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Inumeráveis estados do ser

O escritor brasileiro Ferreira Gullar relatou recentemente nA Folha suas impressões sobre a obra dos artistas plásticos Emygdio de Barros e Raphael Domingues. Ambos foram pacientes tratados no Serviço de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, criado pela doutora Nise da Silveira, em 1942.

Quem se interessa pela relação entre arte e transtorno mental, certamente já ouviu falar do trabalho de Nise da Silveira e do Museu de Imagens do Insconsciente.

A relação entre arte e loucura ainda hoje, no entanto, é motivo de discussão, mesmo porque há quem afirme que não existe loucura e, sim, como disse Antonin Artaud, “inumeráveis estados do ser”.

O que se chama loucura seria um desses estados. Nessa linha de pensamento, a doutora Nise da Silveira criou o Museu de Imagens do Inconsciente, cujo acervo deveria preservar as obras desses artistas como material de estudo do universo psíquico. Por isso mesmo, proibiu que as obras criadas naquele ateliê do Serviço de Terapêutica fossem comercializadas.

Leia o texto de Ferreira Gullar  na íntegra: Loucura e arte

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Antes e depois da esquizofrenia

"Gatos com guarda-chuvas" - Louis Wain antes da esquizofrenia...

 

Muito diferente da percepção leiga da doença mental, a esquizofrenia não é um transtorno caracterizado pela personalidade m[ultipla. Parte desse mito provém da própria etimologia do termo - em grego skízein quer dizer cisão, divisão, e phren, siginifica sopro ou diafragma e, por extensão, espírito (no sentido de "mente").

O que acontece na esquizofrenia é uma cisão entre as funções mentais, seja entre o pensamento e a expressão afetiva deste (marca sublinhada por Eugen Bleuler, que deu fama ao termo), seja entre a percepção da vida psíquica interior em oposição à realidade objetiva. Na doença, normalmente o mundo externo é vivido como hostil ou persecutório e há um apagamento da fronteira entre o mente e o mundo.

A percepção de mundo do artista britânico Louis Wain (1860 – 1939) mudou assustadoramente após o primeiro surto psicótico, no início da década de 20. O desenhista, conhecido pelos seus desenhos de gatos e filhotes com atitudes e feições humanas, foi admitido pela primeira vez em um hospital psiquiátrico em 1924, com o diagnóstico de esquizofrenia e terminou seus dias sem voltar ao convívio social, desenhando apenas por prazer.

.. e depois da esquizofrenia.

A doença provocou uma mudança significativa no estilo de Wain. Apesar de manter o mesmo tema na maioria dos desenhos, sua obra após o adoencimento se caracteriza por padrões intricados e abstratos como fundo de expressões perturbadoras. As feições outrora familiares do seus gatos passaram a comunicar um quê de perplexidade ou de uma jocosidade difícil de ressoar emocionalmente no observador.

Clique na segunda imagem para ver uma galeria do artista. Ou assista a um vídeo mostrando alguns de seus desenhos, antes e depois da esquizofrenia.

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A internet pode te deixar louco?

A resposta é não. Ou, pelo menos, não há dados sérios que mostrem isso.

Quando li há algumas semanas na Folha uma matéria sugerindo que a internet e o uso de gadgets poderia gerar doenças psiquiátricas, pensei em escrever aqui um texto de crítica a esse tipo de avaliação superficial. Não precisei, já que achei no Mind Hacks um ótimo artigo sobre o assunto: No, the web is not driving us mad

No texto, Vaughan Bell usa como exemplo uma matéria de capa recentemente publicada pela Newsweek sobre os supostos males psíquicos causados pela internet. Na matéria da revista, pode-se ler que a web chega a ser responsável até por quadros de psicose.

Bell chama atenção para a precariedade da sustentação científica de afirmações desse tipo, geralmente baseadas – quando baseadas – em evidências fracas ou em casos isolados. Não há, por exemplo, dados em décadas de pesquisa  sobre o assunto que indiquem que a internet esteja entre os fatores ambientais de risco para a esquizofrenia. A própria tentativa – tão citada ultimamente nos meios de comunicação – de catalogar um suposto vício de internet é um erro do ponto de vista científico, como o mesmo autor sugere em outro texto.

The article also manages the usual neuroscience misunderstandings. The internet ‘rewires the brain’ – which I should hope it does, as every experience ‘rewires the brain’ and if your brain ever stops re-wiring you’ll be dead. Dopamine is described as a reward, which is like mistaking your bank statement for the money.

Para os interessados no assunto:  leiam o texto com calma, junto com as referências.

* Acima, uma ilustração do artista James Jean.

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História conceitual da esquizofrenia

Mais um brilhante texto de German Berrios sobre um dos meus assuntos prediletos da história da psiquiatria: a construção nosológica do que hoje chamamos esquizofrenia.

Schizophrenia: A Conceptual History - Link para o artigo completo (em inglês)

* A bela imagem que ilustra o post é da artista Carne Griffiths

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Procurando sinais

Milton Greek é portador de esquizofrenia paranóide e acredita que explorar o valor simbólico e sentido dos delírios pode ajudar às pessoas que sofrem com sintomas psicóticos.

Finding Purpose After Living With Delusion é uma excelente matéria publicada no New York Times sobre a experiência pessoal de Greek.

“When I began to see the delusions in the context of things that were happening in my real life, they finally made some sense”

O vídeo que acompanha a matéria é realmente emocionante.

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Mais um sobre criatividade

Ernest Hemingway (1899-1961)

 

Sim, mais um estudo sobre um assunto que me interessa muito: a relação entre criatividade e transtorno mental.

Um  estudo retrospectivo feito na Suécia, com uma amostra de 300.000 pessoas com transtorno mental internadas entre 1973 e 2003 (sim, eles lá têm todos esses dados!) mostrou pelo menos dois achados relevantes. Primeiro: ter transtorno bipolar ou se parente de uma pessoa com a doença associou-se à maior chance de ter uma “profissão criativa” – atividades como as de artista visual, ator, escritor, músico e profissional acadêmico foram incluídas nesse grupo de ocupação.

O segundo achado, mais complexo, é  que, na esquizofrenia, apenas o parentesco relacionou-se à uma maior chance de ter uma profissão criativa. O fato de ser portador de esquizofrenia não apareceu associado a esse parâmetro para medir a criatividade.

O artigo na íntegra pode ser acessado aqui por quem assina o British Journal of Psychiatry. Aqui, há uma ótima análise do artigo (inclusive das possíveis falhas metodológicas).

(via Neuroskeptic)

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Além da esquizofrenia

German Berrios (professor emérito de epistemologia psiquiátrica de Cambridge, fundador do periódico History of Psychiatry e meu grande ídolo) escreveu um excelente artigo para o Schizophrenia Bulletin, intitulado “Eugen Bleuler’s Place in the History of Psychiatry“.

O texto fala da colossal contribuição de Eugen Bleuler (pronuncia-se “óiguen blóiler”) à psiquiatria, que se estende para muito além da “descoberta” e batismo da esquizofrenia.

It can be concluded that Bleuler occupies a safe niche in the pantheon of psychiatry but that this is not necessarily due to the fact that he contributed to the history of schizophrenia. As the work of his fellow countrymen is beginning to show, Bleuler was a man for all seasons.

Leia o artigo na íntegra, aqui.

(via h-madness)

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O limiar da psicose

Um bom texto sobre o pródromo da psicose: Slipping into psychosis: living in the prodrome.

It is impossible to predict the precise moment when a person has embarked on a path toward madness, since there is no quantifiable point at which healthy thoughts become insane.

Apesar de muito elucidativo, há duas omissões imperdoáveis no texto: o autor não poderia deixar de citar Karl Jaspers e Klaus Conrad, esse úlimo, o autor do texto mais valioso sobre o pródomo da psicose, com sua conhecida fase de “Trema”.

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