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Beatles e a neurociência

Você já escutou tanto um disco a ponto de ter a sequência de músicas incrustada na memória? Você sabe que isso aconteceu quando, mesmo muitos anos depois, ao por o disco pra tocar, no final de uma música você sabe exatamente qual é a próxima, ou chega a ouvir dentro da cabeça os acordes iniciais da seguinte.

O pesquisador Josef Rauschecker da Universidade de  Georgetown estuda o papel do sistema motor do cérebro relacionado à memória. Aparentemente, o sistema motor é capaz de gravar sequências de notas musicais, palavras e eventos.  Estudos de neuroimagem funcional conduzidos por Rauschecker mostram que, ao contrário do que se pode imaginar, quando voluntários são solicitados a memorizar sequências musicais, as principais áreas cerebrais envolvidas não são aquelas relacionadas à audição, mas certas áreas motoras.

Segundo o pesquisador, o que o motivou a investigar o assunto foi a curiosidade com a fixação das suas próprias memórias relacionadas a músicas dos Beatles. Talvez, se não fosse pelo Rubber Soul, o Revolver e o White Album, esses estudos sobre o funcionamento da memória não estivessem sendo conduzidos.

Leia mais na matéria: The Beatles’ Surprising Contribution To Brain Science

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Pensamento divergente e criatividade

Gostei dessa matéria: Creativity and IQ, Part I: What Is Divergent Thinking? How Is It Helped by Sleep, Humor and Alcohol?

O autor analisa a função ‘criatividade’ sob a ótica de dois processos de pensamento: convergente e divergente. Segundo o texto, soluções criativas de problemas derivam da diversidade e profundidade da redes semânticas (semantic networks) na mente.

Divergent thinking tasks have been widely used because traditionally creativity has been understood in terms of the accessibility of concepts in in our long term memory systems. Concepts are connected in our brains in ‘semantic networks’.

O texto cita também alguns achados recentes interessantes. Uma boa quantidade de sono e bom-humor parecem influenciar positivamente nas funções ligadas à criatividade.

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Neurociência da estética

Qualquer usuário da internet diante de um :-) enxerga um pequeno rosto sorrindo, apesar de estar vendo apenas três sinais de pontuação. Nosso cébrebro é construído para funcionar assim, reconhecendo imagens familiares – como rostos – em linhas ou desenhos não pictóricos. Já falei um pouco sobre isso, aqui.

O que torna o cérebro apto a apreciar esteticamente uma pintura ou uma foto está diretamente conectado a esse tipo de funcionamento inato. Os grandes artistas intuíram, concluíram de maneira empírica ou apenderam com seus mestres as bases do funcionamento perceptivo.

Há razões evolutivas para nossa cabeça funcionar assim: era muito importante para os nossos ancestrais, por exemplo, perceber potenciais predadores no seu meio. Os mais capazes de avaliar visualmente e interpretar o ambiente, tinham mais chance de sobrevivência.

What the brain draws from: Art and neuroscience é uma ótima matéria da CNN Health que analisa essas e outras questões a propósito de como o cérebro opera diante das artes visuais.

And while individual tastes are varied and have cultural influences, the brain also seems to respond especially strongly to certain artistic conventions that mimic what we see in nature.

Para os interessados no assunto, há uma outra matéria bem interessante sobre como o cérebro reconhece o belo, aqui.

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Delicada tristeza

Noh é uma forma de teatro tradicional japonês no qual o protagonista usa uma máscara. Esse adereço tem um papel fundamental: é através dele que o ator expressa as emoções do personagem. As máscaras são habilmente feitas de modo a mostrar expressões faciais ambíguas. Dependendo da inclinação da face e dos gestos e postura do ator, a máscara pode representar emoções distintas.

Abaixo três fotos de uma mesma máscara feitas mudando a posição da câmera:

Alguns estudos recentes têm tentado compreender as funções cognitivas e seus correlatos anatômicos no cérebro responsáveis pela apreciação estética. O novo campo tem até nome: neuroestética.

Veja esse  estudo que avalia a ativação da amígdala diante das máscaras do Noh: Neural correlates of delicate sadness: an fMRI study based on the neuroaesthetics of Noh masks.

O ótimo blog The Neurocritic (onde encontrei essas referências) pondera que as percepções mais sutis de expressões humanas – inclusive aquelas ambíguas – não podem ser localizadas em áreas específicas ou únicas do cérebro, como demonstra uma recente meta-análise sobre o assunto: The brain basis of emotion: a meta-analytic review

Em linhas gerais, a meta-análise confronta duas propostas antagônicas que tentam explicar as emoções humanas à luz da neurociência. A corrente “localizacionista” busca evidências de áreas específicas responsáveis pelo processamento das emoções – como no estudo das máscaras do Noh. Do outro lado, os “construcionistas” sugerem que as discrete emotions (algo como “emoções sutis”) são resultado de interações em rede de múltiplas áreas/funções cerebrais.

Leia mais aqui: The Art of Delicate Sadness

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Confabulações de Chico Buarque


Daniel Martins de Barros
lembra bem (trocadilho intencional) da presença do sintoma confabulação no livro “Leite Derramado” de Chico Buarque, no artigo Traiçoeira Memória

Confabulação (ou fabulação) é a inserção de memórias “falsas” em lacunas de memória, frequentemente apresentadas por pessoas com quadros demenciais. Em geral, o doente confabula sem perceber, e o conteúdo das memórias implantadas é feito de retalhos de fatos reais ou verossímeis vividos pela pessoa.

Num exemplo, quando perguntado a um portador da doença de Alzheimer sobre o que fez no último final de semana – do qual se sabe que permaneceu no hospital -, este responde com convicção que foi pescar com o filho depois de jogar sinuca com alguns amigos. Em algum momento de sua história – digamos, há trinta anos – ele de fato foi pescar com o filho. Sobre a sinuca, pode-se descobrir, por exemplo, que nunca a praticou, mas que seu pai era um exímio jogador num passado também distante.

No livro de Chico Buarque quem confabula é Eulálio, o personagem-narrador, que contrói uma narrativa com fatos de sua vida costurados por eventos fantasiosos.

Leia o artigo e entenda um pouco mais com um ótimo exemplo na literatura.

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A internet pode te deixar louco?

A resposta é não. Ou, pelo menos, não há dados sérios que mostrem isso.

Quando li há algumas semanas na Folha uma matéria sugerindo que a internet e o uso de gadgets poderia gerar doenças psiquiátricas, pensei em escrever aqui um texto de crítica a esse tipo de avaliação superficial. Não precisei, já que achei no Mind Hacks um ótimo artigo sobre o assunto: No, the web is not driving us mad

No texto, Vaughan Bell usa como exemplo uma matéria de capa recentemente publicada pela Newsweek sobre os supostos males psíquicos causados pela internet. Na matéria da revista, pode-se ler que a web chega a ser responsável até por quadros de psicose.

Bell chama atenção para a precariedade da sustentação científica de afirmações desse tipo, geralmente baseadas – quando baseadas – em evidências fracas ou em casos isolados. Não há, por exemplo, dados em décadas de pesquisa  sobre o assunto que indiquem que a internet esteja entre os fatores ambientais de risco para a esquizofrenia. A própria tentativa – tão citada ultimamente nos meios de comunicação – de catalogar um suposto vício de internet é um erro do ponto de vista científico, como o mesmo autor sugere em outro texto.

The article also manages the usual neuroscience misunderstandings. The internet ‘rewires the brain’ – which I should hope it does, as every experience ‘rewires the brain’ and if your brain ever stops re-wiring you’ll be dead. Dopamine is described as a reward, which is like mistaking your bank statement for the money.

Para os interessados no assunto:  leiam o texto com calma, junto com as referências.

* Acima, uma ilustração do artista James Jean.

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O que a mente vê

 

Eu sei que está um pouco cansado falar bem ou indicar as palestras da TED, mas essa apresentação de 2009 do neurologista e escritor Oliver Sacks vale a recomendação.

Sacks fala da síndrome de Charles Bonnet, que é a ocorrência de alucinações visuais em pacientes com algum grau de déficit visual. Alucinose seria o termo psicopatológico mais preciso, já que o doente percebe a alteração sensoperceptiva como algo estranho à vida psíquica ou, como se diz em psiquiatria, faz crítica ao fenômeno. Oliver Sacks chama a atenção para este fato ressaltando que, nas psicoses, o doente interage ou “acredita” nas alucinações auditivas ou visuais produzidas pelo cérebro.

Charles Bonnet descreveu a síndrome em 1760 a partir do relato das alucinações (ou alucinose) que seu avô experimentava. Depois de 250 anos ainda tentamos entender como o cérebro funciona nessa condição particular.

Dê play e assista ao vídeo, que tem legendas em português.

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Lições de um cérebro danificado

Depois de um dano cerebral é bem comum que pacientes com talento artístico apresentem um déficit cognitivo que comprometa suas habilidades criativas. Encontrei um artigo muito interessante que avalia justamente o oposto: imagens criadas por pessoas com dano neurológico que demonstram persistência ou mudança qualitativa da capacidade de criação artística.

Sim, algumas pessoas podem desenvolver habilidades artísticas depois de um dano cerebral, já falei sobre isso no post Gênio instantâneo. O artigo recente, publicado no períodico Brain, analisa casos de demência, Parkinson, acidente vascular, epilepsia enxaqueca e traumatismo craniano.

A ilustração acima mostra a evolução dos desenhos de um artista com demência com degeneração fronto-temporal. O desenho A foi feito anos antes da doença, os demais mostram representações cada vez mais bizarras e ameaçadoras à medida que a doença progride (o desenho D foi feito três anos após o diagnóstico).

A compreensão do que ocorre no cérebro danificado pode ajudar muito a entender o complexo mecanismo neural da criatividade.

Leia o artigo na íntegra aqui: Pictures as a neurological tool: lessons from enhanced and emergent artistry in brain disease

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Mente iluminada

 

O vídeo acima foi o vencedor do concurso Art of Neuroscience de 2012. A sequência mostra o mapeamento de estruturas e vias neuronais no cérebro humano. A trilha sonora acompanha bem as imagens.

Saiba mais sobre o vídeo aqui: Mentes que brilham, douradas

(via @cienciahoje)

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A mente como matéria


Um contraponto interessante ao post anterior: uma ótima galeria com imagens do sistema nervoso central.

Visite Brains: The mind as matter, organizado pela Wellcome Collection.

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A mente é uma metáfora

Let the soul be compared to a pair of winged horses and charioteer joined in natural union. - Plato (427 BC – 347 BC)

Tem coisas sobre os livros e a literatura que você só encontra na internet.

The Mind is a Metaphor é um site que coleciona citações e trechos literários (em inglês) só com metáforas e analogias cujo tema é a mente (e o espírito, em sentido mais amplo). Lá você pode encontrar o que deseja navegando por categorias que vão desde a natureza da metáfora até a religião do autor que a criou.

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Bob Dylan & a neurociência

Gostei dessa matéria do Guardian que analisa o processo criativo de Bob Dylan à luz da neurociência cognitiva.

A matéria começa com um impasse criativo vivido por Dylan na metade dos anos 60, passa pela descoberta científica das funções cognitivas do hemisfério cerebral direito e pela natureza funcional do que chamamos de insight e termina com a história da criação da clássica canção Like a rolling stone.

Every creative journey begins with a problem. It starts with a feeling of frustration, the dull ache of not being able to find the answer. When we tell one another stories about creativity, we tend to leave out this phase of the creative process. We neglect to mention those days when we wanted to quit, when we believed that our problems were impossible to solve. Instead, we skip straight to the breakthroughs.

Leia aqui: The neuroscience of Bob Dylan’s genius

Bacana.

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Cartum #35

“- Vejam! O mano ficou igual ao Phineas Gage!

O rebuscado senso de humor das azeitonas.

(Por Dosis Diária)

*Não sabe quem foi Phineas Gage? Clique aqui.

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Lobotomia: antes e depois

Durante três décadas – a partir de meados dos anos 30 – o médico americano Walter Freeman realizou perto de 3.500 lobotomias.  Freeman desenvolveu a técnica criada pelo português Egas Moniz e criou um aparelho especial para realizar a cirurgia de maneira rápida, quase ambulatorial. Já fiz dois posts sobre o assunto, aqui e aqui.

Aparentemente, Freeman era obcecado por fotografar os pacientes antes e depois da lobotomia, no intuito de mostrar a melhora obtida com o procedimento. Encontrei no Science & The Arts um slideshow com algumas fotografias do período.

At the time, lobotomy was was considered a miracle, and Freeman was hailed as a hero — and in fact, some patients did report improvement. In hindsight, though, the procedure seems inappropriate and scientifically dubious, and we now know that it destroyed many patients’ lives.

Clique para ver: Walter Freeman’s Photographs

(Bônus: audio-documentário com um dos pacientes mais jovens a ser submetido à lobotomia. Howard Dully, hoje com 56 anos, que procurou por dois anos outros pacientes do dr. Freeman para entrevistar)

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A Era do Insight

Eric Kandel, ganhador do Prêmio Nobel de fisiologia/medicina de 2000, publicou recentemente o livro “The Age of Insight: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present

O blog Frontal Cortex, traz uma resenha sobre o livro e uma ótima entrevista com o autor, reconhecido mundialmente por suas descobertas no campo da neurociência. Além de cientista brilhante, Kandel é mencionado como um intelectual versado em assundos que vão de arte alemã à história da psicanálise.

I think Freud would love modern neuroscience. Freud developed his tripartite structure of the mind, clinical observation, theory of psychoanalysis, in the hope that, someday, this would be translated into brain sciences, he was aware that what he was developing a cognitive psychology – psychoanalysis – and that this was bound to be modified, and, in part, falsified, by biology.(…)In fact, if you look around, it is amazing how much of our view of the mind follows outlines of Freud’s thinking.

O livro deve interessar tanto a quem gosta de história da psiquiatria e da neurociência quanto ao pessoal da psicanálise.

Clique aqui ou na imagem para ler a resenha/entrevista.

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