O fim da esquizofrenia?

Muitos pesquisadores duvidam fortemente da existência de uma entidade homogênea, única e distinta que possamos chamar de esquizofrenia. German Berrios, o maior pesquisador vivo da história da psiquiatria, desconstrói historicamente a unidade do conceito. Robin Murray, outro eminente autor, acredita que é possível a recuperação em muitos casos, e desmente a evolução clínica ruim classicamente associada à doença.

Outro nome importante lançou recentemente uma grande campanha contra o nome esquizofrenia. O holandês Jim van Os publicou esses dias sua opinião no editorial do prestigiado British Medical Journal. O texto é parte de um projeto maior, com manifesto e tudo, publicado no site schizofreniebestaatniet.nl (“esquizofrenianãoexiste.nl”). Clique aqui para ver o que há disponível em inglês.

O projeto propõe, entre outras coisas, a substituição do nome por Psychosis Susceptibility Syndrome ou Psychosis Spectrum Syndrome (‘Síndrome de susceptibilidade à psicose’ ou ‘Síndrome do espectro psicótico’). Mudança que, segundo o autor, serviria para diminuir o estigma relacionado a uma doença classicamente considerada crônica e incapacitante, além de desvincular o conceito de uma manifestação puramente biológica.

(Já postei antes aqui que simples mudanças de nome não diminuem o estigma sobre as doenças.)

No site há vídeos interessantes e educativos como o que ilustra este post, sobre as fases da psicose.

Acredito que a intenção do movimento seja boa, mas não consigo deixar de entrever nele um censo aguçado de oportunidade (ou, melhor dizendo, oportunismo), e de desejo de reinventar a roda. Todo mundo que estuda seriamente esquizofrenia tem sérias críticas ao conceito, mas é preciso admitir que ainda não há um paradigma novo suficientemente bom para substituir imediatamente a atual compreensão do problema.

O conceito moderno ainda está em franco processo de construção e remodelamento – como quase toda a psiquiatria. É preciso, contudo, ficar atento a soluções milagrosas e imediatas para velhos problemas. Qualquer um que se detenha um pouco mais na história da psicopatologia vai perceber que crenças e modelos explicativos vêm e vão em ondas, às vezes, ciclicamente.

Pessoalmente, aposto – dentro das próximas décadas – na dissolução do conceito de esquizofrenia, e na diferenciação de muitos outras estados patológicos, antes vistos sob o mesmo grande guarda-chuva; mas não em seu afastamento das bases biológicas, nem em uma tentativa de “normalização” do fenômeno. O oposto disso. Creio que cada vez mais nos aproximamos de um modelo neurocientífico consistente que explica um estado anormal não apenas do cérebro, mas do corpo. Essa talvez seja a chave do enigma antevisto em 1908 por Bleuler, quando batizou o problema, baseado em sua multiplicidade, de ‘O Grupo das Esquizofrenias.’

ResearchBlogging.orgLuque RL, Berrios GE, Villagrán Moreno JM (2003). Schizophrenia: a conceptual history International journal of psychology and psychological therapy, 3 (2)

Zipursky RB, Reilly TJ, & Murray RM (2013). The myth of schizophrenia as a progressive brain disease. Schizophrenia bulletin, 39 (6), 1363-72 PMID: 23172002

Van Os, J (2016). “Schizophrenia” does not exist BMJ (352) DOI: 10.1136/bmj.i375

:: Leia o que já postei aqui no blog sobre esquizofrenia

4 Responses to “O fim da esquizofrenia?”

  1. Roberta
    10/02/2016 at 9:25 pm #

    O raio da gourmetização voou longe dessa vez! ;D

    • S. Albuquerque
      11/02/2016 at 1:10 pm #

      Hehehe

  2. Américo
    14/02/2016 at 5:11 pm #

    Acho válido o resgate histórico do enigma bleuleriano. Cada vez mais me intrigo em classificar a esquizofrenia de um paciente que teve como trigger o uso de substâncias no mesmo “bloco” das de apresentação costumeira, em pacientes com Q.I. reduzido, retraímento social (funcionamento pré-mórbido esquizotípico). Não levanto bandeira em favor de um movimento puramente anti-conceitual, mas gosto da faísca que se acende.

    • S. Albuquerque
      14/02/2016 at 5:27 pm #

      Essa discussão está acesa há décadas. O problema, ao meu ver, é tentar resolver o problema a “brute force”, sem construir algo novo que substitua adequadamente o conceito. Não se trata apenas de inventar um novo nome.

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