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Antes e depois da esquizofrenia

“Gatos com guarda-chuvas” – Louis Wain antes da esquizofrenia…

 

Muito diferente da percepção leiga da doença mental, a esquizofrenia não é um transtorno caracterizado pela personalidade múltipla. Parte desse mito provém da própria etimologia do termo – em grego skízein quer dizer cisão, divisão, e phren, siginifica sopro ou diafragma e, por extensão, espírito (no sentido de “mente”).

O que acontece na esquizofrenia é uma cisão entre as funções mentais, seja entre o pensamento e a expressão afetiva deste (marca sublinhada por Eugen Bleuler, que deu fama ao termo), seja entre a percepção da vida psíquica interior em oposição à realidade objetiva. Na doença, normalmente o mundo externo é vivido como hostil ou persecutório e há um apagamento da fronteira entre o mente e o mundo.

A percepção de mundo do artista britânico Louis Wain (1860 – 1939) mudou assustadoramente após o primeiro surto psicótico, no início da década de 20. O desenhista, conhecido por suas representações de gatos e filhotes com atitudes e feições humanas, foi admitido pela primeira vez em um hospital psiquiátrico em 1924, com o diagnóstico de esquizofrenia e terminou seus dias sem voltar ao convívio social, desenhando apenas por prazer.

.. e depois da esquizofrenia.

A doença provocou uma mudança significativa no estilo de Wain. Apesar de manter o mesmo tema na maioria dos desenhos, sua obra após o adoencimento se caracteriza por padrões intricados e abstratos como fundo de expressões perturbadoras. As feições outrora familiares do seus gatos passaram a comunicar um quê de perplexidade ou de uma jocosidade difícil de ressoar emocionalmente no observador.

Clique na segunda imagem para ver uma galeria do artista. Ou assista a um vídeo mostrando alguns de seus desenhos, antes e depois da esquizofrenia.

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A internet pode te deixar louco?

A resposta é não. Ou, pelo menos, não há dados sérios que mostrem isso.

Quando li há algumas semanas na Folha uma matéria sugerindo que a internet e o uso de gadgets poderia gerar doenças psiquiátricas, pensei em escrever aqui um texto de crítica a esse tipo de avaliação superficial. Não precisei, já que achei no Mind Hacks um ótimo artigo sobre o assunto: No, the web is not driving us mad

No texto, Vaughan Bell usa como exemplo uma matéria de capa recentemente publicada pela Newsweek sobre os supostos males psíquicos causados pela internet. Na matéria da revista, pode-se ler que a web chega a ser responsável até por quadros de psicose.

Bell chama atenção para a precariedade da sustentação científica de afirmações desse tipo, geralmente baseadas – quando baseadas – em evidências fracas ou em casos isolados. Não há, por exemplo, dados em décadas de pesquisa  sobre o assunto que indiquem que a internet esteja entre os fatores ambientais de risco para a esquizofrenia. A própria tentativa – tão citada ultimamente nos meios de comunicação – de catalogar um suposto vício de internet é um erro do ponto de vista científico, como o mesmo autor sugere em outro texto.

The article also manages the usual neuroscience misunderstandings. The internet ‘rewires the brain’ – which I should hope it does, as every experience ‘rewires the brain’ and if your brain ever stops re-wiring you’ll be dead. Dopamine is described as a reward, which is like mistaking your bank statement for the money.

Para os interessados no assunto:  leiam o texto com calma, junto com as referências.

* Acima, uma ilustração do artista James Jean.

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Loucura e suicídio na Era Vitoriana

Encontrei um tese de doutorado sobre alguns aspectos do tratamento psiquiátrico no século XIX. Suicide, lunacy and the asylum in nineteenth-century England da pesquisadora Sarah York discute as caraxterísticas do tratamento dado aos pacientes suicidas em um período interessante da história da psiquiatria.

There is a distinct appreciation of the broader social and political context in which the asylum operated and how this affected suicide prevention and management. This thesis argues that suicidal behaviour, because of the danger associated with it, triggered admission to the asylum and, once admitted, dangerousness and risk continued to dictate the asylum’s handling of suicidal patients.

A tese pode ser lida na íntegra aqui.

(dica de @ChirurgeonsAppr)

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Torrente de palavras

A hipergrafia, uma compulsão irresistível por escrever – em verso ou prosa – pode ser encontrada na epilepsia, notadamente naquelas com origem no lobo temporal. Também pacientes em episódio maníaco ou esquizofrenia podem apresentar essa necessidade de escrever abundantemente.

Há quem diga que o escritor russo Fiódor Dostoiévski apresentava o sintoma como parte da sua epilepsia. A mesma suspeita é levantada quando se fala de Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas.

Em algumas condições não necessariamente patológicas, a hipergrafia também pode render a entrada no panteão da literatura. É o caso do escritor americano Arthur Crew Inman (1895-1963).

Entre 1919 e 1963 Inman escreveu um diário com nada menos que 17 milhões de palavras sobre eventos, pessoas e observações de um período de mais de quatro décadas do século XX. Em breve será lançado um filme com John Hurt sobre a vida do autor. Veja aqui o site oficial: Hypergraphia.

Acima, ilustrando o post, um poema comcreto de Lewis Carroll intitulado “The Mouse’s Tale” (um trocadilho entre tale e tail, respectivamente, conto e cauda)

(Peguei a dica do filme em The Neurocritic)

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O Exorcista e a ‘Neurose cinemática’

Encontrei no Mind Hacks um post interessante sobre o efeito psicológico que o filme “O Exorcista” (The Exorcist, EUA, 1973) provocou em alguns expectadores. À época do seu lançamento nos cinemas, houve relatos de desmaios, expectadores tomados pelo medo saindo das salas às pressas e até de pessoas que “enlouqueceram” depois de ver o filme de William Friedkin.

Isso causou uma certa preocupação na comunidade científica e, em 1975, foi publicado um artigo no periódico Journal of Nervous and Mental Disease , intitulado ‘Cinematic Neurosis Following The Exorcist’ com o relato de quatro casos de problemas psiquiátricos em expectadores do filme.

The fact that the issue of ‘Exorcist madness’ was considered serious enough to appear in a medical journal is more likely testament to the fact that the film touched a raw nerve in the America of the 1970s, than the fact that it raised the hackles of some of its audience members.

Leia aqui o post: Mental illness following The Exorcist

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Psiquiatria minimalista

O designer Patrick Smith resolveu criar pôsteres minimalistas sobre transtornos mentais. Acima, o de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC, ou OCD em inglês.).

Clique na imagem para ver os outros.

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Megaproblema

Imagine que, num dado momento, um vagão de metrô com 30 pessoas parte da Estação da Sé, em São Paulo.

Seis pessoas dentro desse vagão terão o diagnóstico de um transtorno ansioso (ansiedade generalizada, pânico, fobia etc). Três pessoas – não necessariamente as mesmas do grupo anterior – terão um transtorno mental grave. Se pensarmos num trem inteiro de, digamos, dez vagões, a matemática é simples: serão 60 pessoas com algum transtorno de ansiedade e 30 (um vagão inteiro!) de pessoas com um trasntorno mental considerado grave.

A comparação que fiz é um tanto imprecisa do ponto de vista estatístico – já que a amostra num vagão de metrô não é nem de longe a ideal-, mas serve bem para ilustrar o impacto causado pelos dados apresentados pela São Paulo Megacity Mental Health Survey. A pesquisa conduzida pelo Instituto de Psiquiatria da USP é um trabalho epidemiológico monumental que avaliou a prevalência de transtornos mentais na população da Grande São Paulo.

Os dados impressionam. Entre eles, a prevalência de 10% de transtornos mentais graves. Nos EUA, estudos apontam para taxas ao redor 4,5%.

Vale a pena ler o artigo na íntegra e utilizar os dados recém saídos do forno em pesquisas, aulas ou artigos. Para ver um panorama geral e ilustrado dos dados, saiu uma matéria na Folha sobre o estudo.

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Intermezzo

 

Aproveitando a deixa do último post, a música “Love Will Tear Us Apart” da banda britânica Joy Division.

O líder e vocalista Ian Curtis suicidou-se aos 23 anos. É possível que Curtis sofresse de um transtorno depressivo agravado por uma epilepsia mal controlada.

A vida do artista foi transformada em filme em 2007.

Representações da epilepsia

O Art of Epilepsy é um blog só com referências feitas à epilepsia na arte e na cultura. Acho que não precisa dizer mais nada. Vai .

Na foto acima, Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, que sofria de epilepsia.

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Mais um sobre criatividade

Ernest Hemingway (1899-1961)

 

Sim, mais um estudo sobre um assunto que me interessa muito: a relação entre criatividade e transtorno mental.

Um  estudo retrospectivo feito na Suécia, com uma amostra de 300.000 pessoas com transtorno mental internadas entre 1973 e 2003 (sim, eles lá têm todos esses dados!) mostrou pelo menos dois achados relevantes. Primeiro: ter transtorno bipolar ou se parente de uma pessoa com a doença associou-se à maior chance de ter uma “profissão criativa” – atividades como as de artista visual, ator, escritor, músico e profissional acadêmico foram incluídas nesse grupo de ocupação.

O segundo achado, mais complexo, é  que, na esquizofrenia, apenas o parentesco relacionou-se à uma maior chance de ter uma profissão criativa. O fato de ser portador de esquizofrenia não apareceu associado a esse parâmetro para medir a criatividade.

O artigo na íntegra pode ser acessado aqui por quem assina o British Journal of Psychiatry. Aqui, há uma ótima análise do artigo (inclusive das possíveis falhas metodológicas).

(via Neuroskeptic)

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Rockterapia

 

Achei muito interessante esse vídeo de um show da banda novaiorquina de rock The Cramps no final dos anos 70. Trata-se de uma apresentação gratuita feita pela banda no hospital psiquiátrico Napa State Mental Hospital durante uma turnê por cidades americanas.

É emocionante ver a reação dos pacientes à música e a interação deles com os artistas (que me parecem muito à vontade).

Quem me mandou a dica foi o amigo Quinderé, ressaltando que o comportamento dos pacientes não era nada diferente daquele do público habitual da banda. Concordo.

O que é o air guitar, senão uma ecopraxia?

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Cartum #19

(por André Dahmer)

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Barbas & gravatas borboleta

Achei genial essa bem-humorada animação sobre a imagem do psiquiatra e dos transtornos mentais. Gostei tanto que resolvi criar as legendas em português.

O filme foi escrito, dirigido e narrado por Kamran Ahmed  e foi exibido pela primeira vez no Medfest 2011, o primeiro festival de cinema médico britânico.

Quem é psiquiatra vai concordar comigo que sempre quis dizer a todo mundo algumas coisas que aparecem no curta.

(via Mind Hacks)

>> Atualização: A pedido de colegas que gostariam de mostrar o vídeo em aulas, fiz uma nova versão com legendas no próprio vídeo, o que garante a exibição das legendas fora do ambiente do youtube, caso alguém deseje baixar (com a devida autorização do autor).

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Dos anúncios direto para a mente

Bem curiosa esta seleção de anúncios publicitários veiculados na revista americana Mental Hospitals na década de 1950.

O que mais chamou a minha atenção foi o da Pepsi, que recomenda o refrigerante para pacientes com recusa alimentar, quando uma “dieta líquida forçada” for indicada. Bizarro.

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Girassóis e orelhas cortadas

É bem provável que o pintor holandes Vincent Van Gogh (1853 – 1890) sofresse do que chamamos hoje de transtorno afetivo bipolar. Este diagnóstico patográfico pode ser feito com algum grau de certeza a partir de suas correspondências e das descrições feitas por familiares e amigos, entre eles o pintor Paul Gauguin.

O blog Arte da Medicina publicou ano passado um ótimo texto sobre o assunto: Vincent van Gogh – Os Dois Pólos do Artista . Excelente referência em português sobre o assunto.

A maioria dos médicos concordam num ponto: as fases eufóricas e depressivas do artista são conseqüências do transtorno afetivo bipolar, especificamente, na forma mais grave, transtorno bipolar com sintomas psicóticos. A última frase proferida por ele “a tristeza não tem fim” carateriza bem o que provavelmente o impulsionou ao suicídio, a fase depressiva do transtorno bipolar.

Bônus: Um clássico artigo (abstract) do British Journal of Psychiatry para os intessados pelo tema “doença mental e criatividade”, um dos preferidos deste blog:  Creativity and psychopathology. A study of 291 world-famous men

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