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Loucura feminina no século XIX

John Everett Millais: Ophelia, 1851-1852

 

HerStoria é uma revista toda dedicada ao papel da mulher na história. Encontrei lá um ótimo artigo sobre a loucura feminina e suas ligações simbólicas, com foco no século XIX. O texto não é longo, e vale pelo condensado de informações curiosas.

Ofélia (Ophelia), personagem de Hamlet, foi um símbolo comumente usado para representar a loucura no sexo feminino.  A personagem, vítima de uma morte trágica (provavelmente suicídio), enlouquece após a morte do pai. Seus discurso final na na célebre peça de Shakespeare é impregnado de um conteúdo erótico latente.

O mesmo erotismo foi considerado a principal causa das enfermidades mentais na mulher da Era Vitoriana. Nesse período um certo dr. Isaac Baker Brown desenvolveu a clitoridecotmia, a remoção cirúrgica do clitóris com o objetivo de curar a insanidade.

Leia mais em Women and Madness.

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Oscilações do humor

 

Essa cena dos Simpson além de hilária serve para ilustrar –  de maneira caricatural, claro – o que é labilidade emocional. No episódio, Homer passa a tomar uma medicaçãp para dormir chamada “Nappien” (algo como “Sonekium” em português). Lisa lê a bula e descobre que além de sonambulismo, a droga pode causar oscilações do humor (mood swings).

Isso é o que eu chamo de afeto hipermodulado.

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Zumbis, Vodu e neurotoxinas

Os zumbis estão em toda parte hoje em dia: memes, seriados de TV, quadrinhos, cinema e o diabo. Mas pouca gente sabe que em 1997 o seríssimo jornal The Lancet publicou um artigo científico sobre três zumbis haitianos.

O estudo é sobre três casos de pessoas identificadas como tendo sido “zumbificadas”. Vou pular todo o suspense e a investigação e entregar o final do mistério: duas das pessoas examinadas apresentavem sinais de transtornos mentais orgânicos com déficit cognitivo importante (um por epilepsia e hipóxia e outro por retardo mental congênito) e outro paciente tinha esquizofrenia catatônica.

O mais interessante é que três famílias acreditavam que os zumbis (encontrados vagando em outras localidades) eram familiares que haviam morrido alguns anos antes. Tratava-se, no entanto, de dois casos de identidades trocadas (confirmadas por DNA) e um caso em que, realmente, o paciente parece ter sido enterado sem estar morto (!).

O fenômeno no Haiti, no entanto, é culturalmente bem mais complexo e envolve uma crença religiosa arraigada ao longo de séculos e neurotoxinas encontradas na natureza capazes de produzir um estado de catalepsia. O blog NeuroPhilosophy traz um excelente artigo sobre o assunto: The ethnobiology of voodoo zombification

Aos curiosos: vale a pena ler com calma os artigos.

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Karl Jaspers, filósofo

Os psiquiatras o conhecem como o pai da psicopatologia fenomenológica. Os residentes de psiquiatria e estudantes o conhecem como o autor de um livro muito extenso e complicado sobre psicopatologia. Além  - e antes – disso, Karl Jaspers era filósofo. A seguir, a tradução da entrada sobre o psiquiatra alemão do site La-Philosophie.com:

Karl Jaspers foi um psiquiatra e filósofo alemão nascido no século XIX.

Existencialista, concebia a existência como um drama, uma tensão entre nossa presença no mundo e nossa aspiração à transcendência, entre a ciência e a religião. A incapacidade da ciência de resolver todos os problemas, sobretudo o de alcançar a felicidade completa através da ação é, segundo ele, o sinal de uma revelação divina.

Sua reflexão existencial analisa as situações (sofimento, conflito, culpa, morte…) que os filósofos racionais neglicenciaram ms que constituem os pólos incontornáveis da existência humana.

Jaspers concebia as relações entre os homens como manifestações de uma “batalha amorosa” , que oscila incessantemente entre o ódio e o amor.  Sua filosofia culmina numa teoria dos sinais e do sentimento religioso.

Mais sobre Karl Jaspers em Goethe Institut e na Stanford Encyclopedia of Philosophy

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Piripaques, dissociação e humor mexicano

 

Eu sei que é besteira. Mas é final de ano e vou me permitir este post.

Outro dia, falando para os alunos dos diagnósticos diferenciais da catatonia, lembrei que o “piripaque” do personagem Chaves é uma crise dissociativa com características de estupor catatônico. Ele tem todos os comemorativos: um gatilho emocional – geralmente um evento ansiogênico – , início e fim abruptos e amnésia retrógrada. Enfim, vejam o vídeo para lembrar.

(Não aparece no final do vídeo, mas as crises do Chaves sempre são revertidas com uma borrifada de água no rosto.)

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O Duplo

O delírio de Capgras é também conhecido como delírio do sósia ou do duplo. Nessa alteração patológica do juízo de realidade o paciente crê que pessoas do seu convívio foram substituídas por sósias ou impostores. Essa manifestação é encontradiça não só nos quadros mentais orgânicos como as demências – quando há um prejuízo na capacidade de reconhecer rostos (prosopagnosia) – , mas também na esquizofrenia e em outros quadros psicóticos.

Encontrei uma revisão recente (em espanhol) muito boa sobre o assunto:  El delirio de Capgras: Una revisión

Otras variantes de este defecto en la identificación son el Síndrome de Frégoli (el paciente cree que uno o más individuos han alterado su apariencia para asemejarse a personas familiares), la intermetamorfosis (el paciente cree que las personas de su entorno han intercambiado sus identidades) y el síndrome de dobles subjetivos (el paciente está convencido de que existen dobles exactos a él).

Na literatura, autores como Dostoiévski, Borges e Poe se interessaram pela figura do duplo. Numa rápida pesquisa, achei este outro artigo, sobre o duplo na literatura de Jorge Luis Borges. O enfoque é dado sob a ótica da teoria de Jung.

Na literatura, na arte, na mitologia ou na história, o simbolismo do duplo se faz presente com todas as sugestões filosóficas, psicológicas e morais que em sua aparência e conteúdo se pode perceber. O duplo, que tanto revela quanto amedronta quem com ele se defronta, está presente na duplicação da figura humana ou da personalidade, como podemos ver na lenda do Narciso, ou no livro intitulado “OMédico e o Monstro” de Robert L. Stevenson.

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Procurando sinais

Milton Greek é portador de esquizofrenia paranóide e acredita que explorar o valor simbólico e sentido dos delírios pode ajudar às pessoas que sofrem com sintomas psicóticos.

Finding Purpose After Living With Delusion é uma excelente matéria publicada no New York Times sobre a experiência pessoal de Greek.

“When I began to see the delusions in the context of things that were happening in my real life, they finally made some sense”

O vídeo que acompanha a matéria é realmente emocionante.

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Assim é se lhe parece

Pareidolia é a ilusão que ocorre quando o cérebro tenta encontrar imagens conhecidas em estímulos sem organização. Isso acontece quando olhamos para as nuvens, por exemplo, e identificamos o formato de um animal ou objeto, ou quando percebemos rostos humanos ou monstruosos em manifestações da natureza, como nesta imagem.

Karl Jaspers em sua Psicopatologia Geral descreve assim:

Sem emoçao, sem juízo sobre a realidade mas também sem que as imagens desapareçam com a atenção, a fantasia, “produtiva devido a impressões sensoriais incompletas”, transforma nuvens, superfícies de muros antigos etc. em imagens ilusórias com nitidez corpórea.

Dito de forma simples, pareidolia é o que acontece quando o cérebro tenta transformar algo estranho ou vago, em algo familiar. Isso geralmente ocorre com estímulos visuais e auditivos.

Nos EUA eles têm a mania de ver Elvis Presley ou Jesus Cristo em torrada, batatas, nachos e outros gêneros alimentícios. Um estudo recente examina as bases neurocientíficas do fenômeno e conclui: uma batatinha frita que parece com Elvis funciona como a imagem do próprio Rei do Rock’n Roll para o cérebro - The Potato Chip Really Does Look Like Elvis! Neural Hallmarks of Conceptual Processing Associated with Finding Novel Shapes Subjectively Meaningful

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A loucura em Gotham City

Stephen Ginn do blog Frontier Psychiatry escreveu um artigo para o student BMJ sobre quadrinhos e psiquiatria.

Looking at the psychopathology of comic book characters is an interesting diagnostic challenge and also a newly used approach to medical education. A comic book convention earlier this year was held to educate the public about psychiatric conditions.

O autor se debruça especialmente sobre a psicopatologia dos personagens das histórias de Batman.

O artigo “Comic books and Psychiatry – An innovative way to teach mental health issues” pode ser acessado livremente aqui ou, pelos assinantes da revista britânica, aqui.

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Além da esquizofrenia

German Berrios (professor emérito de epistemologia psiquiátrica de Cambridge, fundador do periódico History of Psychiatry e meu grande ídolo) escreveu um excelente artigo para o Schizophrenia Bulletin, intitulado “Eugen Bleuler’s Place in the History of Psychiatry“.

O texto fala da colossal contribuição de Eugen Bleuler (pronuncia-se “óiguen blóiler”) à psiquiatria, que se estende para muito além da “descoberta” e batismo da esquizofrenia.

It can be concluded that Bleuler occupies a safe niche in the pantheon of psychiatry but that this is not necessarily due to the fact that he contributed to the history of schizophrenia. As the work of his fellow countrymen is beginning to show, Bleuler was a man for all seasons.

Leia o artigo na íntegra, aqui.

(via h-madness)

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Cinema enfeitiçado

 

Eu já tinha mencionado aqui e aqui o filme Spellbound (“Quando fala o coração“. EUA, 1945)

Nesse thriller de Alfred Hitchcock Ingrid Bergman faz o papel de uma jovem psiquiatra que tenta tratar a amnésia dissociativa do (possível) criminoso vivido por Gregory Peck. O problema é que o uso excessivo de elementos de psicanálise que caíram no gosto da cultura popular – geralmente simplistas e hoje considerados obsoletos – no  pós-guerra não consegue esconder uma trama de assassinato um tanto fraca para os padrões do diretor. Esse é o ponto baixo do filme.

No ponto alto – além, é claro, da beleza e do talento de Ingrid Bergman, capazes de gerar uma transferência erótica maciça e imediata em qualquer marmanjo –  temos a brilhante sequência de sonho (no vídeo acima) criada por Salvador Dali exclusivamente para o filme.

O artista catalão já havia feito cinema junto com Buñuel em A Idade do Ouro e no antológico Um Cão Andaluz (que pode render um post no futuro). Dali criou várias sequências oníricas que não foram usadas na edição final de Spellbound. Hitchcock costumava lembrar de uma das impressionantes sequências perdidas: a cena de uma estátua partindo ao meio e revelando em seu interior Ingrid Bergman.

Não sei das cenas que se perderam mas considero o que ficou no corte final espetacular. Assista e tire suas conclusões.

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Medo e delírio na rave

Psychosomatic © Jenny Morgan, 2011

psicopatologia síndrome de cotard delírio de negação ecstasy psicose
Achei muito interessante este relato de caso publicado no Jornal Brasileiro de PsiquiatriaSíndrome de Cotard associada ao uso de ecstasy.

O relato é de um paciente jovem que passou a isolar-se e a desenvolver o delírio de que seus orgãos internos estariam apodrecendo. O quadro foi induzido pelo uso recreativo frequente de ecstasy.

Chamamos Síndrome de Cotard (pronuncia-se “cô-tár“) o conjunto caracterizado por delírios ao redor da temática da degeneração ou putrefação do corpo ou de órgãos internos, associados geralmente a alucinações (visuais, olfativas, cenestésicas) referentes à idéia em questão. Então, por exemplo, um paciente pode crer de maneira delirante que seu fígado apodreceu e ter alucinações olfativas do cheiro desagradável vindo do seu interior. Em casos mais graves o paciente pode crer que está morto.

(É por isso que sinto nesta notícia de jornal um certo cheiro de Cotard.)

Quem acompanha o Fluxo do Pensamento  lembra que já falei sobre a Síndrome de Cotard (ou delírio de negação) em outra ocasião.

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Delírio ilustrado

Desenho do "Tear de Ar"

delírio paranóide esquizofrenia história da psiquiatria

Outro dia, depois de um relato feito por mim de um delírio paranóide bizarro, um estudante me perguntou qual era a temática dos delírios antigamente, digamos, na Inglaterra vitoriana. Eu havia acabado de dar um exemplo fictício – mas relativamente comum – de um paciente com esquizofrenia que acreditava que havia em seu cérebro um dispositivo eletrônico utilizado por outra pessoa para controlar seus pensamentos e emitir mensagens sonoras que só ele era capaz de escutar.

A resposta que dei ao estudante foi a seguinte: os delírios na Inglaterra do século XIX poderiam muito bem girar ao redor da tecnologia da época. Quando respondi isso, tinha em mente o famoso caso de James Tilly Matthews, considerado o primeiro caso individual amplamente documentado de esquizofenia paranóide.

(more…)

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Enxergando de olhos fechados

Um estudo bem recente aponta que as mirações experimentadas pelas pessoas que utilizam a ayahuasca ativam o córtex visual da mesma maneira que um estímulo “real”.

Dito de outra maneira, é como se o cérebro não reconhecesse a diferença entre o estímulo provocado por um objeto colocado diante dos olhos das imagens alucinatórias produzidas pelo uso da substância. A Folha publicou um texto sobre o achado: Chá do Daime faz imagem mental tão vívida que se iguala à real.

Ao aumentar a intensidade de imagens recordadas, fazendo com que atinjam um nível idêntico ao de uma imagem natural, é como se a ayahuasca emprestasse um status de realidade a experiências internas.

Meu grande amigo e pesquisador Joel Porfírio, em estudo publicado no ano passado, mostrou que essas alterações ocorrem sem que haja perda do contato com a realidade, no entanto se aproximam bastante do funcionamento do cérebro de pacientes com psicose.

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“O gênio é mais carne do que fábula”.

Assisti  ao espetáculo teatral “A Casa Amarela“  do ator e dramaturgo Gero Camilo*. O monólogo conduzido pelo próprio autor é sobre a chegada do pintor Van Gogh em Arles, onde tenta fundar junto com Paul Gauguin uma comunidade de artistas.

Chamou minha atenção no texto a presença frequente de associação de idéias por assonância, uma alteração psicopatológica que costuma ocorrer na mania. Há teorias que sustentam que Van Gogh era portador de transtorno afetivo bipolar, mas não sei se o autor usou esse recurso de linguagem de maneira proposital ou se se trata de uma feliz coincidência.

* Outra contribuição de Gero Camilo à psicopatologia é a tocante interpretação de um paciente psiquiátrico no filme Bicho de Sete Cabeças. A fala do personagem Ceará é amaneirada e tem algum grau de verbigeração, como ocorre em alguns pacientes com esquizofrenia.

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