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O que vem primeiro

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Meu vizinho de cima, um garoto entre sete e oito anos, é o demônio.

Não tenho contato com Gabriel – assim se chama o anjinho decaído -, mas a julgar pela forma como arrasta as cadeiras do apartamento, o jeito que joga seus brinquedos no chão, que corre de um lado para o outro sem parar e, principalmente, pelos gritos que recebe da mãe, posso dizer que habita sobre o meu teto um exemplar daquela espécie que chamamos carinhosamente de capeta.

Às cinco e quarenta da manhã escuto sobre minha cama, vindo de onde deve ser o quarto do mini-tinhoso, gritos horríveis. O menino – e eu –  somos acordados nos dias de escola pelo som estridente da voz da mãe. A jovem senhora grita como se não houvesse amanhã. E assim vai o dia todo através dos trinta centímetros de concreto que nos separam: “Gabriel, isso! Gabriel, aquilo!”; ou simplesmente: “Gabrieeeeel!”.

Despertar ao som da histeria dessa mulher é suficiente para estragar parte do meu dia. Minha vontade ao sair de casa para trabalhar nessas manhãs é fazer  pelo caminho alguma traquinagem do tipo buzinar pelo simples prazer de atazanar os outros motoristas ou soltar os cachorros em cima de minha atendente. Não faço isso porque entendo que sou uma vítima. Na verdade, eu e o pobre Gabriel somos vítimas. Ambos sofremos com a proximidade de uma mãe adoecida.

Se ouvir os gritos da mãe do garoto por vinte minutos é suficiente para me encher de raiva, posso calcular o efeito devastador de um convívio de vinte e quatro horas, por sete ou oito anos. Gabriel tem todos os motivos pra ser danado.

Tenho uma quase-certeza quase-terapêutica que, numa avaliação da relação causa-e-efeito, o que vem primeiro não é danação do menino, mas a destemperança da mãe. Admito, claro, que existem crianças atavicamente endemoniadas, mas essas são a minoria. E mesmo nesses casos, se pensarmos geneticamente, a fonte do atavismo provavelmente é o caráter dos pais.

Ainda na triste circunstância em que um Bebê de Rosemary vem ao mundo, é possível atenuar o comportamento agressivo infantil com uma boa dose de tolerância por parte dos pais. É possível, bem entendido. Mesmo com uma mãe perfeita (ou suficientemente boa, diriam os psicanalistas winnicottianos), há às vezes aqueles que escapam da influência positiva e viram verdadeiros discípulos mirins do coisa-ruim.

Tenho a impressão que esse não é o caso do meu vizinho Gabriel. Não acho que o garoto que me acorda precocemente todos os dias seja naturalmente ruim. Mas jamais saberei de verdade – além da distância vertical e do concreto que nos separam, há a vívida desconfiança de que uma pessoa capaz de gerar em mim e em minha esposa tanto desconforto com seus gritos esteja longe de ser uma mãe suficientemente boa.

Sempre que penso na visão da figura materna imaginada por Winnicott, me vêm à cabeça a imagem de uma galinha. O animal atavicamente inquieto e barulhento é capaz de chocar zelosamente seus ovos e abrigar sob as asas cuidadosas suas crias.

Pensando nessa imagem e no meu vizinho Gabriel, sinto que é possível finalmente resolver a clássica questão e afirmar que a galinha vem sempre antes do ovo.

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