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As viagens de Oliver Sacks

Encontrei na revista Piauí um texto muito bacana de Oliver Sacks sobre suas experiências com drogas psicoativas na década de 60. Além de relatar suas “viagens”, Sacks adiciona uma boa pitada de informação histórica, como é comum na sua escrita.

Num plano menos ambicioso, as drogas são usadas não tanto para iluminar, expandir ou concentrar a mente, mas pela sensação de prazer e euforia que podem proporcionar. Mesmo os primeiros mórmons, proibidos de consumir chá ou café, em sua longa marcha até o estado de Utah encontraram na beira da estrada uma erva simples, o chá mórmon, cuja infusão restabelecia e estimulava os combalidos peregrinos. Era a éfedra, que contém efedrina, similar às anfetaminas em seus aspectos químico e farmacológico.

Fiquei surpreso ao saber que o célebre neurologista e escritor inglês já viajou um bocado embalado por lsd, maconha, artane, hidrato de cloral, anfetaminas e morfina. Em um ponto das suas experiências, Sacks chega a ter o delírio da síndrome de Capgras.

Leia o texto todo aqui: Estados alterados

(Não deixe de ler também sobre outra célebre experiência com drogas que já postei aqui: Robert Crumb sobre o LSD)

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O que a mente vê

 

Eu sei que está um pouco cansado falar bem ou indicar as palestras da TED, mas essa apresentação de 2009 do neurologista e escritor Oliver Sacks vale a recomendação.

Sacks fala da síndrome de Charles Bonnet, que é a ocorrência de alucinações visuais em pacientes com algum grau de déficit visual. Alucinose seria o termo psicopatológico mais preciso, já que o doente percebe a alteração sensoperceptiva como algo estranho à vida psíquica ou, como se diz em psiquiatria, faz crítica ao fenômeno. Oliver Sacks chama a atenção para este fato ressaltando que, nas psicoses, o doente interage ou “acredita” nas alucinações auditivas ou visuais produzidas pelo cérebro.

Charles Bonnet descreveu a síndrome em 1760 a partir do relato das alucinações (ou alucinose) que seu avô experimentava. Depois de 250 anos ainda tentamos entender como o cérebro funciona nessa condição particular.

Dê play e assista ao vídeo, que tem legendas em português.

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Cartum #41

(Por Dinâmica de Bruto)

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Lições de um cérebro danificado

Depois de um dano cerebral é bem comum que pacientes com talento artístico apresentem um déficit cognitivo que comprometa suas habilidades criativas. Encontrei um artigo muito interessante que avalia justamente o oposto: imagens criadas por pessoas com dano neurológico que demonstram persistência ou mudança qualitativa da capacidade de criação artística.

Sim, algumas pessoas podem desenvolver habilidades artísticas depois de um dano cerebral, já falei sobre isso no post Gênio instantâneo. O artigo recente, publicado no períodico Brain, analisa casos de demência, Parkinson, acidente vascular, epilepsia enxaqueca e traumatismo craniano.

A ilustração acima mostra a evolução dos desenhos de um artista com demência com degeneração fronto-temporal. O desenho A foi feito anos antes da doença, os demais mostram representações cada vez mais bizarras e ameaçadoras à medida que a doença progride (o desenho D foi feito três anos após o diagnóstico).

A compreensão do que ocorre no cérebro danificado pode ajudar muito a entender o complexo mecanismo neural da criatividade.

Leia o artigo na íntegra aqui: Pictures as a neurological tool: lessons from enhanced and emergent artistry in brain disease

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História da frenologia

O blog Providentia traz um ótimo resumo da história da frenologia que menciona os principais nomes dessa ciência do século XVIII.

A frenologia admitia que cada faculdade mental tinha uma localização específica no cérebro. Alguns cientistas no período, notadamente Franz Gall, tentaram determinar como o cérebro funcionava a partir da premissa do mapeamento anatômico das funções. Com os dados empíricos obtidos, o ramo prático da frenologia passou a gerar interesse no meio científico a partir do início do século XIX.

A frenologia prática consistia em tirar medidas do crânio,  principalmente de suas calosidades e saliências, para determinar traços de personalidade do indivíduo. Segundo a teoria vigente, os acidentes da calota craniana refletiam a hipertrofia ou hipotrofia de certas regiões cerebrais. Os achados da frenologia ganharam alguns desdobramentos: Lombroso, por exemplo, utilizou alguns postulados para fundar sua antropologia criminal.

Although the idea that mental abilities were linked to specific locations in the brain dates back to Aristotle, true scientific work into the nature of brain functioning didn’t begin until the late 18th century. While early visionaries such as Emmanuel Swedenborg made some inspired guesses about how the brain worked, it was German neuroanatomist Franz Joseph Gall who can properly be considered the father of phrenology.

Leia aqui a matéria: Reading the bumps

Veja aqui um aparelho do período, o psicógrafo, que seria capaz de medir automaticamente as calosidades do crânio e determinar a personalidade de uma pessoa em poucos minutos.

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A micróglia por Alzheimer

Acima, um desenho das células da micróglia feito pelo neuropatologista Alois Alzheimer, publicado originalmente em 1911. Tirei a ilustração daqui: Physiology of Microglia

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

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A estranha aura de “Epiléptico”

Chamamos de aura a crise parcial simples que pode anteceder os ataques de epilepsia. Na aura pode haver percepções sensoriais esquisitas, desrealização ou sensação de estranhamento. É bem assim que o leitor se sente ao ler a surpreendente graphic novel Epiléptico (Conrad, 2007), do quadrinista francês David B.

O livro, editado no Brasil em dois volumes, narra a história da família Beauchard, contada pelos filho do meio, Pierre-François. É um relato autobiográfico do autor sobre o impacto que a epilepsia do seu irmão mais velho causou em si e nos seus familiares. E que relato.

A história e os desenhos ilustram o imaginário povoado por monstros e conflitos de Pierre-François e do seu irmão doente Jean-Cristophe. A epilepsia é simbolicamente retratada como uma espécie de fera incontrolável e dominadora, que resiste aos ataques da medicina tradicional e de práticas alternativas e que termina por invadir completamente a vida dos Beauchard.

Recomendo. Não é todo dia que a gente vê algo tão bem executado sobre uma doença neurológica/psiquiátrica.

Se quiser ler mais sobre Epiléptico, clique aqui.

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Poe e os lobos frontais

O extraordinário caso do americano Phineas Gage, um operário das estradas de ferro que sobreviveu após ter o crânio atravessado por uma barra de ferro em 1848, virou uma história clínica paradigmática da neurologia e psiquiatria. Após recuperar-se do trauma inicial, Gage apresentou uma profunda mudança na personalidade provocada pelas lesões no lobo frontal.

Mais extraordinário do que o caso é o fato de Edgar Allan Poe ter descrito uma síndrome idêntica, oito anos antes. No conto The Business Man (não achei a versão em português) o personagem principal apresenta boa parte das mudanças de personalidade de uma síndrome do lobo frontal, provocadas por um traumatismo craniano na infância.

Leia um ótimo artigo sobre o assunto: The medical prescience of Edgar Allan Poe

That incident defines the man’s life; he develops a slavish adherence to exactness and obsession with methods that are characteristic of a modern diagnosis of frontal lobe syndrome. After losing his job over a matter of two pennies, Poe’s hero becomes an increasingly violent sociopath, going into the “Assault and Battery trade” and is eventually thrown into prison.

*Bônus: Um recente estudo de neuroimagem avalia o caso Phineas gage

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A mente como matéria


Um contraponto interessante ao post anterior: uma ótima galeria com imagens do sistema nervoso central.

Visite Brains: The mind as matter, organizado pela Wellcome Collection.

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Cartum #35

“- Vejam! O mano ficou igual ao Phineas Gage!

O rebuscado senso de humor das azeitonas.

(Por Dosis Diária)

*Não sabe quem foi Phineas Gage? Clique aqui.

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Asterix no centro cirúrgico

O artigo científico Traumatic brain injuries in illustrated literature: experience from a series of over 700 head injuries in the Asterix comic books (Lesões traumáticas cerebrais na literatura ilustrada: relato de uma série de 700 traumas encefálicos nos quadrinhos Asterix) existe mesmo e foi publicado ano passado na revista científica européia Acta Neurochirurgica.

O artigo traça um perfil epidemiológico dos casos de traumatismo crânio-encefálico (TCE) nas histórias de Asterix, o mais conhecido herói gaulês. Felizmente, apesar da intensidade do fator traumático (golpes na maioria dos casos) e da gravidade das lesões, não há relatos na amostra de morte ou mesmo déficit neurológico permanente.

Alguns outros dados são engraçados: 63,9% das vítimas eram romanos e quase 90% dos traumatismos foram provocados por gauleses. 70,5% das vítimas usava um elmo que foi perdido na grande maioria dos casos (87,7%)

Aqui, o link para o resumo do artigo.

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Arte dentro da cabeça


Kaishi hen, Sinnin Kawaguchi (1736-1811)

 

Neuro Images é um tumblr só com imagens interessantes do sistema nervoso.

Muito útil para enfeitar slides de aulas sobre o tema.

E, sim, na ilustração acima o cérebro parece mesmo com miojo.

neuroanatomia psiquiatria arte
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Phineas Gage

Phineas Gage é o exemplo sempre citado quando se fala de alterações da personalidade relacionadas a lesões no lobo frontal. Achei um ótimo texto no Guardian com a extraordinária história do sujeito que teve o cérebro atravessado por uma barra de ferro e sobreviveu, mas com profundas mudanças na personalidade.

Gage was preparing for an explosion, using the tamping iron he holds in the photograph to compact explosive charge in a borehole. As he was doing so, the iron produced a spark that ignited the powder, and the resulting blast propelled the tamping iron straight through his head.

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Demência: ano zero

Gostei muito deste post do Neurophilosophy sobre o primeiro caso do dr. Alois Alzheimer. Uma das coisas curiosas é que a paciente Auguste Deter na época do diagnóstico tinha apenas 51 anos.

On November 25th, 1901, a 51-year-old woman named Auguste Deter was admitted to the hospital, and was examined by Alzheimer. Deter at first presented with impaired memory, aphasia, disorientation and psychosocial incompetence (which was, at that time, the legal definition of dementia)

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Dostoiévski em crise

Matéria interessante sobre a epilepsia de Dostoiévski que destaca alguns trechos da obra do escritor russo: Diagnosing Dostoyevsky’s epilepsy

An early attempt at diagnosing Dostoyevsky’s condition was made by Sigmund Freud, who trained as a neurologist, and described epilepsy as “an organic brain disease independent of the psychic constitution”. Freud believed that the condition was incompatible with great intellect, because it was “associated with deterioration and retrogression of the mental performance”; “What is generally believed to be epilepsy in men of genius,” Freud wrote, “are always straight cases of hysteria”.

Via Neurophilosophy

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