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Estranhos à razão

Em 1938 a revista LIFE publicou o ensaio do fotógrafo Alfred Eisenstaedt sobre o serviço psiquiátrico Pilgrim State Hospital. As imagens documentam o estado em que se encontrava as instituições manicomiais norte-americanas no final da década de 30.  Clique na imagem acima para ver as fotos.

Mentally balanced people shun and fear the insane. The general public refuses to face the terrific problem of what should be done for them. Today, though their condition has been much improved, they are still the most neglected, unfortunate group in the world. 

As fotos nos lançam a um período da história da psiquiatria em que a assistência se confundia com demandas econômicas de um país em crescimento, notadamente aquela de manter à margem da sociedade sadia o indivíduo incapaz de produzir.

(via Desde el manicómio)

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A loucura e seus nomes (II)

Bethlem Royal Hospital, o manicômio mais antigo da Europa. William Hogarth, 1763.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

Dando continuidade à pesquisa iniciada aqui, mais algumas palavras relacionadas ao adoecimento mental:

  • Alienado: literalmente, aquele que se mantém distanciado da realidade, alheado. Do latim alienatus, derivado de alienus, que pode significar muitas coisas: estranho, alheio, isento, livre, impróprio, contrário e inimigo [1]. Alienista é aquele que cuida dos alienados, antigo nome dado aos médicos que tratavam das doenças mentais; talvez o uso mais conhecido na língua portuguesa seja o do título de um conto de Machado de Assis, “O alienista“.
  • Orate: indivíduo sem juízo, tresloucado, louco. Deriva do catalão orat [2] que, por sua vez deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Não é possível determinar se a relação com a loucura se dá pelo significado “alma” (como phrén)  ou por “vento”. Acreditava-se no período medieval que ‘maus ventos’ ou miasmas, podiam afetar a mente. A palavra “orate” também foi tornada célebre em “O alienista“. No conto, o doutor Simão Bacamarte cria uma “casa de orates”, isto é, um asilo para doentes mentais.
  • Mania: no português coloquial significa excentricidade, esquisitice. Na psiquiatria o termo é utilizado para designar o estado de agitação psicomotora ou euforia característicos da fase não-melancólica do transtorno afetivo bipolar (antiga “psicose maníaco-depressiva”). A palavra manie – em francês - foi introduzida na psiquiatria do século XIX por E. Esquirol, e agregava característica a tipos de folie (loucura), como a lypémanie e a monomanie [3]. Deriva do grego manía: ‘loucura, demência’. Maníaco é o louco, geralmente agitado ou “furioso”. No Brasil, comumente a palavra é usada para designar criminosos cruéis e/ou com transtorno mental.
  • Manicômio: estabelecimento para internação e tratamento de loucos. Do italiano manicòmio, de manì(aco) +  -comio, do grego kómeo, ‘eu curo’ [4]. Atualmente as palavras “manicômio” e “manicomial” têm caráter derrogatório, sendo utilizadas quando se quer ressaltar os aspectos negativos associados a instituições de internação de doentes mentais.
  • Frenesi: antigamente utilizado para designar o delírio violento provocado por afecção cerebral aguda, hoje significa agitação, exaltação, atividade intensa. Vem do latim phrenesis ‘delírio frenético’ e provavelmente nos chegou pelo francês phrenesie, no século XIII [5]. A raiz comum é o grego phrén ‘razão, juízo, bom senso’. No Ceará e em outros estados do Nordeste, utiliza-se a corrutela farnesim para desingar uma sensação psíquica de inquietação, impaciência. [6]

 

REFERÊNCIAS

1. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.
2. Alcover, A.M. e Moll, F. de B. (2006) Diccionari català-valencià-balear. 10ª ed. Consultado em http:http://dcvb.iecat.net/
3. Esquirol, E. (1838) Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. 1ª ed. Paris: J.B. Baillière.
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon
5. Houaiss A., Villar M. de S., Franco FM de (2009) Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva.
6. Cabral, T. (1982) Dicionário de termos e expressões populares. Fortaleza: Edições UFC.

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Flores para o fim de uma era

Em 2003 o hospital psiquiátrico Massachusetts Mental Health Center estava prestes a ser demolido depois de nove décadas de funcionamento.

A artista Anna Schuleit enxergou a possibilidade de deixar uma lembrança bela do hospital para a posteridade, preenchendo a construção com 28.000 flores. Durante quatro dias antes da demolição a instalação foi aberta à visitação do público. As fotos só recentemente vieram parar na internet.

Não costumo gostar de instalações mas essa ficou interessante. Veja as fotos e a história aqui (junto com uma entrevista com a artista).

(achei no Mind Hacks)

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O mundo fechado dos asilos

Entre 2007 e 2008  o fotógrafo Cristopher Payne visitou setenta hospitais psiquiátricos abandonados em trinta estados dos EUA. A documentação fotográfica rendeu uma coleção de imagens intitulada Asylum: Inside the Closed World of State Mental Hospitals.

We tend to think of mental hospitals as “snake pits”—places of nightmarish squalor and abuse—and this is how they have been portrayed in books and film. Few Americans, however, realize these institutions were once monuments of civic pride, built with noble intentions by leading architects and physicians, who envisioned the asylums as places of refuge, therapy, and healing.

Pelas fotografias dá para perceber que muitos hospitais funcionavam como cidades autônomas, onde quase tudo do que precisavam era produzido no próprio local como comida, energia e até roupas e sapatos.

Impossível não notar como o ar de abandono dá uma atmosfera sombria às fotos.

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Vidas deixadas para trás

Raramente eu deparo com coisas tão comoventes como a exposição The Lives They Left Behind –  Suitcases from a State Hospital Attic.

A coleção de relatos e fotografias – que já se desdobrou em uma exposição itinerante e um livro – organiza-se a partir do material encontrado em malas abandonadas pelos pacientes do Willard Psychiatric Center, no estado de Nova York. O conteúdo foi encontrado após o fechamento da instituição em 1995.

Alguns dos pacientes chegaram a passar mais de sessenta anos no hospital, abandonados por suas famílias ou distantes de sua pátria natal. As maletas  carregam os vestígios das ricas e complexas existências dos seus portadores antes do internamento no Willard Center. Realmente tocante.

The suitcases and the life stories of the people who owned them raise questions that are difficult to confront.  Why were these people committed to this institution, and why did so many stay for so long?  How were they treated?  What was it like to spend years in a mental institution, shut away from a society that wanted to distance itself from people it considered insane?

Aqui o site oficial da exposição, com fotos e histórias de alguns pacientes.

Mais fotos das malas feitas pelo fotógrafo Jon Crispin podem ser vistas aqui e aqui.

Aqui, o livro na Amazon.com.

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Três hospícios

Três links sobre três importantes hospitais psiquiátricos.

O Hospital Bellevue, em Nova York, é o hopital público mais antigo dos EUA. Sua ala psiquiátrica é famos por ter recebido artistas como o poeta Charles Ginsberg, o músico Charles Mingus, o punk Sid Vicious e o escritor Norman Mailer. Checkout Time at the Asylum é uma boa matéria da revista New York sobre o hospital e seus pacientes.

O Hospício Pedro II foi o primeiro a ser fundado no Brasil. Hoje transformado em Instituto Phillippe Pinel, continua como centro de referência da psiquiatria no Rio de Janeiro. O artigo Instituto Philippe Pinel: origens históricas dá uma ótima idéia do percurso dessa importante instituição nacional.

Bethlem Blog é o site oficial dos arquivos históricos do Bethlem Royal Hospital, localizado em Londres. ‘Bedlam‘ como é popularmente conhecido (a palavra também virou sinônimo de ‘hospício’ na língua inglesa), é um dos hospitais psiquiátricos mais antigos do mundo (fundado em 1247!).

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A paralisia geral progressiva

Até o começo do século XX os quadros psiquiátricos provocados por neurossífilis eram tão comuns que os grandes livros de psiquiatria e psicopatologia traziam capítulos devotados exclusivamente ao assunto. Sífilis terciária, periencefalite crônica difusa, neurolues e paralisia geral progressiva são alguns nomes da manifestação tardia da infecção pelo Treponema pallidum.

O quadro neurológico da sífilis pode se manisfestar através de sintomas psiquiátricos de maneiras bem diversas. Há relatos de casos que vão desde catatonia a episódios maníacos, incluindo quadros psicóticos clinicamente indistintos da esquizofrenia.

O Hospício Pedro II, o primeiro hospital psiquiátrico do Brasil, tinha na década de 30 um pavilhão exclusivamente destinado a pacientes com neurossífilis. Algumas décadas mais tarde a construção viria a tornar-se o que hoje é o Instituto Phillippe Pinel, na cidade do Rio de Janeiro.

A imagem que ilustra este post é de uma interessante coleção de pôsteres educativos sobre a sífilis da década de 1940.

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Rockterapia

 

Achei muito interessante esse vídeo de um show da banda novaiorquina de rock The Cramps no final dos anos 70. Trata-se de uma apresentação gratuita feita pela banda no hospital psiquiátrico Napa State Mental Hospital durante uma turnê por cidades americanas.

É emocionante ver a reação dos pacientes à música e a interação deles com os artistas (que me parecem muito à vontade).

Quem me mandou a dica foi o amigo Quinderé, ressaltando que o comportamento dos pacientes não era nada diferente daquele do público habitual da banda. Concordo.

O que é o air guitar, senão uma ecopraxia?

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História ilustrada da psiquiatria

O site da CBS News publicou uma coleção de fotos raras da psiquiatria do século XIX e começo do século XX. Veja a galeria aqui.

Psychiatry has come a long way since the days when patients were shunned from society and shackled in loony bins. Psychiatrists of yore experimented with numerous techniques for treating mental disorders – some that paved the way for psychiatry and are even used today.

Na foto acima, uma sessão de musico-terapia na qual uma cantora de ópera se apresenta para pacientes da ala feminina na década de 1920. Acreditava-se então que certas frequências sonoras eram capazes de acalmar as pessoas com transtornos mentais. Por conta disso, era comum alguns hospitais americanos terem suas próprias bandas de música.

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Dos anúncios direto para a mente

Bem curiosa esta seleção de anúncios publicitários veiculados na revista americana Mental Hospitals na década de 1950.

O que mais chamou a minha atenção foi o da Pepsi, que recomenda o refrigerante para pacientes com recusa alimentar, quando uma “dieta líquida forçada” for indicada. Bizarro.

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