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Amok

Há uma peculiar síndrome psiquiátrica encontrada entre os habitantes do Arquipélago Malaio. O amok é descrito como uma explosão súbita e inesperada de agressividade que acomete indivíduos considerados pacíficos e sem histórico de comportamento violento. Muitos casos de amok terminam tragicamente, seja com a morte dos alvos do ataque de fúria, seja com uma ação fatal para tentar deter o indivíduo agressor.

Segundo as atuais classificaçõeso amok é considerado uma síndrome ligada à cultura, entretanto, tem todas as características de um transe dissociativo. Os sintomas clássicos de amok incluem:

  • Um período inicial de isolamento que dura de horas a dias;
  • Ataques violentos, súbitos e imotivados dirigidos a pessoas que estejam próximas, sejam parentes, amigos ou desconhecidos;
  • Os ataques duram de minutos a dias até que o indivíduo seja contido ou morto;
  • Caso a pessoa acometida sobreviva, após o surto, tipicamente, entra em um estado de estupor ou sono que pode durar dias;
  • Após despertar, geralmente o indivíduo permanece isolado ou em mutismo e é incapaz de recordar o que aconteceu.

Aparentemente, uma das primeiras descrições feitas por um ocidental do amok foi a do capitão James Cook em seus relatos de viagem, na segunda metade do século XVIII.

Apesar de haver outras síndromes semelhantes ao redor do globo (cafard na Polinésia, mal de pelea em Porto Rico e iich’aa entre os Navajo) o amok tornou-se especialmente conhecido, principalmente entre os falantes da língua inglesa, que utilizam a expressão ‘to run amok’ de maneira corrente para designar surtos de fúria inexplicados.

Leia no Providentia um bom artigo sobre o assunto, com breves relatos de caso: When People Run Amok.

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Piripaques, dissociação e humor mexicano

 

Eu sei que é besteira. Mas é final de ano e vou me permitir este post.

Outro dia, falando para os alunos dos diagnósticos diferenciais da catatonia, lembrei que o “piripaque” do personagem Chaves é uma crise dissociativa com características de estupor catatônico. Ele tem todos os comemorativos: um gatilho emocional – geralmente um evento ansiogênico – , início e fim abruptos e amnésia retrógrada. Enfim, vejam o vídeo para lembrar.

(Não aparece no final do vídeo, mas as crises do Chaves sempre são revertidas com uma borrifada de água no rosto.)

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Surtos de dança

Encontrei um texto bem esclarecedor sobre um fato histórico curioso: em 1518, sem razão aparente, cerca de 400 pessoas experimentaram em Estrasburgo um surto incontrolável e contagiante de dança que se estendeu por algumas semanas. A coisa foi tão séria que ao final do período algumas pessoas haviam morrido extenuadas. Há descrições históricas confiáveis de alguns surtos de natureza semelhante em outros países da Europa.

Hoje se pode apenas especular sobre a causa desses surtos coréicos. Há quem acredite em uma intoxicação em massa por ergot, enquanto outros preferem pensar em transe de natureza dissociativa numa escala epidêmica. O texto publicado no Frontier Psychiatrist deve interessar a quem gosta de psiquiatria antropológica: Dancing mania

In the times of the dancing mania there were common beliefs about wrathful spirits able to inflict a dancing curse.  In this milieu once one particularly disturbed person started to dance others were likely to join.

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