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Aura santa

O quadro “Vision” do pintor francês Alphonse Osbert (1857-1939) ocupa hoje, com seus 2,35m de altura, uma das paredes do Museu de Orsay em Paris. A obra não está exposta nas salas mais frequentadas – a dos impressionistas, por exemplo -, mas certamente não passa despercebida do visitante mais sensível.

A tela ilustra o êxtase religioso de Santa Genoveva (Sainte Geneviève), padroeira de Paris. Segundo os relatos históricos, a jovem santa impediu o ataque dos hunos à cidade no ano de 512, convocando os cidadãos da capital francesa a rezar e a jejuar.

No quadro de Osbert, vemos uma jovem de pé, em rígida posição, braços extendidos para baixo e mãos entrelaçadas, num gesto de prece. A expressão do olhar é difícil de determinar: há algo entre a angústia e a perplexidade. A dúvida é acentuada pela sombra que preenche as órbitas e pela mímica estatuesca do resto da face. Ao redor da cabeça há uma auréola brilhante (também chamada classicamente de aurahalo ou  nimbo).

Aparentemente, a obra despetou interesse nos primeiros estudiosos da histeria na França. Visto à luz dos estudos de Charcot em Salpetrière, a personagem da cena podia muito bem representar um estado de estupor dissociativo. A impressão que o quadro me causou, contudo, é mais neurológica do que psiquiátrica.

A pintura me remete imediatamente aos estados pré-ictais da epilepsia, isto é, as crises parciais que podem preceder comumente as crises tônico-clônicas generalizadas. Em português, chamamos isso de aura. Há quem defenda que muitas e importantes visões religiosas, de Maomé no islamismo a Paulo de Tarso no catolicismo, pasando por Joseph Smith na religião Mórmon, podem ser explicadas por esse fenômeno [1], que é frequentemente associado a alucinações visuais, desrealização, despersonalização ou sentimentos oceânicos de êxtase [2].

(Crises assim eram experimentadas pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski tanto que, as auras desse tipo foram apelidadas de Epilepsia de Dostoiévski. [3])

Etimologicamente, há uma interessante coincidência entre as palavras aura e auréola. Já expliquei aqui que orat – derivada de aura/auratus, no latim  ’vento, sopro’ - provém do catalão e associa-se no espanhol e no português a “orate”, isto é, louco. No caso das palavras auréola ou aura, significando o contorno luminoso que simboliza santidade em pinturas sacras, a origem remonta a “ouro” (o dourado é cor convencional do símbolo) em grego e latim. Não é impossível que a palavra aura utilizada para o fenómeno epiléptico possua, a um só tempo, os dois sentidos: o que se refere à santidade e o que se refere à loucura.

Aí voltamos ao quadro de Alphonse Osbert. A representação da Santa Genoveva intriga e atrai pelo mistério oculto da santidade vivida intimamente. A arte tem dessas coisas. Intuitivamente, através dos seus ramificados caminhos simbólicos, aponta para a face mais verdadeira e bela dos fenômenos humanos.

ResearchBlogging.org

1.DEWHURST, K., & BEARD, A. (1970). Sudden Religious Conversions in Temporal Lobe Epilepsy The British Journal of Psychiatry, 117 (540), 497-507 DOI: 10.1192/bjp.117.540.497

2.Amâncio, E., Zymberg, S., & Pires, M. (1994). Epilepsia do lobo temporal e aura com alegria e prazer: relato de dois casos e revisão de literatura Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 52 (2), 252-259 DOI: 10.1590/S0004-282X1994000200018

3.Cirignotta, F., Todesco, C., & Lugaresi, E. (1980). Temporal Lobe Epilepsy with Ecstatic Seizures (So-Called Dostoevsky Epilepsy) Epilepsia, 21 (6), 705-710 DOI: 10.1111/j.1528-1157.1980.tb04324.x

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Estranhos à razão

Em 1938 a revista LIFE publicou o ensaio do fotógrafo Alfred Eisenstaedt sobre o serviço psiquiátrico Pilgrim State Hospital. As imagens documentam o estado em que se encontrava as instituições manicomiais norte-americanas no final da década de 30.  Clique na imagem acima para ver as fotos.

Mentally balanced people shun and fear the insane. The general public refuses to face the terrific problem of what should be done for them. Today, though their condition has been much improved, they are still the most neglected, unfortunate group in the world. 

As fotos nos lançam a um período da história da psiquiatria em que a assistência se confundia com demandas econômicas de um país em crescimento, notadamente aquela de manter à margem da sociedade sadia o indivíduo incapaz de produzir.

(via Desde el manicómio)

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A loucura e seus nomes (II)

Bethlem Royal Hospital, o manicômio mais antigo da Europa. William Hogarth, 1763.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

Dando continuidade à pesquisa iniciada aqui, mais algumas palavras relacionadas ao adoecimento mental:

  • Alienado: literalmente, aquele que se mantém distanciado da realidade, alheado. Do latim alienatus, derivado de alienus, que pode significar muitas coisas: estranho, alheio, isento, livre, impróprio, contrário e inimigo [1]. Alienista é aquele que cuida dos alienados, antigo nome dado aos médicos que tratavam das doenças mentais; talvez o uso mais conhecido na língua portuguesa seja o do título de um conto de Machado de Assis, “O alienista“.
  • Orate: indivíduo sem juízo, tresloucado, louco. Deriva do catalão orat [2] que, por sua vez deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Não é possível determinar se a relação com a loucura se dá pelo significado “alma” (como phrén)  ou por “vento”. Acreditava-se no período medieval que ‘maus ventos’ ou miasmas, podiam afetar a mente. A palavra “orate” também foi tornada célebre em “O alienista“. No conto, o doutor Simão Bacamarte cria uma “casa de orates”, isto é, um asilo para doentes mentais.
  • Mania: no português coloquial significa excentricidade, esquisitice. Na psiquiatria o termo é utilizado para designar o estado de agitação psicomotora ou euforia característicos da fase não-melancólica do transtorno afetivo bipolar (antiga “psicose maníaco-depressiva”). A palavra manie – em francês - foi introduzida na psiquiatria do século XIX por E. Esquirol, e agregava característica a tipos de folie (loucura), como a lypémanie e a monomanie [3]. Deriva do grego manía: ‘loucura, demência’. Maníaco é o louco, geralmente agitado ou “furioso”. No Brasil, comumente a palavra é usada para designar criminosos cruéis e/ou com transtorno mental.
  • Manicômio: estabelecimento para internação e tratamento de loucos. Do italiano manicòmio, de manì(aco) +  -comio, do grego kómeo, ‘eu curo’ [4]. Atualmente as palavras “manicômio” e “manicomial” têm caráter derrogatório, sendo utilizadas quando se quer ressaltar os aspectos negativos associados a instituições de internação de doentes mentais.
  • Frenesi: antigamente utilizado para designar o delírio violento provocado por afecção cerebral aguda, hoje significa agitação, exaltação, atividade intensa. Vem do latim phrenesis ‘delírio frenético’ e provavelmente nos chegou pelo francês phrenesie, no século XIII [5]. A raiz comum é o grego phrén ‘razão, juízo, bom senso’. No Ceará e em outros estados do Nordeste, utiliza-se a corrutela farnesim para desingar uma sensação psíquica de inquietação, impaciência. [6]

 

REFERÊNCIAS

1. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.
2. Alcover, A.M. e Moll, F. de B. (2006) Diccionari català-valencià-balear. 10ª ed. Consultado em http:http://dcvb.iecat.net/
3. Esquirol, E. (1838) Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. 1ª ed. Paris: J.B. Baillière.
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon
5. Houaiss A., Villar M. de S., Franco FM de (2009) Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva.
6. Cabral, T. (1982) Dicionário de termos e expressões populares. Fortaleza: Edições UFC.

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A Loucura e seus nomes

O pássaro Dodô, extinto no século XVII.

 

As palavras têm poder, ninguém duvida. Ao longo do tempo, as palavras usadas para descrever o que hoje chamamos leiga ou tecnicamente de loucura, psicose, insanidade, maluquice, desrazão e mil outros nomes, entraram na moda ou desapareceram ao sabor do zeitgeist e dos costumes.

Vou tentar, ao longo de alguns posts, explorar as origens etimológicas de algumas palavras usadas correntemente para designar a Loucura. Segundo Berrios [1], o esforço de reconstruir a história da psiquiatria deve partir do resgate da história dos seus conceitos. E, na intenção de desvendar esses conceitos, devemos buscar a origem mesma das palavras utilizadas para expressá-los.

Então vamos a elas:

  • Louco: a palavra em portugês muito provavelmente deriva do espanhol loco. Os primeiros registros em português são do século XIX. No castelhano, significando “demente”, aparecia já no século XII [2]. Como o próprio mistério inerente ao estado da perda da razão, a origem da palavra é controversa. Locus em latim é “lugar” e, apesar de haver quem defenda a ligação desse  étimo com a palavra “louco”, é pouco provável a associação. Ver também louco de pedra.
  • Demência: do latim, dementia (derivada de demens). Demens é o demente, aquele que não está em seu juízo, insensato.  Se mens é intelecto, alma, espírito, antiteticamente, a-mens ou de-mens é aquele sem o atributo da razão [3]. Existe um verbo em português cada vez menos utilizado: “dementar”, que significa “enlouquecer”. Hoje o termo “demência” é utilizada no campo técnico para descrever o processo de deterioração cognitiva adquirida característica de algumas patologias cerebrais.
  • Mentecapto: do latim mente captus, literalmente, “privado da mente”. O primeiro uso parece ter sido feito por Cícero [4] como “Captus mente“. Na nossa literatura, o maior e mais famoso mentecapto é Geraldo Viramundo, o personagem principal do romance picaresco de Fernando Sabino.
  • Doido: como “louco”, seu sinônimo, de origem etimológica incerta. Aparece a primeira vez na língua portuguesa no século XVI, então como doudo. A palavra em sua forma original lusitana serviu no século XVII para dar nome ao pássaro Dodô (ou Dodo), um dos animais-símbolo da extinção provocadas pelo ser humano. Hoje a palavra também corre risco de extinção pelo caráter pejorativo e politicamente incorreto do seu uso.
E é só por esse post. Planejo ir escrevendo e lançando aqui aos poucos a origem e uso de outras palavras relacionadas aos transtornos psiquiátricos.

 

REFERÊNCIAS
1. Berrios, G.E. (2008) Historia de los síntomas de los transtornos mentales, La psicopatologia descritiva desde el siglo XIX. México: Fondo de Cultura Econômica. p. 37
2. Real Academia Española. (2001). Diccionario de la lengua española (22.aed.). Consultado em http://www.rae.es/rae.html

3. Saraiva, F.R. (2006) Novíssimo dicionário latino-português (edição fac-simile). 12ª ed. Belo Horizonte: Garnier
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.

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A familia e o álcool

Quem acompanha este blog deve lembrar da ilustração “A evolução do bebarrão – do primeiro copo ao cemitério”, feita para reforçar a idéia de abstinência do “movimento da temperança” (teetotalism).

Na mesma linha, encontrei um libreto francês feito por volta de 1900 que sublinha os problemas relacionados ao uso de álcool. Clique na imagem acima para ver a sequência.

Gosto particularmente da imagem que ilustra “A loucura“(La folie).

(via The Retronaut)

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Cartum #40

(Por André Dahmer)

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Diamante louco

Syd Barrett fundou a banda Pink Floyd, mas teve de abandoná-la antes do que desejava, no auge do reconhecimento e do sucesso comercial.  O Pink Floyd, porém, nunca abandonou Syd Barret.

Depois da saída do músico, acometido por um quadro psicótico que viria a se tornar crônico, músicas da banda – e um disco inteiro, na verdade – passaram a fazer referência ao elemento perdido. A canção mais conhecida talvez seja Wish you were here, onde fica claro o vácuo deixado pelo principal letrista. Em Shine on you crazy diamond o elemento ‘loucura’ parece pairar como um fantasma sobre a cabeça dos integrantes remanescentes:

You reached for the secret too soon,
You cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.

A revista Mente e Cérebro traz uma matéria interessante sobre a “loucura produtiva” de Syd Barret, chegando a comparar o impacto da obra do músico inglês à ruptura que James Joyce provocou na literatura.

Leia: Eu queria que você estivesse aqui.

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Cartum #39

(Overman, por Laerte)

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Sorôco, Guimarães Rosa e a loucura

 

Me inspirei no ótimo blog Ler para Contar, da minha esposa Ju Diniz, para lembrar do livro Primeiras Estórias do gênio mineiro Guimarães Rosa.

Há um conto no livro que, junto com o celebrado “A terceira margem do rio”, também fala da loucura. A estória é “Sorôco, sua mãe, sua filha” que nos conta do sofrimento do personagem principal prestes a embarcar num trem “duas mulheres, para longe, para sempre.”

A capacidade de Guimarães de emocionar ao mesmo tempo em que nos põe em contato com o insondável do transtorno mental só perde para a sua maestria na lida com a palavra.

Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas – virundangas: matéria de maluco.

Para quem ainda não tem essa pérola na estante, vai aqui uma versão online do conto.

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Loucura na TV

Abaixo, duas caracterizações essencialmente semelhantes da idéia de que a figura do doente psiquiátrico se confunde com a do médico que o trata. A primeira é de um episódio do Monty Python Flying Circus de 1972, conhecida pelo famoso bordão “My brain hurts!”.

A segunda é do programa Os Trapalhões, provavelmente do começo da década de 1990. Havia um personagem mais ou menos regular interpretado pelo Didi que caracterizava um louco. Quem acompanhava  o programa deve lembrar do personagem que usava chapéu com uma mão no topo. Achei mais este e este esquetes do humorístico brasileiro.

 

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Alucinações ao piano

Um paper recente investiga a natureza das alucinações visuais relatadas pelo compositor Frédéric Chopin (1810-1849). Segundo os pesquisadores do estudo a alteração psicopatológica do autor de célebres Noturnos seria provavelmente decorrente de uma epilepsia do lobo temporal.

Chopin costumava descrever vívidas e breves alucinações lilliputianas (alucinações visuais cujos objetos  podem ser pessoas ou criaturas diminutas) em cartas aos amigos.

The visions he described, such as demons crawling out of his piano, are now known as Lilliputian hallucinations: detailed visions of people or objects that are much smaller than they are in life. The authors rule out schizophrenia and other common psychoses because Chopin’s hallucinations were visual, not auditory, and because he lacked other telltale symptoms such as eye problems or migraines.

Aqui, o link para a matéria da Science: Frédéric Chopin’s ‘Madness’ Diagnosed

(Dica de Carlos Clayton)

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I wanna be sedated

Músicas sobre a loucura, a paranóia ou o processo de perder a razão. Algumas com senso de humor, outras nem tanto:

I wanna be sedated/ Psychotherapy (Ramones)
Shine on you crazy diamond /Brain damage (Pink Floyd)
Where is my mind? (The Pixies)
Subterranean homesick blues (Bob Dylan)
Basket case (Green Day)
Psycho killer (Talking Heads)
Under pressure (Queen & David Bowie)
Acute Schizophrenia Paranoia Blues (The Kinks)
Walking the cow (Daniel Jhonston)
Crazy (Gnarls Barkley)
Somebody’s watching me (Rockwell ft. Michael Jackson)
Son of Sam (Elliott Smith)
Paranoid (Black Sabbath)
Once (Pearl Jam)
Undone – the sweater song (Weezer)

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