Tag Archives: psiquiatria

Cartum #47

– Você tem uma série de problemas de saúde maçantes, então vou prescrever maconha terapêutica pra mim mesmo.

 

(via The New Yorker)

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Cartum #46

– Se sua vida fosse um reality show, você assistiria?

 

(via Desde el Manicómio)

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Dia Mundial da Saúde Mental

Você sabia que era hoje?

Se fosse  o dia mundial do tratamento do câncer ou das doenças cardíacas, certamente estaria estampado na capa dos grandes jornais do Brasil. Os transtornos psiquiátricos estão entre as mais frequentes e incapacitantes doenças em todos os países. Geram sofrimento, separação, abandono, estigma, problemas econômicos e morte, mas o preconceito ainda impede que esse problema seja encarado como deve ser.

Só por hoje, ignore as notícias de capa dos jornais como a Folha, que teimam em nos bombardear com factoides sobre novelas, futebol, fofoca, política rasa, faits divers, moda e consumo, e reflita sobre um problema que atinge 30% da população mundial.

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O útero errante

"Ducha pélvica" para o tratamento da histeria (c. 1860)

 

Para lembrar sempre que a palavra “histeria” deriva de útero (hystera em grego), recomendo um bom artigo no Chirurgeon’s Apprentice, sobre as ligações históricas entre a síndrome consagrada por Freud e o órgão feminino.

O conceito da histeria nasceu na Grécia Antiga e sugeria que as doenças emocionais que normalmente acometiam as mulheres se deviam a um “útero errante” que vagueva pelo corpo em busca do seu lugar anatômico. Os sintomas incluíam insônia, retenção de líquidos, desmaios, nervosismo, falta de ar e espasmos musculares.

Today, hysteria is regarded as a ‘physical expression of a mental conflict’ and can happen to anyone regardless of age or gender. In ancient times, however, it was attributed only to women, and believed to be physiological (not psychological) in nature.

No século XVII William Harvey, conhecido por todo estudante de medicina como o primeiro a descrever o sistema circulatório, acreditava que as mulheres eram “escravas de sua própria biologia”, e atribuía ao útero características de um ser independente: “insaciável, feroz, animalesco”.

O artigo e o blog devem interessar a quem gosta de história da medicina: O, Wandering Womb! Where Art Thou?

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Adelaide

 

Adelaide” (EUA, 2011 – em inglês, sem legendas ) é um curta-metragem que conta a história de uma garota com transtorno factício. A personagem principal, que dá nome ao filme, cria sintomas e doenças na tentativa de se aproximar das pessoas e receber cuidados.

O transtorno factício recebe também o nome de síndrome de Münchausen. O epônimo deriva do Barão de Münchhausen, um nobre alemão que viveu no século XVIII, famoso por contar histórias mirabolantes e improváveis nas quais figurava como personagem. Em 1951, o médico britânico Richard Asher batizou a síndrome com o nome do barão teutônico em um artigo publicado no The Lancet.

Reserve 12 minutos para assistir ao curta, vale a pena.

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Valium vintage

Encontrei essa propaganda americana da medicação Valium (diazepam) da década de 70. Involuntariamente engraçada.

The patient finds it easier to feel hopeful about the future. Valium: for the response you know, want and trust.

Parecida com essa dos nossos dias.

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Cartas de Van Gogh

Já fiz alguns posts sobre o pintor Van Gogh (aqui e aqui). Sempre dou o exemplo do artista quando quero falar sobre a relação entre transtorno mental e criatividade. Estudos patográficos apontam para a possibilidade de o pintor ter sofrido da doença que hoje chamamos de transtorno bipolar.

Estudos dessa natureza geralmente se baseiam em escritos e relatos de contemporâneos. Encontrei um belo arquivo de cartas de Van Gogh ao colega artista Émile Bernard (1868 – 1941). A correspondência se dava em missivas ricamente ilustradas e escritas em francês.

Clique na imagem para ver o arquivo de cartas. (No menu à esquerda de cada imagem há a opção de traduzir o texto para o inglês)

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O enigma de Kafka

No ano passado a psiquiatria cearense perdeu um dos seus principais nomes, o professor Gerardo da Frota Pinto.

O dr. Frota Pinto, versado que era em muitos assuntos, escreveu sobre psiquiatria clínica, psicopatologia e psicologia, sem esquecer das outras ciências humanas e da arte.

Há pouco na internet sobre sua obra e sua vida. Um amigo encontrou um  texto publicado em 2003 sobre o imaginário do escritor Franz Kafka. O ensaio, intitulado O enigma de Kafka (uma abordagem psicopatológica), pode ser lido na íntegra aqui.

Kafka, que viveu mais ou menos na mesma época e no mesmo país que Freud, mas que não se conheciam, emprega em suas produções literárias, técnicas de psicodinâmica como a fusão onírica, com o real e de catarse, ou seja, a ab-reação ou descarga de idéias ou emoções em sua forma original que se libertam do inconsciente para o consciente, técnicas essas que Freud havia desenvolvido na terapia psicanalítica.

Há alguns erros sintáticos e na ortografia de nomes e termos médicos que acredito serem resultado da transcrição de material oral, sem revisão posterior. O leitor mais atento deve escusar essas falhas em nome do valor didático do texto.

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Cartum #43

O blog recebe muitas visitas por causa das tirinhas dos Peanuts que já postei aqui no passado.

Charlie Brown (‘Minduim’, aqui no Brasil), seu fiel cão Snoopy e sua turma foram criados pelo americano Charles Schultz em 1950 e publicados em vários países do mundo até 2000. Apesar do fim, as tirinha seguem ganhando fãs globo afora por causa delicadeza do conteúdo e do carisma dos personagens.

Gosto especialmente das tirinhas que mostram a fragilidade e melancolia de Charlie Brown, um menino que está sempre preocupado com o lado mais complicado da vida. Como nem sempre é compreendido, ele costuma procurar auxílio na banquinha de “ajuda psiquiátrica” de Lucy. Por cinco centavos de dólar, é possível ouvir conselhos cínicos e excessivamente pragmáticos (como nesta tira).

Se você caiu aqui no blog procurando tirinhas ou cartuns sobre terapia, psicanálise e psiquiatria, veja a coleção de cartuns já publicados clicando aqui.

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Mal de lua

Madness and the moon: the lunar cycle and psychopathology é um curioso artigo alemão publicado no German Journal of Psychiatry que analisa seriamente as possíveis evidências de efeitos da lua sobre o psiquismo. A conclusão é que os estudos que sugerem o chamado “Transilvanian effect” têm falhas metodológicas graves. Os céticos vão gostar.

A high proportion of health professionals continue to hold  the belief that the moon can in some way influence human behaviour. In an unpublished MSc dissertation Angus (1995) reports that 43% of healthcare respondents believed lunar phenomena altered human behaviour.

(Sim, já postei isso aqui antes, quando o blog quase não recebia visitas. Estou tentando preparar material novo e original, aguardem)

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Um transtorno moderno

Quem ensina psiquiatria normalmente gosta de ilustrar suas aulas com dados históricos sobre o assunto em questão. É assim quando vamos falar, por exemplo, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e citamos a síndrome de Da Costa ou o Shell Shock. O problema é que essas entidades não são equivalentes ao TEPT.

(Do mesmo jeito que  a melancolia do século XVIII não é o atual transtorno depressivo, mas sobre isso eu escrevo em outro post).

Dois estudos recentes apontam para o TEPT como uma doença de nossa era. O primeiro, publicado no Journal of Anxiety Disorders, avalia uma extensa lista de dados médicos de combatentes na guerra civil americana e demonstra que não há relatos de flashbacks ou pensamentos intrusivos – que constituem o que chamamos de ‘revivescências traumáticas’, um ponto-chave no diagnóstico de TEPT – em soldados do período.

Outro estudo, publicado na Stress and Health avalia relatos de experiências traumáticas desde o período do Renascimento. Não há dados históricos que levem a crer que existiu no passado uma entidade com características clínicas semelhantes ao transtorno de estresse pós-traumático.

O blog Mind Hacks traz um ótimo texto sobre o assunto: A very modern trauma

Various symptoms would be mentioned at various times, some now associated with the modern diagnosis, some not, but it was simply not possible to find ‘historical accounts of PTSD’.

O assunto deve interessar a quem gosta de história da psiquiatria.

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As faces da dependência

O fotógrafo Chris Arnade diz que seu assunto fotográfico favorito é aquele que merece atenção mas que não está procurando por ela. Com isso em mente, fotografou e colheu informações de pessoas com dependência química nas ruas de Hunts Point em Nova Iorque. O resultado é o comovente ensaio Faces of Addiction.

Muitas vezes é difícil definir a linha entre o fotojornalismo austero  e a estetização da miséria. Na minha opinião, Arnade conseguiu caminhar no lado honesto da linha com sutileza, evitando cair na armadilha do sensacionalismo.

Clique na imagem para ver a galeria.

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Robert Crumb sobre o LSD

Achei muito ilustrativo o relato do quadrinista norte-americano Robert Crumb sobre suas experiências com o LSD.

O texto abaixo foi extraído do livro Minha Vida. Nele, Crumb  conta como foi a primeira vez que usou a droga além de outras histórias interessantes sobre a cultura hippie na década de 1960. Entre elas, o fato de que o LSD era permitido em 1965 (só foi proibido dois anos depois) e que era produzido pela Sandoz.

“O LSD era permitido em 1965, quando tomei pela primeira vez!”

Dana conseguiu nosso primeiro ácido com um psiquiatra. Era um líquido azulado em pequenas ampolas de vidro,fabricado na empresa farmacêutica Sandoz, na Suíça. O melhor. A primeira viagem foi uma experiência totalmente mística – impactante, assustadora e visionária. Queria repetir. Dana ouviu dizer que tinha gente distribuindo LSD, então certa noite fomos a uma grande mansão antiga em Cleveland Heights. Não havia mobília, mas deduzi automaticamente que tinham dinheiro à beça. Pareciam crianças ricas. Era uma cena estranha. Disse a eles que queria uma dose bem potente. O que deram para mim e para Dana era coisa boa, muito pura, mas assim que a droga bateu fiquei com muito medo daquela gente. Se transformarem em demônios para mim… diabos. Achei que estava no inferno! Acreditava nisso! Lembro de, a certa altura, ter saído das profundezas do terror e me forçado a esquecer algo que tinha visto, porque era horrível e insuportável demais. A única maneira de escapar desse delírio era esquecer o que estava vendo, e vomitei no chão!

Aquelas pessoas ficaram completamente enojadas comigo. Não sabia quem eram, podiam ser agentes do governo ou somente rapazes antipáticos de uma república se divertindo com as namoradas.

(more…)

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Antes e depois da esquizofrenia

"Gatos com guarda-chuvas" - Louis Wain antes da esquizofrenia...

 

Muito diferente da percepção leiga da doença mental, a esquizofrenia não é um transtorno caracterizado pela personalidade m[ultipla. Parte desse mito provém da própria etimologia do termo - em grego skízein quer dizer cisão, divisão, e phren, siginifica sopro ou diafragma e, por extensão, espírito (no sentido de "mente").

O que acontece na esquizofrenia é uma cisão entre as funções mentais, seja entre o pensamento e a expressão afetiva deste (marca sublinhada por Eugen Bleuler, que deu fama ao termo), seja entre a percepção da vida psíquica interior em oposição à realidade objetiva. Na doença, normalmente o mundo externo é vivido como hostil ou persecutório e há um apagamento da fronteira entre o mente e o mundo.

A percepção de mundo do artista britânico Louis Wain (1860 – 1939) mudou assustadoramente após o primeiro surto psicótico, no início da década de 20. O desenhista, conhecido pelos seus desenhos de gatos e filhotes com atitudes e feições humanas, foi admitido pela primeira vez em um hospital psiquiátrico em 1924, com o diagnóstico de esquizofrenia e terminou seus dias sem voltar ao convívio social, desenhando apenas por prazer.

.. e depois da esquizofrenia.

A doença provocou uma mudança significativa no estilo de Wain. Apesar de manter o mesmo tema na maioria dos desenhos, sua obra após o adoencimento se caracteriza por padrões intricados e abstratos como fundo de expressões perturbadoras. As feições outrora familiares do seus gatos passaram a comunicar um quê de perplexidade ou de uma jocosidade difícil de ressoar emocionalmente no observador.

Clique na segunda imagem para ver uma galeria do artista. Ou assista a um vídeo mostrando alguns de seus desenhos, antes e depois da esquizofrenia.

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A internet pode te deixar louco?

A resposta é não. Ou, pelo menos, não há dados sérios que mostrem isso.

Quando li há algumas semanas na Folha uma matéria sugerindo que a internet e o uso de gadgets poderia gerar doenças psiquiátricas, pensei em escrever aqui um texto de crítica a esse tipo de avaliação superficial. Não precisei, já que achei no Mind Hacks um ótimo artigo sobre o assunto: No, the web is not driving us mad

No texto, Vaughan Bell usa como exemplo uma matéria de capa recentemente publicada pela Newsweek sobre os supostos males psíquicos causados pela internet. Na matéria da revista, pode-se ler que a web chega a ser responsável até por quadros de psicose.

Bell chama atenção para a precariedade da sustentação científica de afirmações desse tipo, geralmente baseadas – quando baseadas – em evidências fracas ou em casos isolados. Não há, por exemplo, dados em décadas de pesquisa  sobre o assunto que indiquem que a internet esteja entre os fatores ambientais de risco para a esquizofrenia. A própria tentativa – tão citada ultimamente nos meios de comunicação – de catalogar um suposto vício de internet é um erro do ponto de vista científico, como o mesmo autor sugere em outro texto.

The article also manages the usual neuroscience misunderstandings. The internet ‘rewires the brain’ – which I should hope it does, as every experience ‘rewires the brain’ and if your brain ever stops re-wiring you’ll be dead. Dopamine is described as a reward, which is like mistaking your bank statement for the money.

Para os interessados no assunto:  leiam o texto com calma, junto com as referências.

* Acima, uma ilustração do artista James Jean.

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