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Com cara de melancia ou de elefante

Cena do filme “O Homem Elefante” (1980), de David Lynch.

 

Há no Brasil a crença popular de que os desejos alimentares de uma grávida  - sejam eles perversos ou banais - devem ser prontamente satisfeitos, sob pena de o nascituro vir ao mundo com as feições daquilo que privaram a mãe de comer durante a gestão. É esse medo que move maridos desesperadamente  em busca de melancias no inverno ou de pastéis de palmito no meio da madrugada. Ninguém quer ter um filho com cara de melancia ou de pastel de palmito.

Eu acreditava que isso era um traço folclórico exclusivamente brasileiro até ler o curioso caso de Mary Toft, que supostamente teria dado luz a uma ninhada de coelhos em 1726. Segundo o relato, após uma vontade não-saciada de comer carne coelho, a inglesa passou a parir filhotes mal-formados de coelho. O caso foi investigado por uma equipe especialmente designada pelo próprio rei George I e, evidentemente, mostrou-se uma farsa.

O que me chamou a atenção é que o texto menciona o fenômeno chamado Maternal impression (“impressões maternas”) que, segundo a teoria médica vigente no século XVIII, explicaria a ocorrência de malformações e defeitos congênitos. De acordo com essa idéia, fortes experiências emocionais vividas pela mãe marcariam de alguma forma o bebê. Essa teoria só seria descartada no meio científico mais de um século depois da farsa de Mary Toft.

Joseph Merrick, o famoso “Homem Elefante”, escreveu em sua biografia que a deformidade que o tornou famoso na Inglaterra Vitoriana seria decorrente de um episódio no qual sua mãe quase foi pisoteada por um elefante, durante sua gestação. (No final do século XX  foi determinado que a doença de Merrick seria a síndrome de Proteus).

Aparentemente, a crença na possibilidade de moldar externamente um feto na vida intra-uterina é universal  (existe, por exemplo, o Lihi, nas Filipinas) e muito antiga. O relato bíblico em Gênesis 30:36-43 afirma que Jacó criou engenhosamente um rebanho de ovelhas listradas e malhadas colocando galhos de árvores com apenas parte da casca retirada – o que criava uma “matriz de impressão” com desenhos de listras e manchas – no local onde os animais acasalavam. O contato físico dos bichos com a madeira criaria, então, as listras e manchas no pelo dos filhotes gerados ali.

O pensamento humano dá essas voltas insondáveis e isso nunca deixa de me surpreender.

ResearchBlogging.org

Shildrick, M. (2000). Maternal Imagination: Reconceiving First Impressions Rethinking History, 4 (3), 243-260 DOI: 10.1080/136425200456958

Bynum, B. (2002). Maternal impressions The Lancet, 359 (9309) DOI: 10.1016/S0140-6736(02)07963-1

Cohen, M., Optiz, J., & Reynolds, J. (1988). Further diagnostic thoughts about the elephant man American Journal of Medical Genetics, 29 (4), 777-782 DOI: 10.1002/ajmg.1320290407

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Loucura e suicídio na Era Vitoriana

Encontrei um tese de doutorado sobre alguns aspectos do tratamento psiquiátrico no século XIX. Suicide, lunacy and the asylum in nineteenth-century England da pesquisadora Sarah York discute as caraxterísticas do tratamento dado aos pacientes suicidas em um período interessante da história da psiquiatria.

There is a distinct appreciation of the broader social and political context in which the asylum operated and how this affected suicide prevention and management. This thesis argues that suicidal behaviour, because of the danger associated with it, triggered admission to the asylum and, once admitted, dangerousness and risk continued to dictate the asylum’s handling of suicidal patients.

A tese pode ser lida na íntegra aqui.

(dica de @ChirurgeonsAppr)

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