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Beatles e a neurociência

Você já escutou tanto um disco a ponto de ter a sequência de músicas incrustada na memória? Você sabe que isso aconteceu quando, mesmo muitos anos depois, ao por o disco pra tocar, no final de uma música você sabe exatamente qual é a próxima, ou chega a ouvir dentro da cabeça os acordes iniciais da seguinte.

O pesquisador Josef Rauschecker da Universidade de  Georgetown estuda o papel do sistema motor do cérebro relacionado à memória. Aparentemente, o sistema motor é capaz de gravar sequências de notas musicais, palavras e eventos.  Estudos de neuroimagem funcional conduzidos por Rauschecker mostram que, ao contrário do que se pode imaginar, quando voluntários são solicitados a memorizar sequências musicais, as principais áreas cerebrais envolvidas não são aquelas relacionadas à audição, mas certas áreas motoras.

Segundo o pesquisador, o que o motivou a investigar o assunto foi a curiosidade com a fixação das suas próprias memórias relacionadas a músicas dos Beatles. Talvez, se não fosse pelo Rubber Soul, o Revolver e o White Album, esses estudos sobre o funcionamento da memória não estivessem sendo conduzidos.

Leia mais na matéria: The Beatles’ Surprising Contribution To Brain Science

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Triste nota azul

“Blue” em inglês não significa somente a cor azul. Principalmente nos Estados Unidos, blues quer dizer um tipo de sentimento melancólico semelhante à nossa saudade. A música de origem negra que leva o nome da cor não foi batizada em vão; ela foi forjada pela melancolia do povo africano transformado escravo na América do Norte. Algo como o banzo dos nossos escravos.

Do ponto de vista musical, há uma intrigante característica no lamento cantado do blues. A chamada “blue note” é uma nota musical que não se encontra na escala de tons e semi-tons do modelo ocidental. Ela é obtida na guitarra, por exemplo, através de uma técnica chamada bend, que consiste em esticar a corda tocada pela palheta com o dedo que a pressiona, para baixo ou para cima. Isso produz uma nota fora do intervalo tradicional que, usada em determinados pontos da construção melódica, dá a sensação de um choro ou lamento. O mesmo efeito pode ser conseguido com a voz.

Não entendeu? Ouça aqui uma das primeiras gravações do blues, do pioneiro Blind Lemon Jefferson. Escute como ele canta a canção “Long Lonesome Blues”.

I walked from Dallas, I walked to Wichita Falls
I say I walked from Dallas, I walked to Wichita Falls
Hadn’t a’ lost my sugar,  I wasn’t gonna walk at all.

Repare em como as notas das sílabas walked e Wichita são pronunciadas. Elas são blue notes na melodia. A música do vídeo que ilustra este post também  traz várias inflexões desse tipo na voz de Billie Holiday em “Gee baby, ain’t I good to you?”. Na mesma canção, perceba como a guitarra abusa da técnica.

Interessante notar como a música é capaz de sintonizar de maneira sutil em nós sentimentos e emoções. Já tinha se dado conta disso?

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Cão de olhos negros

Vi no Mental Elf uma matéria sobre a ineficácia na prevenção de sintomas depressivos das chamadas low-intensity interventions – em português, algo como intervenções leves, ou seja, aquelas que não se baseiam em medicações ou atuação direta do terapeuta. É o caso de atividades físicas de grupo e terapia cognitiva computadorizada.

Pois é, parece que isso não funciona bem para evitar que pacientes com depressão voltem a adoecer, como você pode ler aqui. Mas não foi isso que me chamou a atenção.

O que gostei mesmo foi da menção à canção de Nick Drake chamada Black Eyed Dog (escute no vídeo acima). Aparentemente, a letra é sobre a inevitável instalação da melancolia no espírito das pessoas que sofrem de depressão. Sabidamente, o compositor e músico britânico Nick Drake era portador da doença e suicidou-se poucos meses após gravar a música, depois de tomar uma overdose do antidepressivo imipramina.

A black eyed dog he called at my door
The black eyed dog he called for more
A black eyed dog he knew my name
A black eyed dog.

I’m growing old and I wanna go home
I’m growing old and I don’t wanna know.

A black eyed dog he called at my door
A black eyed dog he called for more.

Já havia falado sobre Nick Drake aqui. E sobre outras músicas cujo tema é a depressão, aqui.

P.S.: Ainda sofro com problemas no computador. Devo voltar a postar com mais frequência a partir da próxima semana. Té.

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Intermezzo

Charlotte Gainsbourg fez uma canção chamada IRM, que é a sigla em francês para ressonância magnética (imagerie par résonance magnétique). A música agrega barulhos de ressonância e tem uma letra poeticamente neurocientífica:

Leave my head demagnetised
Tell me where the trauma lies
In the scan of pathogen
Or the shadow of my sin

>> Estou meio fora do ar esses dias por problemas no computador. Volto a seguir, não me abandonem.

Gênio instantâneo

2012 © Clive Barker

 

Já falei sobre o savantismo aqui. Só não falei que o quadro pode ocorrer não apenas no autismo ou em condições inatas, mas que também pode ser adquirido.

Antes de sair batendo a cabeça por aí tentando ficar mais inteligente, saiba que o savant adquirido é extremamente raro.  Um bom artigo do The Atlantic fala sobre o tema e cita alguns casos, entre eles o do fotógrafo Eadweard Muybridge e o do músico Derek Amato.

Amato sofreu um traumatismo craniano ao mergulhar numa piscina aos 40 anos de idade. Após se recuperar do trauma descobriu que conseguia tocar piano habilmente e compor com facilidade, apesar de nunca ter tido treinamento musical antes do acidente. Veja aqui um vídeo com o depoimento do músico tardio.

Em alguns casos muito raros de demência fronto-temporal pode ocorrer um fenômeno parecido. Na doença, partes do córtex até então sub-utilizadas podem ser recrutadas após o dano neurológico em áreas afetadas. É como se, ao utilizar a “reserva” funcional por meio da neuroplasticidade, o cérebro ativasse funções adormecidas surpreendentes.

Leia aqui o artigo: Eureka! When a Blow to the Head Creates a Sudden Genius

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Intermezzo

 

A idéia que os Ramones tinham de ‘psicoterapia’ certamente não era a mais adequada. Se bem que prefiro acreditar que o título da música acima seja mais um jogo de palavras entre psychotherapy (‘psicoterapia’) e psycho therapy (‘terapia psicopata’).

I am a teenage schizoid
The one your parents despise

Como quase tudo dos Ramones o clipe é bem naïve e cheio de humor negro. Repare nos clichés sobre a psiquiatria institucional americana.

Eu gosto.

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Omnia Vincit Cantus*

 

O vídeo acima é comovente. O senhor Henry, residente de um abrigo para idosos, passa a maior parte do tempo em um estado catatônico (provavelmente decorrente de um quadro demencial avançado), até que uma de suas filhas tem a idéia de trazer um iPod com as músicas que seu pai gostava.

A reação é surpreendente.

Quem comenta o vídeo é Oliver Sacks.

* Adaptei a frase de VirgílioOmnia vincit amor“(O amor vence tudo), trocando o “amor” por “música”.

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Bob Dylan & a neurociência

Gostei dessa matéria do Guardian que analisa o processo criativo de Bob Dylan à luz da neurociência cognitiva.

A matéria começa com um impasse criativo vivido por Dylan na metade dos anos 60, passa pela descoberta científica das funções cognitivas do hemisfério cerebral direito e pela natureza funcional do que chamamos de insight e termina com a história da criação da clássica canção Like a rolling stone.

Every creative journey begins with a problem. It starts with a feeling of frustration, the dull ache of not being able to find the answer. When we tell one another stories about creativity, we tend to leave out this phase of the creative process. We neglect to mention those days when we wanted to quit, when we believed that our problems were impossible to solve. Instead, we skip straight to the breakthroughs.

Leia aqui: The neuroscience of Bob Dylan’s genius

Bacana.

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Intermezzo

 

Só recentemente me dei conta que a linda música I Get a Kick Out of You de Cole Porter é sobre tédio.

Apesar do ritmo dançante a letra fala de um profundo taedim vitae.

My story is much to sad to be told
But practically everything leaves me totally cold
The only exception I know is the case
When I’m out on a quiet spree, fighting vainly the old ennui
And I suddenly turn and see
Your fabulous face

(Atenção para a espetacular interpretação de Ella Fitzgerald e para a letra da segunda estrofe, escrita em uma época em que usar cocaína era socialmente aceito e falado abertamente.)

História da neurociência

“We didn’t start the scanner” é o filme vencedor do concurso Brains On Film, promovido pelo UCL Institute of Cognitive Neuroscience (ICN).

O clipe conta a história da neurociência cognitiva em três minutos e meio.

We didn’t start the scanner – but we’ve strong attraction to that big contraption.
Get inside the magnet… we need activations for our publications.

Engraçadinho. Você vê a letra aqui, na descição do vídeo.

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Intermezzo

 

Só uma música pra fechar o domingo. Josh Rouse – I Will Live on Islands

I will live on islands and I will see the sun.

Cérebro e criatividade musical

Play what you hear, not what you know — Miles Davis

Encontrei um ótimo texto que lança luz sobre os aspectos – bastante complexos – do processo criativo na música:  Musical Creativity and the Brain

Para os preguiçosos, vão abaixo os pontos mais interessantes do texto:

  • A neurociência da criatividade é um campo – novíssimo, vasto e ainda pouco explorado –  que tem crescido junto com o desenvolvimento de técnicas de imagem neurofuncionais;
  • O que há por trás do que consideramos “inspiração” não é uma explosão de aleatoriedade e caos, mas uma série coordenada de processos cognitivos corriqueiros;
  • As funções do córtex pré-frontal relacionadas à resolução de problemas parecem ser fundamentais para o processo criativo;
  • As funções do cérebro desativadas durante a improvisação – as funções executivas – parecem ser  as mesmas desativadas durante o sonho, a hipnose e a meditação. Por outro lado, as ativadas são as mesmas da linguagem e das habilidades sensório-motoras;
  • Improvisações feitas em grupo – num quarteto de jazz, por exemplo – ativam as áreas cerebrais dos músicos relacionadas à linguagem (Wernicke e Broca). Então é REALMENTE como se eles estivessem conversando.
  • Os estudos até agora apontam que não há apenas uma área ou um único processo ligado à criatividade musical.

Atualização: um amigo me mandou um documentário genial da década de 60 com o legendário pianista Bill Evans, que levanta uma enorme placa escrita “EU JÁ SABIA!” para as informações recém-descobertas pela neurociência. Assistam e comprovem.

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Pop ensandecido

Syd Barrett (1946-2006)

 

Esse é mais um daqueles links pra quem gosta do tema criatividade & transtornos mentais.

Gostei da lista publicada no site da GibsonMad Geniuses: 10 Brilliantly Eccentric Musicians

O rol reúne músicos e compositores do universo pop que tiveram suas vidas tocadas em algum momento pelo transtorno mental ou pela excentricidade. Alguns deles eu não conhecia, o que tornou a lista uma boa oportunidade pra entrar em contato com coisas diferentes.

Alguns da lista eu até já citei aqui, como Brian Wilson (Beach Boys) e Wayne Coyne (The Flaming Lips).

Aqui no Brasil, uma lista dessas certamente incluiria o músico Arnaldo Baptista, dos Mutantes.

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Intermezzo

 

Aproveitando a deixa do último post, a música “Love Will Tear Us Apart” da banda britânica Joy Division.

O líder e vocalista Ian Curtis suicidou-se aos 23 anos. É possível que Curtis sofresse de um transtorno depressivo agravado por uma epilepsia mal controlada.

A vida do artista foi transformada em filme em 2007.

Intermezzo

Eu sei que a música não é nova. Mas é que acabei de lembrar que uma das versões do clip da música Crazy do Gnarls Barkley traz uma animação psicodélica muito bacana baseada nas imagens do Teste de Rorscharch.

Como o clip não pode ser postado, clique aqui (ou na imagem) pra assistir.

Não deve ser por acaso que a letra da música é sobre o processo de enlouquecer. Qualquer dia escrevo mais sobre as referências na cultura pop ao Teste de Rorscharch.

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