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A Loucura e seus nomes

O pássaro Dodô, extinto no século XVII.

 

As palavras têm poder, ninguém duvida. Ao longo do tempo, as palavras usadas para descrever o que hoje chamamos leiga ou tecnicamente de loucura, psicose, insanidade, maluquice, desrazão e mil outros nomes, entraram na moda ou desapareceram ao sabor do zeitgeist e dos costumes.

Vou tentar, ao longo de alguns posts, explorar as origens etimológicas de algumas palavras usadas correntemente para designar a Loucura. Segundo Berrios [1], o esforço de reconstruir a história da psiquiatria deve partir do resgate da história dos seus conceitos. E, na intenção de desvendar esses conceitos, devemos buscar a origem mesma das palavras utilizadas para expressá-los.

Então vamos a elas:

  • Louco: a palavra em portugês muito provavelmente deriva do espanhol loco. Os primeiros registros em português são do século XIX. No castelhano, significando “demente”, aparecia já no século XII [2]. Como o próprio mistério inerente ao estado da perda da razão, a origem da palavra é controversa. Locus em latim é “lugar” e, apesar de haver quem defenda a ligação desse  étimo com a palavra “louco”, é pouco provável a associação. Ver também louco de pedra.
  • Demência: do latim, dementia (derivada de demens). Demens é o demente, aquele que não está em seu juízo, insensato.  Se mens é intelecto, alma, espírito, antiteticamente, a-mens ou de-mens é aquele sem o atributo da razão [3]. Existe um verbo em português cada vez menos utilizado: “dementar”, que significa “enlouquecer”. Hoje o termo “demência” é utilizada no campo técnico para descrever o processo de deterioração cognitiva adquirida característica de algumas patologias cerebrais.
  • Mentecapto: do latim mente captus, literalmente, “privado da mente”. O primeiro uso parece ter sido feito por Cícero [4] como “Captus mente“. Na nossa literatura, o maior e mais famoso mentecapto é Geraldo Viramundo, o personagem principal do romance picaresco de Fernando Sabino.
  • Doido: como “louco”, seu sinônimo, de origem etimológica incerta. Aparece a primeira vez na língua portuguesa no século XVI, então como doudo. A palavra em sua forma original lusitana serviu no século XVII para dar nome ao pássaro Dodô (ou Dodo), um dos animais-símbolo da extinção provocadas pelo ser humano. Hoje a palavra também corre risco de extinção pelo caráter pejorativo e politicamente incorreto do seu uso.
E é só por esse post. Planejo ir escrevendo e lançando aqui aos poucos a origem e uso de outras palavras relacionadas aos transtornos psiquiátricos.

 

REFERÊNCIAS
1. Berrios, G.E. (2008) Historia de los síntomas de los transtornos mentales, La psicopatologia descritiva desde el siglo XIX. México: Fondo de Cultura Econômica. p. 37
2. Real Academia Española. (2001). Diccionario de la lengua española (22.aed.). Consultado em http://www.rae.es/rae.html

3. Saraiva, F.R. (2006) Novíssimo dicionário latino-português (edição fac-simile). 12ª ed. Belo Horizonte: Garnier
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.

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Confabulações de Chico Buarque


Daniel Martins de Barros
lembra bem (trocadilho intencional) da presença do sintoma confabulação no livro “Leite Derramado” de Chico Buarque, no artigo Traiçoeira Memória

Confabulação (ou fabulação) é a inserção de memórias “falsas” em lacunas de memória, frequentemente apresentadas por pessoas com quadros demenciais. Em geral, o doente confabula sem perceber, e o conteúdo das memórias implantadas é feito de retalhos de fatos reais ou verossímeis vividos pela pessoa.

Num exemplo, quando perguntado a um portador da doença de Alzheimer sobre o que fez no último final de semana – do qual se sabe que permaneceu no hospital -, este responde com convicção que foi pescar com o filho depois de jogar sinuca com alguns amigos. Em algum momento de sua história – digamos, há trinta anos – ele de fato foi pescar com o filho. Sobre a sinuca, pode-se descobrir, por exemplo, que nunca a praticou, mas que seu pai era um exímio jogador num passado também distante.

No livro de Chico Buarque quem confabula é Eulálio, o personagem-narrador, que contrói uma narrativa com fatos de sua vida costurados por eventos fantasiosos.

Leia o artigo e entenda um pouco mais com um ótimo exemplo na literatura.

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Lições de um cérebro danificado

Depois de um dano cerebral é bem comum que pacientes com talento artístico apresentem um déficit cognitivo que comprometa suas habilidades criativas. Encontrei um artigo muito interessante que avalia justamente o oposto: imagens criadas por pessoas com dano neurológico que demonstram persistência ou mudança qualitativa da capacidade de criação artística.

Sim, algumas pessoas podem desenvolver habilidades artísticas depois de um dano cerebral, já falei sobre isso no post Gênio instantâneo. O artigo recente, publicado no períodico Brain, analisa casos de demência, Parkinson, acidente vascular, epilepsia enxaqueca e traumatismo craniano.

A ilustração acima mostra a evolução dos desenhos de um artista com demência com degeneração fronto-temporal. O desenho A foi feito anos antes da doença, os demais mostram representações cada vez mais bizarras e ameaçadoras à medida que a doença progride (o desenho D foi feito três anos após o diagnóstico).

A compreensão do que ocorre no cérebro danificado pode ajudar muito a entender o complexo mecanismo neural da criatividade.

Leia o artigo na íntegra aqui: Pictures as a neurological tool: lessons from enhanced and emergent artistry in brain disease

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Um teste para alucinações

Já escrevi sobre pareidolias aqui no blog.

Um estudo recente avaliou a capacidade de perceber pareidolias em pacientes com demência e controles saudáveis. Foram mostradas imagens como as acima, um pouco borradas e com possibilidade de intepretações dúbias por conta de pareidolias, para todos os participantes. Em seguida foi perguntado sobre o que viam.

Não houve diferença de interpretações das imagens entre as pessoas saudáveis e aquelas com Alzheimer, porém, nos pacientes com um tipo específico de demência – chamada demência com corpos de Lewy – houve uma tendência maior a ver coisas que não estavam nas fotos.

Pareidolias were observed in patients with dementia with Lewy bodies who had visual hallucinations as well as those who did not have visual hallucinations, suggesting that pareidolias do not reflect visual hallucinations themselves but may reflect susceptibility to visual hallucinations.

O teste tem sido chamado de Pareidolia Test e parece se mostrar útil na detecção da demência por corpos de Lewy.

Veja o artigo completo aqui: Pareidolias: complex visual illusions in dementia with Lewy bodies

(achei no Neuroskeptic)

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O Duplo

O delírio de Capgras é também conhecido como delírio do sósia ou do duplo. Nessa alteração patológica do juízo de realidade o paciente crê que pessoas do seu convívio foram substituídas por sósias ou impostores. Essa manifestação é encontradiça não só nos quadros mentais orgânicos como as demências – quando há um prejuízo na capacidade de reconhecer rostos (prosopagnosia) – , mas também na esquizofrenia e em outros quadros psicóticos.

Encontrei uma revisão recente (em espanhol) muito boa sobre o assunto:  El delirio de Capgras: Una revisión

Otras variantes de este defecto en la identificación son el Síndrome de Frégoli (el paciente cree que uno o más individuos han alterado su apariencia para asemejarse a personas familiares), la intermetamorfosis (el paciente cree que las personas de su entorno han intercambiado sus identidades) y el síndrome de dobles subjetivos (el paciente está convencido de que existen dobles exactos a él).

Na literatura, autores como Dostoiévski, Borges e Poe se interessaram pela figura do duplo. Numa rápida pesquisa, achei este outro artigo, sobre o duplo na literatura de Jorge Luis Borges. O enfoque é dado sob a ótica da teoria de Jung.

Na literatura, na arte, na mitologia ou na história, o simbolismo do duplo se faz presente com todas as sugestões filosóficas, psicológicas e morais que em sua aparência e conteúdo se pode perceber. O duplo, que tanto revela quanto amedronta quem com ele se defronta, está presente na duplicação da figura humana ou da personalidade, como podemos ver na lenda do Narciso, ou no livro intitulado “OMédico e o Monstro” de Robert L. Stevenson.

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Demência: ano zero

Gostei muito deste post do Neurophilosophy sobre o primeiro caso do dr. Alois Alzheimer. Uma das coisas curiosas é que a paciente Auguste Deter na época do diagnóstico tinha apenas 51 anos.

On November 25th, 1901, a 51-year-old woman named Auguste Deter was admitted to the hospital, and was examined by Alzheimer. Deter at first presented with impaired memory, aphasia, disorientation and psychosocial incompetence (which was, at that time, the legal definition of dementia)

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