Archive | September, 2014

Ateus são imorais?

nomes de deus moral religião psicologia

“Os setenta e dois nomes de Deus”, Oedipus Aegyptiacus, séc XVII


Uma revisão recente
avaliou as diferenças entre teístas (pessoas que acreditam em um ou mais deuses) e ateus no que concerne à moral.

A pesquisa foi motivada por um relatório baseado em amostras de 40 países, que apontou que a maioria das pessoas crêem que o comportamento dentro de padrões morais depende da religiosidade. O interessante é que essa ideia é mais comum em países pobres, como Egito, Gana e  El Salvador. No Brasil (que está nesse grupo), 86% contra 13% acham que é preciso acreditar em Deus para ser ético.

Outro estudo interessante evidencia que, pelo menos nos EUA, teístas tendem a discriminar socialmente mais que ateus. O título do paper é instigante: “Por que não praticamos o que pregamos? Uma revisão meta-analítica do racismo religioso” (tradução minha). Pessoas religiosas tendem a ser mais caridosas e pró-sociais, no entanto parte desse altruísmo tende a ser dirigido somente a pessoas do mesmo grupo religioso.

Apesar disso, ateus são vistos negativamente em culturas onde há predomínio de pessoas religiosas (isto é, o mundo quase todo). Um estudo aponta que a desonfiança (distrust) é o principal motivo do preconceito contra ateus. Dito de outra forma: pessoas religiosas tendem a ver não-crentes como indivíduos nos quais não se pode confiar.

No que diz respeito à moral, teístas e ateus discordam sobretudo em questões relacionadas à sexualidade e à obediência à autoridade, no entanto há tendência ao consenso quando o assunto é injustiça ou dano ao próximo.

A revisão conclui:

Although the two groups may sometimes disagree about which groups or individuals deserve justice or their compassion, these core moral intuitions form the best basis for mutual understanding and intergroup conciliation.

Leia o artigo completo: Morality and the religious mind: why theists and nontheists differ

ResearchBlogging.orgAzim F. Shariff, Jared Piazza, & Stephanie R. Kramer (2014). Morality and the religious mind: why theists and nontheists differ Trends in Cognitive Sciences, 18 (9) : http://dx.doi.org/10.1016/j.tics.2014.05.003

Hall, D., Matz, D., & Wood, W. (2009). Why Don’t We Practice What We Preach? A Meta-Analytic Review of Religious Racism Personality and Social Psychology Review, 14 (1), 126-139 DOI: 10.1177/1088868309352179

Katie Simmons, James Bell, Richard Wike, & Alan Cooperman (2014). Worldwide, Many See Belief in God as Essential to Morality PewResearch Center (http://www.pewglobal.org/)

Gervais, W., Shariff, A., & Norenzayan, A. (2011). Do you believe in atheists? Distrust is central to anti-atheist prejudice. Journal of Personality and Social Psychology, 101 (6), 1189-1206 DOI: 10.1037/a0025882

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Listen to your heart

cérebro coração gravura desenho olivia knapp

Encontrei no BoingBoing essa série de gravuras, retratando cérebros e outros órgãos ,da artista Olivia Knapp. Os desenhos são feitos à moda antiga, com papel e tinta, lembrndo muito as gravuras do século XVII, com seus intricados padrões de linhas nas partes sombreadas.

No site da artista dá pra ver os detalhes. Confira lá.

(Dá também pra comprar originais)

:: Leia também aqui no blog  Arquivo do MetArte e imagens em psiquiatriaBelas artes, neurologia e neurociências

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Compulsão poética

epilepsia rima alteração da linguagem

Algumas pessoas com epilepsia do lobo temporal podem apresentar uma curiosa síndrome relacionada à personalidade: religiosidade intensa, alterações da sexualidade (normalmente hipossexualidade), hipergrafia e  pensamento e discurso circunstanciais. Chamamos esse fenômeno de Síndrome de Gastaut-Geschwind.

Já escrevi sobre hipergrafia aqui no blog. Segundo um dos pesquisadores que nomeiam a síndrome, Geschwind,  haveria uma tendência nesses pacientes ao  ”extenso e, muitas vezes compulsivo, desenho ou escrita“, característica de uma atividade elétrica anormal interictal em foco temporal, detectada no eletroencefalograma.

O Mind Hacks e o Neuroskeptic chamam a atenção para o relato recente de um caso interessante de hipergrafia relacionada a epilepsia. Mas aparentemente não há outros sintomas da síndrome de Gastaut-Geschwind no caso publicado: Compulsive versifying after treatment of transient epileptic amnesia

O relato é de uma senhora de 76 anos que passou a escrever poesias compulsivamente após diagnóstico e tratamento de epilepsia, caracterizada por perda episódica da memória. Os versos tinham como característica aliterações e trocadilhos. Um exemplo, extraído do caso:

My poems roams,
They has no homes
Yours’, also, tours,
And never moors.

As associações por assonância são uma alteração do pensamento encontrado na mania ou na esquizofrenia mas, diferente da paciente do caso, o discurso resultante normalmente é incoerente. Segundo o relato, a compulsão poética da paciente durou aproximadamente seis meses, sendo substituída por poemas eventuais e um particular gosto por trocadilhos.

ResearchBlogging.org
Waxman, S. (1975). The Interictal Behavior Syndrome of Temporal Lobe Epilepsy Archives of General Psychiatry, 32 (12) DOI: 10.1001/archpsyc.1975.01760300118011

Trimble, M., & Freeman, A. (2006). An investigation of religiosity and the Gastaut–Geschwind syndrome in patients with temporal lobe epilepsy Epilepsy & Behavior, 9 (3), 407-414 DOI: 10.1016/j.yebeh.2006.05.006

Woollacott IO, Fletcher PD, Massey LA, Pasupathy A, Rossor MN, Caine D, Rohrer JD, & Warren JD (2014). Compulsive versifying after treatment of transient epileptic amnesia. Neurocase, 1-6 PMID: 25157425

:: Leia também aqui no blog  Torrente de palavrasGentle on my mindPoe e os lobos frontais

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Egos de plástico

barbie humana transtorno dismórfico corporal

Tinha vontade de escrever um texto sobre um fenômeno psíquico estranho, turbinado nos últimos anos pelas redes sociais: as pessoas que transformam radicalmente seus corpos para parecerem deliberadamente artificiais. Falo de gente como a ucraniana que quer ser a Barbie, o filipino que quer ser Superman e o brasileiro que quer ser o boneco Ken. E a lista cresce todo dia, basta acompanhar na sessão de notícias bizarras dos jornais.

Não preciso mais escrever o texto que tinha planejado, eis que já o encontrei mais ou menos feito no Estadão: Mais bonitos, mais jovens, mais interessantes. E de preferência para sempre.

Mesmo sem a pretensão de sugerir diagnósticos para pessoas que não me pediram isso, parece impossível não associar esses comportamentos a uma espécie de variação do quadro de dismorfia, no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível de seu corpo, mas que ganha enorme destaque.

A autora fala um pouco das motivações psicológicas por trás desse comportamento e cita, apropriadamente, o transtorno dismórfico corporal.

:: Leia também aqui no blog  A mente como laboratórioGênero neutroPeso desejado

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Síndromes do mundo

síndromes ligadas a cultura psiquiatria koro

Já escrevi sobre o Amok e outras síndromes ligadas à cultura aqui e aqui.

A MenteCérebro traz uma interessante matéria que explica como questões culturais podem influenciar a manifestação de transtorno psiquiátricos ao ponto de se considerar que determinadas síndromes só existam em partes específicas do globo.

Até o momento, as evidências sugerem que o meio em que vivemos e os valores de nossa sociedade podem influenciar a expressão das doenças mentais. Também é inegável que em culturas muito diversas se apresentam transtornos psicológicos totalmente diferentes, o que nos leva a pensar que a interação entre o mundo interno e o ambiente em que vivemos pode ser decisiva para a manifestação de um ou outro sintoma. 

Leia lá: Transtornos estrangeiros

:: Leia também aqui no blog  Olhando tortoSindrome de ParisAmok

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Cartum #77

TOC cartum humor

(via Overdose Homeopática)

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