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Beatles e a neurociência

Você já escutou tanto um disco a ponto de ter a sequência de músicas incrustada na memória? Você sabe que isso aconteceu quando, mesmo muitos anos depois, ao por o disco pra tocar, no final de uma música você sabe exatamente qual é a próxima, ou chega a ouvir dentro da cabeça os acordes iniciais da seguinte.

O pesquisador Josef Rauschecker da Universidade de  Georgetown estuda o papel do sistema motor do cérebro relacionado à memória. Aparentemente, o sistema motor é capaz de gravar sequências de notas musicais, palavras e eventos.  Estudos de neuroimagem funcional conduzidos por Rauschecker mostram que, ao contrário do que se pode imaginar, quando voluntários são solicitados a memorizar sequências musicais, as principais áreas cerebrais envolvidas não são aquelas relacionadas à audição, mas certas áreas motoras.

Segundo o pesquisador, o que o motivou a investigar o assunto foi a curiosidade com a fixação das suas próprias memórias relacionadas a músicas dos Beatles. Talvez, se não fosse pelo Rubber Soul, o Revolver e o White Album, esses estudos sobre o funcionamento da memória não estivessem sendo conduzidos.

Leia mais na matéria: The Beatles’ Surprising Contribution To Brain Science

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A loucura e seus nomes (II)

Bethlem Royal Hospital, o manicômio mais antigo da Europa. William Hogarth, 1763.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

Dando continuidade à pesquisa iniciada aqui, mais algumas palavras relacionadas ao adoecimento mental:

  • Alienado: literalmente, aquele que se mantém distanciado da realidade, alheado. Do latim alienatus, derivado de alienus, que pode significar muitas coisas: estranho, alheio, isento, livre, impróprio, contrário e inimigo [1]. Alienista é aquele que cuida dos alienados, antigo nome dado aos médicos que tratavam das doenças mentais; talvez o uso mais conhecido na língua portuguesa seja o do título de um conto de Machado de Assis, “O alienista“.
  • Orate: indivíduo sem juízo, tresloucado, louco. Deriva do catalão orat [2] que, por sua vez deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Não é possível determinar se a relação com a loucura se dá pelo significado “alma” (como phrén)  ou por “vento”. Acreditava-se no período medieval que ‘maus ventos’ ou miasmas, podiam afetar a mente. A palavra “orate” também foi tornada célebre em “O alienista“. No conto, o doutor Simão Bacamarte cria uma “casa de orates”, isto é, um asilo para doentes mentais.
  • Mania: no português coloquial significa excentricidade, esquisitice. Na psiquiatria o termo é utilizado para designar o estado de agitação psicomotora ou euforia característicos da fase não-melancólica do transtorno afetivo bipolar (antiga “psicose maníaco-depressiva”). A palavra manie – em francês - foi introduzida na psiquiatria do século XIX por E. Esquirol, e agregava característica a tipos de folie (loucura), como a lypémanie e a monomanie [3]. Deriva do grego manía: ‘loucura, demência’. Maníaco é o louco, geralmente agitado ou “furioso”. No Brasil, comumente a palavra é usada para designar criminosos cruéis e/ou com transtorno mental.
  • Manicômio: estabelecimento para internação e tratamento de loucos. Do italiano manicòmio, de manì(aco) +  -comio, do grego kómeo, ‘eu curo’ [4]. Atualmente as palavras “manicômio” e “manicomial” têm caráter derrogatório, sendo utilizadas quando se quer ressaltar os aspectos negativos associados a instituições de internação de doentes mentais.
  • Frenesi: antigamente utilizado para designar o delírio violento provocado por afecção cerebral aguda, hoje significa agitação, exaltação, atividade intensa. Vem do latim phrenesis ‘delírio frenético’ e provavelmente nos chegou pelo francês phrenesie, no século XIII [5]. A raiz comum é o grego phrén ‘razão, juízo, bom senso’. No Ceará e em outros estados do Nordeste, utiliza-se a corrutela farnesim para desingar uma sensação psíquica de inquietação, impaciência. [6]

 

REFERÊNCIAS

1. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.
2. Alcover, A.M. e Moll, F. de B. (2006) Diccionari català-valencià-balear. 10ª ed. Consultado em http:http://dcvb.iecat.net/
3. Esquirol, E. (1838) Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. 1ª ed. Paris: J.B. Baillière.
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon
5. Houaiss A., Villar M. de S., Franco FM de (2009) Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva.
6. Cabral, T. (1982) Dicionário de termos e expressões populares. Fortaleza: Edições UFC.

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Neurociência da estética

Qualquer usuário da internet diante de um :-) enxerga um pequeno rosto sorrindo, apesar de estar vendo apenas três sinais de pontuação. Nosso cébrebro é construído para funcionar assim, reconhecendo imagens familiares – como rostos – em linhas ou desenhos não pictóricos. Já falei um pouco sobre isso, aqui.

O que torna o cérebro apto a apreciar esteticamente uma pintura ou uma foto está diretamente conectado a esse tipo de funcionamento inato. Os grandes artistas intuíram, concluíram de maneira empírica ou apenderam com seus mestres as bases do funcionamento perceptivo.

Há razões evolutivas para nossa cabeça funcionar assim: era muito importante para os nossos ancestrais, por exemplo, perceber potenciais predadores no seu meio. Os mais capazes de avaliar visualmente e interpretar o ambiente, tinham mais chance de sobrevivência.

What the brain draws from: Art and neuroscience é uma ótima matéria da CNN Health que analisa essas e outras questões a propósito de como o cérebro opera diante das artes visuais.

And while individual tastes are varied and have cultural influences, the brain also seems to respond especially strongly to certain artistic conventions that mimic what we see in nature.

Para os interessados no assunto, há uma outra matéria bem interessante sobre como o cérebro reconhece o belo, aqui.

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O que é psicanálise?

 

Um vídeo que pode confundir mais que educar, mas eu gostei.

Trata-se de um curta animado feito pelo Instituto de Psicanálise da British Psychoanalytic Society. A animação aborda o que acontece durante as sessões de terapia de uma maneira um tanto abstrata e com muita licença poética.

A trilha é muito boa, com destaque para a ótima música do final: It must be something psychological.

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Salada de palavras

“A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, durar, seguir vivos nas gerações futuras, enquanto que os produtos deste são fabricados para ser consumidos no instante e desaparecer, como os biscoitos ou a pipoca. Tolstói, Thomas Mann, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver aos seus autores, seguir atraindo e fascinando leitores nos tempos futuros. As novelas brasileiras e os filmes de Bolywood, como os shows da Shakira, não pretendem durar mais que o tempo de sua apresentação e desaparecer para deixar espaço a outros produtos igualmente exitosos e efêmeros. A cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura”. 

Mario Vargas Llosa em La Civilización del espectáculo.

(Via Ler para contar)

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O louco da turma

Conversando ontem com amigos lembrei do personagem Louco dos quadrinhos da Turma da Mônica.

O Louco costumava aparecer nas histórias do Cebolinha, onde deixava o personagem principal mais perplexo a cada quadrinho. Nas primeiras histórias, o Louco iniciava fugindo de um manicômio e terminava invariavelmente sendo recapturado e posto em uma camisa de força no final do enredo.

O que mais me chamava a atenção nos enredos eram as livres-associações feitas pelo personagem . Em outros momentos, o que surgia era franca concretude do pensamento. Não havia nenhum tipo de delírio sistemático, mas uma sucessão de idéias inusuais, geralmente representando oposição ou inversão de conceitos.

Normalmente a loucura é pensada pelo leigo em nossa cultura desse jeito, como um comportamento quase automático de oposição ao bom-senso e ao convencionalmente aceito. É dada pouca importância ao delírio, que frequentemente é representado pela perda da identidade ou da unidade do Eu – quando um louco crê que é Napoleão, por exemplo.

Se não lembra do Louco, veja aqui uma história animada do personagem: Coisa de Louco

(ou, se preferir, leia uma história aqui)

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Tumblr

Criei um tumblr para rapidinhas: fluxopensamento.tumblr.com

Vai lá.

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Sobre os ombros de gigantes

Achei bacana essa idéia. Ela sintetiza o quanto pode ser complexa a rede de influência que liga as grandes obras intelectuais.

Gostou da imagem? Ela está disponível para compra no site Etsy, aqui.

(Via BlogA)

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