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O enigma de Kafka

No ano passado a psiquiatria cearense perdeu um dos seus principais nomes, o professor Gerardo da Frota Pinto.

O dr. Frota Pinto, versado que era em muitos assuntos, escreveu sobre psiquiatria clínica, psicopatologia e psicologia, sem esquecer das outras ciências humanas e da arte.

Há pouco na internet sobre sua obra e sua vida. Um amigo encontrou um  texto publicado em 2003 sobre o imaginário do escritor Franz Kafka. O ensaio, intitulado O enigma de Kafka (uma abordagem psicopatológica), pode ser lido na íntegra aqui.

Kafka, que viveu mais ou menos na mesma época e no mesmo país que Freud, mas que não se conheciam, emprega em suas produções literárias, técnicas de psicodinâmica como a fusão onírica, com o real e de catarse, ou seja, a ab-reação ou descarga de idéias ou emoções em sua forma original que se libertam do inconsciente para o consciente, técnicas essas que Freud havia desenvolvido na terapia psicanalítica.

Há alguns erros sintáticos e na ortografia de nomes e termos médicos que acredito serem resultado da transcrição de material oral, sem revisão posterior. O leitor mais atento deve escusar essas falhas em nome do valor didático do texto.

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Salada de palavras

“É longo o caso de amor entre a literatura e o mercado. A economia de consumo adora um produto que vende com boa margem de lucro, fica logo obsoleto ou é suscetível de melhoras constantes, e oferece a cada melhora um ganho marginal em utilidade. Para uma economia assim, a novidade que permanece não é apenas um produto inferior; é um produto antitético. Uma obra clássica de literatura é barata, infinitamente reutilizável e, o pior de tudo, não pode ser melhorada”

Jonathan Franzen em Como ficar sozinho

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Confabulações de Chico Buarque


Daniel Martins de Barros
lembra bem (trocadilho intencional) da presença do sintoma confabulação no livro “Leite Derramado” de Chico Buarque, no artigo Traiçoeira Memória

Confabulação (ou fabulação) é a inserção de memórias “falsas” em lacunas de memória, frequentemente apresentadas por pessoas com quadros demenciais. Em geral, o doente confabula sem perceber, e o conteúdo das memórias implantadas é feito de retalhos de fatos reais ou verossímeis vividos pela pessoa.

Num exemplo, quando perguntado a um portador da doença de Alzheimer sobre o que fez no último final de semana – do qual se sabe que permaneceu no hospital -, este responde com convicção que foi pescar com o filho depois de jogar sinuca com alguns amigos. Em algum momento de sua história – digamos, há trinta anos – ele de fato foi pescar com o filho. Sobre a sinuca, pode-se descobrir, por exemplo, que nunca a praticou, mas que seu pai era um exímio jogador num passado também distante.

No livro de Chico Buarque quem confabula é Eulálio, o personagem-narrador, que contrói uma narrativa com fatos de sua vida costurados por eventos fantasiosos.

Leia o artigo e entenda um pouco mais com um ótimo exemplo na literatura.

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Salada de palavras

“A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, durar, seguir vivos nas gerações futuras, enquanto que os produtos deste são fabricados para ser consumidos no instante e desaparecer, como os biscoitos ou a pipoca. Tolstói, Thomas Mann, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver aos seus autores, seguir atraindo e fascinando leitores nos tempos futuros. As novelas brasileiras e os filmes de Bolywood, como os shows da Shakira, não pretendem durar mais que o tempo de sua apresentação e desaparecer para deixar espaço a outros produtos igualmente exitosos e efêmeros. A cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura”. 

Mario Vargas Llosa em La Civilización del espectáculo.

(Via Ler para contar)

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Torrente de palavras

A hipergrafia, uma compulsão irresistível por escrever – em verso ou prosa – pode ser encontrada na epilepsia, notadamente naquelas com origem no lobo temporal. Também pacientes em episódio maníaco ou esquizofrenia podem apresentar essa necessidade de escrever abundantemente.

Há quem diga que o escritor russo Fiódor Dostoiévski apresentava o sintoma como parte da sua epilepsia. A mesma suspeita é levantada quando se fala de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas.

Em algumas condições não necessariamente patológicas, a hipergrafia também pode render a entrada no panteão da literatura. É o caso do escritor americano Arthur Crew Inman (1895-1963).

Entre 1919 e 1963 Inman escreveu um diário com nada menos que 17 milhões de palavras sobre eventos, pessoas e observações de um período de mais de quatro décadas do século XX. Em breve será lançado um filme com John Hurt sobre a vida do autor. Veja aqui o site oficial: Hypergraphia.

Acima, ilustrando o post, um poema comcreto de Lewis Carroll intitulado “The Mouse’s Tale” (um trocadilho entre tale e tail, respectivamente, conto e cauda)

(Peguei a dica do filme em The Neurocritic)

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O Fazendeiro do Ar


Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Tirei uns dias de férias. Volto próxima semana.

Programei algumas postagens automáticas para esses dias; entre elas esse minidocumentário (que parece material do Ler Para Contar).

O Fazendeiro do Ar faz parte de uma série de filmes dirigidos pelo grande escritor Fernando Sabino sobre outros de igual magnitude. Esse é sobre Carlos Drummond de Andrade, que aparece muito descontraído e à vontade por conta da antiga amizade com o diretor.

A grande noite umbrosa* de Poe

Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Assisti ao filme O Corvo (EUA, 2012), livremente baseado na vida e obra de Edgar Allan Poe. A trama, que transforma os dias finais do escritor americano em uma história policial, não é boa, mas serviu para reavivar no meu córtex – ultimamente tão desmemoriado – algumas coisas interessantes sobre o autor de The Raven.

Lembrei de um panfleto distribuído na casa de Edgar Allan Poe, transformada em museu na Filadélfia, que apresenta fatos históricos que desmentem os supostos alcoolismo e adicção a ópio imputados ao escritor. Segundo o texto (leia aqui) a má fama foi arquitetada por um crítico e rival literário de Poe chamado Rufus Griswold.

Veio à memória também um artigo médico que postei no blog há quase dois anos sobre as circunstâncias misteriosas da morte de Edgar Allan Poe. Releia aqui: O mistério final de Poe

Por último, lembrei do belíssimo poema A Dream Within a Dream, que empresta algumas linhas para o fechamento do filme, antes dos créditos finais.

* “A grande noite umbrosa” é a tradução do nosso Machado de Assis para “the Night’s Plutonian shore“, frase magistral de The Raven. Veja aqui a tradução completa do Bruxo do Cosme Velho para um dos maiores poemas da língua inglesa.

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Poe e os lobos frontais

O extraordinário caso do americano Phineas Gage, um operário das estradas de ferro que sobreviveu após ter o crânio atravessado por uma barra de ferro em 1848, virou uma história clínica paradigmática da neurologia e psiquiatria. Após recuperar-se do trauma inicial, Gage apresentou uma profunda mudança na personalidade provocada pelas lesões no lobo frontal.

Mais extraordinário do que o caso é o fato de Edgar Allan Poe ter descrito uma síndrome idêntica, oito anos antes. No conto The Business Man (não achei a versão em português) o personagem principal apresenta boa parte das mudanças de personalidade de uma síndrome do lobo frontal, provocadas por um traumatismo craniano na infância.

Leia um ótimo artigo sobre o assunto: The medical prescience of Edgar Allan Poe

That incident defines the man’s life; he develops a slavish adherence to exactness and obsession with methods that are characteristic of a modern diagnosis of frontal lobe syndrome. After losing his job over a matter of two pennies, Poe’s hero becomes an increasingly violent sociopath, going into the “Assault and Battery trade” and is eventually thrown into prison.

*Bônus: Um recente estudo de neuroimagem avalia o caso Phineas gage

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Ulysses em quadrinhos

Encontrei uma versão online de Ulysses de James Joyce, em quadrinhos. Robert Berry, autor da proeza, desenhou todos os capítulos do livro, além de criar uma guia de leitura para cada um deles.

Pode interessar tanto a quem já leu o livro quanto a quem tem preguiça de se aventurar por suas numerosas folhas.

(Os lacanianos adoram  obra de Joyce e, no dia 16 de junho, costumam comemorar o Bloomsday, uma homenagem ao livro Ulysses celebrada nas vinte e quatro horas em que se passa a saga do personagem Leopold Bloom.)

Clique para ler: Ulysses Seen.

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A mente é uma metáfora

Let the soul be compared to a pair of winged horses and charioteer joined in natural union. - Plato (427 BC – 347 BC)

Tem coisas sobre os livros e a literatura que você só encontra na internet.

The Mind is a Metaphor é um site que coleciona citações e trechos literários (em inglês) só com metáforas e analogias cujo tema é a mente (e o espírito, em sentido mais amplo). Lá você pode encontrar o que deseja navegando por categorias que vão desde a natureza da metáfora até a religião do autor que a criou.

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Dostoiévski, suicídio e paranoia

Encontrei uma excelente dica de leitura no ótimo blog Ler para Contar, de Ju Diniz.

O texto A Docilidade em Dostoiévski dá uma palhinha da novela Uma Criatura Dócil de um dos gigantes da literatura russa.

Na história, uma jovem de 16 anos, órfã e pobre, é levada a se casar com um usurário mais velho, cuja personalidade é marcada pelo ciúme e paranoia. O romance relata a breve história do casamento, a partir da perspectiva atormentada do marido, em desespero pelo suicídio da mulher.

Vai lá.

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Shakespeare e o suicídio

Gostei deste texto que li no blog The Art of Psychiatry sobre o suicídio nas peças mais famosas de William Shakespeare.

A autora Katrina Davis discute, com um sutil senso de humor, como seria possível salvar os personagens do trágico fim pelo auto-extermínio. Ela sugere, por exemplo, que nos dias de hoje Ofélia (da peça Hamlet) poderia ser encaminhada a um serviço de Intervenção Precoce para manejo de um primeiro surto.

We have seen that there are a number of deaths in Shakespeare tragedies our society might view as preventable. Public health measures against suicide and poisoning may have helped Juliet, and her Romeo might have been helped by offender rehabilitation. Treatment for mental health or emotional problems might have helped Hamlet and Lady Macbeth. An integrated approach to assessing and managing cognitive decline may have helped King Lear and his family.

É em inglês, mas vale a pena ler com calma.

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Bibliofilia 8

O curta acima em stop-motion conta uma bela história de amor no mundo da literatura.

Spike Jonze acerta mais uma vez.

Tolstói e as lições da morte

Reserve alguns minutos para ler o artigo A Night in Arzamas – How Tolstoy’s obsession with mortality became a teachable moment.

O texto fala da presença do tema ‘medo da morte’ na obra de Liev Tolstoi (destacando a famosa novela “A Morte de Ivan Ilitch“) e de como suas idéias ajudaram a moldar o que chamamos hoje de tanatologia.

Tolstoy “anticipat[es] freely and indirectly the revelations of the medical analyst”, Napier wrote. Ilych evolves though stages of denial, anger, bargaining and depression before arriving eventually at a tragically short-lived state of acceptance: “Well, then, let there be pain”, Ilych thinks to himself before finding that his fear of death has been finally extinguished.

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Bibliofilia 7

Achei a imagem acima, de uma edição de 1893 de Othello: The Moor of Venice, no belo blog Book Graphics.

(E que me lembrou de escrever qualquer dia sobre a síndrome de Otelo.)

O site é uma galeria de belas ilustrações de livros, com muita coisa de Shakespeare.

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