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Pensamento divergente e criatividade

Gostei dessa matéria: Creativity and IQ, Part I: What Is Divergent Thinking? How Is It Helped by Sleep, Humor and Alcohol?

O autor analisa a função ‘criatividade’ sob a ótica de dois processos de pensamento: convergente e divergente. Segundo o texto, soluções criativas de problemas derivam da diversidade e profundidade da redes semânticas (semantic networks) na mente.

Divergent thinking tasks have been widely used because traditionally creativity has been understood in terms of the accessibility of concepts in in our long term memory systems. Concepts are connected in our brains in ‘semantic networks’.

O texto cita também alguns achados recentes interessantes. Uma boa quantidade de sono e bom-humor parecem influenciar positivamente nas funções ligadas à criatividade.

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Cartas de Van Gogh

Já fiz alguns posts sobre o pintor Van Gogh (aqui e aqui). Sempre dou o exemplo do artista quando quero falar sobre a relação entre transtorno mental e criatividade. Estudos patográficos apontam para a possibilidade de o pintor ter sofrido da doença que hoje chamamos de transtorno bipolar.

Estudos dessa natureza geralmente se baseiam em escritos e relatos de contemporâneos. Encontrei um belo arquivo de cartas de Van Gogh ao colega artista Émile Bernard (1868 – 1941). A correspondência se dava em missivas ricamente ilustradas e escritas em francês.

Clique na imagem para ver o arquivo de cartas. (No menu à esquerda de cada imagem há a opção de traduzir o texto para o inglês)

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Cão de olhos negros

Vi no Mental Elf uma matéria sobre a ineficácia na prevenção de sintomas depressivos das chamadas low-intensity interventions – em português, algo como intervenções leves, ou seja, aquelas que não se baseiam em medicações ou atuação direta do terapeuta. É o caso de atividades físicas de grupo e terapia cognitiva computadorizada.

Pois é, parece que isso não funciona bem para evitar que pacientes com depressão voltem a adoecer, como você pode ler aqui. Mas não foi isso que me chamou a atenção.

O que gostei mesmo foi da menção à canção de Nick Drake chamada Black Eyed Dog (escute no vídeo acima). Aparentemente, a letra é sobre a inevitável instalação da melancolia no espírito das pessoas que sofrem de depressão. Sabidamente, o compositor e músico britânico Nick Drake era portador da doença e suicidou-se poucos meses após gravar a música, depois de tomar uma overdose do antidepressivo imipramina.

A black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog.

I’m growing old and I wanna go home
I’m growing old and I don’t wanna know.

A black eyed dog he called at my door
A black eyed dog he called for more.

Já havia falado sobre Nick Drake aqui. E sobre outras músicas cujo tema é a depressão, aqui.

P.S.: Ainda sofro com problemas no computador. Devo voltar a postar com mais frequência a partir da próxima semana. Té.

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Lições de um cérebro danificado

Depois de um dano cerebral é bem comum que pacientes com talento artístico apresentem um déficit cognitivo que comprometa suas habilidades criativas. Encontrei um artigo muito interessante que avalia justamente o oposto: imagens criadas por pessoas com dano neurológico que demonstram persistência ou mudança qualitativa da capacidade de criação artística.

Sim, algumas pessoas podem desenvolver habilidades artísticas depois de um dano cerebral, já falei sobre isso no post Gênio instantâneo. O artigo recente, publicado no períodico Brain, analisa casos de demência, Parkinson, acidente vascular, epilepsia enxaqueca e traumatismo craniano.

A ilustração acima mostra a evolução dos desenhos de um artista com demência com degeneração fronto-temporal. O desenho A foi feito anos antes da doença, os demais mostram representações cada vez mais bizarras e ameaçadoras à medida que a doença progride (o desenho D foi feito três anos após o diagnóstico).

A compreensão do que ocorre no cérebro danificado pode ajudar muito a entender o complexo mecanismo neural da criatividade.

Leia o artigo na íntegra aqui: Pictures as a neurological tool: lessons from enhanced and emergent artistry in brain disease

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Diamante louco

Syd Barrett fundou a banda Pink Floyd, mas teve de abandoná-la antes do que desejava, no auge do reconhecimento e do sucesso comercial.  O Pink Floyd, porém, nunca abandonou Syd Barret.

Depois da saída do músico, acometido por um quadro psicótico que viria a se tornar crônico, músicas da banda – e um disco inteiro, na verdade – passaram a fazer referência ao elemento perdido. A canção mais conhecida talvez seja Wish you were here, onde fica claro o vácuo deixado pelo principal letrista. Em Shine on you crazy diamond o elemento ‘loucura’ parece pairar como um fantasma sobre a cabeça dos integrantes remanescentes:

You reached for the secret too soon,
You cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.

A revista Mente e Cérebro traz uma matéria interessante sobre a “loucura produtiva” de Syd Barret, chegando a comparar o impacto da obra do músico inglês à ruptura que James Joyce provocou na literatura.

Leia: Eu queria que você estivesse aqui.

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Bob Dylan & a neurociência

Gostei dessa matéria do Guardian que analisa o processo criativo de Bob Dylan à luz da neurociência cognitiva.

A matéria começa com um impasse criativo vivido por Dylan na metade dos anos 60, passa pela descoberta científica das funções cognitivas do hemisfério cerebral direito e pela natureza funcional do que chamamos de insight e termina com a história da criação da clássica canção Like a rolling stone.

Every creative journey begins with a problem. It starts with a feeling of frustration, the dull ache of not being able to find the answer. When we tell one another stories about creativity, we tend to leave out this phase of the creative process. We neglect to mention those days when we wanted to quit, when we believed that our problems were impossible to solve. Instead, we skip straight to the breakthroughs.

Leia aqui: The neuroscience of Bob Dylan’s genius

Bacana.

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A vida secreta de Stephen Fry

Achei o comovente o relato pessoal do genial ator, escritor e cineasta britânico Stephen Fry sobre o transtorno bipolar.

Fry foi diagnosticado com a doença aos trinta e sete anos de idade. Ele conta sobre seus questionamentos e respostas sobre o transtorno afetivo bipolar (TAB) no documentário da BBC Stephen Fry: The secret life of the manic depressive.

Ao longo do seu trajeto pessoal ele entrevista outros artistas que sofrem de TAB ou depressão (unipolar).

O vídeo (em inglês) deve interessar a quem – como eu – gosta de pesquisar sobre a relação entre a criatividade e os transtornos mentais.

Acima, a parte I. Clique aqui, para ver as outras partes.

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Cérebro e criatividade musical

Play what you hear, not what you know — Miles Davis

Encontrei um ótimo texto que lança luz sobre os aspectos – bastante complexos – do processo criativo na música:  Musical Creativity and the Brain

Para os preguiçosos, vão abaixo os pontos mais interessantes do texto:

  • A neurociência da criatividade é um campo – novíssimo, vasto e ainda pouco explorado –  que tem crescido junto com o desenvolvimento de técnicas de imagem neurofuncionais;
  • O que há por trás do que consideramos “inspiração” não é uma explosão de aleatoriedade e caos, mas uma série coordenada de processos cognitivos corriqueiros;
  • As funções do córtex pré-frontal relacionadas à resolução de problemas parecem ser fundamentais para o processo criativo;
  • As funções do cérebro desativadas durante a improvisação – as funções executivas – parecem ser  as mesmas desativadas durante o sonho, a hipnose e a meditação. Por outro lado, as ativadas são as mesmas da linguagem e das habilidades sensório-motoras;
  • Improvisações feitas em grupo – num quarteto de jazz, por exemplo – ativam as áreas cerebrais dos músicos relacionadas à linguagem (Wernicke e Broca). Então é REALMENTE como se eles estivessem conversando.
  • Os estudos até agora apontam que não há apenas uma área ou um único processo ligado à criatividade musical.

Atualização: um amigo me mandou um documentário genial da década de 60 com o legendário pianista Bill Evans, que levanta uma enorme placa escrita “EU JÁ SABIA!” para as informações recém-descobertas pela neurociência. Assistam e comprovem.

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Pop ensandecido

Syd Barrett (1946-2006)

 

Esse é mais um daqueles links pra quem gosta do tema criatividade & transtornos mentais.

Gostei da lista publicada no site da GibsonMad Geniuses: 10 Brilliantly Eccentric Musicians

O rol reúne músicos e compositores do universo pop que tiveram suas vidas tocadas em algum momento pelo transtorno mental ou pela excentricidade. Alguns deles eu não conhecia, o que tornou a lista uma boa oportunidade pra entrar em contato com coisas diferentes.

Alguns da lista eu até já citei aqui, como Brian Wilson (Beach Boys) e Wayne Coyne (The Flaming Lips).

Aqui no Brasil, uma lista dessas certamente incluiria o músico Arnaldo Baptista, dos Mutantes.

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Representações da epilepsia

O Art of Epilepsy é um blog só com referências feitas à epilepsia na arte e na cultura. Acho que não precisa dizer mais nada. Vai .

Na foto acima, Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, que sofria de epilepsia.

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Mais um sobre criatividade

Ernest Hemingway (1899-1961)

 

Sim, mais um estudo sobre um assunto que me interessa muito: a relação entre criatividade e transtorno mental.

Um  estudo retrospectivo feito na Suécia, com uma amostra de 300.000 pessoas com transtorno mental internadas entre 1973 e 2003 (sim, eles lá têm todos esses dados!) mostrou pelo menos dois achados relevantes. Primeiro: ter transtorno bipolar ou se parente de uma pessoa com a doença associou-se à maior chance de ter uma “profissão criativa” – atividades como as de artista visual, ator, escritor, músico e profissional acadêmico foram incluídas nesse grupo de ocupação.

O segundo achado, mais complexo, é  que, na esquizofrenia, apenas o parentesco relacionou-se à uma maior chance de ter uma profissão criativa. O fato de ser portador de esquizofrenia não apareceu associado a esse parâmetro para medir a criatividade.

O artigo na íntegra pode ser acessado aqui por quem assina o British Journal of Psychiatry. Aqui, há uma ótima análise do artigo (inclusive das possíveis falhas metodológicas).

(via Neuroskeptic)

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Aura poética

Uma nova biografia de Emily Dickinson especula que a escritora americana pode ter sofrido de epilepsia. Segundo a biógrafa Lyndall Gordon (que já escreveu sobre a vida de Virginia Woolf, Charlotte Brontë e T.S. Eliot), Dickinson pode ter deixado “pistas” sobre  a moléstia em alguns dos seus poemas.

Aqui, uma matéria sobre a recém-lançada biografia Lives Like Loaded Guns. Na matéria há um trecho do livro, que pode interessar a quem gosta de poesia norte-americana e  estudos patográficos.

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“O gênio é mais carne do que fábula”.

Assisti  ao espetáculo teatral “A Casa Amarela“  do ator e dramaturgo Gero Camilo*. O monólogo conduzido pelo próprio autor é sobre a chegada do pintor Van Gogh em Arles, onde tenta fundar junto com Paul Gauguin uma comunidade de artistas.

Chamou minha atenção no texto a presença frequente de associação de idéias por assonância, uma alteração psicopatológica que costuma ocorrer na mania. Há teorias que sustentam que Van Gogh era portador de transtorno afetivo bipolar, mas não sei se o autor usou esse recurso de linguagem de maneira proposital ou se se trata de uma feliz coincidência.

* Outra contribuição de Gero Camilo à psicopatologia é a tocante interpretação de um paciente psiquiátrico no filme Bicho de Sete Cabeças. A fala do personagem Ceará é amaneirada e tem algum grau de verbigeração, como ocorre em alguns pacientes com esquizofrenia.

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Girassóis e orelhas cortadas

É bem provável que o pintor holandes Vincent Van Gogh (1853 – 1890) sofresse do que chamamos hoje de transtorno afetivo bipolar. Este diagnóstico patográfico pode ser feito com algum grau de certeza a partir de suas correspondências e das descrições feitas por familiares e amigos, entre eles o pintor Paul Gauguin.

O blog Arte da Medicina publicou ano passado um ótimo texto sobre o assunto: Vincent van Gogh – Os Dois Pólos do Artista . Excelente referência em português sobre o assunto.

A maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele “a tristeza não tem fim” carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

Bônus: Um clássico artigo (abstract) do British Journal of Psychiatry para os intessados pelo tema “doença mental e criatividade”, um dos preferidos deste blog:  Creativity and psychopathology. A study of 291 world-famous men

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