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A marca da bipolaridade

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Programa da Márcia. Lembra dela? E da síndrome do pânico?

 

Tenho observado nos últimos três anos o transtorno afetivo bipolar se tornar algo, uma ‘coisa’ que se tem, não uma doença. Até surgiu um termo novo, ‘bipolaridade’,  que sugere que essa coisa é mais soft, positiva e moderna, como uma marca que muda de nome para atingir consumidores de classes sociais mais altas. Sofrer de  psicose maníaco-depressiva é demodê, negativo; é careta. A onda agora é ter bipolaridade.

Tudo tem sua época áurea nas oscilações, não do humor, mas da moda. Aconteceu com o transtorno do pânico, então chamado síndrome do pânico pelas apresentadoras de programas de variedade – tipo Márcia – no começo dos anos 90. Todo mundo tinha, mas todo mundo vivia muito bem, obrigado. Essa mudança na maneira de ver as doenças mentais se deu principalmente nos últimos vinte anos e tem muito a ver com a televisão. Isso acontece, basicamente, por duas razões.

Primeiro, é importante simplificar a informação para que ela seja massificada. Seria muito difícil que conceitos como transtorno afetivo bipolar ou psicose maníaco-depressiva (esse último envolve três idéias complexas, a de psicose e das duas principais síndromes do humor) colassem na cabeça de um espectador comum de TV. Já bipolaridade, não: é mais curto, ágil, facílimo de ser lembrado. Para usar um jargão da publicidade, pode-se dizer que tem um recall mais poderoso.

O outro ponto é que, nas últimas décadas, mais e mais celebridades têm admitido ser portadoras de doenças psiquiátricas. Infelizmente, a minoria admite isso pelos motivos certos. Uma grande parte usa o próprio diagnóstico como uma insígnia: às vezes como algo charmoso e misterioso inerente à sua complexa personalidade de artista, às vezes como desculpa para atos reprováveis. Outros usam simplesmente para conseguir mais audiência.

(Recentemente, uma certa atriz que supostamente sofre de transtorno bipolar, encheu de curiosos um auditório inteiro no Congresso Brasileiro de Psiquiatria. O intuito era oferecer um testemunho pessoal sobre o padecimento. No lugar disso, a platéia de profissionais foi contemplada com meia hora de abobrinhas e egotrip sem sentido. Só para mostrar que nem os psiquiatras estão imunes ao charme das celebridades.)

Bem entendido, não estou aqui defendendo que os conceitos psiquiátricos continuem obscuros ou pouco acessíveis ao público leigo. Muito menos, que pessoas públicas deixem de compartilhar suas experiências particulares com doenças que são parte de uma grave problema de saúde pública. Gostaria só que o assunto fosse tratado com mais seriedade e responsabilidade. Que o sofrimento fosse tratado com a gravidade que merece, como sinal de respeito também a quem sofre. A doença mental é normalmente devastadora e não dignifica ou eleva quem tem de conviver com ela, pacientes ou familiares.

Quanto ao transtorno de pânico, continua sendo tão comum como na década de 90, mas ninguém parece falar mais sobre ele. É como se tivesse, junto com o programa da Márcia, saído de moda.

(Em tempo, o colega Daniel Franco me mandou a dica de um ótimo texto na Carta Capital sobre o assunto: A depressão severa é o inferno, até para os famosos.)

:: Leia também aqui no blog: Transtorno bipolar: um pouco mais alémLinha do tempo da esquizofreniaOndas de diagnóstico

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Desenhos animados e violência

 

O blog Psiquiatria e sociedade comenta um artigo de revisão interessante sobre a influência dos desenhos animados no comportamento violento de crianças (Leia aqui o artigo, pago ou via periodicos CAPES).

Interessante perceber que, ao contrário do que os radicais podem achar, a imitação do comportamento violento dos personagens dos desenhos não acontece sem a modulação de elementos como humor, contexto ou a presença dos pais.

O humor atenua a percepção da violência, e provavelmente é por causa disso que desenhos como Papa-léguas, Pica-Pau ou Pernalonga, mesmo com muitas cenas agressivas, não modifica o comportamento das crianças.

Leia o texto completo em: A culpa é da TV?

Acima, um episódio do Pica-Pau (quando ainda era O Pica-Pau Biruta na tradução brasileira)

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