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Salada de palavras

cultura obsolescência ideias

“A tarefa [de descobrir se o livro em questão é atual] não é fácil (…) dada a velocidade desconcertante com que todas as ideias desaparecem e caem no esquecimento antes de ter a chance de amadurecer e envelhecer de forma adequada em nossa era, como diz George Steiner, de coisas e pensamentos calculados “para o impacto máximo e a obsolescência instantânea”. Uma época em que, como outro autor observou,  a vida de um best-seller nas estantes das livrarias é algo entre o leite e o iogurte”

Zygmunt Bauman, na introdução de Ensaios sobre o conceito de cultura.

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Salada de palavras

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.

A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia. Paguei-lhe à vista, e subi eufórico em direção a uma rua de onde vinham sons de uma mandolinata inenarrável, e que se esvanecia à medida que eu me aproximava, e que acabou por desaparecer de todo. Sentei-me no chão, aturdido, acendi um cigarro e deixei que ele fumasse por si mesmo, de pois morrei tranquilamente dentro da noite calma.”

Assim começa o brilhante livro A lua vem da Ásia de Campos de Carvalho. O romance conta em primeira pessoa os delírios e peripécias do pobre Astrogildo, um doente mental esquecido em um manicômio.

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“É longo o caso de amor entre a literatura e o mercado. A economia de consumo adora um produto que vende com boa margem de lucro, fica logo obsoleto ou é suscetível de melhoras constantes, e oferece a cada melhora um ganho marginal em utilidade. Para uma economia assim, a novidade que permanece não é apenas um produto inferior; é um produto antitético. Uma obra clássica de literatura é barata, infinitamente reutilizável e, o pior de tudo, não pode ser melhorada”

Jonathan Franzen em Como ficar sozinho

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“A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, durar, seguir vivos nas gerações futuras, enquanto que os produtos deste são fabricados para ser consumidos no instante e desaparecer, como os biscoitos ou a pipoca. Tolstói, Thomas Mann, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver aos seus autores, seguir atraindo e fascinando leitores nos tempos futuros. As novelas brasileiras e os filmes de Bolywood, como os shows da Shakira, não pretendem durar mais que o tempo de sua apresentação e desaparecer para deixar espaço a outros produtos igualmente exitosos e efêmeros. A cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura”. 

Mario Vargas Llosa em La Civilización del espectáculo.

(Via Ler para contar)

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“Em nossos sonhos somos conduzidos a um mundo primitivo. Trata-se de um mundo mais parecido com o do selvagem, da criança, do criminoso, do louco do que com o mundo desperto do respeitável cidadão. Deve-se admitir que a isso se deve, em grande parte, o charme dos sonhos. E é também esse seu valor científico. Através dos nossos sonhos podemos compreender nossa ligação com estágios evolutivos há muito deixados para trás e, pela vivissecção da nossa própria vida onírica, podemos apreender algo a respeito do homem primitivo e da natureza de suas crenças (…)

O interesse [em estudar os sonhos] tem duas facetas. Não só pode nos revelar um mundo arcaico de vasta emoções e pensamentos imperfeitos mas, nos ajudando a obter um claro conhecimento dos processos oníricos comuns, pode proporcionar um avanço na compreensão de muitos dos fenômenos extraordinários do sonho, muitas vezes apresentados a nós por pessoas impressionáveis com algo misterioso ou mesmo sobrenatural.”

Havelock Ellis“The stuff that dreams are made of” (1899) – antes de Freud e sua Interpretação dos sonhos. Texto publicado na Appletons’ Popular Science Monthly.

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“O que seria de nós sem a memória? Esqueceríamos nossas amizades, nossos amores, nossos prazeres, nosso trabalho; o gênio seria incapaz de guardar suas idéias; o mais apaixonado amante perderia sua doçura se não pudesse recordar. Nossa existência estaria reduzida a momentos sucessivos de um presente perpetuamente fugidio; não haveria mais passado. Pobres criaturas que somos, nossa vida é tão vã que não passa de um reflexo de nossa memória.”

Trecho selecionado de Mémoires d’outre-tombe, de François-René de Chateaubriand. O texto foi traduzido livremente por mim a partir da citação no excelente livro Memory: an Anthology (Vintage, 2009). Editado por A.S. Byatt  e Harriet Harvey Wood, a antologia reúne textos sobre memória colhidos da literatura ocidental, de Platão a Shakespeare, de John Locke a Oliver Sacks.

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The Balloon Of The Mind

– William Butler Yeats

Hands, do what you’re bid:
Bring the balloon of the mind
That bellies and drags in the wind
Into its narrow shed.

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“DOS LIVROS INÚTEIS

Que me encontro sentado na proa do navio é algo especialmente engraçado e com certeza tem sua justa causa. Por livros tenho grande apreço e deles possuo um volumoso tesouro. Embora pouco compreenda do que está escrito em qualquer um deles, venero minha biblioteca e não permito que uma mosca sequer lhes cause mal. Quando alguém fala em ciências e artes, logo digo: ‘Em minha casa tenho-as aos montes!’ Afinal, para contentar meu espírito já é suficiente que eu esteja circundado de livros. (…) Ora, quem muito estuda torna-se lunático! Eu sou um senhor de posses, portanto, posso me dar ao luxo de pagar alguém que estude no meu lugar.”

Trecho de A Nau dos Insensatos de Sebatian Brant. recentemente reeditado em português. O livro de 1490, todo ilustrado, é um clássico da literatura satírica medieval. Edição online em alemão aqui.

Esse post vai para do dr. Paulo Hudson, que certamente sabe reconhecer a utilidade dos livros.
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” Era frei Simão de caráter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros em sua cela, donde apenas saía na hora do refeitório e dos ofícios divinos. Não contava amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afeições.(…)

Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaram-se os socorros e prestou-se ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia era mortal; depois de cinco dias, frei Simão expirou.

Durante estes cinco dias de moléstia, a cela de frei Simão esteve cheia de frades. Frei Simão não disse uma palavra durante esses cinco dias; só no último, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho:

- Morro odiando a humanidade!”

Trecho inicial do conto “Frei Simão” de Machado de Assis. Extraído da coleção Contos de Machado de Assis (Editora Record). O volume  seis  reúne contos sob o tema “Desrazão“. Recomendo.

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” – Preferiria não fazê-lo? – repeti, como um eco, levantando-me muito nervoso e atravessando a sala em grandes passadas. – O que está querendo dizer com isso? Por acaso ficou louco? Quero que me ajude a conferir esta página. Tome aqui.

Estendi-lhe o documento.  Mas Bartleby insistiu:

- Preferiria não fazê-lo.

Fitei-o atentamente. O rosto estava sereno, os olhos vagamente calmos. Não havia qualquer vestígio de agitação

Trecho do conto Bartleby, O Escrivão” de Herman Melville. A narrativa  ilustra sintomas de negativismo e catatonia em meio à vida de burocratas americanos do começo do século XX. Recomendo sempre aos residentes de psiquiatria.

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