Um mundo assombrado por demônios

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O ser humano mal reconhece os demônios de sua criação. – Albert Schweitzer

Esbarrei com um paper publicado em 2012 num certo Journal of Religion and Health (para minha surpresa ranqueado A2 pelo Qualis) que sugere que alucinações na esquizofrenia seriam causadas por demônios. Leia lá: Schizophrenia or posession? (tente o artigo completo aqui)

Segundo o autor, a dolorosa experiência da pessoa com esquizofrenia é, na verdade, uma ilusão provocada pelo contato com imagens criadas por demônios. Ainda segundo o autor, todo paciente deve ser encaminhado ao curandeiro/feiticeiro local para tratamento.

We thought that many so-called hallucinations in schizophrenia are really illusions related to a real environmental stimulus. Illusions are transformations of perceptions, with a mixing of the reproduced perceptions of the subject’s fantasy with the real perceptions. One approach to this hallucination problem is to consider the possibility of a demonic world.

Como pesquisador da esquizofrenia, acho que preciso deixar claro meu ponto de vista. A “teoria” do autor – que não passa de uma opinião pessoal, na melhor das hipóteses, movida por uma ingenuidade infantil (melhor crer nisso, do que levantar logo a hipótese de puro charlatanismo) – insulta não só os pesquisadores e profissionais sérios da saúde mental, mas também – e principalmente – as pessoas que sofrem dessa doença.

Numa rápida pesquisa pelo autor, encontrei que ele tem publicados artigos sobre o efeito anti-oxidante de certas substâncias sobre lesões isquêmicas experimentais. Estariam os radicais livres que causam lesão tecidual pós-isquêmica associados de alguma forma a entidades infernais? Será que o doutor M. Kernal Irmak também acha que os mesmos demônios podem ter seus dedos maléficos metidos nesse processo?

Provavelmente, não. Essa divisão absurda e radical dentro da cabeça de um suposto “pesquisador” não me surpreende, todavia. Seu despreparo intelectual também não. A ignorância é audaz, eu sei, mas o que me surpreende é um periódico supostamente sério publicar uma baboseira dessas.

Bem entendido, considero a relação entre cultura, religião e psiquiatria interessantíssima. Sua compreensão sendo indispensável para a atuação de qualquer profissional que se aventure pela saúde mental. Mas precisa haver método na abordagem de um tema tão delicado quanto complexo.

Não duvide que é possível abordar cientificamente esse campo. Tome-se como exemplo este excelente relato de caso: Transtorno afetivo bipolar de difícil controle e “encosto”: um caso da interação entre medidas terapêuticas técnicas e religiosas (Tofoli, 2004)Na discussão o autor faz um paralelo entre os modelos explicativos do fenômeno (TAB de difícil controle) e tenta, no final, apontar para a interface entre a clínica, a cultura e a religião, tomando o cuidado de considerar o peso específico de cada um desses elementos para o paciente em questão.

Pode parecer que não, mas a validação de ideias infundadas e preconceituosas como a do artigo dos demônios contribui para o emperramento da abordagem efetiva dos transtornos mentais graves, que deve ser feita com toda a delicadeza e respeito pela pessoa que sofre.

:: Leia também aqui no blog  A psiquiatria respondeEsquizofrenia e desintegraçãoA esquizofrenia chega ao Brasil

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