O coração da loucura e a metonímia

psiquiatria lados

Em abril deste ano deve estrear uma cinebiografia sobre a psiquiatra brasileira Nise da Silveira. Já escrevi sobre o trabalho dela aqui.

Intitulado Nise – O coração da loucura, o filme mostra a trajetória da doutora durante o período de criação do famoso serviço de terapia ocupacional da Casa das Palmeiras no Rio de Janeiro.

Pelo trailer dá pra intuir que o filme lança mão do velho tropo cinematográfico do herói incompreendido contra o Mal institucional; no caso, o batido drama da maléfica psiquiatria biológica sendo desmoralizada pela subjetividade triunfante de uns poucos rebeldes (vide Um estranho no ninho).

Lendo uma crítica recente feita ao documentário In the Mind, feito pelo ator e autor britânico Stephen Fry sobre a doença mental (Fry é portador de transtorno bipolar e ativista), fica evidente que esse tipo de visão distorcida do que é a psiquiatria ainda persiste. Na crítica, o autor acusa Fry de se render a um modelo simplista – e fatalista – de explicação das doenças mentais, que vem a ser o mesmo modelo imposto pela psiquiatria vigente.

Esse modelo, pelos olhos de seus detratores, retrata a especialidade como ingênua, reducionista e à mercê da indústria farmacêutica e de manuais diagnósticos. Em suma, incapaz de compreender as sutis manifestações da natureza humana que habitam por entre os fatos científicos. Nada mais equivocado.

Não há anjos nem demônios nesse campo. E esse campo não deve ser um campo de batalha. Considerar que todo psiquiatra é (ou foi) o vilão na história de alguém é o mesmo que considerar que todo alemão é (ou foi) nazista.  A verdadeira simplificação mora na crença de que a vida é como o cinema, onde há heróis e vilões absolutos, polarizados – psiquiatras e anti-psiquiatras; psiquiatras biológicos e psiquiatras subjetivistas; Nise da Silveira e os outros psiquiatras. É aí quando se cai na armadilha da generalização. A metonímia – tomar a parte pelo todo – nesse caso, além de planificar a realidade complexa da saúde mental, atrapalha o avanço da compreensão das doenças mentais e a redução do estigma a elas associado.

:: Leia também aqui no blog Imagens do inconscienteA psiquiatria respondeAlém do preconceito

13 Responses to “O coração da loucura e a metonímia”

  1. Rodrigo Padrini
    25/02/2016 at 1:00 pm #

    Realmente, a generalização em qualquer campo é o caminho para o fracasso e para a ignorância. Me considero mais uma vítima da imagem negativa que a Psiquiatria tem na sociedade, como aquele médico louco que só quer te drogar e arrancar o seu dinheiro pra sempre. É tão difícil combater os estigmas. Ótimo texto como sempre. Obs: Curto demais as ilustrações do Tom Gauld, por sinal.

    • S. Albuquerque
      27/02/2016 at 12:25 pm #

      Rodrigo, consonante como algumas pessoas vêem a coisa toda, nós dois estáriamos em lados antagônicos: eu, empenhado maleficamente em diagnosticar e medicalizar o sofrimento humano, pago pela indústria farmecêutica; e você analisando subjetiva e incompreensivelmente as questões da vida, mas sem nenhuma função prática para a sociedade. Ambos dispensáveis e considerados “serviço de luxo”.
      Enfim, é difícil ser operário da área psi hoje em dia. Anyway you lose.

  2. Luís Fernando Tófoli
    27/02/2016 at 6:29 am #

    Eu só acho que seria necessário pelo menos ver o filme para poder criticá-lo, Saulo.

    Fora isso, a minha impressão é que o principal problema diante desse dilema é que a psiquiatria, ao invés de dialogar, tem se encastelado. Vide a atual e nefasta diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria. Decerto há erros de sobra em todos os lados, mas me parece que uma posição paranoide assumida frequentemente pela categoria – usando a visão da Luta Antimanicomila para fingir não ver um monte de problemas que ainda há – não será a solução para o dilema que você descreve aqui. Abração!

    • S. Albuquerque
      27/02/2016 at 12:14 pm #

      Você tem razão nesse ponto de precisar ver o filme para julgar melhor, Tófoli. Posso estar errado quanto ao filme (mas meu palpite é que não veremos nada de novo).
      O problema é justamente a paranoia das partes. O cartum que uso para ilustrar o post sintetiza a ideia.
      De fato, a única forma de dirimir isso é o diálogo aberto. Mas como dialogar com pessoas que são, essencialmente, contra a sua existência? Não há por aí movimentos anti-neurologia ou anti-cardiologia. Nós sofremos de um tipo especial de ataque contra o nosso fazer em sua essência, e isso é, pra mim, insustentável democraticamente.

      • Luís Fernando Tófoli
        28/02/2016 at 4:57 pm #

        Pois chegue mais perto – como eu e muitos outros psiquiatras fizemos – para saber que o nome do movimento não é ‘antipsiquiátrico’. O nome do movimento – e da luta – é ANTIMANICOMIAL.

        Há problemas e mistificações? Há, claro? Há pessoas no lado ‘não-psiquiátrico’ da Força que também não dialogam? Decerto que sim.

        Mas é importante que a categoria compreenda que ela muitas vezes trabalha de forma tosca, e possa se repensar. Não vejo problema algum nisso. Nenhuma categoria médica tem obrigação maior de fazer isso do que a nossa. Veja, por exemplo, este artigo de opinião que saiu no Guardian nas sexta-feira, motivado pelo filme do Fry: http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/feb/26/mental-illness-misery-childhood-traumas

        Quem usa e abusa do termo ‘Antipsiquiatria’ (nome de um movimento do passado, criado, aliás, por psiquiatras) é a gestão antidemocrática da ABP. Por onde estes caras vão, eu estou fora.

        • S. Albuquerque
          28/02/2016 at 6:03 pm #

          Entendi.

          Quando falo genericamente de “antipsiquiatria”, falo da posição de algumas pessoas em vários grupos diferentes,não especificiamente da luta antimanicomial (que, diga-se de passagem, deixou aqui no CE uma bela herança: um monte de gente sem assistência – nem de CAPS nem internação na zona metropolitana de Fortaleza).

          Falo de gente que se nega a acreditar que existam doenças mentais graves (entre elas, as psicoses); gente que acha que a psiquiatria ainda exerce um poder coercitivo sobre a vida e política (saudosos de 68, scientologistas, teóricos da conspiração e outros alienados desse naipe); profissionais da área da saúde que em geral têm uma postura deliberadamente destrutiva com médicos (de qualquer especialidade); pseudocientistas mestres em escolher evidências que comprovem seu ponto de vista para causar polêmica (http://joannamoncrieff.com/, http://www.telegraph.co.uk/women/family/are-you-to-blame-for-your-childs-mental-health-issues/); desentendidos em geral que emitem opiniões sem entender do assunto; gente de um novo movimento que acha que “ouvir vozes”= esquizofrenia, então como há gente que escuta vozes e não tem esquizofrenia, acha que esquizofrenia não existe; psicanalistas de uma certa escola que acham que podem curar pessoas com esquizofrenia com interpretações, etc. Enfim, uma variedade grande de perfis – entre equivocados e mal-intencionados – com muito espaço na mídia e pouca coisa construtiva a se dizer.

          Concordo plenamente que não devemos nos acanhar em um canto. Falo sempre que posso sobre o assunto, justamente por temer um futuro onde ser psiquiatra é motivo de vergonha.
          E só pra deixar claro: não tenho nenhuma ligação com a ABP. Há anos não pago a anuidade (o que para eles parecer ser o lado mais importante da associação) nem fiz prova de título.

          Essa tréplica não é pra esgotar o assunto ou rebater o que disse, é mais pra explicar melhor minha posição.

          Abração e obrigado pelas ideias, como sempre embasadas. Gosto de discutir com você, pq é sempre um diálogo intelectualmente honesto.

          • Luís Fernando Tófoli
            29/02/2016 at 6:29 am #

            Também gosto de conversar com você, Saulo.

            Acho que o foco aqui provavelmente não é debater a rede de Fortaleza, mas já que você trouxe o assunto, entendo que não completamente justo colocar na conta da luta antimanicomial todo o problema, ainda que tenha havido algumas incompetências derivadas da ‘doutrina’ da Reforma Psiquiátrica.

            Em relação ao fechamento dos leitos, há aí um problema sério e estratégico no processo da Reforma Psiquiátrica brasileira como um todo que foi o fato de, verdadeiramente, ela não ter investido em leitos e enfermarias de hospital geral (e não acredito que CAPS III sejam capazes de tapar esse buraco). Até tentaram abrir esses leitos em Fortaleza, mas sem dinheiro federal para incentivar, não tem chance.

            Você viu ao vivo a rede de Sobral funcionando bem e sabe que, naquele caso, a redução de leitos e a abertura de CAPS não gerou desassistência alguma. Não era perfeito, mas fazia o feijão com arroz que uma rede de Saúde Mental precisa fazer. Como está agora eu não sei.

            Em relação ao desmonte dos CAPS, é preciso lembrar que foram criados em um número considerável onde antes não havia assistência alguma. Naquele momento, não há como dizer que isso era desassistência.

            Porém ainda no meio de um processo que era de implantação, a gestão do atual prefeito resolveu destruir o que ainda estava em organização. Acho complicado culpar um movimento por descaminhos que também têm que ver com a gestão política num sentido mais amplo. No entanto, confesso que não estou acompanhando Fortaleza em maiores detalhes como fazia há quatro anos, então se achar que estou equivocado em algum ponto, por favor, me indique.

            Em relação ao tema maior, acho que nossos pontos já foram suficientemente esclarecidos.
            Só queria acrescentar duas coisas. Primeiro, que é claro que eu não compactuo com qualquer visão fundamentalista como a da Cientologia ou uma certa Psicanálise mal-feita.

            Segundo, que eu continuo achando que toda essa movimentação de ‘sobreviventes da psiquiatria’ (só para usar o termo que mais me incomoda) precisa ser acolhida e dialogada (OK, já estou me repetindo, rs).

            Se estão nos acusando de algo, é preciso que nos dispamos do orgulho, nos recolhamos para pensar as razões disso acontecer e de isso dar ressonância na mída, e que nos aperfeiçoemos.

            A mídia está aí, nós é que precisamos aprender a usá-la de forma construtiva. Você é um cara que faz a sua parte nisso, e eu te admiro por isso.

            Abração!

            P.S.: Em nenhum momento tive a menor sombra de dúvida de que você é uma pessoa que diverge dos métodos da atual gestão da ABP.

          • S. Albuquerque
            01/03/2016 at 9:50 am #

            A experiência de ter acompanhado a rede de Sobral em 2004 foi muito rica, cara. Lembro bem – e com certa saudade – das reuniões, da inovadora enfermaria no hospital geral, das visitas, do matriciamento e do seu grupo de psicóticos.

            O que aconteceu com a rede de Fortaleza foi, em resumo, o seguinte: fechamento massivo dos leitos psiquiátricos SEM a criação de leitos em hospital geral e SEM CAPS suficiente pra dar conta da demanda de paciente com necessidade intermediária (hospital-dia, por exemplo). A coisa foi feita da pior forma possível e, ainda hoje, temos longas filas de espera em Messejana de pessoas necessitando internação.

            Entendo que há todo o problema político e de continuidade de projetos, que são destruídos e reinventados a cada novo pleito, mas há um certo ar de triunfo de gente que ocupa ou ocupou cargos de gestão na área, que acha que fez quase o mesmo trabalho do Phillipe Pinel, libertando os loucos de seus grilhões.

            O que recebemos em massa lá no hospital, inclusive ambulatorialmente, é gente abandonada de tratamento, que não consegue ter consulta médica em CAPS, ou que é visto a cada quatro meses, quando precisa ser visto semanalmente. Isso a TV não mostra. É a maior briga para encaminharmos pacientes para os CAPS pois os próprios pacientes não querem, justamente por essas dificuldades. Praticamente todo encaminhamento que fazemos para o CAPS gera, automaticamente, uma reclamação na ouvidoria e, meses depois, o retorno do paciente para o nosso serviço.

            A lógica está toda invertida.

            Sei que você conhece muito bem essa complexa realidade, só estou chamando a atenção para o que não se vê quando se olha só para a superfície, de dentro de um gabinete.

            ps.: Você lembra de uma visita domiciliar que fizemos a um paciente paranoíde que se trancou em casa e que consideramos a possibilidade de entrar pelo telhado? :D

  3. Luís Fernando Tófoli
    27/02/2016 at 6:36 am #

    PS.: Lembrei aqui também que julgar o filme pelo trailer é também tomar o todo pela parte, hehehe.

  4. Caio Maia
    27/02/2016 at 8:17 am #

    Tu autoriza compartilhar esse texto em redes sociais? Não tem nenhum mecanismo pra compartilhar pelo blog né isso? As redes sociais amplificam a comunicação e a mensagem chega a um maior número de pessoas.

    • S. Albuquerque
      27/02/2016 at 12:16 pm #

      Caio, por opção filosófica não uso facebook. Uso o twitter (@fluxopensamento) como forma de me integrar a outros pesquisadores e ler sobre ciência e arte.
      Pode compartilhar meu texto, com o cuidado de citar e linkar a fonte, ok?

  5. Tiago
    13/03/2016 at 5:38 pm #

    Ótimo post, linkei no blog.

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