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A loucura e seus nomes (II)

Bethlem Royal Hospital, o manicômio mais antigo da Europa. William Hogarth, 1763.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade)

Dando continuidade à pesquisa iniciada aqui, mais algumas palavras relacionadas ao adoecimento mental:

  • Alienado: literalmente, aquele que se mantém distanciado da realidade, alheado. Do latim alienatus, derivado de alienus, que pode significar muitas coisas: estranho, alheio, isento, livre, impróprio, contrário e inimigo [1]. Alienista é aquele que cuida dos alienados, antigo nome dado aos médicos que tratavam das doenças mentais; talvez o uso mais conhecido na língua portuguesa seja o do título de um conto de Machado de Assis, “O alienista“.
  • Orate: indivíduo sem juízo, tresloucado, louco. Deriva do catalão orat [2] que, por sua vez deriva do latim auratus, de aura: vento, sopro, alma. Não é possível determinar se a relação com a loucura se dá pelo significado “alma” (como phrén)  ou por “vento”. Acreditava-se no período medieval que ‘maus ventos’ ou miasmas, podiam afetar a mente. A palavra “orate” também foi tornada célebre em “O alienista“. No conto, o doutor Simão Bacamarte cria uma “casa de orates”, isto é, um asilo para doentes mentais.
  • Mania: no português coloquial significa excentricidade, esquisitice. Na psiquiatria o termo é utilizado para designar o estado de agitação psicomotora ou euforia característicos da fase não-melancólica do transtorno afetivo bipolar (antiga “psicose maníaco-depressiva”). A palavra manie – em francês - foi introduzida na psiquiatria do século XIX por E. Esquirol, e agregava característica a tipos de folie (loucura), como a lypémanie e a monomanie [3]. Deriva do grego manía: ‘loucura, demência’. Maníaco é o louco, geralmente agitado ou “furioso”. No Brasil, comumente a palavra é usada para designar criminosos cruéis e/ou com transtorno mental.
  • Manicômio: estabelecimento para internação e tratamento de loucos. Do italiano manicòmio, de manì(aco) +  -comio, do grego kómeo, ‘eu curo’ [4]. Atualmente as palavras “manicômio” e “manicomial” têm caráter derrogatório, sendo utilizadas quando se quer ressaltar os aspectos negativos associados a instituições de internação de doentes mentais.
  • Frenesi: antigamente utilizado para designar o delírio violento provocado por afecção cerebral aguda, hoje significa agitação, exaltação, atividade intensa. Vem do latim phrenesis ‘delírio frenético’ e provavelmente nos chegou pelo francês phrenesie, no século XIII [5]. A raiz comum é o grego phrén ‘razão, juízo, bom senso’. No Ceará e em outros estados do Nordeste, utiliza-se a corrutela farnesim para desingar uma sensação psíquica de inquietação, impaciência. [6]

 

REFERÊNCIAS

1. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon.
2. Alcover, A.M. e Moll, F. de B. (2006) Diccionari català-valencià-balear. 10ª ed. Consultado em http:http://dcvb.iecat.net/
3. Esquirol, E. (1838) Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. 1ª ed. Paris: J.B. Baillière.
4. Da Cunha, A.G. (2012). Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon
5. Houaiss A., Villar M. de S., Franco FM de (2009) Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva.
6. Cabral, T. (1982) Dicionário de termos e expressões populares. Fortaleza: Edições UFC.

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Cartas de Van Gogh

Já fiz alguns posts sobre o pintor Van Gogh (aqui e aqui). Sempre dou o exemplo do artista quando quero falar sobre a relação entre transtorno mental e criatividade. Estudos patográficos apontam para a possibilidade de o pintor ter sofrido da doença que hoje chamamos de transtorno bipolar.

Estudos dessa natureza geralmente se baseiam em escritos e relatos de contemporâneos. Encontrei um belo arquivo de cartas de Van Gogh ao colega artista Émile Bernard (1868 – 1941). A correspondência se dava em missivas ricamente ilustradas e escritas em francês.

Clique na imagem para ver o arquivo de cartas. (No menu à esquerda de cada imagem há a opção de traduzir o texto para o inglês)

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A vida secreta de Stephen Fry

Achei o comovente o relato pessoal do genial ator, escritor e cineasta britânico Stephen Fry sobre o transtorno bipolar.

Fry foi diagnosticado com a doença aos trinta e sete anos de idade. Ele conta sobre seus questionamentos e respostas sobre o transtorno afetivo bipolar (TAB) no documentário da BBC Stephen Fry: The secret life of the manic depressive.

Ao longo do seu trajeto pessoal ele entrevista outros artistas que sofrem de TAB ou depressão (unipolar).

O vídeo (em inglês) deve interessar a quem – como eu – gosta de pesquisar sobre a relação entre a criatividade e os transtornos mentais.

Acima, a parte I. Clique aqui, para ver as outras partes.

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Fatos sobre o Lítio

Curiosidades que você  não encontra naquelas folhinhas das bandejas do McDonald’s:

- O lítio é um metal alcalino cuja fonte mineral mais acessível na natureza é a petalita. Na sua forma de carbonato de lítio foi a primeira medicação efetiva a ser usada para tratar o que hoje chamamos de transtorno afetivo bipolar.

- A petalita foi descoberta em 1800 pelo químico brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva (sim, aquele mesmo) que, entre outras coisas, era poeta e político.

- A petalita pode ser encontrada nos lagos salgados do Chile.

- O primeiro relato do uso empírico como medicação é do final do século XIX. Em 1949 o psiquiatra australiano John Cade acidentalmente descobriu o efeito anti-maníaco do composto.

- O refrigerante americano 7 Up era originalmente comercializado como um medicamento contra a ressaca no começo do século XX e continha lítio em sua composicao inicial.

- O psiquiatra e escritor americano Peter Kramer há alguns anos propôs a idéia de adicionar lítio à água consumida nas cidades para diminuir as taxas de depressão e suicídio.

- Há algumas músicas pop sobre o lítio. As mais conhecidas são as das bandas Nirvana e Evanescence, ambas  intituladas “Lithium”. Aparentemente Kurt Cobain, líder do Nirvana, sofria de transtorno bipolar.

- Para constar: o carbonato de lítio é, ainda hoje, uma das melhores medicações para tratar o transtorno bipolar.

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“O gênio é mais carne do que fábula”.

Assisti  ao espetáculo teatral “A Casa Amarela“  do ator e dramaturgo Gero Camilo*. O monólogo conduzido pelo próprio autor é sobre a chegada do pintor Van Gogh em Arles, onde tenta fundar junto com Paul Gauguin uma comunidade de artistas.

Chamou minha atenção no texto a presença frequente de associação de idéias por assonância, uma alteração psicopatológica que costuma ocorrer na mania. Há teorias que sustentam que Van Gogh era portador de transtorno afetivo bipolar, mas não sei se o autor usou esse recurso de linguagem de maneira proposital ou se se trata de uma feliz coincidência.

* Outra contribuição de Gero Camilo à psicopatologia é a tocante interpretação de um paciente psiquiátrico no filme Bicho de Sete Cabeças. A fala do personagem Ceará é amaneirada e tem algum grau de verbigeração, como ocorre em alguns pacientes com esquizofrenia.

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Girassóis e orelhas cortadas

É bem provável que o pintor holandes Vincent Van Gogh (1853 – 1890) sofresse do que chamamos hoje de transtorno afetivo bipolar. Este diagnóstico patográfico pode ser feito com algum grau de certeza a partir de suas correspondências e das descrições feitas por familiares e amigos, entre eles o pintor Paul Gauguin.

O blog Arte da Medicina publicou ano passado um ótimo texto sobre o assunto: Vincent van Gogh – Os Dois Pólos do Artista . Excelente referência em português sobre o assunto.

A maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele “a tristeza não tem fim” carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

Bônus: Um clássico artigo (abstract) do British Journal of Psychiatry para os intessados pelo tema “doença mental e criatividade”, um dos preferidos deste blog:  Creativity and psychopathology. A study of 291 world-famous men

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O mistério final de Poe


O escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) morreu sob cricunstâncias misteriosas aos 40 anos. Poe sofria de alcoolismo e há mesmo a possibilidade de ter tido o que chamamos hoje de transtorno afetivo bipolar. Achei três links interessantes sobre o autor de O Corvo:

Edgar Allan Poe Mistery (texto da University of Maryland sobre as circunstâncias da morte)

Once upon a midnight dreary: the life and addictions of Edgar Allan Poe;

The System of Dr Tarr and Professor Fether (1845) – Psychiatrists in 19th-century fiction
(pequeno texto sobre um conto muito interessante de Poe)

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