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Santo transtorno, Batman!

 

Os mais novos não devem lembrar, mas a TV brasileira exibiu durante alguns anos um seriado do Batman (“estrelando Alan West e Burt Ward!”) feito em 1966. A intenção dos produtores dessa versão era passar para a tela o clima colorido dos quadrinhos dos anos 60. Junto com as cores veio também um tom mais leve, humorístico mesmo, acentuado pela exagerada dublagem offbeat brasileira (assista o vídeo acima). O Bruce Wayne dessa versão era um sujeito mezzo bom moço mezzo canastrão (na ótima interpretação amaneirada de Adam West) e os vilões, personagens dignos de desenhos animados no melhor estilo Looney Tunes.

Tudo bem diferente do herói sombrio e atormentado que começou a ser moldado no final dos anos 70 e apareceu praticamente em todas as versões sérias do personagem a partir de meado dos anos 80, cristalizado em histórias como A Piada Mortal e O Cavaleiro das Trevas (de Frank Miller). “Transtornado” talvez seja o adjetivo preciso para Bruce Wayne, o homem por trás da máscara.

Alguns diagnósticos psiquiátricos podem ser levantados, mas dificilmente se sustentarão por muito tempo diante das mudanças do herói ao longo dos anos para – como todo bom arquétipo – acompanhar o zeitgeist. Ora ressaltando o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ora o transtorno dissociativo de personalidade, os escritores variam a visão sobre os conflitos íntimos do Homem Morcego. Algumas versões aparecem mais paranóides, outras, francamente melancólicas e niilistas.

A hipótese do TEPT é fácil de levantar já que o trauma provocado pela visão do assassinato dos pais na infância aparece em todas as versões da história. Mas será que o evento traumático não seria também capaz de provocar profundas mudanças na personalidade do menino multimilionário? Num âmbito psicodinâmico é possível pensar que a violência perpetrada pelo alterego sombrio de Bruce Wayne seja uma reprodução irrefreável e repetitiva da morte dos pais, desejada inconscientemente. Talvez o Cavaleiro das Trevas não passe de um psicopata revestido por um superficial, sádico e delirante senso de justiça.

Mas Batman, até onde eu sei, nunca deitou num divã. Pelo menos não na frente dos leitores. Apesar de assíduo frequentador do Asilo Arkham, o serviço terciário de saúde mental de Gotham City, não há indícios que tenha recebido tratamento psiquiátrico ou psicológico.

Certo é que, independente da tentativa de enquadramento em classificações diagnósticas, o Cruzado Embuçado (para terminar com o involuntário humor da tradução brasileira) segue atraindo a atenção de fãs sempre renovados, talvez por fazer ressoar em todos nós o senso de justiça e, por que não, nossos traços paranóides mais arraigados.

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A loucura em Gotham City

Stephen Ginn do blog Frontier Psychiatry escreveu um artigo para o student BMJ sobre quadrinhos e psiquiatria.

Looking at the psychopathology of comic book characters is an interesting diagnostic challenge and also a newly used approach to medical education. A comic book convention earlier this year was held to educate the public about psychiatric conditions.

O autor se debruça especialmente sobre a psicopatologia dos personagens das histórias de Batman.

O artigo “Comic books and Psychiatry – An innovative way to teach mental health issues” pode ser acessado livremente aqui ou, pelos assinantes da revista britânica, aqui.

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