora depende, basicamente, de pessoas. De psicólogos que façam reabilitação cognitiva e treinamento de habilidades sociais. De terapeutas ocupacionais que proponham um tratamento individualizado e voltado para as deficiências de funcionamento de cada paciente. De psiquiatras que possam fazer psicoeducação e promover adesão ao tratamento. De assistentes sociais que consigam lidar com as demandas de uma população que vive, em usa maior parte, na miséria.

Além disso é preciso agilidade. Muitos estudos mostram que só se pode prevenir a degeneração funcional provocada pela esquizofrenia ao longo dos anos através da prevenção de recaídas – isto é, impedir que o paciente tenha vários períodos de piora – e o tratamento rápido e adequado do primeiro surto psicótico. Atualmente, no mundo inteiro, pacientes demoram em média um ano desde o início dos sintomas até serem medicados. Não há dados em nossa população, mas acredita-se que esse tempo seja ainda maior aqui.

De certa forma, temos a faca e o queijo na mão. O que nos falta é a capacidade – e a vontade – de cortar o queijo. Insistir em políticas de saúde falidas e normatizações anacrônicas muitas vezes disfarçadas de política de bem-estar, como no caso do movimento anti-manicomial, certamente não nos levarão a avanços no cuidado das pessoas com doenças mentais graves. Mas isso é assunto para outro post.

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