Massacre, memória e fotografia

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O Massacre na Praça da Paz Celestial completou 25 anos. Após quase três décadas, o governo chinês ainda tenta impor uma amnésia coletiva sobre o evento. O que o comando da República Popular da China faz é a imposição de um passado manipulado na tentativa de controlar o presente e,  consequentemente, o futuro político do país.

A técnica não é nova. No livro 1984, George Orwell extrapola a realidade e cria um governo totalitário ficcional que controla todos os aspectos da história individual e comunitária. Na trama, o partido Ingcoc manipula massivamente informações do passado e constrói uma mitologia política que sustenta um governo ultra-opressor, cuja face é a imagem onipresente e ameaçadora do Grande Irmão.

O livro é de  1948. Naturalmente, ele é uma alegoria que serviu de manifesto contra os governos totalitários da Europa. Orwell era particularmente preocupado com o regime socialista na União Soviética: o que acontece em 1984 é uma extrapolação de fatos ocorridos durante o governo de Stalin, conhecido, entre outras coisas, por modificar fotos históricas em prol de uma coerência histórico-política.

Pode parecer um tanto ingênua e grosseira a noção de que fotos manipuladas podem mudar a narrativa de nossas memórias sobre eventos passados. Dois estudos, no entanto, apontam que esse método pode ser extremamente eficaz.

Em um deles, participantes foram expostos a fotografias manipuladas de eventos históricos em dois experimentos, um deles envolvendo a famosa fotografia do manifestante anônimo (acima) que enfrenta uma fila de tanques de guerra na Praça da Paz Celestial.  O estudo italiano mostrou que, mesmo pessoas mais velhas que haviam acompanhado o evento há 25 anos, mudaram o conteúdo de suas memórias diante da imagem digitalmente manipulada.

Em outro experimento publicado em 2013 no Journal of Experimental Social Psychology, mais de 5000 voluntários americanos foram apresentados a imagens de eventos políticos falsos fabricados por fotomanipulação. Quase 30% dos participantes disse ter lembrado dos eventos fictícios (entre eles, um flagra de aperto de mãos Barak Obama e o presidente do Irã). Outro dado interessante da pesquisa é que as convicções políticas das pessoas testadas – liberais ou republicanos – influenciavam como eram vistos os fatos envolvendo o partido político rival.

Em tempos de PiG e às vésperas de eleições para presidente, nada como ficar atento às nem sempre sutis manipulações da mídia.

ResearchBlogging.orgSacchi, D. L., Agnoli, F., & Loftus, E. F. (2007). Changing History: Doctored Photographs Affect Memory
for Past Public Events Applied Cognitive Psychology, 21 (8) : 10.1002/acp.1394

Frenda, S., Knowles, E., Saletan, W., & Loftus, E. (2013). False memories of fabricated political events Journal of Experimental Social Psychology, 49 (2), 280-286 DOI: 10.1016/j.jesp.2012.10.013


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One Response to “Massacre, memória e fotografia”

  1. Roberta
    08/06/2014 at 4:05 pm #

    Big brother is watching you. ;) http://www.pt-sp.org.br/noticia/p/?id=5306

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