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Emaranhado de memórias

 

O belo curta animado em stop-motion Undone captura de maneira abstrata a progressão da doença de Alzheimer.

Hayley Morris, realizadora do filme, diz que se inspirou no seu avô para fazê-lo.

Bonito.

(via Brain Pickings)

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Adelaide

 

Adelaide” (EUA, 2011 – em inglês, sem legendas ) é um curta-metragem que conta a história de uma garota com transtorno factício. A personagem principal, que dá nome ao filme, cria sintomas e doenças na tentativa de se aproximar das pessoas e receber cuidados.

O transtorno factício recebe também o nome de síndrome de Münchausen. O epônimo deriva do Barão de Münchhausen, um nobre alemão que viveu no século XVIII, famoso por contar histórias mirabolantes e improváveis nas quais figurava como personagem. Em 1951, o médico britânico Richard Asher batizou a síndrome com o nome do barão teutônico em um artigo publicado no The Lancet.

Reserve 12 minutos para assistir ao curta, vale a pena.

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Do trauma à luz

 

O documentário Let there be light (USA, 1946) demorou trinta e cinco anos para sair das gavetas da censura americana. Sua primeira exibição, no Festival de Cannes em 1981, trouxe à luz o filme esquecido do grande cineasta americano John Huston, feito sob encomenda pelo deparatmento de propaganda do exército dos EUA.

O filme mostra o tratamento dado a ex-combatentes da Segunda Guerra incapacitados pelos traumas psíquicos do combate. O motivo da censura foi meramente político: no período, o trauma de guerra – principalmente no âmbito militar – era visto como algo que acometia somente pessoas “fracas”. Como o filme mostra soldados humanizados, bem diferentes dos heróis de guerra imbatíveis imaginados pela população americana, as forças armadas consideraram o documentário um potencial material de anti-propaganda.

Assista acima ao documentário completo (sem legendas) disponível no YouTube.

Clique aqui para ver mais material sobre transtorno de estresse pós-traumático e neuroses de guerra.

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007 e a paranóia de cada época

Saiu o trailer do novo filme de James Bond. Skyfall (EUA, GRB 2012) traz Javier Barden (no papel de “Silva” – seria brasileño?) contra o agente 007 da última década, intepretado por Daniel Craig. Quem viu os filmes do agente britânico com permissão para matar desde a década de 60 sempre espera um vilão que incorpore os temores da época de lançamento do filme.

É assim desde O Satânico dr. No de 1967, o primeiro da franquia milionária. O doutor que dá nome ao título tinha planos de sabotar o lançamento de mísseis nucleares dos EUA. A temática da era atômica seguiu adiante até a década de 70, tomando ares desbragadamente anticomunistas durante o auge da Guerra Fria (vide O Espião que Me Amava, de 1977). O trailer do filme atual, se não estou muito enganado, dá a entender que a ameaça ao equilíbrio global está nas mãos de uma espécie de Julien Assange que sabe atirar.

O Guardian traz uma boa coluna sobre como o vilão dos filme de James Bond incorpora e traduz os medos de cada período da história recente: How James Bond villains reflect the fears and paranoia of their era.

O medo dos americanos e britânicos, bem entendido.

Penso que um bom bandido para nossa época poderia ser o dono de uma megacorporação da indústria farmacêutica disposto a administrar psicotópicos a toda a população do planeta, com o objetivo de dominar o mundo por meio da perversa psicofarmacologia. Entre outras coisas, o super-vilão estaria envolvido na criação de critérios que enquadrariam todo ser humano em um transtorno mental; um tipo de Simão Bacamarte do mundo globalizado. Que tal?

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Paranóia na tela

O pessoal da psicanálise vai gostar desse.

Em breve deve estrear um filme sobre a vida  (e delírio) de um dos casos mais famosos trazidos à luz pelo pai da psicanálise. Shock Head Soul (Reino Unido/Holanda, 2011) projeta na tela a história de Daniel Paul Schreber,  juiz alemão acometido por um transtorno mental grave na virada do século XX. O filme é baseado no livro “Memórias de um doente dos nervos”  publicado em 1903, que narra a formação do exuberante delírio do autor.

Em 1911 a obra foi analisada por Freud como paradigma de um caso de paranóia.

Veja aqui o site oficial do filme.

Leia aqui a entrevista com Helen Taylor-Robinson (psicanalista) e Clive Robinson (psiquiatra) que participaram da realização do filme.

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Torrente de palavras

A hipergrafia, uma compulsão irresistível por escrever – em verso ou prosa – pode ser encontrada na epilepsia, notadamente naquelas com origem no lobo temporal. Também pacientes em episódio maníaco ou esquizofrenia podem apresentar essa necessidade de escrever abundantemente.

Há quem diga que o escritor russo Fiódor Dostoiévski apresentava o sintoma como parte da sua epilepsia. A mesma suspeita é levantada quando se fala de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas.

Em algumas condições não necessariamente patológicas, a hipergrafia também pode render a entrada no panteão da literatura. É o caso do escritor americano Arthur Crew Inman (1895-1963).

Entre 1919 e 1963 Inman escreveu um diário com nada menos que 17 milhões de palavras sobre eventos, pessoas e observações de um período de mais de quatro décadas do século XX. Em breve será lançado um filme com John Hurt sobre a vida do autor. Veja aqui o site oficial: Hypergraphia.

Acima, ilustrando o post, um poema comcreto de Lewis Carroll intitulado “The Mouse’s Tale” (um trocadilho entre tale e tail, respectivamente, conto e cauda)

(Peguei a dica do filme em The Neurocritic)

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Intermezzo

Acima, a cena antológica do filme “Amargo pesadelo” (Deliverance, EUA, 1972): o personagem de Ronny Cox duela ao violão com um menino com face sindrômica ao banjo.

A música Duelling banjos ficou no topo das paradas por algum tempo nos EUA e terminou ganhando um Grammy no ano de lançamento do filme.

Cinema e psiquiatria

Ai vai uma lista das 10 listas de filmes que tem a ver com psiquiatria que já postei aqui no blog.

Veja todos os posts sobre cinema do blog clicando aqui.

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10 filmes sobre memória e esquecimento

Uma lista de 10 filmes nos quais a memória – ou a perda dela – tem um papel importante na trama. Interessante perceber como em muitos filmes a perda de memória acontece após um traumatismo craniano e quase sempre de maneira global, coisa rara de acontecer de verdade.

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A grande noite umbrosa* de Poe

Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Assisti ao filme O Corvo (EUA, 2012), livremente baseado na vida e obra de Edgar Allan Poe. A trama, que transforma os dias finais do escritor americano em uma história policial, não é boa, mas serviu para reavivar no meu córtex – ultimamente tão desmemoriado – algumas coisas interessantes sobre o autor de The Raven.

Lembrei de um panfleto distribuído na casa de Edgar Allan Poe, transformada em museu na Filadélfia, que apresenta fatos históricos que desmentem os supostos alcoolismo e adicção a ópio imputados ao escritor. Segundo o texto (leia aqui) a má fama foi arquitetada por um crítico e rival literário de Poe chamado Rufus Griswold.

Veio à memória também um artigo médico que postei no blog há quase dois anos sobre as circunstâncias misteriosas da morte de Edgar Allan Poe. Releia aqui: O mistério final de Poe

Por último, lembrei do belíssimo poema A Dream Within a Dream, que empresta algumas linhas para o fechamento do filme, antes dos créditos finais.

* “A grande noite umbrosa” é a tradução do nosso Machado de Assis para “the Night’s Plutonian shore“, frase magistral de The Raven. Veja aqui a tradução completa do Bruxo do Cosme Velho para um dos maiores poemas da língua inglesa.

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O Exorcista e a ‘Neurose cinemática’

Encontrei no Mind Hacks um post interessante sobre o efeito psicológico que o filme “O Exorcista” (The Exorcist, EUA, 1973) provocou em alguns expectadores. À época do seu lançamento nos cinemas, houve relatos de desmaios, expectadores tomados pelo medo saindo das salas às pressas e até de pessoas que “enlouqueceram” depois de ver o filme de William Friedkin.

Isso causou uma certa preocupação na comunidade científica e, em 1975, foi publicado um artigo no periódico Journal of Nervous and Mental Disease , intitulado ‘Cinematic Neurosis Following The Exorcist’ com o relato de quatro casos de problemas psiquiátricos em expectadores do filme.

The fact that the issue of ‘Exorcist madness’ was considered serious enough to appear in a medical journal is more likely testament to the fact that the film touched a raw nerve in the America of the 1970s, than the fact that it raised the hackles of some of its audience members.

Leia aqui o post: Mental illness following The Exorcist

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Uma estranha psiquiatria

Uma matéria curta no The Telegraph fala de como o filme “Um estranho no ninho” (One flew over the cukoo’s nest, EUA, 1975) mudou a cara da psiquiatria.

O filme é baseado no romance homônimo de Ken Kesey. Escrito na década de 60, a história retrata os abusos cometidos pela psiquiatria institucional americana no período.

Em “Um estranho no ninho” há uma sequência que ainda hoje ecoa no imaginário das pessoas a respeito da eletroconvulsoterapia (ECT). Em parte por causa dela, é difícil para qualquer psiquiatra falar sobre ECT ao público leigo (e mesmo a outros médicos ou psicólogos) sem ser visto como um torturador.

In the famous words of Nurse Ratched, the treatment “might be said to do the work of the sleeping pill, the electric chair and the torture rack. It’s a clever little procedure, simple, quick, nearly painless it happens so fast, but no one ever wants another one. Ever.”

Leia: How ‘One Flew Over the Cuckoo’s Nest’ changed psychiatry

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A vida secreta de Stephen Fry

Achei o comovente o relato pessoal do genial ator, escritor e cineasta britânico Stephen Fry sobre o transtorno bipolar.

Fry foi diagnosticado com a doença aos trinta e sete anos de idade. Ele conta sobre seus questionamentos e respostas sobre o transtorno afetivo bipolar (TAB) no documentário da BBC Stephen Fry: The secret life of the manic depressive.

Ao longo do seu trajeto pessoal ele entrevista outros artistas que sofrem de TAB ou depressão (unipolar).

O vídeo (em inglês) deve interessar a quem – como eu – gosta de pesquisar sobre a relação entre a criatividade e os transtornos mentais.

Acima, a parte I. Clique aqui, para ver as outras partes.

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Bibliofilia 8

O curta acima em stop-motion conta uma bela história de amor no mundo da literatura.

Spike Jonze acerta mais uma vez.

Os perigos do método

 

O novo filme de David Cronenberg (Spider, Crash, A Mosca) certamente vai entrar para a videoteca dos psicanalistas. A Dangerous Method (2011) deve estrear em novembro e traz Viggo Mortensen no papel de Freud e Michael Fassbender como Carl Jung. A história gira em torno do romance entre Jung e a paciente Sabina Spielrein (vivida por Keira Knigtley).

Apesar de uma versão dessa história já ter ido para as telas há alguns anos, no filme”Jornada da Alma“ (uma jornada capenga conduzida por fraquíssimas atuações em uma produção bem pé-duro, na minha opinião), o novo do Cronenberg parece ser bem atrativo.

É esperar pra ver.

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