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Adelaide

 

Adelaide” (EUA, 2011 – em inglês, sem legendas ) é um curta-metragem que conta a história de uma garota com transtorno factício. A personagem principal, que dá nome ao filme, cria sintomas e doenças na tentativa de se aproximar das pessoas e receber cuidados.

O transtorno factício recebe também o nome de síndrome de Münchausen. O epônimo deriva do Barão de Münchhausen, um nobre alemão que viveu no século XVIII, famoso por contar histórias mirabolantes e improváveis nas quais figurava como personagem. Em 1951, o médico britânico Richard Asher batizou a síndrome com o nome do barão teutônico em um artigo publicado no The Lancet.

Reserve 12 minutos para assistir ao curta, vale a pena.

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Cada cabeça, uma sentença

Gostei dessa coleção de modelos frenológicos de 1831. As cabeças em miniatura foram esculpidas por William Bally, que foi aluno de Spurzheim, o mais distinto discípulo de Franz Gall.

Os frenologistas acreditavam que o formato e tamanho do cérebro – e, por extensão, suas projeções no crânio – determinavam a personalidade.  Essas cabecinhas devem ter sido usadas para ensinar frenologia ou talvez para servir como referência no estudo.

Leia o que já postei sobre frenologia e correlatos aqui, aqui e aqui.

Clique na imagem para ver mais da coleção, no Science Museum.

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Do trauma à luz

 

O documentário Let there be light (USA, 1946) demorou trinta e cinco anos para sair das gavetas da censura americana. Sua primeira exibição, no Festival de Cannes em 1981, trouxe à luz o filme esquecido do grande cineasta americano John Huston, feito sob encomenda pelo deparatmento de propaganda do exército dos EUA.

O filme mostra o tratamento dado a ex-combatentes da Segunda Guerra incapacitados pelos traumas psíquicos do combate. O motivo da censura foi meramente político: no período, o trauma de guerra – principalmente no âmbito militar – era visto como algo que acometia somente pessoas “fracas”. Como o filme mostra soldados humanizados, bem diferentes dos heróis de guerra imbatíveis imaginados pela população americana, as forças armadas consideraram o documentário um potencial material de anti-propaganda.

Assista acima ao documentário completo (sem legendas) disponível no YouTube.

Clique aqui para ver mais material sobre transtorno de estresse pós-traumático e neuroses de guerra.

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Um transtorno moderno

Quem ensina psiquiatria normalmente gosta de ilustrar suas aulas com dados históricos sobre o assunto em questão. É assim quando vamos falar, por exemplo, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e citamos a síndrome de Da Costa ou o Shell Shock. O problema é que essas entidades não são equivalentes ao TEPT.

(Do mesmo jeito que  a melancolia do século XVIII não é o atual transtorno depressivo, mas sobre isso eu escrevo em outro post).

Dois estudos recentes apontam para o TEPT como uma doença de nossa era. O primeiro, publicado no Journal of Anxiety Disorders, avalia uma extensa lista de dados médicos de combatentes na guerra civil americana e demonstra que não há relatos de flashbacks ou pensamentos intrusivos – que constituem o que chamamos de ‘revivescências traumáticas’, um ponto-chave no diagnóstico de TEPT – em soldados do período.

Outro estudo, publicado na Stress and Health avalia relatos de experiências traumáticas desde o período do Renascimento. Não há dados históricos que levem a crer que existiu no passado uma entidade com características clínicas semelhantes ao transtorno de estresse pós-traumático.

O blog Mind Hacks traz um ótimo texto sobre o assunto: A very modern trauma

Various symptoms would be mentioned at various times, some now associated with the modern diagnosis, some not, but it was simply not possible to find ‘historical accounts of PTSD’.

O assunto deve interessar a quem gosta de história da psiquiatria.

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A voz atrás do divã

Já postei aqui um dos poucos registros filmográficos do pai da psicanálise. Acima, você escuta o único registro conhecido da voz de Sigmund Freud.

A gravação é de 7 de dezembro de 1938 e foi feita por uma equipe da BBC. Apesar da dificuldade de fala por causa de fortes dores devido ao câncer de boca, é possível entender trechos do breve discurso em inglês.

I started my professional activity as a neurologist trying to bring relief to my neurotic patients. Under the influence of an older friend and by my own efforts, I discovered some important new facts about the unconscious in psychic life, the role of instinctual urges, and so on. Out of these findings grew a new science, psychoanalysis, a part of psychology, and a new method of treatment of the neuroses. I had to pay heavily for this bit of good luck. People did not believe in my facts and thought my theories unsavory. Resistance was strong and unrelenting. In the end I succeeded in acquiring pupils and building up an International Psychoanalytic Association. But the struggle is not yet over.

Essa é a voz que Anna O. , Dora e Elizabeth von R. escutaram falando diretamente aos seus inconscientes.

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Amok

Há uma peculiar síndrome psiquiátrica encontrada entre os habitantes do Arquipélago Malaio. O amok é descrito como uma explosão súbita e inesperada de agressividade que acomete indivíduos considerados pacíficos e sem histórico de comportamento violento. Muitos casos de amok terminam tragicamente, seja com a morte dos alvos do ataque de fúria, seja com uma ação fatal para tentar deter o indivíduo agressor.

Segundo as atuais classificaçõeso amok é considerado uma síndrome ligada à cultura, entretanto, tem todas as características de um transe dissociativo. Os sintomas clássicos de amok incluem:

  • Um período inicial de isolamento que dura de horas a dias;
  • Ataques violentos, súbitos e imotivados dirigidos a pessoas que estejam próximas, sejam parentes, amigos ou desconhecidos;
  • Os ataques duram de minutos a dias até que o indivíduo seja contido ou morto;
  • Caso a pessoa acometida sobreviva, após o surto, tipicamente, entra em um estado de estupor ou sono que pode durar dias;
  • Após despertar, geralmente o indivíduo permanece isolado ou em mutismo e é incapaz de recordar o que aconteceu.

Aparentemente, uma das primeiras descrições feitas por um ocidental do amok foi a do capitão James Cook em seus relatos de viagem, na segunda metade do século XVIII.

Apesar de haver outras síndromes semelhantes ao redor do globo (cafard na Polinésia, mal de pelea em Porto Rico e iich’aa entre os Navajo) o amok tornou-se especialmente conhecido, principalmente entre os falantes da língua inglesa, que utilizam a expressão ‘to run amok’ de maneira corrente para designar surtos de fúria inexplicados.

Leia no Providentia um bom artigo sobre o assunto, com breves relatos de caso: When People Run Amok.

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Loucura e suicídio na Era Vitoriana

Encontrei um tese de doutorado sobre alguns aspectos do tratamento psiquiátrico no século XIX. Suicide, lunacy and the asylum in nineteenth-century England da pesquisadora Sarah York discute as caraxterísticas do tratamento dado aos pacientes suicidas em um período interessante da história da psiquiatria.

There is a distinct appreciation of the broader social and political context in which the asylum operated and how this affected suicide prevention and management. This thesis argues that suicidal behaviour, because of the danger associated with it, triggered admission to the asylum and, once admitted, dangerousness and risk continued to dictate the asylum’s handling of suicidal patients.

A tese pode ser lida na íntegra aqui.

(dica de @ChirurgeonsAppr)

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História da frenologia

O blog Providentia traz um ótimo resumo da história da frenologia que menciona os principais nomes dessa ciência do século XVIII.

A frenologia admitia que cada faculdade mental tinha uma localização específica no cérebro. Alguns cientistas no período, notadamente Franz Gall, tentaram determinar como o cérebro funcionava a partir da premissa do mapeamento anatômico das funções. Com os dados empíricos obtidos, o ramo prático da frenologia passou a gerar interesse no meio científico a partir do início do século XIX.

A frenologia prática consistia em tirar medidas do crânio,  principalmente de suas calosidades e saliências, para determinar traços de personalidade do indivíduo. Segundo a teoria vigente, os acidentes da calota craniana refletiam a hipertrofia ou hipotrofia de certas regiões cerebrais. Os achados da frenologia ganharam alguns desdobramentos: Lombroso, por exemplo, utilizou alguns postulados para fundar sua antropologia criminal.

Although the idea that mental abilities were linked to specific locations in the brain dates back to Aristotle, true scientific work into the nature of brain functioning didn’t begin until the late 18th century. While early visionaries such as Emmanuel Swedenborg made some inspired guesses about how the brain worked, it was German neuroanatomist Franz Joseph Gall who can properly be considered the father of phrenology.

Leia aqui a matéria: Reading the bumps

Veja aqui um aparelho do período, o psicógrafo, que seria capaz de medir automaticamente as calosidades do crânio e determinar a personalidade de uma pessoa em poucos minutos.

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Galeria das emoções

Em 1872 Darwin publicou A Expressão das Emoções no Homen e nos Animais. A obra continha ilustrações baseadas nas fotos do fisiologista francês Duchenne de Boulogne.

As famosas – e bizarras – fotos de um sujeito da Era Vitoriana tomando choques no rosto (acima) entraram para a história da medicina. Elas mostram um estudo da fisionomia humana a partir da estimulação elétrica de músculos da mímica facial. Darwin utilizou as imagens produzidas por Duchenne para tentar determinar se havia um núcleo de expressões humanas e se variações culturais poderiam modificar esse núcleo. Ele mostrou as imagens para alguns voluntários e perguntou que expressão cada uma representava.

Recentemente um grupo da Universidade de Cambridge retomou o estudo de Darwin de onde ele o havia deixado. A matéria da Wired Darwin’s Creepiest Experiment Brought Back to Life fala do estudo e traz uma galeria com algumas das fotos de Duchenne.

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Turista patológico

Encontrei no Guardian (depois de uma indicação de @deumilcoses) um artigo sobre o primeiro caso descrito de um fugitivo patológico (ou fugueur).

Albert Dadas, francês de Bordeaux, foi examinado no final do século XIX , aos 26 anos, por Charcot e Gilles de la Tourette em um dos seus vários internamentos. Dadas foi encontrado em várias cidades da Europa após ter percorrido vários quilômetros a pé ou de trem, sem lembrar como havia chegado ali. Por não ter passaporte, frequentemente era enviado a hospitais ou deportado de volta à França.

Em 1887, Philippe Tissié,  então um jovem médico aspirante a psiquiatra, entrou em contato com Dadas e descreveu seu caso. O diagnóstico de Dadas foi de dromomania, ou fuga histérica, já que o paciente só conseguia lembrar de suas viagens através da hipnose.

Leia o artigo aqui: Le Premier Fugueur by Johan Furaker

Em 2011 o artista Johan Furaker fez uma exposição de pinturas inspiradas no caso Albert Dadas. Veja aqui.

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A micróglia por Alzheimer

Acima, um desenho das células da micróglia feito pelo neuropatologista Alois Alzheimer, publicado originalmente em 1911. Tirei a ilustração daqui: Physiology of Microglia

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

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Poe e os lobos frontais

O extraordinário caso do americano Phineas Gage, um operário das estradas de ferro que sobreviveu após ter o crânio atravessado por uma barra de ferro em 1848, virou uma história clínica paradigmática da neurologia e psiquiatria. Após recuperar-se do trauma inicial, Gage apresentou uma profunda mudança na personalidade provocada pelas lesões no lobo frontal.

Mais extraordinário do que o caso é o fato de Edgar Allan Poe ter descrito uma síndrome idêntica, oito anos antes. No conto The Business Man (não achei a versão em português) o personagem principal apresenta boa parte das mudanças de personalidade de uma síndrome do lobo frontal, provocadas por um traumatismo craniano na infância.

Leia um ótimo artigo sobre o assunto: The medical prescience of Edgar Allan Poe

That incident defines the man’s life; he develops a slavish adherence to exactness and obsession with methods that are characteristic of a modern diagnosis of frontal lobe syndrome. After losing his job over a matter of two pennies, Poe’s hero becomes an increasingly violent sociopath, going into the “Assault and Battery trade” and is eventually thrown into prison.

*Bônus: Um recente estudo de neuroimagem avalia o caso Phineas gage

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O prontuário de Hitler

Em 1918, no hospital militar de Pasewalk, o psiquiatra professor Edmund Forster trata, por meio da hipnose, o cabo Adolf Hitler de uma “neurose de guerra” (cegueira histérica). Em 1933, Hitler assume o poder sobre a Alemanha nazista. Pouco tempo depois, Forster entra em contato com um grupo de escritores que viviam em exílio em Paris e passa sigilosamente a eles os seus conhecimentos sobre o caso.

A Revista de Psiquiatria Clínica publicou em 2006 um artigo interessante sobre o prontuário médico do Fürer. O boletim médico original desapareceu e a trágica história que o envolve termina com três assassinatos e dois suicídios.

Pelas atuais classificações o jovem Adolf Hitler – com 29 anos à época do internamento  -  receberia hoje o diagnóstico de anestesia e perda sensorial dissociativa.

Leia aqui o artigo completo- A cegueira histérica de Adolf Hitler: histórico de um boletim médico

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Salada de palavras

“Em nossos sonhos somos conduzidos a um mundo primitivo. Trata-se de um mundo mais parecido com o do selvagem, da criança, do criminoso, do louco do que com o mundo desperto do respeitável cidadão. Deve-se admitir que a isso se deve, em grande parte, o charme dos sonhos. E é também esse seu valor científico. Através dos nossos sonhos podemos compreender nossa ligação com estágios evolutivos há muito deixados para trás e, pela vivissecção da nossa própria vida onírica, podemos apreender algo a respeito do homem primitivo e da natureza de suas crenças (…)

O interesse [em estudar os sonhos] tem duas facetas. Não só pode nos revelar um mundo arcaico de vasta emoções e pensamentos imperfeitos mas, nos ajudando a obter um claro conhecimento dos processos oníricos comuns, pode proporcionar um avanço na compreensão de muitos dos fenômenos extraordinários do sonho, muitas vezes apresentados a nós por pessoas impressionáveis com algo misterioso ou mesmo sobrenatural.”

Havelock Ellis“The stuff that dreams are made of” (1899) – antes de Freud e sua Interpretação dos sonhos. Texto publicado na Appletons’ Popular Science Monthly.

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Uma estranha psiquiatria

Uma matéria curta no The Telegraph fala de como o filme “Um estranho no ninho” (One flew over the cukoo’s nest, EUA, 1975) mudou a cara da psiquiatria.

O filme é baseado no romance homônimo de Ken Kesey. Escrito na década de 60, a história retrata os abusos cometidos pela psiquiatria institucional americana no período.

Em “Um estranho no ninho” há uma sequência que ainda hoje ecoa no imaginário das pessoas a respeito da eletroconvulsoterapia (ECT). Em parte por causa dela, é difícil para qualquer psiquiatra falar sobre ECT ao público leigo (e mesmo a outros médicos ou psicólogos) sem ser visto como um torturador.

In the famous words of Nurse Ratched, the treatment “might be said to do the work of the sleeping pill, the electric chair and the torture rack. It’s a clever little procedure, simple, quick, nearly painless it happens so fast, but no one ever wants another one. Ever.”

Leia: How ‘One Flew Over the Cuckoo’s Nest’ changed psychiatry

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